terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O Último Conto de Natal


Parte 1

A sociedade já tinha se destruído. Entre guerras e conflitos, acabaram-se as religiões, o capitalismo e a pouca noção de civilidade que ainda tínhamos. Os poucos que sobraram viviam baseados numa ciência do passado, já que poucos estudavam e pouco ainda era divulgado. A comunicação com outras regiões era raríssima, desde que um acordo antiespionagem tinha derrubados todos os satélites. Internet, televisão, telefones, eram tidos como conversas dos mais velhos, saudosos e nostálgicos. As pessoas se conformavam com os poucos que conheciam e pouco tentavam tirar do relacionamento de cada um.
Flávio fazia parte do pouco mais de trezentas mil pessoas que habitavam o mundo. Criado em uma família muito católica, aprendeu cedo a questionar seus dogmas e preconceitos, mas com o fim das mídias a Igreja Católica havia perdido totalmente seu poder e relevância. Flávio vivia uma vida modesta, comia pouco e fazia exercícios. Usava o resto de seu tempo para ler. Trocava os enlatados que sobraram da antiga rede de supermercados de seu pai por livros de todos os tipos. Já havia lido de psicologia a romance baratos, de auto-ajuda a anatomia vegetal. Poucos se importavam com leitura, conhecimento é luxo em uma sociedade onde você só tem o agora.
Ele acordou como em uma manhã qualquer, fria pelo inverno, foi até sua cozinha e fez café. Encostado na base da pia, observava os primeiros flocos de neve caindo em sua janela. Mal se lembrava do auge do capitalismo, com suas cores e luzes de Natal. Onde a felicidade era ganhar o celular mais tecnológico, a roupa mais cara. Com a baixa do catolicismo, nem o mais irônico dos publicitários ousou falar de "Espírito de Natal". Ele nem sentia falta. Felicidade era um conceito complicado atualmente. Sem objetivos futuros, as pessoas não se decepcionam mais, não sentem mais saudades, não se gostam mais. Não tem mais apego, um dos motivos da população não se renovar mais. O sexo, pra reprodução ou não, era cada vez mais raro. Ninguém mais queria ter que conviver com o outro. O café já esquentava seu corpo e coração frio.
Ouviu um barulho em sua porta. Primeiramente imaginou ser algum animal perdido ou algo assim, mas a famigerada batida na porta (um costume que se perdera quando as pessoas pararam de se visitar) não deixava dúvidas: era alguém. Com o susto, sua primeira reação foi ficar imóvel. Não estava pronto para receber alguém, sua casa não estava organizada, não tinha preparado nenhum assunto para entreter um convidado, servir café significava que faltaria café depois. Foi só quando ouviu novamente uma segunda batida que deu por si que tinha que fazer alguma coisa. Colocou sua xícara em cima da pia e foi em direção a janela, mas a janela embaçada pelo calor de dentro e o frio de fora, só permitia ver um vulto.
"Qu... quem é?", não lembrava quando foi a última vez que tinha falado tão alto. A terceira batida na porta, agora com impaciência, fez com que Flávio abrisse mesmo sem ter resposta.

