sexta-feira, 6 de março de 2020

Projeção.

Tenho me projetado nos outros. Nos amores dos outros, nos empregos dos outros, na mudança dos outros. Apoio e dou conselhos como se fossem os meus. Ajudo e guio no que posso, na experiência que o tempo me deu e na disposição que me sobra. Cada vitória do outro é uma pequena vitória minha, já que as minhas ainda não chegaram. Projeto minha solidão em todos aqueles que brevemente me estendem as mãos, dando gotas das conversas profundas que a distância me privou de ter. Não quero inundar ninguém com meu fluxo acumulado de pensamentos ou assustar quem só queria saber se tava tudo bem e ouvir um "sim". Porque por mais que muitos se mostrem dispostos, eles não conseguem suprir o que eu preciso, dar um ar mais natural pra que a conversa evolua, construir um ambiente propicio pro esclarecimento. Me contento com as migalhas de uma atenção dividida entre a panela no fogão, a série na tv e as contas pra pagar. Mas me projeto nessas pequenas interações enquanto não acho meu conforto novamente. Meu conforto social, meu conforto financeiro. Ao mesmo tempo, tendo o cuidado de não cair onde eu estava há dois anos atrás, exausto socialmente, tendo crises por me forçar a conversar com outras pessoas. Por outro lado, tudo anda bem, porque a cidade é incrível e o curso é muito mais do que eu queria. Só preciso me cuidar pra conseguir me manter aqui.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Aperto.

O curso tem sido incrível, muito melhor do que eu esperava. O nível dos professores é algo que eu nunca vi em lugar nenhum no Brasil. Profissionais com experiência nos grandes mercados de cinema, muito conhecimento e disposição pra ensinar o que viveram. As matérias, que tem um aspecto prático em sua maioria, são bem diretas e sempre voltadas para a formação de profissionais da indústria do Cinema. É muito maior do que qualquer coisa que eu já produzi, de equipe, equipamento, qualidade técnica, etc. Alguns professores ainda se apoiam na TV e no Cinema como patamar de qualidade, sem entender direito que as formas de consumo mudaram e, consequentemene, a forma de se produzir também. A maior parte do conteúdo audiovisual consumido hoje é em pequenas telas e fora de casa, não existe a necessidade de produções gigantes se o conteúdo for relevante. Mas isso não diminui também a importância de aprender a lidar com essa outra indústria. O aprendizado tem sido gigante e com um potencial ainda maior para as próximas semanas. A cidade não me incomoda tanto, apesar de muito diferente de onde eu morava, e da língua não ser minha nativa, existe muitos lugares diferentes pra ir, muitas experiências novas, e todos, nativos ou não, sempre muito dispostos a entender e se comunicar. A solidão bate bem forte às vezes, pela falta de alguém pra conversar sobre os dramas da vida, as amenidades. A falta da Larissa e dos meus amigos. Vê-los de longe continuando suas vidas é muito doloroso, sabendo que eles estão olhando pra mim e pensando o mesmo. As festas, os aniversários, os rolês em casa, as dificuldades, os momentos de fraqueza, tudo acontecendo isolado de mim, assim como eu estou vivendo meus próprios dramas e eventos por aqui. Estar sozinho ainda dói demais. Acho que não tratei isso o suficiente na terapia, apesar de hoje lidar bem melhor do que há dois anos. Morar com brasileiros tem tornado o processo mais fácil, especialmente a host e meu roommate, muito tranquilos de lidar e sociáveis. Mas hoje, o que tem me derrubado mesmo, é a questão do emprego. Estou completando meu quarto mês sem trabalho, primeiro mês na Austrália. Tenho enviado currículos todos os dias, conversado com desconhecidos na esperança deles terem algum contato ou algo assim, mas nada. Sei que é uma indústria ruim a que eu quero entrar, eu mesmo nunca contrataria alguém sem alguma referência vindo de uma pessoa que eu confie muito, mas é difícil. Mostro meus trabalhos pras pessoas e a resposta que tenho é como ainda não me contrataram, mas os profissionais da área não se deram ao trabalho de vê-lo ainda. Preciso urgentemente de um intermediador que não achei ainda. Enquanto isso, cada pequeno gasto (nunca foram tão pequenos), cada semana que preciso transferir mais dinheiro do Brasil pra me manter aqui, é uma facada no coração. Eu que cresci sem dinheiro algum, que quase tudo que conquistei veio de um esforço direto do meu próprio trabalho, sempre acabei nessa paranóia de não ser o suficiente, de não poder consumir as coisas boas por não serem pra mim. Mesmo entender que estou aqui na Austrália é um grande passo em pensar se mereço ou não essa posição. Daí a falta de uma fonte de renda pesa demais. Não me sinto confortável de gastar 5 dólares num almoço pelo medo de que me vai faltar depois. Daí vem gastos inevitáveis como aluguel, taxas de licença que preciso para trabalhar, etc. Converso com professores, nativos, brasileiros, ninguém tem uma solução boa. Enquanto isso me mantenho diariamente mandando currículos, adicionando pessoas, forçando conversas, que, se não servem pra nada, pelo menos acalma meu peito por estar tentando algo.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Chuva diária.

