quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Nas nuvens.

Eu moraria nas nuvens se eu pudesse voar
Sentado sob o Sol e acima do mundo
De camarote observando o luar
Bater de asas acalentando ao fundo

Às vezes entraria nas nuvens pra me isolar
Me cobrir de branquidão e sentir a estática
Fazer de travesseiro a umidade do ar
e manipular na mente a mudança climática

Causar chuvas num movimento brusco
Num pesadelo que só se tem no céu
Caindo eternamente em um sonho fosco
Acordar assustado em uma cama de hotel

domingo, 24 de dezembro de 2017

O pico.

A grande verdade é que eu odiei esse ano. Todas as retrospectivas, os convites para lembrar o que de bom aconteceu em 2017 me faziam chorar imediatamente. Não consigo. Termino esse ano com um gosto gigante de fracasso na boca. Da promessa inspirada em Belchior que fiz, dizendo que esse ano eu não morreria, e agora estou aqui a sete palmos do chão escrevendo essas palavras. O estado de piloto automático que entrei nos últimos meses convive com o constante alerta de perigo. Aceitei que perdi o controle mas morro de medo de onde isso tudo pode me levar. E eu acreditei demais, talvez por isso que doeu (e ainda dói) tanto. Acreditei que esse ano seria melhor, mais calmo, com mais resultados e finalmente abrindo caminho pra grandes mudanças. Mas o destino não está aqui pra satisfazer ninguém. Ele simplesmente acontece. Frustração talvez seja o nome dessa sessão que se encerra no próximo dia 31. Frustração de ver um futuro brilhante e naturalmente lógico simplesmente escorrer das mãos. Mas a expectativa só gera decepção mesmo. É como se o pico só existisse para contrastar com a queda que se segue. E não é que decepcionei alguém, eu decepcionei a mim. Por não ser forte o suficiente, por não achar soluções, por aceitar e não agir na hora certa. Não entender que estava errado. Não enxergar como melhorar. Por não ter as respostas que as pessoas esperavam de mim. Eu falhei com tanta gente. Deixei tanta gente triste. Mas eu perdi a força e a vontade de fazer as coisas que me motivavam. Que me orgulhavam. Porque o sentimento é que é sempre em vão. Não tem louros, não tem reconhecimento, não tem impacto positivo nos outros. Minha cabeça, cada vez mais bagunçada. Tentar me entender, procurar ajuda, já é um grande passo. Mas é difícil demais. Eu vejo as pessoas de formas planas e binárias. Eu mesmo estou na quarta dimensão. Quanto mais eu me encaro, mais desesperado fico de não me entender. Geografia lovecraftiana. Eu me sinto sozinho mas sei que preciso conviver com isso. Eu me sinto carente mas sei que não é no outro que tenho que encontrar isso. Eu sei tudo o que eu não posso fazer, mas não consigo encontrar em lugar nenhum o que diabos eu devo fazer. Qual é o próximo passo? O que as pessoas fazem para se sentir bem? "O que Jesus fez enquanto esteve morto, porque meu problema tá durando mais do que um fim de semana? E vamos combinar um sinal então se não tiver mais solução, porque assim eu sei que é você é que acabou, então eu nem vou tentar." É impossível acreditar em qualquer coisa na decisão a situação. Karma é a pior delas. "Coisas boas acontecem com pessoas boas". Só posso afirmar que coisas acontecem com pessoas. Não existe justiça divina ou dos homens. É só a aleatoriedade das relações sociais, todo mundo jogando seus próprios dados. E você machuca alguém, mesmo com a melhor das intenções, aí você se isola e se machuca. A felicidade é só um instante entre a última vez que alguém se machucou e a próxima. E eu não aguento mais carregar a culpa que eu mesmo me coloquei. Não aguento mais machucar as pessoas. Mas eu sei que sozinho não consigo nada. Mal consigo passar a noite. São as contradições que tentam achar seu espaço na minha cabeça, sendo atacadas e punidas pela minha própria mente. Isso não é aceitável. Mas nada é meu por direito. Ninguém deve obrigação a mim. Cada um está buscando sua própria plenitude da maneira que acredita ser justa. Eu sou só uma frase, um parágrafo apenas. Quando muito um capítulo na vida das pessoas. Muitas vezes nada memorável. Me convenci da minha própria grandeza muito cedo, acreditei que era capaz de coisas relevantes. Mas esqueci da perspectiva e do outro. Pra alguns eu não sou nada, pra outros eu só sou um qualquer. Eu acreditei que era indispensável para alguns e só tomei no cu. Indispensável só si mesmo. Todo o resto é descartável, retornável, substituível. Eu só queria um propósito, algo que pareça minimamente que vai dar certo. Estar a deriva não tem sido melhor do que estar naufragado na praia. Eu só quero que esse ano acabe logo pra que, dentro desse ritual bobo de passagem de data, minha cabeça se dê a oportunidade de começar de novo. De fazer minhas coisas, de querer algo novamente e de não me sentir tão abandonado e sem propósito. Não aguento mais. Eu só quero acordar desse pesadelo.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Não é planeta.