Parte 2

Uma moça, toda coberta com blusas e uma mochila grande, entrou correndo dentro da casa: "Nossa, Flávio, quer me matar de frio? Tem quase dez minutos que eu to esperando lá fora". Flávio olhava assustado para a figura em sua sala de estar. Não a conhecia e muito menos sabia como que ela sabia seu nome. Enquanto ela tirava as camadas de jaquetas e casacos, uma mulher muito bonita se revelava. "Que cara é essa, Flávio? Parece que não me conhece", e abraçou fortemente ele. Imóvel, Flávio ainda tentou se lembrar de alguma situação que poderia ter conhecido uma pessoa tão espaçosa e expansiva, mas nada passou em sua cabeça. "Vem aqui, te trouxe presentes", ela disse enquanto o entregava um álbum de fotografia e tirava carnes e vinhos de sua mochila.
"Espera. Ei, para com isso". Ela parou assustada enquanto procurava um saca-rolhas na mochila. "Quem diabos é você, o que você está fazendo na minha casa e porque você está me dando essas coisas?".
"Eu, Flavinho, sou sua prima Márcia. A gente brincava juntos no quintal do Tio Marcos quando éramos pequenos". Flávio continuava sem entender, ele tivera realmente um tio Marcos, mas não lembrava de brincar com ninguém, muito menos de convidar algum familiar para fazer uma visita.
"Calma, você vai entender". Ela lhe trouxe uma taça de vinho, e o acomodou no sofá. Sentada ao seu lado, ela abriu entre suas pernas o álbum que tinha trago. "Lembra do tanto que a gente gostava do Natal? Era o melhor momento do ano! A gente reunia todos os primos e ficava brincando de tentar adivinhar cada presente na árvore", Flávio olhava para o álbum e via fotos suas com outras crianças que não lembrava mais quem era, entre brinquedos, árvores de Natal, comida. Parecia estar muito divertido.
"Esse ano aqui, eu te levei para o quintal e a gente fez um boneco de neve todo feito de terra, nessa foto aqui você estava chorando porque não tinha ganhado o carrinho que você queria". Flávio não entendia, como ele poderia não se lembrar desses momentos? Sua memória, que costumava ser uma lembrança triste e sozinha dos anos finais do supermercado do pai, aos poucos se enchia de cor e calor com as fotos que observava. Não entedia como bloqueara tempos tão felizes de sua vida.
"Desculpa, Márcia. Não preparei nada pra você. Não tem presente, nem comida, nem espaço para te abrigar." Sua voz agora em um misto de vergonha e vontade de chorar. "Estou tão acostumado a estar sozinho, que nem sabia que ainda poderia existir algum familiar meu por aí". Tentando disfarçar as lágrimas, Flávio se levantou e foi direto para a cozinha. Márcia, feliz e energética, se levantou. "Não se preocupe, primo. Vim aqui só para deixar o álbum mesmo. Lá fora está difícil para todo mundo, só não queria deixar você esquecer que é Natal, momento de estar feliz".
"Não quis te mandar, embora! Desculpa. Estou desacostumado a conviver com pessoas. Por favor, fique!", mas Márcia já se enrolava novamente em seus cobertores. "Primo, ainda tenho muitos lugares para ir até o Natal. Agradeço a hospitalidade, mas minha parada aqui já acabou", ela disse enquanto sorria. Com um último abraço e um beijo no rosto, Márcia foi embora. Tentou chamá-la para levar parte da comida e dos vinhos que ela tinha deixado, mas quando deu por si ela já tinha sumido na rua vazia e agora coberta por neve.