Tenho chorado todos os dias a tarde desde que começaram as chuvas. Chorado de saudade, chorado de solidão, frustração, insegurança. Chorado de não ter conseguido ainda um emprego, de não conseguir tirar a licença que eu preciso pra trabalhar. Chorado de ver as pessoas que eu amo do outro lado do mundo sofrendo e eu não podendo fazer nada. Inclusive as vezes eu mesmo sendo a causa desse sofrimento. Choro quando penso que a abandonei eles talvez quando mais precisavam. Choro de não poder diminuir e consolar a dor nos momentos difíceis. De não estar disponível para conversar e, mesmo que não ache uma solução, de pelo menos compartilhar e refletir sobre. A casa nova me ajuda um pouco, eles são bem mais amigáveis e sociáveis, já conversei com mais gente em três dias do que nos outros dez que estive nessa cidade. Eles parecem se importar e se esforçar. Mas quem eu sou nisso tudo? Qual o caminho que eu quero seguir? Eu não sei como vou me manter financeiramente, as experiências dos outros não me animaram muito com minhas possibilidades. Não sei se em um ano, quando e se eu voltar, vai ter alguém me esperando. Seja por não estar mais lá ou por não se importarem mais. Eu tinha tudo e precisei ir embora por não conseguir continuar lá. Por não me sentir capaz de segurar a barra que eu segurava. Agora estou aqui e triste por não estar lá fazendo o quê eu conseguia fazer. E aí acaba comigo, ver todo mundo triste, sofrendo e eu aqui triste e sofrendo. Muito alto o preço que eu paguei, muito alto. Eu preciso estar bem, preciso me resolver aqui pra que tudo isso valha a pena. Esse é meu medo, de olhar pra trás e ver que o preço foi alto demais. Que o que eu ganhei, se é que ganho algo, não e nada comparado ao que eu perdi. E eu perdi muito e sou lembrado o tempo todo disso. Cada segundo eu penso sobre as coisas que eu estou perdendo e perco cada vez mais. E nada de ganhar. Só dor e tristeza acumulada até agora. Sei que tem muito pela frente, que eu não posso ter a urgência de resolver as coisas com tão pouco tempo. Mas a dor não tem esperado e tá doendo demais.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Buraco na Tarde.

Esse horário entre 14 e 18 horas é um buraco negro no meu dia. Um vazio gigante de conteúdo e contato. É o horário em que todas as pessoas que eu conheço (que estão no Brasil) dormem o sono dos justos, com seus pesadelos, inquietudes, sonhos e metas. É o horário que um puxa a coberta do outro ou que inconscientemente abraça mais apertado por uns instantes pra saber que está tudo bem. E eu do outro lado do mundo, me isolo da casa que desconheço e finjo estar lá com eles. Começou a chover agora e me sinto um personagem de filme qualquer, escrevendo em seu computador na sala de uma casa que não é a dele enquanto pensa como gostaria de estar em outro lugar. Porque a viagem tem seu propósito, "terminar seu livro" nessa versão ficcional de mim mesmo, mas isso não diminui a dor do processo. Quando todos dormem por aí, é o momento que ninguém mais me responde nas conversas, quando param de atualizar as redes sociais, quando deixam de reagir às minhas coisas. É o momento de isolamento total que eu fugi por tanto tempo e que vou ter que encarar por alguns meses até eu internalizar realmente minha mudança. Porque dói de um jeito diferente, a vontade de chorar não vem com um consolo viável: é isso mesmo, tem que chorar mesmo, não tem o que fazer. Tento ocupar minha cabeça com coisas pra fazer, o que geralmente funciona no resto do dia, mas agora, nesse buraco da tarde, só me deixa mais desesperado. Até quando isso vai durar? Até eu desistir e voltar? Até o processo atual acabar? Até eu me acostumar com cada novo processo e entender que não estou mais lá? Sem trabalho, sem amigos, sem propósito, o preço continua alto demais, a solidão e o silêncio continuam doendo demais. Mesmo durante o resto do dia, todos parecem estar sofrendo da mesma dor sem resposta e sem solução que eu, mas pelo menos nesses horários estamos sofrendo juntos. Posso focar meu esforço em diminuir a dor do outro, consequentemente diminuindo a minha. Agora, no entando, sou só eu, minha dor e a chuva que insiste em tornar o momento ainda mais triste.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Dor que coexiste.

