quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A árvore na floresta.

Se um amor foi declarado 
E nenhum coração bateu mais forte
Será em outros braços que você encontrará suporte?
Se um sorriso sincero gera zero empatia
Será que esse sorriso merece mesmo a companhia?
Se a alegria dividida não muda nada em sua vida,
Você realmente é merecedor dessa partilha?
Se um poema foi publicado e ninguém o viu

esse poema realmente existiu?

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Sobe.

Tinha tempo que eu não entrava em um elevador com ascensorista. Sempre me perguntei se existia a necessidade de um profissional pra organizar qual pessoa vai para qual andar. Cinco mil anos de sociedade e precisamos de alguém para apertar botões pra gente. O homem evolui e vai ficando cada vez mais preguiçoso. Vendemos nossa alma para aplicativos de celular que adivinham o que nós queremos para pensarmos cada vez menos. 
- Sobe.
O elevador parou para um casal. Eles estavam com aquela cara de quem brigava mas foi interrompido pela chegada do elevador. Ela tinha cara de choro, ele tentava não demonstrar seu mau humor. Me encostei num canto mais distante para dar espaço aos dois. Fiquei pensando onde minha esposa estaria naquele momento. Deixei ela dormindo mais cedo, a essa hora ela provavelmente está começando a fazer nosso almoço.
- Sobe.
De novo o ascensorista anunciou, agora para a entrada de um garoto bem magro. Ele vestia uma camiseta de super-herói com um boné maior que sua cabeça, que escondia cabelos ralos. Um garoto tão frágil não deveria estar andando por aí sozinho. Pensei em puxar assunto, perguntar se ele gosta de quadrinhos. Eu costumava carregar uma edição do Homem-aranha comigo quando era mais novo. Sempre que passava por algo difícil eu a relia e pensava como ter super-poderes resolveriam todos meus problemas. Mal eu sabia que os vilões eram só metáfora para os desafios que a vida oferece. 
- Sobe.
Uma senhora chorando muito entrou. Ela rezava baixinho um terço, em outra língua que eu não entendia direito. Ajeitei meu corpo para que ela coubesse entre nós quatro mas ela se encostou na gente sem grande cerimônia. Comecei a estranhar um pouco a demora para chegar.
- Sobe.
O elevador parou mais quatro vezes, entrou duas garotas que pareciam estar voltando da escola, um senhor com ar italiano sorrisão que tentava inutilmente achar sinal em seu celular e um sujeito de terno e gravata que parecia ter pressa. Estava preocupado com o espaço mas todos se acomodaram de forma confortável lá dentro.
- Sobe.
Antes que uma família com dois filhos pudesse entrar de novo no elevador, resolvi me manifestar.
- Ô, amigo! Falta muito ainda para chegar? Não é possível que ainda vai entrar mais gente nesse elevador.
Todos me olharam como se falar alguma coisa fosse a pior coisa que eu poderia ter feito. Nunca me arrependi tão rápido de algo na vida. O ascensorista olhou pra mim e sorriu, enquanto as pessoas cochichavam entre si.
- Você não sabe? Já vamos chegar, senhor?
O que é que eu não sabia? Voltei para o meu canto, contrariado com meus colegas de elevador me julgando calados. Estava irritado, já tínhamos subido quarenta ou cinquenta andares e nada. Não é possível que dirigi mil quilômetros para isso. Será se tranquei meu carro? Não consegui puxar na memória onde eu tinha estacionado ele. Na verdade, não lembro direito nem de ter entrado nesse prédio. Para onde eu estava indo mesmo? Estou ficando maluco, sabia que não devia ter tomado aqueles remédios antes de dirigir. Comecei a suar, apesar do forte ar condicionado no elevador. Ninguém mais parecia incomodado com tudo aqui. Afrouxei minha gravata. Onde eu tinha parado meu carro? Pensei, pensei. A única coisa que conseguia lembrar era de aumentar o som do carro na estrada. Como era o hall de entrada? Onde eu estava antes de entrar nesse elevador? O carro, foco no carro. Eu estava dirigindo. Fui aumentar o som do carro. Quando olhei novamente, um caminhão fora da sua pista, o farol me cegou e…
O elevador parou. Uma luz forte me impedia de ver lá fora. Todos foram descendo calmamente. Meu rosto suava. O ascensorista sorriu novamente.

- Chegamos.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O rio.