Parte 3

Ainda lidando com aquela visita rápida e inesperada, Flávio estava em choque em sua sala. De onde veio tudo aquilo? Folheava o álbum de fotos e pensando como não se lembrava de momentos tão felizes quanto aqueles. Do que mais ele não se lembrava de antes de tudo cair? Sua inquietudo o fez se arrumar e andar pelas ruas da cidade. As lojas abandonadas e a desertidão o lembrava do porquê não saía mais de casa. Não havia muito o que se ver nem a quem visitar. Os poucos que ainda moravam por lá se isolavam em suas casas, onde já tinham todos os mantimentos que precisavam. Em um ou outro lugar, se viam luzes acesas. Ele andava calmamente pela rua, lutando contra o frio e o chão escorregadio.
Chegando no que costumava ser a avenida principal da cidade, lembrou de que em algum momento o prefeito montou uma árvore gigantesca, cheia de bolas coloridas e brinquedos. Fora a coisa mais bonita que já vira na vida. Mais uma vez ele se perguntou como não tinha lembranças vívidas de algo que o marcou tanto na época. Era triste ver as placas tomadas por ferrugens, as vitrines de lojas quebradas e sem produtos. Flávio se sentia numa cidade fantasma que morreu aos poucos sem que ninguém percebesse ou desse falta.
"Ei, tio!", Flávio se assustou novamente. Não esperava ver mais gente na rua. Uma criança, provavelmente sem nem uma década de vida, acenava do outro lado da rua, vestida com trapos do que parecia ser uma cortina velha. "Você pode ajudar a gente num negócio aqui?", Flávio olhou em volta para ver se era com ele, tendo que lidar com a verdade óbvia que não havia mais ninguém na rua além dele. Flávio atravessou em direção ao garoto que prontamente segurou sua mão e o guiou para um pequeno beco iluminado.
"Meu nome é Júlio, muito prazer, mas você pode me chamar de Máximo Nove Mil que é como meus amigos me chamam. A gente tá tentando fazer um teatrinho mas minha irmã simplesmente não para de chorar aí não tem como atuar com um Jesus chorão que nem aquele. Tá complicado, o Guto que tá sendo o anjo já tá ficando com fome e eu falei que a gente só ia fazer a ceia depois que os três reis magos chegassem, mas o Nando, o Pedro e a Tete tão atrasados e...", Flávio estava admirado. No fim do beco havia uma pequena manjedoura improvisada em papelão, um garoto vestido de anjo em cima de uma lixeira, uma garota segurando tentando controlar um bebê que não parava de chorar, vários cachorros quietos e sentados observando e de alguma forma aquilo tudo formava um dos presépios mais bonitos que já tinha visto na vida.
"Tá, calma... Máximo Nove Mil. Como eu posso te ajudar?". O garoto o olhou com uma cara de dúvida, e disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo: "Uai, você já viu algum teatro sem platéia? Aí num faz sentido. Eu sou o José, a Lu é a Maria, minha irmã é Jesus, o Guto é o anjo, aí o Rex, Totó, Foguete e o Pandeiro são os animaizinhos, aí tem a Tete, o Nando e o Pedro que são os reis magos mas eles devem estar perdidos e não sobrou ninguém pra assistir. Não tá claro que precisamos de público?".
Admirando a espontaneidade do garoto, Flávio se ajeitou entre uma caixa de papelão e esperou calmamente que o teatro começasse. Faltando pessoas ainda, começaram contando a história de um casal que estava para ter seu filho mas não tinha dinheiro para pagar maternidade. Júlio, ou Máximo Nove Mil, arrasava nos diálogos afiadíssimos e cheio de humor. A história, um pouco deturpada da original, envolvia um anjo obstetra, uma mãe solteira, e a chegada (atrasada mas pontualíssima) de três homens sábios que traziam presentes. Flávio se divertiu, se emocionou e bateu palmas ao final quando todos se juntaram para cantar uma antiga canção de Natal em um coral desafinadíssimo.
Honrados com a presença da plateia, cada um dos pequenos atores foi abraçar Flávio após o show, enquanto comentavam entre si como tudo tinha saído perfeito e que mal esperavam para repetir tudo no ano seguinte. As crianças se abraçaram e se despediram, indo cada um para um canto da cidade vazia. Flávio voltava para casa na cidade que escurecia, inspirado numa nova geração que, mais do que acreditava no Natal, acreditava no relacionamento das pessoas.

Parte 4

Chegou para casa com o coração cheio. Aquele dia atípico trouxe sensações que não sentia a muito tempo. Abriu os armários velhos onde guardava os objetos deixados por seu pai. Paletós empoeirados, caixas com notas fiscais que hoje não valiam nem o papel as quais foram impressas, uma velha caixa de sapato. Tentou a todo custa encontrar a velha árvore de seu pai, feita de plástico e durável como todas as coisas que não duraram na época. Mas não encontrou. Ficou triste de só ter objetos burocráticos e sem vida como lembrança de seu pai. Era um pai que trabalhava muito mas que tentava fazer valer cada segundo que passava com sua família.
Triste e decepcionado por não achar nada que representasse a presença de seu pai, abriu um dos vinhos que Márcia havia deixado e foi folhear o álbum. Aos poucos já se lembrava do nome das pessoas nas fotos, seus primos, tios, até o cachorro que ganhara um ano e que no ano seguinte se mudou para uma fazenda. Mas uma coisa o encucava. Quando chegou no fim do álbum, reparou que havia um bilhete preso ao álbum. Confuso ainda, pegou o bilhete:

