quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Minha lista de "Não-Resoluções"

O mundo é muito competitivo. Todos querendo se dar bem, estar melhor que alguém, ganhar milhões de dólares, ter a maior casa, o melhor emprego, a melhor família. E quando acaba um ciclo, como o ano que está acabando, você começa a planejar todas as coisas que você quer fazer no plano seguinte, seus objetivos, ideais, lugares que quer visitar, pessoas que quer conhecer. Uma lista de promessas e/ou sonhos que você coloca na responsabilidade daquele período de tempo que você está entrando agora. O ser humano sobrevive a partir da esperança de um mundo melhor, afinal se o próximo ano for pior que esse, ele não precisa nem vir. Mas o ano está acabando e eu olho em volta e não tenho os troféus que eu achei que teria. E os que eu tenho, eu tenho que deixar pra trás. Abrindo espaço na prateleira para os troféus que eu planejo ganhar. E as perdas, não fazem falta. O que você não tem não ocupa espaço nem na estante nem na memória. Ninguém planeja tudo o que não vai conseguir no ano seguinte. Começo minha lista de "Não-Resoluções" de Ano Novo com os quilos que vou engordar, o cabelo que vai cair, as decepções que eu vou causar e as pessoas que vou ofender. Depois coloco os amigos que vão embora por minha causa, os que vão embora por causa própria e os que vão embora sem motivo. Como esquecer os olhares de desaprovação de meus pais a cada dia sem-emprego, a cada nova tatuagem ou namorada, eles terão um tópico especial. Todas as ilusões que eu causar aos outros e a mim mesmo, também estão na minha lista. As vezes que eu vou deixar me enganarem, mentirem na cara dura. Os livros que eu não vou escrever, os textos que vou apagar antes de terminar, os roteiros que ficarão só na ideia e os projetos que ficarão só na conversa de bar. A roupa velha que eu vou me recusar a jogar fora, o dinheiro que eu não vou dar pro mendigo. Meu sarcasmo, que eu vou cuspir pra todo mundo, até pro mais bem intencionado, ninguém sairá a salvo. E quando chegar o fim do ano e eu fizer meu prognóstico para o ano seguinte, vou deixar tudo isso de lado novamente, pensar nas coisas boas que eu fiz para mim e para todos. Como fui um cara benevolente que só age para o bem do próximo. Altruísmo não reconhecido pelos demais. E que coisas melhores ainda me aconteçam no ano que está por vir, porque eu, acima de qualquer um, mereço.

Mas o que importa mesmo no fim das coisas são sua família, seus amigos, amar a si mesmo mas não só a si mesmo, os caminhos bons, os difíceis e as garotas que você fez chorar durante isso tudo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Querido Diário, (2)

Hoje ele não falou comigo. Na verdade, ele nem me viu. Passou do meu lado, sentou na minha frente, mas nem olhou na minha cara. Não sei o que pensar. Eu ia me oferecer pra recolher os trabalhos da sala pra que puxar assunto com ele mas aquela puxa-saco de professor que senta lá na frente se ofereceu antes. Fiquei sentada e calada a aula toda. Não tive coragem de falar nada e na hora de ir embora eu peguei minhas coisas e sai antes de todo mundo com a cabeça baixa. Não sei o que pensar. A Carlinha tinha me avisado, mas ele pareceu tão carinhoso e sincero ontem. Ele deve ter tido um dia ruim.
Não quis ver a novela hoje, tava sem vontade de fazer nada. Minha mãe veio me perguntar o que tinha acontecido mas eu não queria conversar com ela. Nem fiquei vendo tv com meus pais na sala e quase não consegui comer. Tinha vontade de chorar, mas eu aprendi que mulheres não devem chorar. Não sei como eu cheguei a esse ponto. Ele nunca pareceu gostar ou se importar muito comigo, não sei o que eu estava pensando, ele só queria saber do trabalho ontem e quando eu percebi eu já estava nomeando nossos filhos.
Queria ligar pra Carlinha mas ela foi naquele culto esquisito que os pais dela frequentam. E ela só me chamaria de burra mesmo, ia jogar um monte de coisa na minha cara e mostrar que a culpa era minha. Eu sei que a culpa era minha, poxa. Ele mesmo não fez nada. Até estava com outra menina na festa semana passada.
Que droga. Só sobrou você. Tenho vergonha de me abrir pras outras pessoas, todas cheias de julgamentos e opiniões. Você não me julga, só me escuta. Ah, se todo amigo fosse que nem você. Já tá tarde, vou acabar me atrasando pra escola amanhã. Ia ser ruim chegar no meio da aula com todo mundo me olhando. Ah, pelo menos assim ele me olharia de novo. O que eu to falando? Vou dormir, tiau.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Querido Diário,

Hoje ele falou comigo. Eu estava nervosa mas acho que não passei vergonha. Ele me perguntou se eu tinha feito o trabalho pra amanhã, mas é claro que eu tinha feito o trabalho pra amanhã, eu fiz há um mês atrás quando a professora pediu. Não queria parecer cdf demais então falei que tinha começado ontem mas que ia terminar hoje, ele pareceu decepcionado. Não sei qual resposta que ele queria de mim, queria ter dado a resposta certa. Aí ele virou de costas e voltou pro lugar dele.
Depois que acabou a aula, fui contar pra Carlinha. Ela falou que ele só queria copiar meu trabalho, porque eu era a das mais inteligentes da sala. Fiquei feliz pelo elogio, mas chateada porque ele queria me usar. Falaram que ele beijou alguém na festa semana passada, minha mãe não deixou eu ir porque eu tinha que estudar. Poderia ter sido eu! Eu odeio minha mãe. Primeiro ela não deixou eu ir no shopping, depois não deixou eu ir na festa.
O episódio de hoje da novela foi super empolgante! O Carlos descobriu que a Eduarda estava tramando tudo e depois o Pedro Daniel sequestrou ele. Mas acho que ele não sabe que foi o Pedro Daniel.
No jornal eu vi uma notícia que me deixou preocupada. Uma menina se matou depois de xingarem ela na internet. Eu sempre fico com medo de um dia me xingarem. Tento fazer o bem pra todo mundo, mas parece que todo mundo em odeia. Ele me odeia, com certeza. Só queria me usar, meu trabalho. E eu boba achando que ele ia me chamar pra sair. Ir no cinema, talvez. Ou me beijar, que nem ele fez com alguma garota na festa semana passada.
Eu queria que você pudesse me dar conselhos também. É o que eu sinto falta. A Carlinha é boa nisso, mas ela não me escuta como você. E você não dá conselhos. Difícil escolhas que eu tenho que fazer. Agora eu vou comer, tiau.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Invencível.

Eu era invencível até que perdi. Desci de nível, caí. Chorei, gritei e implorei perdão. Mesmo sabendo que sua resposta seria não, me humilhei. Você erra e acha que deixou o erro pra trás, mas ele te assombra toda noite, não te deixa em paz. Você revive a situação dez mil vezes sabendo exatamente onde errar, mas sabendo que todas as vezes que você faria, você erraria no mesmo lugar. E ainda assim o erro te machuca, como dez mil facas indo e voltando do seu cóccix a sua nuca. E você percebe que seu corpo vai e volta das facas deliberadamente, não é ninguém te esfaqueando; A dor está na sua mente. Mas não são todas as dores fruto de sua imaginação? O tapa é na cara mas a dor é no coração.

Você erra uma vez e ele te assombra até a morte. Quem dera se todo erro fosse questão de sorte. Se a vida fosse um jogo de dados andando de casa em casa e fazendo o que é mandado, tiraria a responsabilidade de cada um e jogando toda a culpa a consciência de nenhum. Mas pelo meu erro me responsabilizo e me martirizo. Reclamo porque faz parte da minha personalidade, mas carrego o fardo da culpa com responsabilidade. E se, como agora, ele a cada dia ficar mais pesado, estou pronto a envelhecer curvado quando tudo tiver acabado.

Mas, o que é o final, se não a fuga de todas as responsabilidades?

Eu era invencível, e tirando minha derrota, ainda sou assim. Uma nota vermelha que mancha todo meu boletim.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Nossa música.

Lembra quando a gente ouviu nossa música pela primeira vez? A gente tava bêbado no canto duma festa e ela começou a tocar. Eu te olhei e a gente tava cantando ela juntos. Foi quando a gente ficou pela primeira vez. Dois meses depois, em outra festa, a música começou a tocar e eu te puxei pra dançar. Ali eu soube que era você que eu queria pra sempre. E desde então, todo aniversário, festa de família, reunião da firma, eu dava um jeito de colocar a música pra tocar. Era meu jeito de reafirmar o que eu sentia. Daquela vez que você viajou pra casa da sua vó e ficou quase um mês lá, eu colocava a música pra tocar todo dia antes de dormir. E quando você voltava, era ela a trilha sonora mental enquanto eu te via correndo pra me abraçar. A música tocava e você estava do meu lado, estando ou não de verdade. Era aquela introduçãozinho no piano que já me fazia sorrir. Era nossa música, contava sobre nosso amor, nossa vida. Era o ritmo dos nossos passos, do nosso corpo. Cada jura de amor no refrão era uma jura de amor nossa repetida como num looping infinito.
Aí aconteceu tudo. A gente se perdeu, brigou, eu errei, você errou e era isso. Nossa história acabou em meio a tantos acertos. E de repente a música era insuportável para mim. Os versos, que tanto descreviam nosso momento, simplesmente mudaram de forma. Eles não estavam falando do amor, era uma metáfora para a solidão, aquilo era muito claro. Eu chorava e gritava no meu travesseiro, os mesmos versos que me fizeram sorrir, eram só memória de que eu tinha te perdido. As notas do piano pesavam meu coração. Na letra, o amor só existe pra quem merece e por muito tempo eu me julguei merecedor, agora não. Eu não estava mais ali, eu não era mais o personagem principal daquela canção. Virei o eu-lírico que observava de longe, com inveja, o amor alheio.
Nosso amor, em verso, virou história, e era justamente sobre isso que ele falava. Ele vai ficar pra sempre ali marcando cada momento que existiu. Mas os momentos passam. O eterno é a memória, não o sentimento. Se você olhar pra trás, você ainda vai ver. Lembrar que aquele amor ali é eterno. Ele sempre vai existir, mas ele existe lá e lá apenas. Poesias são mutáveis, bobo fui eu em acreditar que ela seria feliz pra sempre.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Mosaico.