A grande verdade é que eu não me sinto na Austrália. Tipo, a impressão que eu tenho estando aqui é como se eu estivesse em Belo Horizonte resolvendo uma inconveniência que fosse me segurar por um pouco mais de tempo mas em uma ou duas semanas eu estivesse de volta. Tipo, depois que passa um dia ou dois que eu enfrentei a maratona de aeroportos, o efeito não é diferente de passar 15 horas em um ônibus. O desconforto da língua também não difere muito da minha dificuldade inicial de interagir com desconhecidos normalmente. Mais uma vez como se isso tudo fosse só um rolê diferente, como já foi em SP ou em BH. Algo passageiro e pontual e que em breve eu estarei de volta às pessoas que eu amo. Eu não sei o que é viver diferente disso e, depois de um ano me perguntando se estava em negação durante o processo me pergunto de novo se ainda estou em negação do outro lado do mundo. As coisas estão caminhando bem, se resolvendo mais fácil e mais rápido do que eu imaginei. Ainda falta o emprego, ainda estou inseguro com dinheiro. Mas fora isso tá tudo bem. Meus amigos, mais uma vez, ainda sinto como se eu fosse voltar em algumas semanas. Não sinto que será um ano ou mais, não sinto que vou ter que fazer novos amigos pra não ficar sozinhos aqui. O que mais me derruba é a Larissa, que apesar de ter sido fundamental durante todo o processo da minha saída do país, consequentemente se tornou também meu maior ponto fraco. Pensar na distância dela, nos caminhos que vamos ter que tomar daqui pra frente, na mudança dela pra onde ela queria estar, na eventualidade de termos que seguir em frente sem um ao outro, na esperança de nós encontramos depois e isso tudo fazer sentido. Era isso que me fazia chorar em Goiânia e é isso que me faz chorar aqui. Porque é como se vc ganhasse na loteria, tivesse dinheiro ilimitado pra gastar, mas tivesse também um prazo final pra gastar esse dinheiro. E eu sempre comentei como esse prazo nos fez ter uma visão diferente do que é se relacionar. Nos ver ter carinho e empatia pelo processo do outro, respeito pelos limites, apoio e amor. A gente foi (é?) sortudo demais de ter vivido isso. Coisa que a gente nem ouvia falar ou sonhava, de repente se fez possível em um relacionamento onde os dois lados estavam dispostos a falar e escutar. E é isso que me derruba, como algo tão bom pode nos levar a caminhos separados? Como se, caso fôssemos piores namorados um ao outro, ainda estaríamos juntos. Com pequenas sabotagens e chantagens que fariam o outro ceder, mudar de ideia, abrir mão. Não foi o caso, a gente apoiou ao ponto de sangrar a própria carne e estarmos os dois feridos profundamente com a distância, mas no caminho que julgamos ser o melhor. Mas dói demais. Não ter uma briga, não ter um desentendimentos ou chateação pra nos apoiar na separação. Esse último mês foi perfeito de maneiras que eu nem achava ser possível. Ela ajudou a manter minha cabeça boa, ir nos lugares que eu tinha que ir, encontrar que eu tinha que encontrar. Mas era em casa que a gente chorava, sem conseguir consolar um ao outro. De novo e de novo. Sem ter uma palavra de apoio ou esperança que não reforçasse ainda mais a dor da separação. Eu posso estar vivendo aqui o passo mais importante da minha vida, ou estar num mundo fantasioso onde as coisas nem estão acontecendo. Mas esse pedaço ali que coexiste no cérebro e no coração sabe, e dói demais, e dói não do jeito que cura depois, mas do jeito que você acostuma com a dor lá, o tempo todo. Porque tem coisa que não tem como superar, você só convive com o sentimento pra sempre e chora quando tiver que chorar.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A árvore.