As expedições chegaram mais longe do que imaginávamos, mas ainda faltava muito. A viagem, longa como todas as outras, variava entre a monotonia e momentos de extremo cuidado. Mas era essa a missão em que a equipe se inscreveu. Anos de treinamento para chegar cada vez mais longe. Com os planetas mais próximos já colonizados, aos poucos a humanidade alcançava novas regiões do universo em busca de recursos. O esgotamento da Terra foi natural e a evolução da tecnologia não avançou na medida que acreditávamos. A essa altura, já teríamos nos estabelecido em outro sistema. Mas a capacidade energética necessária para se mover de um ponto a outro do universo mostrou-se um desafio.
Os primeiros passos foram mais tranquilos e fáceis de estabelecer, mas as condições ainda estavam distante das ideais. Alcançar esse novo (e talvez último) ponto do sistema era crucial para seguir para a nova terra. A Terra Prometida, como os antigos religiosos acreditavam e convencionou-se chamar, primeiro por escárnio dos não-crentes, depois por necessidade em se apoiar em algo. E os tripulantes responsáveis por explorar essa nova região já sabiam que era um ponto sem retorno. Se não pelas dificuldades seria pelo tempo necessário de um ponto a outro. Uma viagem sem volta, como outros antes deles enfrentaram e sobreviveram. Como outros não tiveram a mesma sorte. Mas com o sentimento de seguir em frente, sempre. É o que cada um precisa, é o que a sociedade precisa.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Labirinto.

Existe uma técnica para sair de labirintos, infelizmente não existe uma pra entender o que eu sinto. A mão direita acompanha a parede do início até o final, indicando a entrada e a saída. O caminho é maior mas é seguro. Já minha mão direita só segura o peito com força como se minha dor autoinflingida fosse superar a dor interna. É como se eu soubesse o caminho mas o conhecimento não fosse exatamente a resposta certa. O instinto vai me levar para a saída, talvez não a saída que eu esperava, mas para fora. Mas como acessá-lo? Acostumado a ter o mapa na mão, é díficil demais continuar. Mas existe uma técnica, que deixa o caminho maior e mais seguro. Observo os outros e parece fácil, eles se perdem, encontram becos e voltam até achar outro caminho. Eventualmente a saída aparece. A naturalidade que se perdem e continuam me espanta. Como virar a próxima curva sem tentar entender o que vem depois?  Mas existe uma técnica. Existe uma técnica para sair do labirinto.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Cicatrizes.

Existe um certo charme no imperfeito
Na cicatriz, no desequilíbrio do defeito
O grão da foto, o leve desfoque
O sorriso torto, o abraço que
não encaixa direito.

Traz conforto ver no outro
Tudo que me culpa ver em mim

Sintomas escondidos sob a luz do camarim
Máscara que se usa todo dia no trabalho
Mas que no quarto abre guarda
Guarda sua insegurança, dança do meu lado
O frágil em você é o que precisa ser conservado.