Já que eu não podia te ter, eu peguei um pedaço de cada pessoa que eu conheço e montei um mosaico de você. Projetei tudo que minha memória guardava, minha visão idealizada, e busquei um sorriso aqui, uma piada ali, um abraço de um e o sexo de outro. Mas nunca era suficiente, tudo ainda era muito pouco. Enquanto o você despedaçado funcionava em situações específicas, me faltava o você inteiro. Pedaços reunidos nunca formam um todo. E quando alguém se afastava, era parte de você que me faltava. Não era você sem seu cabelo, sem o jeito de brigar sorrindo, sem você por inteiro, sem você comigo. E ainda assim, eu tentava. Saia a noite em busca de cada pedaço seu que me faltava. Aquele detalhe que ninguém reparava, mas que era o que diferenciava você do monte de retalho montado na janela do meu quarto. Me entregava a vaga lembrança de você para cada sorriso bobo que inocentemente se achava o foco da minha atenção, mas não, nunca foi nada além de você o que me levava a eles. E assim eu juntei o meu mosaico, com pedaços que de longe vagamente lembrava você, mas de perto eu sabia que não passava de vidro colado numa conjunto disforme da minha obsessão, já que eu não podia te ter.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Carteado.

Sento na mesa com minhas fichas já contadas, aposto baixo, sempre aposto pouco. Não tenho medo de perder, não tenho medo de nada. Só preciso garantir meu direito de sair quando eu achar que devo. Compro poucas fichas porque quero poder deixá-las na mesa quando eu achar que a próxima aposta não vale a pena. E ao deixar meu dinheiro e ir embora, vão me chamar de imprudente e louco, mas eu prefiro assim. Aposto baixo, aposto pouco. O dinheiro que me pagam todo mês é o suficiente, não preciso dobrar isso numa mesa para me sentir eficiente. Jogo por que gosto do blefe, da dinâmica, do olhar. Se jogasse por dinheiro, só teria graça quando ganhar.
Mas foi só quando perdi demais, quando abri mão de tudo eu tinha feito, que eu aprendi a jogar direito. Aprendi que não se pode envolver, que não se confia nas cartas. Aprendi que quanto mais sua vida depende disso, mais cedo o jogo te mata. E aprendi a apostar pouco, a apostar nada. A sair da mesa quando eu apostava mais alto que todos e ficar calado quando minha aposta era menor. E assim fui ganhando pequenas quantias, que no todo foram bem significativas. E quando perdia, bem, sempre fui de apostar baixo, então não me fez falta, eu acho. Quem me conhece sabe que não sou louco, sempre aposto baixo, sempre aposto pouco.

domingo, 14 de outubro de 2012

O ABC do Amor.

Cada sorriso trocado
Cada riso, cada abraço
Cada emoticon que piscava
Indicando a malícia das palavras
Cada vez que eu chamei pra sair
E você foi sem hesitar
Cada sinal que eu recebi
E eu custei pra interpretar
Só me deram a certeza
De que eu não sei te ler
Na escolinha do amor
Sou analfabeto de você

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Promessas

"Nunca faça promessas", disse o velho sentado num banquinho de madeira enquanto enrolava seu palheiro. "Passei os últimos sessenta anos sem fazer promessas, nunca ousaram me cobrar nada. A penúltima promessa que eu fiz foi meu casamento, na frente do padre e de Nosso Senhor. E quando eu percebi que não ia cumprir, eu rezei dez Pai Nosso e dez Ave Maria, pedi perdão e fiz minha última promessa: de nunca mais prometer nada. E essa eu tenho cumprido desde então. E também não me responsabilizei pelas promessas que fizeram por mim. Gente que esperava de mim o que eu não podia dar, conversa fiada dos outros que falavam no meu lugar. Não assinei embaixo de nenhuma dessas e vi, com pesar, cada um dos contratos serem quebrados. Hoje sou um velho sem expectativa de vida, de fome e sem perspectiva de futuro. Já vivi o suficiente. Não digo nem 'até amanhã' porque não sei se vou estar vivo quando você acordar. Então escuta, meu filho, esse meu conselho que pode ser o último: não faça promessas".

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Killing Spree.

Who's gonna be the last one to flee
When they finally start their killing spree?
Who's gonna speak loud and proud in the end
When you look around and see no friend?

When they break all the walls
That protect you from them all
And you find out that you're alone

Don't get surprise
cause your loneliness is right
And it has always been

You don't have iron chest, iron fists or iron friends
No one to risk for you
So forget all your pride, balance who was right
Or wait for God to do.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Teste de Elenco

Você já parou pra pensar nisso antes?
Que não faz sentido amar o coadjuvante?
Com tanto mocinho e vilão disponível,
Você foi escolher justo o menos incrível?

Claro que você já pensou, você é daquelas
Que quanto mais se afasta mais se apega
E se ninguém mais o vê assim:
"Melhor, que sobra mais pra mim"

Pobre de você, que nasceu pra ser artista
Do musical que eu escrevi você era protagonista
Mesmo que muito antes do final, você morreu

E se for pro mocinho casar com a irmã malvada
É melhor mesmo se deixar apaixonada
Pelo sujeito que passou e ninguém percebeu

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O homem que não comprou o amor.

Esse conto é baseado no conto de um blog que é o único que tem parado minha atenção pra ler:
"O homem que vendia o amor", de Luana Costa.

Me convenceram a ir a essa palestra de auto-ajuda, me disseram que ia me fazer muito bem. Eu que depois da terceira namorada que me trocava por alguém mais rico, mais bonito ou mais interessante, tinha aberto mão desse negócio de amar, estava ali vendo sentado esperando uma palestra sobre como viver sem o amor. Pelo menos era o que o folheto que me entregaram na entrada dizia. Um amigo meu de Curitiba assistiu essa palestra há um ano e meio e diz que depois dela nunca foi tão feliz. Eu, que já conhecia todas as táticas de dialética e discursos, já estava ficando impaciente com a demora do começo. Quando apagaram as luzes, entrou esse sujeito de terno barato, sorriso no rosto, expansivo como todo palestrante imbecil de auto-ajuda. Ele se apresentou e falou que estava há não sei quantos anos sem amar. O gordo do meu lado só faltou chorar enquanto batia palmas descontroladamente com o livro do sujeito debaixo do braço. Muito bonito seria um mundo sem amor, não é? Ele começa a falar como foi difícil pra ele superar sua primeira decepção amorosa, mas que tudo tem que acontecer na sua hora. Então ele simplesmente confia no tempo. Viver sem amor, esse cara é uma piada. Acha que engana alguém. E engana. Aparentemente estão todos muito concentrados no que ele tem a dizer. O cara tem o público nas mãos, consegue arrancar suspiros e indignações na hora certa. Esse grande filho da puta frustrado. Tão perderdor quanto todos nós, ou menos, já que ele arrumou um jeito de ganhar dinheiro em cima de seu fracasso. Há quanto tempo ele não ama? Dez anos, ele não se cansa de repetir. Alguém que não ama a tanto tempo simplesmente desaprendeu a amar. Ele vive remoendo um sentimento tão distante e vazio que ele mesmo não sabe como é. Resquícios de um memória tão fraca que só fica o índice. O indício de que ali houvera em algum momento um sentimento que deixou aquela marca. Uma hora e quinze minutos e ele encerra a palestra. O caminhar vazio dele enquanto recolhe sua garrafa de água e vai para o camarim o entrega, mas pros outros setenta e poucos companheiros meus de palestra, aquele cara foi um gênio. Corações partidos em tantos pedaços e de tantas formas diferentes, que qualquer minuto de atenção, qualquer palavra de apoio, soa como um sopro de esperança. Eles não precisam passar por aquilo de novo, eles podem viver bem e sozinhos como ele. Como aquele sujeito magro e sorridente que conseguiu enganar quase todos os sujeitos desse auditório. Eu fui embora e joguei o folheto dele na primeira lixeira que passei. Pensando melhor, vou guardar esse folheto, porque conheço algumas pessoas que realmente estão precisando dessa palestra.

Ontem e hoje.

Ontem estava feliz e hoje eu estou triste
Seria a tristeza a pior coisa que existe?
Porque quem morre vai embora
Mas quem fica sofre e chora
Da perda de quem sempre quis bem

Então eu te pergunto, se a tristeza é tão ruim
Porque a felicidade também não é assim
Só que do jeito oposto?

A felicidade vem mas é passageira
Quando se vê já é segunda-feira
E o sorriso já saiu do rosto.