"Filho,

Muita coisa mudou desde que você nasceu. Principalmente na minha vida. Você me deu esperanças de que podíamos ser uma família melhor, um mundo melhor. A inocência e pureza de seus olhos e atos, toda sua vida, era o que me inspirava a seguir em frente independente da dificuldade. Eu sabia que precisava preparar um terreno melhor para seu futuro.
Mas como tudo na vida, às vezes perdemos o controle das coisas, e nos damos mal. Lidar com todas a mudanças do mundo para alguém velho e fraco como eu, não está sendo fácil. Sua mãe nos deixou tão de repente e só agora eu tenho a real dimensão da falta que ela tem feito na minha e na sua vida. Você se tornou uma pessoa fria, sem fé e sem esperanças. E estar assim num mundo como o nosso é complicado demais.
Desculpa não ter sido capaz de manter em você a alegria de um mundo melhor, de não ter dado a você os melhores presentes e as melhores festas que alguém bom e puro como você merecia. Você se corrompeu a frieza de um mundo que não estávamos preparados. Ninguém soube lidar direito com tudo isso e eu falhei em descontar em você minhas frustrações na minha fé e no meu trabalho. Hoje eu sei que a vida é muito mais do que dinheiro, e a gente aprendeu essa lição da maneira mais cruel. Sendo privados de tudo que tínhamos como quem se tira um curativo.
Não sei quando vou ter coragem de lhe enviar essa carta, mas sei que não tenho mais muito tempo de vida. Quando eu for embora, você vai estar sozinho. Não se renda a crueldade do destino, vá atrás de pessoas para amar e para viver. Faça amigos, faça o bem para quem você não conhece. A vida é muito mais do que internet, tecnologia e dinheiro. A vida é viver ao lado de alguém que te faça bem, e eu felizmente consegui viver até o fim ao seu lado.
Espero que quando você ler essa carta, não seja tarde demais.

Feliz Natal,
Te amo.

Papai."

Com o rosto inchado, Flávio pegou uma roupa quente e uma sacola grande e encheu com tudo aquilo que tinha em sua casa. Tudo que guardou com tanto medo de que lhe fosse fazer falta. Foi atrás das crianças que conheceram mais cedo, atrás de uma família para busca mas não encontrou nem sinal do presépio que vira mais cedo. Enquanto perambulava pela cidade, deixando garrafas de vinhos e brinquedos velhos na porta das casas que havia luz, um detalhe lhe incomodava. Não lembrava de ver fotos de sua prima Márcia no álbum de família. Bem, não era algo para se preocupar no momento. Quando já tinha distribuido tudo o que tinha pelas casas que encontrou no caminho, estava disposto e feliz consigo mesmo. Pronto para voltar pra casa, ouviu ao longe um grito: "Ei, tio!". O pequeno Júlio, ou melhor Máximo Nove Mil, acenava ao longe novamente. Flávio o viu correndo em sua direção e pegar novamente em sua mão. "Isso é hora de perambular pela rua sozinho? Vem aqui que lá em casa tá tendo ceia e cabe o senhor lá. Meus pais vão ficar super felizes de receber e eu ainda vou falar pra eles que você é uma ótima platéia, você vai adorar eles, você vai ver, e você ainda vai poder conhecer melhor o Totó, o Rex, o Foguete e o Pandero que eu até coloquei um chapeuzinho de Papai Noel em cada um deles e eles ficaram super engraçados..."

