sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Caleidoscópio 4.

O céu quebra em estilhaços no chão
O barulho do trovão ensurdece como cega o raio
Caio sem forças e forço a porta, que corta minha mão
O arco-íris colore com sadismo o piso da sala
A mala aberta sobre a cama, a bota ainda suja de lama
De viagens que nunca serão feitas
O vento chama meu próprio nome e ecoa
As dores me fazem perder sentido, cores inundam as vistas
Visitas chegam, chamam na entrada
Calei-me, meu rosto reparte em mil
Calei dos que não me achavam soma
A porta abre forçada, a cena choca na entrada
Chuva limpa o piso
Espalha o sangue em cor luz
A cena seduz os olhos de um sentimento sem tradução

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Recorte.

Um espaço todo em branco, sem limites. Por todos os lados, apenas branco e luz. Começo criando uma pessoa. Um homem, alto, jovem, com um casaco de frio, luvas e uma bolsa/pasta de lado. Muito parecido comigo. Transformo em uma mulher. Um pouco mais baixa, mesmas roupas. Dou a ela óculos e o cabelo colorido em um roxo desbotado. Ela toma café do lado de fora de uma cafeteria. O branco agora é substituido por ruas, prédios antigos, uma mesinha de madeira embaixo de um guarda-sol. Não que faça Sol, está bem nublado na verdade. Ela pensa em algo, não, melhor, ela escreve algo em um caderninho. Ela desenha. Começou rabiscando a árvore do outro lado da rua, agora desenha uma outra garotinha brincando com seu cachorro ao lado da árvore. Ela queria saber desenhar melhor, mas ainda é um ótimo passatempo. Seu celular está sem bateria em algum lugar da bolsa, mas ela nem liga. As coisas acontecem quando tem que acontecer. Um garçom a aborda perguntando se ela quer mais alguma coisa, ela nega e sorri. Uma garota chega e senta do outro lado. Tira o lenço que prendia seus cabelos e pede desculpas pelo atraso. Eu, autor, observo de longe para ver o que vai acontecer. As duas conversam, não consigo ouvir a conversa, mas parece animada. A segunda garota pede um café e tira suas luvas para esquentar sua mão na xícara. Parece que tem tempo que elas não se viam, elas conversam muito e parecem estar bem felizes.  Uma checa o caderninho da outra, abre um sorriso e continua a folhear.  Saca o celular e mostra a tela empolgada. A câmera imaginária se afasta, a imagem se desbota em branco novamente. Aquele momento fica para sempre, sem começo e sem final. Apenas três personagens, em um recorte da vida.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Eco.

O choro ecoa
Ignorado em ego
Encontra o silêncio
E o portão aberto
Olhando o exemplo
Encontra o correto
Do lado oposto
De quem tá perto
Distante ele corre
Sem saber destino
Destila o veneno
Venera o vinho
O olho se molha
Do encontro carente
Estoura a bolha
Em queda se sente
Mais duro que o chão
Encara o presente
Em mares de não
Valida o ausente
Constrói o seu ego
Em esmo incerto
O choro ecoa
Sem ninguém por perto.