E a lágrima vem dum poço sem fim
Enquanto o sorriso, que faz bem pra mim,
Sempre soa um grande esforço

Me promete que amanhã quando eu acordar
Mesmo que nada mude de lugar
Eu vou mudar de situação
Já que ninguém me perguntou na hora de trocar
Minha alegria por consternação

Notícias do Fim do Mundo.

Tinha uns meses desde que tinha visto na internet pela primeira vez essa história de que o mundo ia mudar seu eixo translacional. Começou com uns cientistas na Suiça e outros na Coréia que fizeram essa previsão. A partir de fotos tiradas por um super telescópio localizado no Novo México, foi observado um movimento estranhos das estrelas que indicavam que a qualquer momento a Terra mudaria seu eixo. As consequências disso para a vida eram inimagináveis. Estações se invertendo, geleiras derretendo, milhares e milhares de espécies sendo extintas devido as mudanças climáticas. A crença no fim do mundo junto com o calendário Maia só aumentava o pânico das pessoas. Dizem que em alguns condados norte-americanos, os supermercados estavam vazios, já que todos queriam garantir seus mantimentos para uma possível era glacial. Ele só deu credibilidade para esse caos todo agora, enquanto sentava na tv e assistia a repercussão disso no Fantástico. Monges budistas se reuniam e cantavam mantras que, podiam até não salvar o planeta, mas com certeza os salvariam. Muitas previsões e poucas certezas era o que o Zeca Camargo tentava explicar na reportagem que já durava vinte minutos. Se acontecesse, ninguém sabia prever quando e muito menos o porquê, ainda menos o que aconteceria a partir dali. O telefone tocou, era a Fernanda. Provavelmente com medo em casa, assistindo a mesma reportagem. Ela era muito impressionável. "Alô". "Meu bem, vai acontecer uma coisa", a voz dela era de choro. "Eu sei, meu bem. Tô vendo Fantástico também, mas não acho que seja nada sério não". "Não, amor, você não tá entendendo. É algo maior". "Se acalma, amor. O que aconteceu?" "Eu tô grávida. A gente vai ter um bebê". E o mundo dele parou de girar em torno do próprio umbigo e começou a girar em volta do Sol, como sempre deveria ter sido.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Como foi o show da Fresno, Toscano?

Muita gente ai esperando pra que eu falasse como foi o show e eu aqui enrolando todo mundo porque tava com preguiça de ter que repetir a mesma história mil vezes então falei pro povo que eu ia escrever um texto contando como foi. O texto é esse aqui que estou escrevendo agora.
Fomos pra Brasília eu, Arthur e Bruninho, ouvindo Fresno o caminho todo. Deu o tempo exato de ouvirmos os cds bons em sua ordem de lançamento (Ciano, Redenção, Revanche e Cemitério das Boas Intenções), variando momentos de empolgação onde todos cantamos juntos e momentos onde baixávamos a música para conversarmos. Viagem tranquila, sem grandes emoções. Inclusive vale salientar que toda a viagem foi assim, sem grandes surpresas e imprevistos. Chegamos lá, pousamos na casa do irmão Moraes mais velho e logo partimos para comer algo e ir para o show. Local de fácil acesso, não tivemos dificuldade de encontrar. Chegamos lá e o lugar era tipo uma quadra com uma tenda. Um palco massa, um publico mediano muito jovem e tals.
A primeira banda tinha acabado de começar a tocar. Uma banda com uma vipe meio banda de rock gospel e cantando umas músicas paias. Mandaram um cover de Foo Fighter que ganhou a simpatia de algumas pessoas, mas só aumentou minha antipatia. A segunda banda me ganhou muito. Scalene, que aparentemente tinham acabado de mandar a vocalista embora, mas os caras mandaram tão bem no show que eu nem consigo imaginar como era a disposição de palco antes da menina sair. Vocal maneira com músicas maneiras. Vou esperar sair material aí sem a menina cantando pra poder dar uma sacada no som deles.
Agora vamos ao show da Fresno. Estávamos lá no meio de um monte de meninas e pessoas paias esperando começar o show, todo mundo entra em frenesi quando a galera da banda aparece. Não to acostumado a ver esse tipo de reação quando banda aparece, mas relevei. Mal o show começou e eu dei um jeito de colar perto da grade e ficar a uns 3 metros da banda. O negócio é que as primeiras músicas os integrantes da banda estavam visivelmente incomodados com algo. Fazendo cara feia, reclamando do som. Tudo isso claro, sem deixar transparecer nada pra pequena multidão de fãs que cantavam enlouquecidos as músicas. Mas me incomodou pra caralho. Outra coisa que me incomodou foi que eu tava lá cantando e me empolgando e o povo que tava em volta de mim tava curtindo mas de outra forma. Não sei dizer, mas como o povo em volta de mim era praticamente meninas e fãs loucas, eu não tava confortável ali. Também comecei a sentir uma dor no ciático (que aprendi onde fica semana passada quando eu travei jogando basquete) e sai do meio da multidão e me afastei do palco.
O que eu descobri foi que de longe o show estava bem mais agradável. Além de eu conseguir ver a banda toda, o som ficava melhor e eu conseguia respirar direito. Com o passar do show, a banda foi se entregando mais e o show foi consequentemente ficando melhor. Até o ponto que eles foram tocar "Infinito", atual música de trabalho da banda. Nesse momento, Lucas, o vocalista da banda desabafou. Agradeceu o apoio de quem acompanhava eles há muito tempo e que quem ainda estava com a banda agora. Disse que eles estava lutando muito para manter a banda como estava e que a única coisa que ele pedia era respeito do público. Lucas Silveira, emocionado, se mostrou o último emo TRUE do Brasil e o desconforto inicial meio que se explicou. Antes do show o público gritava o nome do Tavares, integrante da banda que saiu há pouco tempo para se dedicar a seus projetos solos. O recado é basicamente esse: o cara saiu porque quis, todos gostariam que ele estivesse lá no palco com a banda, mas infelizmente ele não quer. Paciência, vivam com isso. O show continuou, ficando cada vez mais sensacional.
Concluindo: o show foi muito bom, apesar do começo que pra mim foi até broxante. Esperava mais entrega da banda nas músicas, o que dificultou que eu me entregasse totalmente a emoção ali também, mas vi muita menina de fã-clube chorando compulsivamente. Espero ter a oportunidade de ver shows ainda melhores deles.
Ponto alto do show pra mim foi Lucas Silveira cantando a parte do Tavares em "Milonga", mostrando que a banda continua sem ele e que ainda assim é sensacional. Ponto baixo foi o desânimo inicial, mas nada que tenha estragado o todo.
Depois do show ainda fui parar no Velvet com minha amiga Marina da Tants, onde vimos um cover ruim de The Smiths. Mas o lugar e a conversa foram bacana e valeu o fim da noite. A volta no outro dia também ocorreu sem grandes imprevisto, parei no Outlet de Brasília onde comprei minha camiseta da Seleção Estadunidense de futebol. No fim paramos no Burger King onde comi o melhor sanduíche do mundo. BK Chicken Crisp com adicional de queijo cheddar e bacon, junto com uma reflexão sobre o relacionamento moderno.
Esse foi Guilherme Toscano diretamente do passado escrevendo sobre seu fim de semana numa época onde as pessoas escreviam em blog pra isso.


Fotos: Tiradas e Instagradas por Arthur Moraes.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O dia que descobri que meu pai não torcia para o Galo.

Nunca fui muito de futebol. Não estava entre os dez melhores jogadores e sempre acabava "de próximo". Também nunca tive paciência de assistir jogos. Porém sou mineiro e a rivalidade Atlético x Cruzeiro sempre foi bem presente na minha família. Não lembro bem quando eu comecei a torcer pro Galo, mas foi bem natural. Meu avô torcia, todos meus primos (meu irmão e eu inclusos) torcíamos também. A oposição era minha vó, sempre na dela, e meu padrinho, corneteiro e uma das maiores influências em tudo que eu sou e já fiz na vida (inclusive muito me espanta eu não ser cruzeirense hoje).
O negócio é que desenvolvi essa paixão irracional pelo GALO, mesmo não gostando de futebol, que dura até hoje. E até hoje eu acompanho os jogos, torço, grito, sofro, choro e comemoro cada vitória ou empate sofrido. E fico triste quando perde, seja por inabilidade dentro de campo, erros de juiz, má vontade ou algum esquema maior por fora. E agora vamos para o assunto principal desse texto: meu pai.
Meu pai também nunca fui um entusiasta de futebol. Chego até a dizer que meu pai não é um entusiasta de nada na vida, mas isso não vem ao caso. Lembro de poucas vezes em que meu pai jogou futebol, mesmo brincando, comigo e com meu irmão, e muito provavelmente isso só aconteceu porque meu irmão gostava muito do esporte. Ainda assim, meu pai sempre se declarou atleticano, talvez por comodidade, lembrança da infância ou mesmo pra marcar um certo regionalismo sendo um mineiro morando em Goiânia. Nunca cobrei nada, principalmente porque em vinte e dois anos de vida, o Atlético não me deu tanta alegria quanto qualquer outro time deu a todas as outras pessoas do mundo.
Até que um dia as coisas se esclareceram. Quando anunciaram a contratação do Ronaldo Fenômeno pelo Corinthians, meu pai pulava de alegria. Ele realmente era muito fã do Ronaldo. Ele começou a acompanhar todos os jogos do Corinthians. Gritava, se empolgava, xingava, chorava, tudo isso de uma forma que ele nunca chegou nem a esboçar vendo um jogo do Atlético. Aquilo era outra coisa. Aquela empolgação vendo o Ronaldo jogar só me lembrava de uma outra empolgação demonstrada pelo meu pai: nas corridas do Senna domingo de manhã. Não ouso muito em dizer que meu pai deve ter acompanhado todos os jogos do Ronaldo com a camisa do Corinthians. E se empolgou com cada passada gorda, cada arrancada de dez metros e, vez ou outra, com cada gol que ele fazia.
Foi quando eu percebi que meu pai não era atleticano, meu pai era brasileiro. E como todo brasileiro, ele precisa de um ídolo pra se espelhar. Um ídolo que impressiona o mundo inteiro. Um ídolo que dá a volta por cima. Um ídolo que, mesmo em sua pior fase, ainda consegue arrancar sorrisos de quem insiste em acreditar nele.
Meu pai, quando me irrita comentando o quanto o Atlético não tem jeito, que não é possível que o Atlético empatou de novo, que não adianta nada contratar um ou outro se é pra continuar desse jeito, só espera que o Atlético seja esse ídolo que ele não tem mais. Esse ídolo que o Atlético, mesmo em sua melhor fase em 40 anos, nunca vai ser. Meu pai espera um time impecável, e o futebol de hoje já não é mais assim. As coisas mudaram, os "ídolos" são passageiros tanto em fama quanto em atitude. Só me resta continuar vendo os jogos do Galo longe dele para não me irritar com cada comentário depreciativo ao time que ele diz torcer mas insiste em ofender quem torce de verdade.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Bala de Carabina