E depois de muito tempo, o Natal voltou a fazer sentido em um mundo frio e complicado.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Carta Aberta do Sindicato dos Poetas.

Revogaram minha carteira do Sindicato dos Poetas, e explicaram o motivo em uma carta aberta:

"Só é poesia se for papel, caderno ou guardanapo,
recitado em bordel, coreto e embriagado.
Não é poema se não for publicado,
se ninguém ler ou se deixado de lado.
A arte só se torna por contemplação,
e por isso te tiramos da Associação.
Qualquer dúvida, contacte nosso advogado.

Atenciosamente,
O Sindicato."

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Gigantes.

Cavalgo enquanto penso, distante:
"E se os moinhos forem mesmo gigantes?"
Continuo meu caminho, com o tintilar das panelas:
"Se ela não pensa mais em mim, por que ainda penso nela?
A estrada é longa e solitária, e a secura as vezes dói:
"Se superei meu passado, por que ele me corrói?"


Pobre Quixote, atormentado pela razão
De tanto sol na cabeça, de certo perdeu a noção
Sabia tanto de tudo agora mal sabe quem é


Ficou doido da cabeça e doente do pé

domingo, 1 de setembro de 2013

Mofo.

Meu coração tem cheiro de guardado
Daqueles que passam anos no fundo do armário
Tem cheiro de mofo e de tom manchado
De quem guardou pra proteger e nunca voltou pra pegar.

Em pastas com documentos que já não importam
Naftalina escondida numa veia cava
Do lado dele eu guardo o seu retrato
Desbotado como o que nosso amor significava

E quando eu me mudar, e tiver que guardar tudo em caixas
Vou achar esse velho coração que um dia eu usei mas já não cabe
Vou doar para os pobres ou pra um bazar
E ver se ainda serve pra alguém usar.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Uma mancha no travesseiro.

É foda. Acordei com meu batom borrado, minhas roupas amassadas e com você se remexendo. Não lembro quando foi que passamos de "Boa noite, amor." para "Já tá dormindo?". Quem eu tô tentando enganar, meu rímel tá borrado também, você já chegou cansado ontem a noite e mal teve tempo de escovar os dentes. Carinho é luxo depois de um tempo. E quem sou eu pra julgar, apesar de todos meus medos, se você já não estiver pensando em outra? Meu corpo não é o mesmo, minha dedicação não é a mesma e cada dia, minha vontade de você diminui mais um pouco. Mas parte de mim está presa na memória de você, em tudo que sofremos pra chegar onde estamos, de tudo que abrimos mão. Mas valeu a pena? Para chegar aqui, você babando de um lado da cama e eu chorando do outro. Chorando por ter perdido você e pior, me perdido em algum momento do caminho. Eu não me reconheço mais, não me cuido mais. Depois da milésima vez que passei desapercebida, não me dei mais ao trabalho. Mas ainda sou bonita, sei que sou. O pessoal da repartição ainda repara em mim. Outro dia, no bar com as meninas, um moço até me cantou. Me ofereceu casa, comida, roupa lavada. Tudo que eu já tenho com você. Mal sabia ele o tanto que me falta. Se ele falasse as palavras mágicas eu iria na hora. Abriria mão das minhas amigas, de você, do meu emprego, das viagenzinhas pro interior todo fim de ano, por um desconhecido que me oferecesse um pouco mais de emoção. Um pouco mais de atenção. Não te culpo, não me culpo. Culpo o tempo, a ocasionalidade da vida que faz a gente transformar prioridade em banalidade. Deus, aquele que eu sempre confiei, nos juntou quase que ao acaso, mas quem é que está nos separando senão o próprio? Borro meu rímel, meu batom, minha visão. Olha pra você ali do lado e você é só uma versão borrada de tudo que eu esperava de você, tudo que você me prometeu. E eu? Nem borrão eu sou. Sou uma mancha que pingou em cima da mulher que você se apaixonou e se entregou e que escondeu ela por inteiro. Por trás disso aqui, tem aquela mesma menina boba e inocente, mas depois de tanto tempo, quem vai ter interesse em me achar atrás disso tudo? Você eu já percebi que não vai ser.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Onde foi que eu te perdi?

