domingo, 24 de dezembro de 2017

O pico.

A grande verdade é que eu odiei esse ano. Todas as retrospectivas, os convites para lembrar o que de bom aconteceu em 2017 me faziam chorar imediatamente. Não consigo. Termino esse ano com um gosto gigante de fracasso na boca. Da promessa inspirada em Belchior que fiz, dizendo que esse ano eu não morreria, e agora estou aqui a sete palmos do chão escrevendo essas palavras. O estado de piloto automático que entrei nos últimos meses convive com o constante alerta de perigo. Aceitei que perdi o controle mas morro de medo de onde isso tudo pode me levar. E eu acreditei demais, talvez por isso que doeu (e ainda dói) tanto. Acreditei que esse ano seria melhor, mais calmo, com mais resultados e finalmente abrindo caminho pra grandes mudanças. Mas o destino não está aqui pra satisfazer ninguém. Ele simplesmente acontece. Frustração talvez seja o nome dessa sessão que se encerra no próximo dia 31. Frustração de ver um futuro brilhante e naturalmente lógico simplesmente escorrer das mãos. Mas a expectativa só gera decepção mesmo. É como se o pico só existisse para contrastar com a queda que se segue. E não é que decepcionei alguém, eu decepcionei a mim. Por não ser forte o suficiente, por não achar soluções, por aceitar e não agir na hora certa. Não entender que estava errado. Não enxergar como melhorar. Por não ter as respostas que as pessoas esperavam de mim. Eu falhei com tanta gente. Deixei tanta gente triste. Mas eu perdi a força e a vontade de fazer as coisas que me motivavam. Que me orgulhavam. Porque o sentimento é que é sempre em vão. Não tem louros, não tem reconhecimento, não tem impacto positivo nos outros. Minha cabeça, cada vez mais bagunçada. Tentar me entender, procurar ajuda, já é um grande passo. Mas é difícil demais. Eu vejo as pessoas de formas planas e binárias. Eu mesmo estou na quarta dimensão. Quanto mais eu me encaro, mais desesperado fico de não me entender. Geografia lovecraftiana. Eu me sinto sozinho mas sei que preciso conviver com isso. Eu me sinto carente mas sei que não é no outro que tenho que encontrar isso. Eu sei tudo o que eu não posso fazer, mas não consigo encontrar em lugar nenhum o que diabos eu devo fazer. Qual é o próximo passo? O que as pessoas fazem para se sentir bem? "O que Jesus fez enquanto esteve morto, porque meu problema tá durando mais do que um fim de semana? E vamos combinar um sinal então se não tiver mais solução, porque assim eu sei que é você é que acabou, então eu nem vou tentar." É impossível acreditar em qualquer coisa na decisão a situação. Karma é a pior delas. "Coisas boas acontecem com pessoas boas". Só posso afirmar que coisas acontecem com pessoas. Não existe justiça divina ou dos homens. É só a aleatoriedade das relações sociais, todo mundo jogando seus próprios dados. E você machuca alguém, mesmo com a melhor das intenções, aí você se isola e se machuca. A felicidade é só um instante entre a última vez que alguém se machucou e a próxima. E eu não aguento mais carregar a culpa que eu mesmo me coloquei. Não aguento mais machucar as pessoas. Mas eu sei que sozinho não consigo nada. Mal consigo passar a noite. São as contradições que tentam achar seu espaço na minha cabeça, sendo atacadas e punidas pela minha própria mente. Isso não é aceitável. Mas nada é meu por direito. Ninguém deve obrigação a mim. Cada um está buscando sua própria plenitude da maneira que acredita ser justa. Eu sou só uma frase, um parágrafo apenas. Quando muito um capítulo na vida das pessoas. Muitas vezes nada memorável. Me convenci da minha própria grandeza muito cedo, acreditei que era capaz de coisas relevantes. Mas esqueci da perspectiva e do outro. Pra alguns eu não sou nada, pra outros eu só sou um qualquer. Eu acreditei que era indispensável para alguns e só tomei no cu. Indispensável só si mesmo. Todo o resto é descartável, retornável, substituível. Eu só queria um propósito, algo que pareça minimamente que vai dar certo. Estar a deriva não tem sido melhor do que estar naufragado na praia. Eu só quero que esse ano acabe logo pra que, dentro desse ritual bobo de passagem de data, minha cabeça se dê a oportunidade de começar de novo. De fazer minhas coisas, de querer algo novamente e de não me sentir tão abandonado e sem propósito. Não aguento mais. Eu só quero acordar desse pesadelo.

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