Um alvo em meu peito cheio de furos de um olhar
Que mata como pistola golpe de vista e vida
Como tiro ao alvo e ao álvaro e a mim
E a todos os outros que tentaram
Se proteger de tudo que vem de você

Toques inocentes nunca inocentam realmente
O sorriso planejado e brilhante, o encanto bobo
De uma bruxa cruel que conhece todo seu poder

E sabe que é só ligar que eu volto
E ele volta e todos voltam porque é essa nossa sina
De não se controlar ao menor sinal de simpatia fina
Ou de atenção.

Volto porque sei que por pior que seja serei
O melhor de mim pra tentar te impressionar
Volto porque sei que o pior que você me faz
Ainda é melhor do que o que sinto sem você

E quando cansar de maus-tratos e rasgar nossos retratos
Que você nunca realmente quis tirar
Quando cansar de ser eu serei outro alguém
Que vive sem você fingir mesmo nunca se importar

Mas no fundo, o peito marcado de bala,
Lata furada e retorcida de um alvo a distância
Só aceitar que não há remendo que segure algo ali dentro
Novamente.

sábado, 18 de agosto de 2012

Sobre suas mentiras e as minhas verdades. (Parte 2)

É impossível ser sincero com as pessoas quando nem você mesmo sabe o que é verdade e o que não é. Falar a verdade pra alguém requer um pouco mais do que a coragem (que poucos tem), o passo essencial de se falar a verdade é saber o que ela é. Ter certezas e seguranças na vida. Se você não se sente firme nem no chão onde pisa, se a pressão é grande demais, você vai continuar se contradizendo, falando coisas sem pensar, enganando pessoas e sempre passando uma impressão errada de quem é você. Não é que você finja ser quem você não é, é que você não sabe o que é e por isso tenta ser o que os outros esperam. Saber o que se é não é fácil, muitos morrem tentando. Mas cobrir-se de uma casca tão superficial que não resiste a primeira agulhada é tão adolescente quanto se trancar no quarto como revolta ao castigo que os pais impuseram (se trancar no quarto). Com a idade, vem responsabilidades, sua palavra começa a importar cada vez mais em se você não consegue ter credibilidade nem com os que estão em sua volta, não vai ser o mundo lá fora que vai te reconhecer. E a epifania dessa noite foi essa: só se consegue ser sincero com as pessoas quando se é sincero consigo mesmo. Espero que vocês tenham aprendido alguma coisa na lição de hoje.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Dívida

O compromisso poda a criatividade
Como a dívida poda o pagamento
Se não for pra pagar por obrigação
Que poste ao menos por sentimento

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Rostos de Rua.

Aos poucos eu começo a reconhecer os mendigos e pedintes que vejo na rua. Como os amigos de balada em uma cidade tão pequena, os rostos que me pedem dinheiro no sinal não são desconhecidos. Eles não têm nome, nem história. Alguns nem voz tem. Mas são rostos conhecidos a ponto de eu ficar constrangido de dizer pela terceira vez que não tenho dinheiro agora. Simpáticos, uns conversam, agradecem, pedem pra Deus me abençoar, apesar de não acreditar, reconheço e admiro o gesto. Outros só te olham e resmungam como se você tivesse obrigação de ajudá-los: "Olha pra mim, olha meu estado. Você vai ficar aí do alto do seu carro, do seu tênis importado e não quer nem me dar umas moedas? Que não vão fazer diferença alguma pra você". Pessoas que por acaso do destino ou desistência, simplesmente perderam a razão e a esperança de um mundo melhor. Se aceitaram como parte externa a sociedade. A máquina urbana precisa deles como precisa dos cachorros de rua com que dividem sua comida. Eles não ajudam então escolhem por não atrapalhar. Contando com a solidariedade de uma sociedade que convive cada vez mais com a culpa da desigualdade social. O sistema os colocou ali, não fui eu. Mas o que eu poderia ter feito? Por desencargo de consciência, eu despejo 35 centavos nas mãos sujas de um senhor que pode ter 30 ou 60 anos. Nunca saberei, pois me sobra pressa e me falta interesse.

Sobre suas mentiras e as minhas verdades.

Eu nunca pedi pra você mentir mim, todas as vezes foi escolha sua, seja pra me proteger ou pra te proteger. Todas as vezes que você trocou de assunto sutilmente, todas as vezes que você não atendeu o telefone, todas as vezes que você olhou pro lado. Eu não faço questão da verdade, acho que pequenas mentiras podem ter sua motivação honesta e nunca te questionei por mais óbvio e bobo que parecesse. Você tinha seus motivos e eu tinha os meus. Mas a questão é que não preciso da sua proteção justamente por que eu criei minha própria bolha. Meu mundo é o meu mundo, o que eu sei é a verdade, o que eu não sei não importa. Mas você, tomando a responsabilidade da curadoria do meu conhecimento para si, chega como um irmão mais novo querendo ajudar a construir meu castelo de cartas. Desmonta tudo, jogando fora todo a concentração e força de vontade necessária para terminar a construção da minha verdade. Eu nunca pedi pra você mentir pra mim não por não querer saber a verdade, mas pra que eu pudesse escolher minha própria verdade e viver ela pra sempre.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Reunião, 8 da manhã.

Ele não gostava de café, mas mesmo assim segurava um copo cheio enquanto observava as pessoas conversando na sala de reuniões. O calor do copo o deixava acordado, mesmo o cheiro não o agradando muito. O chefe entrou e todo mundo foi se ajeitando nas cadeiras em volta da mesa, como tinha muita gente na empresa, ele já encostou em uma parede desistindo de lutar por um lugar. O chefe parecia abatido e começou em um tom pesado: "Sei que há uma conversa nos corredores sobre o futuro da empresa. Que vocês comentam andamos mal das pernas, que a atual diretoria está perdendo o controle e abrindo as pernas pro mercado. Sei que vocês acham que nosso tempo já passou, que viver de glórias passadas é burrice. Nós frequentamos os mesmo corredores, nós temos ouvidos. Nós também temos coração. Quando eu assumi, pegando toda a responsabilidade deixada pelo meu pai, despreparado e sendo obrigado a tomar as rédeas da família, eu fiz o meu melhor para me preparar e não passar meus medos e inseguranças para vocês. Por muito tempo funcionou, estivemos em alta por quase doze anos. Aí tudo começou a desandar, fui inocente, acreditei em que não devia ter acreditado, deixei chances passar e, pior de tudo, não chamei a responsabilidade pra mim. Hoje, reuni todos vocês pra, antes de mais nada, pedir desculpas. Desculpas se não entreguei a vocês a empresa que todos sonhavam em trabalhar, desculpas se não estive lado a lado de vocês para ver em que poderíamos mudar e me desculpem, por não saber o nome de cada um de vocês sentados comigo hoje. Um plano de recuperação foi armado nesta manhã, para ver se conseguimos voltar essa empresa, mas confesso que não tenho muitas esperanças. Se não funcionar, temos reservas suficientes para acertar todas nossas pendências com vocês, então não se preocupem. Podemos encaminhar vocês para empresas parceiras, ninguém ficará desamparado. Temos dois meses para colocar essa empresa em pé novamente e, para isso, precisamos que vocês se dediquem e acreditem em nossa causa. Estamos dispostos a mudar. Queremos voltar a ser o que éramos..." Ele olhava o chefe mas não tinha acompanhado uma palavra. O café não resolvera o problema do sono, talvez porque não tinha tomado nada. Seus colegas de trabalho pareciam preocupados. Cutucou o Carlos com o pé e cochichou: "Cara, eu meio que cochilei aqui, o que eu perdi?", Carlos só olhou de volta sem saber o que dizer.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Direto de Direita