Olhei pro lado e você não estava. Procurei na gaveta e debaixo da escada, olhei embaixo da cama e revirei o meu armário. Revirei meus documentos, virei a casa ao contrário. Refiz meus passos até em casa, voltei no banco e na padaria, simulei mentalmente minha rotina, repassei tudo que fiz no meu dia. Fui meio-dia a sorveteria e no parque cinco da tarde. Te procurei em todo lado mas você não estava.
Tentei lembrar de todos os lugares que estive com você mas acho que te perdi muito antes de tudo isso. Foi quando a gente brigou por causa de um filme ou aquela vez que esqueci nosso aniversário. Te perdi quando esqueci de te ligar para falar que te amava e quando esqueci de te dizer o quanto você me fazia feliz. Eu te perdi há muito tempo, mas só agora que percebi. Olhei pro lado e você não estava.
Te perdi e não vi, provavelmente nunca te mereci. Não importa muito onde você está, se não está aqui. A distância quando quer, é longe independente se são 3 metros ou 300 quilômetros. Quando percebi já era tarde demais. Quando as coisas acabam não vale muito olhar pra trás. Procurei nos bolsos, na cama e ali. Seu não sei onde você está, nunca vou saber onde te perdi.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Sobre o vazio.

Tem muito vazio no mundo. Outro dia eu tava olhando pro céu e me toquei que não tinha muita coisa praquela direção. Quer dizer, até tem muita coisa mas entre essas muitas coisas tem muito nada separando elas. E tudo é muito longe uma coisa da outra e a gente é tão ridiculamente pequeno numa imensidão de... nada. Sim, tem milhares de outras coisas ridiculamente pequenas mas no todo mesmo é um monte de nada com uma poeira espalhada de um lugar pro outro, mas não estou aqui para falar na pequenez relativa do ser humano. Qual a diferença entre os vazios? Uma mente vazia (como a que inspirou esse texto), um coração vazio (como o que inspirou vários outros textos desse blog), um copo vazio (que estava até meio cheio antes), uma casa vazia (de uma mãe que viu seus filhos crescerem e sair de casa). O vazio existencial e o vazio material andam muito juntos. Um sujeito que não é feliz no emprego, alguém que consome tudo que lhe oferecem. Igualmente vazios, mas de diferentes formas. Mas sendo o vazio a ausência, as ausências não deveriam ser todas iguais? O conceito de "não estar/ser/ter" não deveria ser um só, independente do que você não está, é ou tem? Por exemplo, não podemos dizer que um vazio é maior que o outro, os dois são igualmente vazios ou algum não o é por definição. O vazio é um conceito puramente baseado na não existência de algo e um objeto não pode "não existir" mais do que um outro. Uma cama vazia incomoda, mas um coração vazio incomoda mais. Uma sala vazia te assusta, um prédio vazio te assusta muito mais. Grande bobagem, a gente vive numa dimensão tão vazia de matéria, com idéias tão vazias de ideais, pessoas tão vazias de sentimento, tempo tão vazio de ocupação. Cercado de vazios por todos os lados, acho que já era gente ter se acostumado. Você não precisa estar sozinho para estar solitário.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Cartas e poemas.