A vida vai como flui o rio
Entre a violência e a calmaria
A pedra bate sem dar aviso
O corpo afunda pela água fria
Cada mergulho uma aposta
Cada segundo a pele arrepia
A gente reza mas, no fim das contas,
Não sobrevive pra um novo dia.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O fim das coisas.


É estranho quando a gente descobre que as coisas acabam. Quando somos crianças, quase tudo existe desde que a gente nasceu e sempre surgem coisas novas, dando aquela sensação de que as coisas são infinitas e sempre haverão mais coisas. Lembro a primeira vez que eu descobri que algo acabava. Todos os dias depois da aula eu assistia TV Cruj. Era apaixonado pelo mundo onde aquelas crianças eram capazes de invadir um sinal de tv do porão de casa e criar sua própria programação. Talvez até foi aí que me veio a vontade de trabalhar com comunicação e criar conteúdo pra que as pessoas assistissem. Enfim, eu assistia todos os desenhos, me vestia como eles, falava como eles. Eram o role model que meu eu pré-adolescente achou em meio a tanta bagunça na cabeça de uma criança. Entre eles, um gordinho meio desengonçado, com humor pontual e que estava ali não pra chamar atenção, mas pra mediar e fazer as coisas acontecerem enquanto seus amigos brilhavam. Cara, como eu era fã do Macaco! Ele era o símbolo que mesmo fora dos padrões e confuso pra caralho sobre minha personalidade, eu poderia ser admirado por alguém como eu o admirava. E foi dele mesmo o baque. Não me lembro exatamente como foi, em uma época pré-internet a gente não ficava sabendo dessas coisas antes. Mas em uma tarde qualquer, ele anunciou sua saída. Aquilo acabou comigo e inclusive acho que foi o primeiro passo de um desânimo que fui pegando pela tv nos anos seguintes. Eu chorava demais, não entendia porque que o meu personagem preferido tinha que sair. Lembro demais do meu pai me abraçando e me explicando que às vezes, quando a gente cresce, a gente precisa deixar algumas coisas pra trás. Engraçado, justo meu pai, que nunca foi de conselhos e frases de efeito, falou uma das coisas que mais me marcaram na vida. Levo isso comigo desde então. Lembro de alguns anos depois, chegar um dia da escola e separar todos meus brinquedos para que fossem doados. Sem traumas, sem sugestão. Lembro quando mudei do apartamento que cresci e fiquei responsável por organizar e acompanhar toda a mudança que meus pais não poderiam fazer. Todos diziam que eu estranharia demais as primeiras noites, mas nunca dormi tão bem. Durante minha adolescência vi minhas bandas preferidas acabarem no auge da minha comoção, vi amores platônicos virarem as costas para mim sem motivo algum, fui abandonado literal e metaforicamente por inúmeras coisas que eu amava. E foi isso que eu eu entendi da vida adulta: as coisas vão embora e você não tem poder sobre elas. Com o tempo a gente aprende a lidar, ou pelo menos sobreviver. Aprender que mesmo que parte do que te faz você vá embora, as marcas e as memórias vão ficar lá pra sempre. E com isso a gente entende a perda e se culpa menos quando somos a perda de alguém. A vida, sua e dos outros, continua, com ou sem você.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Desaprendi.