Ele tinha tido sua chance e deixou passar. Não por descuido, não por negligência, mas por realmente não estar interessado. É diferente de quando você é impedido de conseguir algo, na verdade ele teve nas mãos e cuidadosamente colocou de lado como se coloca um livro que você nunca teve a intenção de ler.
Mas como toda criança mimada e egoísta, ao ver que o brinquedo que não queria era cobiçado pelas outras crianças, ele quis de volta. Brigou, deu chilique, fez chantagem emocional até lembrar a todos que independente de onde está, aquele brinquedo era dele. Mais uma criança aprendia a dura lição de que o mundo é cruel, principalmente se você for cruel com o mundo. Mais uma criança aprende que o mundo não se importa com você. E longe de ser vítima, ele era o principal culpado. Ele mesmo não tinha se importado muito até então.
O problema é que a ferida no ego é como um corte na ponta do dedo, que insiste em te lembrar que está lá mesmo quando você se esforça pra esquecer. Se nesse caso o ego era o próprio eu por completo, ele foi atingido em seu ponto mais fraco, seu todo. Atingido não pela destreza e habilidade do inimigo, mas por ter escolhido virar as costas.

sábado, 7 de julho de 2012

O Rei da Selva

Ele passou na frente da loja de fantasias e ficou intrigado com uma roupa de leão. Não era muito bem costurada, nem se parecia muito com um leão, mas o básico estava lá: juba e rabo. Entrou na loja, pediu pra moça embrulhar, pagou e foi pra casa. Não quis experimentar por medo do que a atendente ia pensar. Chegou em casa, colocou a roupa e ficou se admirando no espelho. Ele era o Rei da Selva. Poderoso. Perigoso. Respeitado. Transava todas as leoas, era o primeiro a comer as zebras que caçavam. Andava pela floresta e todos desviavam o olhar de medo. Sentou no sofá, ligou a tv no NatGeo que estava passando uma série sobre mistérios sobrenaturais. Passou para o Discovery Channel que explicava o funcionamento de uma daquelas máquinas com gancho que pegam ursinhos de pelúcia. Nada de leões. Pensou em ver uns documentários online mas a internet estava cortada há duas semanas por falta de pagamento. Deixou a tv ligada numa novela e foi pegar uma cerveja no congelador. Era legal observar seu rabo arrastando no chão, serpenteando entre o lixo e as roupas sujas. Era a última cerveja. Também era a última coisa que tinha em sua geladeira, junto de um embrulho de papel laminado que estava lá a tanto tempo que ele já nem o percebia mais. Pegou a cerveja, voltou pro sofá. No fim do rabo tinha uma parte felpuda que ele começou a passar levemente sobre o nariz, fazia cócegas. Não lembrava da última vez que alguém tinha feito cócegas nele. Na novela, um grupo de jovens desciam o morro rumo a uma praia deserta. Procurou o telefone pra ligar para um amigo, ver o que tinha pra fazer, mas o telefone estava longe demais do sofá. Era bem quente essa roupa de leão, e talvez estivesse começando a pinicar também. Tentou se coçar por uma abertura na parte de trás da roupa e derrubou sua cerveja, não teve força nem pra soltar um palavrão. Pensou em ligar pra sua mãe, contar que tinha comprado uma roupa de leão. Enxugou a cerveja no chão com a parte reforçada do solado da fantasia e foi até o telefone. O telefone não deu linha.

sábado, 26 de maio de 2012

Fuga Nº2

Se percebeu correndo no meio de um campo de batalha. Seu pé afundava na lama e sua roupa era pesada. Carregava uma espingarda numa mão e um cantil na outra, a mochila dificultava a corrida. O barulho de explosões era alto demais e não sabia se corria para não ser atingido ou se para alcançar algum objetivo. Tinha outros com as mesmas vestes e correndo na mesma direção. De repente uma dor muito grande, foi atingido na perna. Seu corpo rodopiou no ar antes de cair em cima do que sobrara de um arbusto. Dois companheiros começaram o atendimento rapidamente enquanto os outros continuavam correndo. Eles falavam uma língua que não entendia, mas soava como alemão. Sentia sua coxa pulsando e a cada pulsação, o sangue saia em maior número. Olhou em volta e viu aviões, gente correndo, explosões. Antes de tudo isso, aqui deveria ser um lugar muito bonito. Fechou os olhos e tentou abstrair daquilo tudo. Sentia a mão batendo em sua cara, mas estava calmo demais para abrir os olhos.

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Se percebeu sentado em um banco de praça, seu coração batendo forte. Uma moça muito bonita ria, sentada do seu lado. A mão dela repousava quase que inocentemente em sua coxa. "Você é muito misterioso, sabia? Nunca consigo dizer o que você está pensando", ele não soube o que dizer. Não estava muito clara pra ele quem era aquela mulher, mas eles pareciam bem próximos. Um cachorrinho foi até ele e ficou brincando com seu cadarço. Se distraiu um pouco quando uma senhora idosa veio pedindo desculpas toda desengonçada pegando o cachorrinho de volta. Ele apalpou o bolso e encontrou uma caixinha. Entrelaçou seus dedos no da moça do seu lado, respirou fundo e falou: "Vamos nos casar?". O olho dela encheu de lágrimas, ele entregou a caixinha pra ela, que ela abriu mas nem deu atenção, distraída entre água e beijos.

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Se percebeu numa lanchonete dessas que se vê em filme. A garçonete, uma loira alta que parecia trabalhar lá há mais tempo do que deveria, trouxe panquecas e um café com chantily em cima. Do lado de seu chapéu e óculos, o jornal do dia noticiava a venda de mais uma empresa para o estrangeiro. Brincou um pouco com o chantily, fazendo desenhos no café, mas era ruim demais naquilo. Um homem sentou na cadeira em sua frente, colocou sua carteira em sua mesa: "Desculpa pelo atraso". Ele não tinha certeza há quanto tempo estava ali, então não se importava muito com o atraso. "Minha vida tá uma loucura mas eu cumpri minha parte no acordo", o homem disse enquanto pegava o jornal. "Hoje em dia estão matando por qualquer coisa, todo mundo conhece alguém que conhece alguém". Ele não conhecia ninguém. "Você não vai falar nada? Sabe o que eu passei pra chegar até aqui? Chegar aqui pra ver você ficar encarando essas panquecas? Tinham me avisado que você era cínico, mas eu nunca achei que seria a esse ponto". O homem parecia muito irritado.

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Se percebeu vendo tv. Era uma sala quase vazia, tinha um sofá, uma estante com a tv e uns livros velhos no canto. Era um desses programas que passa domingo, um dia despretencioso. Um cinzeiro cheio e várias garrafas vazias indicavam que tinha alguns dias que ele não saia dali. Sua barba estava grande e ele sentia um cheiro esquisito, que logo em seguida percebeu que vinha dele mesmo. Ele sentiu vontade de chorar, respirou fundo e segurou. "De que me adianta chorar, ninguém nem lembra que eu existo mesmo". Pegou um celular jogado no chão, nenhuma mensagem, nenhuma ligação. Não conseguiu e uma lágrima escorreu da sua cara, mas foi logo disfarçada com a manga do pijama. Sentiu que ia vomitar, correu para o banheiro e foi só o tempo de se apoiar na privada. E ali mesmo, sentado no chão, abraçado a privada, ele chorou. Não sabia se chorava pelo vazio que sentia por dentro ou por alguma outra coisa. Ninguém estava ali pra ver a ceninha, ninguém se importava e quanto mais pensava nisso, mais o choro aumentava. Seu diafragma já doía, seu rosto inchado e vermelho.

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Se percebeu em cima de uma oriental, o suor pingava do seu rosto e escorria nos seios dela molhando a cama por fim. Ele continuava o movimento enquanto ela gemia baixo, sabendo que só interessava a ele mesmo ouvir. Ele mordia seu pescoço enquanto a mão direita levemente arranhava  as costas dela, ela respondia bem, parecia estar gostando. Ele entrava e saia dela no ritmo da música que tocava em sua cabeça. Ela arqueou as costas e por alguns segundos eles se entreolharam, a respiração pesada e quente dos dois se encontrava no meio. Um podia sentir o coração do outro batendo enquanto o suor dele ajudava seus corpos a deslizarem. O coração dele estava rápido demais, assim como sua cintura. Ela pediu um pouco mais de calma. Ele parou, deitou entre os peitos dela e aproveitou alguns segundos pra respirar. Ele estava ofegante e suado, ela o deitou e assumiu o controle. Por cima e dona da situação, ela controlava todo o movimento, apoiada com os braços esticados no seu peito. O ângulo em que a via o dava mais tesão ainda.

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Se percebeu deitado, criança, dentro de um cobertor. Sentia medo de alguma coisa do lado de fora da casa mas tinha toda uma confiança infantil de que debaixo daquele cobertor ele era intocável. Se sentia adulto e responsável, mas não gostava de quando seus pais demoravam pra voltar e a chuva não estava ajudando. Tinha medo de que alguma coisa acontecesse, não saberia o que fazer caso eles não voltassem. Ele não sabia trabalhar ainda pra sustentar a casa e não tinha certeza se ele teria que morar com a vó, que não gostava muito dele, ou com a babá. Preferia a babá, com certeza, mas não entendia direito como funcionavam as leis. Ele rezava pedindo pra que nada acontecesse, rezava porque via seus pais rezando, mas se sentia meio bobo. Um menino da escola falava sozinho e todo mundo caçoava dele, ele não queria ser caçoado também. As vezes tinha medo de que ouvissem seus pensamentos, como a vez que pediu pra Deus pra que matasse sua mãe por ter brigado com ele. Não era o que ele queria agora, muito pelo contrário, era o que ele menos queria. Ouviu de longe o carro estacionando e foi com cobertor e tudo recepcionar seus pais na porta. "Ô, meu deus. Não acredito que você tá acordado ainda", ela falou com tom de dó, ele abraçou ela fortemente que o carregou no colo até a cama. Deu um beijo de boa noite e acendeu a luz da sala para que seu quarto não ficasse tão escuro. Ele podia dormir agora, estava tudo bem.

domingo, 20 de maio de 2012

Sobre pedidos de desculpas.