Não escrevo poemas para ninguém porque não escrevo cartas. Cartas chegam no destinatário com selo e linguagem própria. Você avisa que vai voltar que tá com saudades e conta o que aconteceu. E no clips no canto do papel você coloca uma foto sua numa paisagem bonita. O poema não, o poema é para você mas é para qualquer um, a mensagem está lá mas lá também existem dez mil outras mensagens que variam de acordo com o humor de cada pessoa que o lê. E o lirismo, e as metáforas, nada é natural. Na carta o recado está lá exatamente como é. "E todo lugar que eu olho eu lembro de você" é uma afirmação direta e pontual. Ele vai na cozinha e lembra de você, vai no banco e lembra de você, vai no açougue e lembra de você. E ele precisa, além de tudo, deixar você saber disso. No poema não, no poema a intenção do autor se perde. Assim como seu professor de literatura dizia mil coisas sobre as obras de Machado de Assis, no poema sua vontade pouco importa. No poema, o eu-lírico é o leitor. Ele precisa se ver naquelas palavras, ele precisa compartilhar aquele sentimento. A leitura da carta é passiva, você recebe a informação, você sabe dos sentimentos. A carta é o jornal, a poesia é a publicidade. Se o poema é a indireta, e a melhor forma de você informar algo a alguém é jogando isso na cara da outra pessoa, a carta resolve esse problema. Não escrevo poemas porque não quero ser mal interpretado. Não escrevo cartas porque não confio em carteiros.

sábado, 16 de março de 2013

"Recados de Amor Matinal".

Entregava jornais como a última causa nobre que um ser humano pode fazer, ele garantia a ligação entre cada indivíduo e o resto do mundo. Abriu mão da graduação em direito, do emprego na firma do pai, das vantagens em ser associado ao clube da família, para poder ir para a forma mais simples de seu sonho: levar informação as pessoas. Acordava antes de todos e ia com sua bicicleta para a central de distribuição onde pegava os jornais da região pela qual era responsável. Não conversava muito, não interagia com os colegas de empresa, pegava seus jornais e ia pra sua rota. Seu salário mal dava pra pagar as contas do apartamentozinho que morava com uma geladeira, um colchão e uma máquina de escrever. Não tinha namorada nem amigos. O que tomava seu tempo livre, era redigir palavras de incentivo em forma de verso, que anexava com cada jornal que entregava. Poemas sobre o sol, sobre a chuva. Dizia que tudo ia acabar bem, mesmo que não parecesse agora. Incentivava as pessoas a sorrirem mais, conhecerem novos lugares e pessoas, enquanto ele mesmo não fazia. Ele sacrificava a própria liberdade em virtude de sua clareza, ele sabia o que devia ser feito, estudou todas as formas de se atingir o próprio bem estar, porém, como mártir de seu conhecimento, ele escolheu se dedicar a levar seu conhecimento para os outros, da forma mais trivial possível, pequenas notinhas anexadas ao jornal de domingo. Com o tempo a notícia se espalhou no bairro, as assinaturas do jornal aumentaram consideravelmente. Os patrões desconfiaram, foram investigar e no primeiro telefonema para um assinante, já descobriram os chamados "Recados de Amor Matinal" que vinham junto ao jornal. Chamaram ele para conversar, admirando ou não sua atitude, aquele comportamento não poderia continuar. A lista de assinantes era coisa séria e não deveria ser usada de outra forma que não a entrega dos jornais, e só dos jornais. Foi mandado embora. Sem dinheiro, sem recados de incentivo e sem levar o bem para as pessoas. Em seu quarto, seus textos ficavam cada vez mais sombrios, agora sem destinatários. Sua família já não se preocupava com o jeito de vida excêntrico do garoto para notar a mudança de humor e comportamento. Passou dois anos redigindo textos sobre solidão e suicídio. Quando tanto papel não mais cabia no apartamentozinho que morava, ele teve a grande ideia: reuniu toda a papelada em caixas e doou para um centro de reciclagem mais próxima. Começou a recolher papéis e papelões na rua e quando ia entregar, misturava em meio ao material poemas e frases de incentivo. Se ele não podia chegar até as pessoas com suas palavras, que cada ideia sua estivesse intrinsicamente presa a todo novo papel produzido.

Caleidoscópio.