E eu que desaprendi a escrever? Não como um idoso com alzheimer que não consegue mais repetir a técnica, ou um jovem disléxico que vê no dicionário um difícil labirinto, eu só não consigo mais. A inspiração, muitas vezes forçada numa funda respiração, agora nem debaixo d'água parece em encontrar. E quando me forço, faço força e me esforço, o produto final vem tão sem alma que é eu prefiro enterrar. Mais que um arquivo na lixeira, eu já apago a informação dentro dele praquele texto não voltar pra me assombrar. E as ideias, que vez ou outra ainda insistem em pipocar em versos, conceitos ou frases de efeito, somem ao menor sinal de distração. Refaço o caminho, tento reconstruir o pensamento, mas quando chego no mesmo ponto olha para um muro vazio que eu tinha certeza que tinha alguma coisa a última vez que passei. A caneta tem sido mais minha companheira que o teclado, porque o teclado é volátil e a caneta me impede de simplesmente apagar e esquecer o que estava pensando. E a vontade é essa. A gente escreve e lê tanta bobagem por aí que não sobra tempo pra se expressar. Nos pequenos tweets, nos textões do whatsapp, nas discussões do bar e nas brigas por telefone. O que sobrou para a literatura? Nada. Galopei no velho oeste e viajei no espaço sideral com o mesmo vazio em que peguei metrôs e encarei minha tv. A gente se expressa por esporte e esquece que pra alguém aquilo significa alguma coisa. O conceito que gerou uma epifania, o texto que fez chorar, a frase que inspirou a continuar. Tudo está aí, num mar de informações, pra que alguém pesque em algum momento. Mas eu me afastei. Não consegui acreditar mais no que eu dizia. Os mundos inventados não se valiam nem como metáfora. Era tudo tão oco, tão plástico, que eu nem queria mais assinar. E a mesma facilidade que a prosa virava verso, ela se perdia num mundo de bits num simples deletar dos dedos. Mas quem decide quem é poeta? Quem decide que é escritor? Cadê o teste de talento pra validar quem pode e não pode publicar? Se às vezes você quer um americano na lanchonete e mas depois você quer voar pelas estrelas em um foguete individual, não sou eu quem decido o tamanho dos seus sonhos. Eu só quero reaprender. Sem alarde e sem cobranças. Quero a confiança pra poder voltar ao jogo. Quero perder a mecanicidade, conseguir seguir o fluxo de ideias, sem cobrança, só deixando fluir. Mas desaprendi e, cara, tem feito uma falta danada.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Gatilho.

Qual seu gatilho?
O que te aciona?
O que te faz gritar?
O que te emociona?

Qual é a gota d'água?
Qual é seu limite?
Até onde você vai
Até que sua mente frite?

Quando desmorona
Quando dá errado
Quem é seu apoio?
Quem tá do seu lado?

Um pé e o outro
Um passo por vez
Você se orgulha
De tudo que fez?

Espelho da vida
Reflete seus erros
O que você vê
Nos seus pesadelos?

Respiração funda
Suor desce a testa
Seu olho tremendo
Olhando a fresta

Olha no relógio
É tarde demais
Seus medos se foram
Ficaram pra trás

Só olha pra frente
Não foge do trilho
Escuta lá longe
O dedo no gatilho.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Nudes.

Quando meu celular vibra
minha mão até treme
abrindo mensagem sua
que chegou na minha DM

Empolgado enquanto carrega
Sua selfie de rosto
Que revela só um pouco,
Deixando seu corpo exposto

A intenção é das piores
mexer com minha auto estima
plantar algo na cabeça
Terminar sempre por cima

Lubrificado pelo suor
O dedo desliza sobre a tela
Como quem escorrega sobre a pele
Pousando entre as pernas

E tímido, eu retribuo,
De um ângulo mal tirado
Como sempre inseguro
Enviando meu retrato

A resposta é excitante,
Como um sonho adolescente,
Sentimentos conflitantes
De uma confusa mente

Como sangue, os bits pulsam
Dos dedos para a espinha
Da coluna para a mente
Da sua vida para a minha.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Tormenta.

Estamos pedindo socorro
na madrugada
a tempestade chega e derruba
a embarcação

Mais de cem dias
navegando em calmaria
Para no fim afundar
Em águas rasas no mar

Escória dos ventos
Marujos sem medo
Enfrentando mil metros
Da raiva de Deus

Seu amor é um risco
Que chega sem aviso
E te leva na onda 
pra uma praia qualquer

O buraco na proa 
leva a tripulação
A morrer no mar

Inunda canoas 
e a comunicação
Da embarcação

Sua lingua é o timão
aponta a direção
Das palavras que saem
E também das que não

Mas um erro te afoga
Quando você menos nota
Vira o casco e afunda
Ou destrói o convés
O barco sente
O mar pressiona seu casco
Então eu vejo o farol
Entre a chuva e o mar

E peço por favor
Pra acertar minhas contas
Mas a manhã me encontra
30 milhas depois


O capitão se mantém
firme com a nau
Em toda situação

Mas a água congela
ao toque da mão
Lutar é em vão

O tempo passa e a história segue
Até tudo sumir
Me acalme e deixe-me provar seu sal
enquanto estou aqui

Eu sou aquele que assombra o sonho
de quem pensa em mim
Eu disse tudo que queria
mas não pude ver o fim

Isso é o que sempre quis
Morrer pra poder ser feliz
No fim você que tem razão
Você é água eu sou pulmão

Chegou o fim.

Livre tradução de "Play Crack The Sky", por Jesse Lacey.