Muito mais do que uma indireta pra qualquer um, faço desse texto um lembrete pra mim mesmo.

Tão pra inventar alguma coisa mais inútil do que um pedido de desculpas, principalmente se ele não vier acompanhando de um arrependimento real e a certeza de que se aquilo acontecesse novamente, o erro não se repetiria. Acho que o perdão é um processo unilateral onde o "culpado" tem pouco papel no processo, porque, vivendo em um meio publicitário, eu sei da facilidade que é fazer uma lista com duzentas justificativas (racionais, emocionais, com lógica ou sem) para um erro, todas certas em um ponto de vista mas que de forma alguma resolve a questão colocada. Por isso, meu posicionamento atualmente tem sido não justificar quando erro e não ouvir justificativas dos outros. Sei que o perdão é simplesmente a pessoa ofendida aceitar o que aconteceu e decidir se quer ou não conviver com isso. Perdi uma grande amiga recentemente por causa de um erro sem tamanho e não tenho palavras pra dizer o tanto que isso me faz mal mas, ao mesmo tempo, não consigo dizer que me arrependo de ter feito o que fiz, visto tudo que esse erro gerou na minha vida. E hoje, depois que tudo passou, eu tenho consciência de que nada que eu possa fazer vai compensar o dano que eu causei a ela. E por ter feito isso com a melhor das intenções e ter terminado como terminou, fui obrigado a aceitar que as pessoas erram constantemente. Uma hora alguém fode com sua vida, outra hora é você que está fodendo com a vida de alguém. É um processo natural em que nem sempre existe a intenção de machucar realmente. Por ter vivido isso de maneira tão intensa e pesada, por buscar o perdão com tanta força e tão pouca razão, eu me condicionei a perdoar, me colocar no lugar das pessoas e ver que existem interesses além dos meus em uma situação e que, por isso, as pessoas erravam comigo. Isso resultou em uma versão de mim mais cuidadosa com os que estão em minha volta e mais compreensível com o erro dos outros. O ponto é: "entender" e "aceitar" não resolve o problema realmente. Enumerar os motivos também não. A merda foi feita já e dificilmente ela vai ser desfeita. E a partir do momento que você se dispõe a aceitar o erro que foi feito, você se abre para que aconteça de novo. E, por experiência própria de estar dos dois lados da situação: vai acontecer de novo.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Manual da Mulher Ideal

A mulher ideal para um relacionamento deve cumprir três requisitos, onde cada um é numerado de 1 a 10 de acordo com o nível de intensidade presente na indivídua. Este é um estudo realizado por mim de acordo com a observação do meu comportamento perante pessoas do sexo oposto e não se propõe a ser um livro de regras ou verdades absolutas. Também fica aqui firmado o meu compromisso de não seguir essas regras caso não me seja conveniente. O intuito da divulgação dessa pesquisa é meramente informativo e divertitivo, caracterizado principalmente pela total falta de critérios e pelo fato de eu já ter inventado umas três palavras até agora.
O conceito de "mulher ideal" é um conceito falho por essência, visto que não só ele varia de pessoa para pessoa como também varia de momento para momento. Ignorando essa variação, vim aqui estabelecer e explicar três critérios fundamentais que devem obrigatoriamente estar presentes e que, tendo cada um desses critérios o mesmo peso, soma-se e divide por três para assim calcularmos a média de "Idealismo" na candidata.
O primeiro critério é a Lindeza da candidata. Diferente do que você, leigo, pode imaginar, a lindeza transpassa muito além da beleza física. A lindeza, subjetiva como qualquer outro dos critérios aqui analisados, está no modo de se vestir, de se arrumar, de se comportar, de ficar parada. Lindeza é aquela coisa mágica que faz você se interessar por alguém antes mesmo dessa pessoa falar uma palavra. Lindeza é aquilo que faz você separar alguém do resto do grupo.
O segundo critério é a Simpatia. A moça precisa ser simpática. Ninguém tá afim de ficar conversando com alguém que não esboça um sorriso ou não sabe responder. Sabe aquela namorada que você levou pro bar pra apresentar pros amigos e ela passou a noite inteira com cara de cu? Ela foi reprovada. Ela precisa saber conversar, saber sorrir e saber ser interessante. Gente mal humorada, gente sem conteúdo e gente tímida não conseguem boas médias nesse critério.
O terceiro, mas não menos importante, critério é a Fritura. Não, não estou falando das habilidades culinárias da pretendente (apesar disso sempre contar uns pontos a mais). Essa gíria, muito utilizada em ambientes jovens da sociedade (= meus amigos) indica basicamente a capacidade que alguém tem de surpreender as outras pessoas. Provavelmente originada da expressão "Fritar a mente" (inventei isso mas até que faz sentido), uma menina Frita é alguém que não tem medo de fazer algo novo e diferente. Alguém que, independente do que a sociedade possa pensar, faz o que fizer sentido na hora, seja por desejo, humor ou acaso.
A partir da média aritmética simples desses três critérios (Linda/Simpática/Frita), você tem a próximidade percentual da candidata, sendo a nota 10 o valor da mulher ideal (resultado obtido em laboratórios e simulações de computador apenas). Uma nota alta em um dos critérios pode se ajudar a levantar uma média mesmo que um dos outros critérios tenha uma nota baixa, não eliminando totalmente candidatas que não tenham um desempenho tão bom em um critério ou outro.
Sendo cada um desses valores totalmente subjetivo a quem estiver julgando, os resultados raramente se repetem, mesmo que o estudo seja realizado duas vezes no mesmo objeto. Sendo assim, eu, como autor desse artigo, não me responsabilizo por pessoas que se sentirem prejudicadas com os resultados obtidos (ou não). Este artigo não tem valor de verdade absoluta na sociedade e/ou na minha vida, porém pode ser usado como base para desenvolvimento pessoal de futuras candidatas e estudos que discorram sobre o mesmo tema.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Praça de Alimentação

Muito inteligente o cara que resolveu juntar todos os restaurantes legais em um só lugar. Um lugar onde você pode ir com sua família e cada um comer um prato diferente de cozinhas diferentes, sem ninguém brigar. Um lugar onde o pouco dinheiro que você tiver é o suficiente para comer, ou mesmo se você tiver afim de comer algo caro, é só você ir ao restaurante ao lado.
Aqui estou eu, em meio a jovens de uniforme comentando sobre a prova que farão hoje a tarde, pessoas com pressa de almoçar para voltar ao trabalho e senhoras que estava com preguiça de lavar a louça em casa. Aqui estou eu, fugindo das minhas responsabilidades como acadêmico para sucumbir a um prazer proibido pela ética escolar e pela falta de verba e emprego. Aqui estou eu, autista e concentrado, parecendo fazer algo super importante em meu computador, quando na verdade só estou disfarçando o fato de estar sozinho.
As reflexões devem ser feitas sozinho em casa ou em meio a grandes multidões? O barulho te atrapalhar a ver quem você é? Sou daqueles que pensam quanto mais gente em volta de você mais sozinho e isolado você está. Se fizéssemos um gráfico, você veria a curva de solidão diminuir enquanto soma-se pessoas até que ela aumenta exponencialmente quando o número de pessoas em volta de você passa de 10.
Com minha experiência de organizar eventos, suponho que devem ter umas 400 pessoas aqui. Cada uma cuidando da própria vida, com suas próprias preocupações. E no meio disso tudo, sou eu. Com um computador e um celular do lado, fazendo cara de sério pra que pensem que estou fazendo algo importante.
Alguém, sentado mesas distantes, se pergunta se estou esperando alguém e, na verdade, nem sei responder. Só estou aqui, eu acho, esperando a sessão do cinema. Talvez alguns amigos se juntem a mim, talvez não, só vou saber mesmo quando o filme começar e eu olhar para o lado. Por enquanto sou só eu e meu computador. E esse texto que eu escrevo mais pra provar pras pessoas aqui que eu estou fazendo algo do que pra que vocês leiam mesmo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Castelo


Com os pedaços do meu coração partido, construí um castelo.
Com os pedaços dos corações que parti, construí um muro
Tão alto e tão denso, que só lá dentro eu me sentia seguro

E quem via aquela construção alta e feia, não ousava se aproximar
Contavam histórias sobre monstros e fantasmas que moravam lá
Que os quadros eram empoeirados e o jardim coberto de gelo

Lá dentro eu ouvia notícias de que o mundo continuava bem
E que eu não tinha feito falta pra ninguém
Todo mundo estava feliz vivendo a própria vida

E se eu não corresse logo, outro ia ocupar o meu lugar
Iam se esquecer de que um dia eu estive lá
Não ia ter ninguém nem pra ler minha carta suicida

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Amor banalizado em rimas metapoéticas


O que rima com amor?

Já posso começar falando de dor
que é rima e resultado de amor

Mas também falo de lenhador
E Jesus Cristo, Nosso Senhor
Rima também com liquidificador
E com o perfume doce de uma flor

Muita coisa rima com amor
Independe de semântica e valor
Independe de sentimento ou calor
Independe de país, crença ou cor

sábado, 14 de abril de 2012

Tocantins


Um tesouro enterrado nas areias do Tocantins,
Que não está marcado em um mapa com um X
Mas em meu coração.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Luto.