Entre os espelhos que formam esse quarto
Só vejo indefinições e formas sem moldura
Como um futuro que não tem muro pra pular
Portas sobrepostas onde cada abre mais sete
Como gilete, corta a cada escolha errada
E tropeço em escada em espiral dando náusea
Natural, caindo ao chão, vendo o mundo em movimento
E soprando, como vento em furacão de folhas
Quando olha pra cima, mais uma vez, caleidoscopia
Em folha, vidro, suor sangue e lágrima.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Pequenos monstros.

Conheceu ele na casa de um amigo em comum, entre taças de vinho, ele tentava inutilmente explicar um jogo de cartas para o grupo. Ninguém estava realmente interessado, mas ele continuava sua explicação com tanta paixão e dedicação que ganhou a atenção dela. Não o jogo, que era realmente chato, mas o jeito dele. Ele era simples, dessas pessoas que parecem menos do que realmente é. Mas ela o via além. Ela via nele um homem que não descansaria antes de vê-la feliz. Ela via alguém que talvez trouxesse café da manhã na cama, e com certeza lavava sua própria vasilha. Alguém que saberia o valor de ver um filme a dois e aconchegá-la em seus braços quando ela dormisse no meio do filme. Alguém que daria presentes de aniversário planejados com meses de antecedência, talvez até personalizados a mão. Alguém que ensinaria seus filhos a andar de bicicleta, jogar futebol de botão, respeitar os mais velhos e não brigar na rua. E aceitaria ela do jeito que ela é, com todos os pequenos monstros que habitam sua mente, suas manias, trejeitos e preconceitos e nunca, nunca, reclamaria dela cantando as músicas do Agnaldo Rayol do cd que ela ouvia quando criança. Recolheria as toalhas que ela deixa jogada e ensinaria ela a tocar violão. Caminharia três vezes por semana no parque, não para emagrecer, mas pra não morrer de ataque cardíaco aos 40 anos. Não admitiria que ela tivesse engordado, mesmo a calça claramente não entrando mais. Deixaria ela comprar o requeijão light e aquela geleia de abóbora que ela tanto gosta. E não seria um problema também se fugissem da confusão da cidade grande para morar na cidadezinha que ela cresceu, lugar ideal para criar os filhos e... E ele continuava falando sobre o tal jogo de cartas quando ela saiu pra pegar outra taça de vinho e se distrair com outra coisa.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Punchline.


Ele te pegou pela mão, te afastou do grupo, apontou para o céu e começou a recitar um poema. Meio que de brincadeira ele começou e então parou, não por receio, não por esquecimento, mas por ignorância de como era o fim do poema. Mal sabia ele que era exatamente tudo o que ele queria dizer. Que o tom de humor que ele começou o primeiro verso se dissiparia com o peso não planejado daquelas palavras. Ele não estava pronto para dizê-las, nunca saberemos se você estava pronto pra ouvi-las. E ali, como muitas vezes antes e muitas vezes depois, abriu-se um ponto paralelo. O que teria acontecido se... Um coração temeroso considera todas as condições negativas para uma ação, ele nunca teria começado a recitar se soubesse o final. Não era o lugar, não era a situação e não eram as testemunhas ideais para que acontecesse. Precisava ser só ele, você e a lua. Ninguém para julgar a tentativa e possível negativa. Ninguém para comentar caso fosse um sucesso. Mas ainda assim, não foi medo, foi ignorância. Ele não continuou até o final, ele não disse o que queria (e precisava) dizer naquela hora porque simplesmente não sabia que as palavras que ele tanto ensaiara estava ali, dois versos a frente. Dois versos que o separou de um futuro feliz ao lado da mulher que ele tanto ama. Você. E você sabia o final do poema, esperou que ele completasse e te tomasse nos braços, ou torceu que ele simplesmente parasse ali para que você pudesse voltar pro grupo. Não cabe a ele saber a verdade. Não cabe a mim contar pra ele como o poema acaba. Ele nunca vai se perdoar. Se deve-se aproveitar a chance quando a tem, essa é só mais uma entre todas as que ele perdeu.