Luto não por aqueles que foram embora e luto por quem está aqui. Luto por aqueles que não dão tudo de si em seus relacionamentos pessoais e por aqueles que simplesmente se entregam. Luto por cada chance perdida, por cada sorriso não dado e por cada abraço que queria ser um beijo. Luto por cada "não" inseguro e cada batida no muro que é o não com certeza. Luto por todos que um dia não quiseram sair da cama e assim ficaram até o outro dia chegar, não por preguiça mas por insegurança de ter que enfrentar as consequências de tudo isso que passou. Luto interno de quem não quer dividir suas preocupações não por falta de confiança mas porque compartilhar tristezas nunca trouxe alegria pra ninguém. Luto pelas mensagens não enviadas, pelas mensagens erradas e pelos mal-entendidos. Luto por morte e luto por brigo. E se a luta por tudo isso é em vão, desculpa, amigo, mas não vai ser o luto que vai trazer a solução.

Já deixo o tchau pra quando for embora.

Um dia todo mundo vai embora. Alguns avisam, outros você só fica sabendo depois que já estão longe demais. E a sensação que fica é que você não aproveitou a estadia dela tempo o suficiente. Tudo que poderia ser feito, tudo que poderia ser dito e agido. Tudo o que não foi e que agora não vai ser mais. Poucas certezas você tem e essa, infelizmentem é uma delas: não tem volta. Não tem consolo, não tem telefone, não tem desculpas. Outras pessoas vão frequentar sua vida e aos poucos o vazio vai ser preenchido, mas sempre vai ficar a sensação de que ninguém se encaixa tão bem quanto era. Vai sobrar uma ponta, vai forçar um pouco pra entrar e esses buracos vão se acumulando e te deixando cada vez mais vazio, cada vez mais frio e cada vez com mais medo de se envolver e de se importar. Quem se importa mais é que sente o baque mais forte, e nem sempre você aguenta. Cai, levanta, porque é assim que tem que ser. Partir é a consequência inevitável de chegar e um dia quem vai deixar o buraco na vida de alguém é você. E se eu não tiver oportunidade ou coragem de me despedir, que fica aqui o meu adeus para quando ele for necessário.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Doc Brown


Queria voltar no tempo, consertar tudo de errado
Fazer coração partido virar coração colado
Com super-bonder, durex, ou costurar com linha
Pra bombear plaquetas e hemoglobina

Se eu pudesse também seria doutor:
Para curar câncer e acabar com a dor
Não ver ninguém morrer de tuberculose
Prescrever remédio e regular sua dose

Agora, se fosse médico e temponauta
Eu mataria saudades de quem sinto falta
E levaria mensagens de quem não pode ir

Porque ser médico não é só sobre poder curar
Também tem que saber a hora de abraçar
E dizer existe algo além daqui

quinta-feira, 15 de março de 2012

Não existe amor em sonetos


Dizem que há muito tempo atrás
Um sujeito bobo inventou o amor
Mas como era bobo aquele rapaz
Ele não se lembrava onde o colocou

Mas o tempo passou e o amor virou lenda
Na cabeça de meninas e nos livros de história
Você era jovem demais para que entenda
Ou velho demais para que dê bola

Até que um dia só restou a questão
Se o amor um dia existiu de verdade
Muitos diziam que sim outros diziam que não

Em São Paulo, o amor não se encontrava
Muito menos em qualquer outra cidade
Se existiu um dia, ninguém mais se lembrava

Carne pra churrasco.


"Pode deixar que eu compro a carne", foi a coisa mais idiota que ele já disse. E quem dizia isso, mais uma vez, era ele. Ele encarava a prateleira com mil pedaços de carne, peças inteiras, todos os tipos e variedades e, simplesmente, ele não tinha idéia do que comprar. Ele olhava para todos os lados procurando alguém para copiar mas pelo que tudo indicava, aquele era o domingo a tarde com menos pessoas comprando carne para churrasco na história da humanidade. Ele andava com o carrinho vazio pelos corredores para disfarçar um pouco o fato de não saber o que estava fazendo e passava pela área de carnes, as vezes encarando uma ou outra embalagem com interesse. Tinha alguns nomes na cabeça: "Maminha, picanha, filé", mas não tinha certeza se essas eram carnes pra churrasco. Podia levar uns 50 miojos com todo o dinheiro que tinham entregado pra ele, todo mundo ia comer pra caramba, com certeza. Ele mesmo sabia umas quatro ou cinco receitas de miojo. Foco na carne. O moço do açougue no supermercado parecia estar muito ocupado lá no fundo fazendo alguma coisa muito interessante. Ninguém parecia se importar. Uma velha pegou uma tábua de bifes, ele podia fazer o mesmo. Não, não, seus colegas iam te matar. Apesar que... existia uma possibilidade. Uma coisa que ele tinha certeza que se arrependeria. Uma coisa que ele jurou nunca mais fazer. Uma coisa que abriria a porta para mil possibilidades onde nenhuma terminaria com ele feliz. Mas era ou isso ou mostrar pra sociedade que ele, filho de gaúchos, crescido ao lado de vacas e facões, herdeiro de toda uma rede de churrascarias do sul do país, não entedia de carnes. Era a única opção:
"Alô?"
"Ana Cláudia?"
"Eu não acredito que você está me ligando depois desse tempo todo."
"Pois é, eu tive que me afastar, né?"
"Você não sabe o que eu tive que enfrentar... meus pais mal olhavam na minha cara."
"Calma, Ana Cláudia. Preciso da sua ajuda."
"Minha ajuda? Que cara-de-pau. Some por mais de seis meses e me liga pedindo ajuda?"
"Desculpa, Ana Cláudia. É que... sabe o Carlinhos? Ele estava dando um churrasco aí precisavam de alguém para comprar a carne e todo mundo começou a brigar e eu meio que me ofereci..."
"Você é um filho da puta."
"Espera, Ana Cláudia."
"Você é um filho da puta, desalmado. Eu espero que sua alma apodreça no inferno e que você seja estuprado pelo capeta."
"Ana, você tá sendo irracional."
"Calaboca. Não me ligue nunca mais. Só quero ouvir seu nome novamente quando me convidarem para o enterro."
"Ana Cláudia! Eu... eu..."
E ela desligou o telefone. Acho que oito quilos de linguiça dá. Ele comprou o resto de cerveja e voltou para o churrasco.

O Beco


Às vezes a vida te coloca em um beco. Uma encruzilhada talvez definiria bem a situação. De um lado você tem seus preceitos morais, suas certezas, suas verdades. Do outro você tem o que faz sentido. Porque a vida, essa malandra, ela sabe que escolher entre o bem e o mal é muito fácil, então ela te dá duas opções onde as duas te farão bem e mal da mesma maneira. A diferença está em que parte de você cada uma delas vai afetar. Aí você escolhe o com resultado mais rápido. É bom ver os frutos do que você plantou, todos temos essa necessidade de resultados imediatos porque vivemos o agora. Esse é o momento, somos jovens e temos tempo pra errar e consertar as coisas. Mas como todo o resto, o agora é passageiro daqui a pouco o agora é a realidade que você não queria ver. O resultado das suas decisões chegam para te dar um soco na cara, aquele soco que você vem se preparando pra receber mas percebe que não tinha como saber o quanto ia doer. E dói. A marca dos dedos fica, as pessoas perguntam curiosas. E consciente de que é o único culpado, você não aponta dedos. Eram dois socos e você teve a chance de escolher o que vinha depois. Pelo menos você teve a chance de aproveitar toda a vida antes de ser acertado. O primeiro soco teria doído menos? Teria demorado menos para passar? Não sei e, sinceramente, não quero mais saber. As escolhas foram feitas e temos que conviver com cada uma delas. Tinha como desviar do segundo soco, mas mereci e não estou aqui para me proteger. Vai demorar pra parar de doer, visto que ninguém tá se esforçando muito pra cuidar disso, mas é bom que assim a gente aprende com a dor. Ela te lembra da escolha e te lembra que na vida você vai ter que fazer muitas outras escolhas como essa. Não me arrependo do caminho que segui porque sei que em breve todo mundo vai ter que fazer essa escolha e passar por tudo.

Moral da história? Depois que você escolher o caminho, vai até a o final sem olhar pra trás. Moving on.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Drogas.

metanfetaminas disfarçadas de meninas
safadas e viciantes, ligadas a cento e vinte
mil volts, alto-falantes bem altos incomodando
os vizinhos ou barulhinhos discretos que só
se ouvem de perto, te amassa contra a parede
sem saciar sua sede de mãos suadas e pulsantes
passando por curvas quentes de sangue
por baixo do seu vestido e sussurando ao
ouvido palavras doces e suspiros que nenhuma
outra droga pode causar além de mim.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Sobre o Risosponto.


Essa semana, uma semana cheia de assuntos polêmicos, fúteis ou não, revoluções e guerras virtuais, pela primeira vez em um ano e alguma coisa, eu tive saudades do Risosponto.
O Risosponto, para quem não conheceu, era um blog meu com o (atualmente) Pedro Ascar e o Gabriel Mota, editores do site OH!FUCKMusic. A premissa era basicamente analisar o que estava acontecendo na mídia e na sociedade com humor e com uma linguagem facilitada, atingindo um público ali no início da sua adolescência, público este que herdamos de uma série de vídeos que Pedro Ascar (em sua encarnação Pedro Vítor, antes de ser Pedro Carvalho) fez com seu primo e chegou a fazer um sucesso bacana no YouTube.
Cada autor tinha seu estilo bem característico e o que mais me marcava e o que eu mais prezava quando eu ia escrever um texto pro Risosponto é que eu tentava sempre passar uma mensagem. Às vezes uma mensagem ideológica, as vezes ensinando mesmo alguns conceitos ou tentando mostrar o outro lado de alguma coisa. O que eu pensava era, por mais que eu não pudesse influenciar milhares, eu poderia levar uma ou duas pessoas a refletirem sobre o assunto e aquilo pra mim já era o suficiente. Não por acaso tratei sobre assuntos mais pesados e consegui (talvez só na minha cabeça também) atingir um público mais velho e mais maduro.
A repercussão foi massa, conheci muita gente legal, tive fãs (olha isso mano), tive leitores (olha isso mano) e até alguns amigos liam meus textos. Foi legal. Até que em algum momento eu perdi o tesão naquilo. Os textos estavam caindo de qualidade, cada vez mais aquilo deixava de ser uma diversão pra mim e virava uma obrigação. Um saco ter que procurar algo pra escrever a cada dez dias (porra, tempo pra caralho pra achar algo pra escrever) e eu larguei. O PV e o Glabo sempre foram muito mais próximos entre si do que de mim, sem dúvida. Gostos parecidos, programas parecidos. Quando saí deixei bem claro que se eles quisessem continuar sem mim eu não teria problemas, mas eles já estavam em outra vibe. Era hora de amadurecer mesmo, continuar com aquilo não ia levar ninguém a lugar nenhum, principalmente nessa Era de piadas traduzidas e imagens compartilhadas em que vivemos. Ninguém quer entrar num blog de "Humor" (não sei como nenhum blog roubou nosso nome ainda) e se deparar com um puta texto imenso sobre o Senado. I let it go and they did it too.
Mas porra! Olha essa última semana! Estupro no BBB, Luiza no Canadá, Sopa, Pipa e a (so called) Terceira Guerra Mundial (online). São 4 pautas sensacionais para textos do Risosponto. Quatro assuntos amplamente discutidos (e amplamente procurados nos sites de busca). Quatro assuntos que poderiam gerar grandes reflexões, que poderia ensinar algo pra alguém, que poderia mostrar um lado disso tudo que não está tão claro. Essa semana cogitei voltar com o Risosponto. Chamar eles de volta ou recrutar uma nova equipe. Eles não voltariam, página virada total, e eu conheço meus amigos, ninguém ali animaria de tocar o site por mais de dois meses. Mas eu queria, porra! Queria poder falar com aquele público de novo, queria sentir que eu estou fazendo algo pra sociedade, nem que seja o mínimo do mínimo.
Você pode dizer: "Ah, mas você ainda tem O Cowboy, pode escrever aqui". Não é a mesma coisa. Primeiro porque são poucas as pessoas que lêem aqui, e ninguém realmente entra aqui pra ver se tem algo novo. Vejo esse blog como se eu fosse um bardo recitando poemas na rua. De vez em quando passa um amigo ou um desconhecido, escuta cinco minutos e fala "É, até que é interessante" e então vai embora. É sempre uma surpresa quando alguém me diz conhecer esse blog, sempre.
Outro problema é que não me sinto muito a vontade de falar de mim aqui. Por mais incoerente que seja, por ser um blog íntimo demais (e frequentado por pessoas íntimas demais), eu evito falar coisas muito pessoais. A maioria dos meus textos são vazios de significados íntimos porque eu simplesmente não "aprovo o texto" quando percebo que estou falando demais sobre mim e sobre o que eu penso. No Risosponto eu não tinha essa preocupação, era uma público genérico que não estava do meu lado todos os dias. Estranho como é muito mais fácil se abrir com alguém que não tem idéia de quem você seja do que com alguém que realmente vai se importar com aquela situação.
Qual a solução que eu encontro? Às vezes eu começo a falar sobre um assunto no twitter, e falo por 15, 20 tweets, mas tudo parece efêmero demais. Parece que ninguém vai ler e quem ler vai passar batido entre piadas e trending topics. Tenho uma porrada de seguidores, mas nunca consigo mais de duas respostas pra uma pergunta qualquer que eu faço. É tudo muito passageiro. Nada fica ali realmente, a mensagem não chega, ninguém reflete nada. No Risosponto sempre tinha alguém que ficou pra trás e foi ler (e comentar) um texto três meses depois. A mensagem estava ali e chegava eventualmente. Sinto falta disso. Hoje a mensagem vai embora. Me falta uma plataforma mais fixa e acessada. Envio a mensagem mas ela some no tempo antes de atingir o alvo. E cara, essa semana eu tinha muito a dizer. Essa semana eu tive saudades do Risosponto.

O melhor pastor da região.

Ele era pastor numa igrejinha no bairro onde morava. Além de gostar do status que sua posição lhe dava, também ficava muito satisfeito de poder passar uma mensagem interessante para todos. O que mais ninguém da comunidade sabia é que ele realmente não acreditava naquilo tudo. Cresceu num ambiente religioso, o que lhe deu intimidade com a bíblia e com seus ensinamentos, mas começou a se questionar sobre a origem daquilo tudo muito cedo. Com o tempo aprendeu a separar os valores e conceitos da mensagem bruta, o que mudou totalmente sua visão sobre religiões. Ele começou a entender que aquilo tudo era uma grande metáfora, uma ferramenta para manipular a sociedade, não necessariamente para o mal, mas ainda assim, manipular. Não existe realmente um ser superior, não existe céu, inferno, demônios e almas. O que existe é uma simplificação da mensagem para que todos possam digerir. E, também muito jovem, ele decidiu que ia ser pastor. Já que essas pessoas vão dar seu dinheiro para alguém mesmo, que esse alguém fosse ele. Quando completou a maioridade, mudou-se para um bairro mais afastado e começou a fazer mutirões para erguer sua igreja. Sempre falou muito bem, então foi fácil convencer a população a ajudá-lo. Em seu primeiro encontro oficial, eram mais de 200 pessoas na platéia. E falou por duas horas sobre bondade, amor ao próximo, não praticar o mal. Em seus encontros posteriores falou sobre aceitação, problemas familiares, dificuldades no trabalho. Em seis meses, sua igrejinha passou por uma reforma. Ele mesmo não cobrava nada, mas as pessoas, acostumadas com a mecânica, se dispunham a fazer suas doações. Eram três encontros semanais, um na quarta, um na sexta e outro no sábado. Os jovens da comunidade adoravam aquela igreja que, diferente das outras, não era proibitiva, ela fazia os jovens escolher o que era melhor para eles e, surpreendentemente, eles faziam melhor do que ninguém. Em um ano, ele já recebia mais de duas mil pessoas ao total por semana. Todas queriam casar com ele, todos queriam ser como ele. Ele continuava mantendo sua vida humilde, num apartamento de dois quartos financiado pela Igreja. E a maior satisfação que ele tinha, muito além de ser um formador de opinião ou de retorno financeiro, é que em um ano como pastor daquela região, ele nunca tinha falado as palavras "Deus" ou "fé" em público.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Nostalgia


Lembrava de sentar comendo pão-de-ló
Na calçada da cidade em que cresceu
Que o gosto daquilo não podia ser pior
Mas a velha tinha alzheimer, coitadinha da vovó

Relógio biológico parou de funcionar

No relógio, duas horas de atraso
No coração, "mais quinze minutos"
Ela, infelizmente, não conseguiu cumprir prazos
Pois se jogou hoje mais cedo 
lá do alto do viaduto






Texto revisado pela Manoela aqui embaixo nos comentários.

Na cozinha do Guto


Na cozinha do Guto quem mandava era o Guto
Não gostava de ver uma panela fora de lugar
E se um dos cozinheiros o deixasse puto
A carcaça do coitado era servida no jantar

Jesus.


Jesus reuniu os doze e disse:
- Desculpe amigos, esse fim de semana não vai rolar de sair.
Paulo, o mais preocupado, perguntou:
- Porra, Jesus, aconteceu alguma coisa? Você parece bolado.
Jesus, que sabia muito mais do que gostaria, deu uma desculpa qualquer:
- Ah, é uns lances chatos com meu Pai. Deixa pra lá.
Tiago, o menor, sempre carismático, tentou persuadí-lo:
- Ah, Jota! Sem você não vai ser a mesma coisa. Você sabe que é o diferencial entre uma festa paia e outra sensacional!
Jesus, sabia.
- Ah, mas é porque eu sempre dou um jeito de levar as bebidas. Confio em vocês, vai ser massa.
João Batista, seu primo, também tentou:
- Se você quiser eu falo com o tio.
Jesus, meio desconcertado para não dar explicação demais, se apressou.
- Melhor não, de verdade. Meu Pai nunca escuta ninguém mesmo. Deixa eu ir, desculpa aí, galera.
Antes de ir embora, passou por Judas, o Iscariotes, que tava caladão meio distante. Trocaram olhares e Jesus perguntou:
- E você, Jiscas? Tá de boa?
Ele respondeu:
- Tô de boa, Jota. Tô de boa.
Se cagando todo por dentro. Ele já tinha visto Jesus fazer umas coisas inacreditáveis, vai que o filho da puta lia mente também.

Tanto

De tanto usar luvas
Esqueceu das texturas
De tanta aspirina
Esqueceu de se cuidar
E de tanto se esconder
Esqueceu de olhar

Que a vida continua
Mesmo sem ele lá