Desde que ela se mudou da cidade que morava, era a primeira vez que não ia conseguir passar o Natal por lá. O emprego estava uma bagunça, ela não andava bem, tinha faltado uns dias onde simplesmente não conseguia se levantar da cama e, foi informada um pouco em cima da hora de que ia precisar trabalhar na véspera de Natal. Essa época sempre foi muito delicada para ela. Mesmo antes de se mudar, era um momento muito emotivo, quase uma trégua de sua família que vivia brigando e um esforço conjunto para manter uma imagem de união ao menos para as crianças mais novas. Não tinham muito dinheiro, e a cidadezinha não oferecia grandes opções de presente, mas sempre faziam questão de comprar uma lembrancinha ou outro para todos. As crianças ganhavam os melhores presentes, os jovens ganhavam livros e cadernos e os adultos dividiam uma garrafa de vinho e se lembravam de histórias antigas. O Natal era a trégua das brigas. Quando ela ficou adulta, a realidade começou a bater pesado. Primeiro veio a transição dos presentes, depois a entender a dinâmica da própria família. Muito mais voltada na hipocrisia e no respeito à matriarca da família do que realmente um momento de paz. Mas ainda assim, foi com o que ela foi criada e se ver tirada dessa tradição familiar foi dolorido e inesperado. Foi na confusão das últimas semanas que ela levou sem querer para casa um enfeite de Natal que o RH da empresa tinha colocado próximo à sua mesa. Chegou em casa e se deparou com aquela estrela dourada jogada na mesa. Sem pensar muito, colocou pendurada no fecho da janela e ficou olhando a luz de fora refletindo no papel dourado. No outro dia, saindo do restaurante onde almoçava todos os dias, entrou em um mercadinho que sempre parava para comprar um chocolate. Já no caixa, viu ao lado uma caixinha amassada com luzes quebradas de Natal. Observar aquela caixa foi como se ver no espelho, um objeto abandonado e despido de espírito natalino. Perguntou para o atendente quanto custava que, quase como um pequeno ato rebelde contra o capitalismo, deu de ombros e colocou a caixa junto na sacola do chocolate. Ela passou a tarde toda pensando nisso. Chegou em casa, jogou sua mochila no sofá e foi direto para a janela instalar as luzes meio falhas. Organizou-as no formato de uma árvore e realocou a estrela dourada no topo. A manhã seguinte no trabalho foi agitada: procurando referências no Pinterest, ela achou uma neozelandesa que usou pequenas fotos para decorar a própria árvore em vez de bolinhas coloridas. Aproveitando a ausência de sua gerente, ela escolheu fotos suas, dos seus antigos amigos, do seu cachorrinho que ainda estava na casa de seus pais, dos personagens de um filme que ela gostava, e imprimiu pequenas versões que foram mais tarde cuidadosamente coladas com durex em sua janela, onde uma árvore improvisada brilhava. Satisfeita com sua obra de arte, ela encarou por olhas tentando julgar o que faltava, enquanto tocava uma playlist de Natal em seu Spotify. Presentes! Era isso que faltava. Mas ela não tinha para quem dar esses presentes, muito menos dinheiro para presentear qualquer um. Os poucos amigos que ela mantinha na cidade não pareciam próximos o suficiente para ser presenteados, mas tinha alguém que ela conhecia muito e sem dúvida ia amar tudo que ela escolhesse: ela mesma! No sábado seguinte, ela acordou cedo, separou o dinheiro que ela usaria nas passagens de ônibus que não seriam mais usadas e foi para o shopping na intenção de comprar o máximo de coisas possíveis. Comprou um livro que queria ler há tempos, comprou pulseiras coloridas, comprou uma caneca comemorativa de Natal e, por fim, comprou o vinho com a garrafa mais bonita até 30 reais que ela achou. Tudo devidamente embrulhado e com uma etiquetinha "de:/para:". Os próximos dias no trabalho passaram voando, ela fazia sua função da maneira mais eficiente possível para usar o resto do tempo para planejar sua festa de Natal. E foi assim que sua casa ganhou plantas novas para fazerem companhia, um Papai Noel de pelúcia pendurado na árvore, uma assadeira nova e um pernil ocupando 80% da sua geladeira. Dia 24 de dezembro, 18h00, ela saiu correndo do trabalho para casa. Colocou o forno para esquentar e foi tomar banho. Se arrumou toda, cada detalhe do vestido à maquiagem. Preparou a mesa para a ceia, iluminadas apenas com velinhas vermelhas e a luz da árvore improvisada na janela. Abriu seu vinho e serviu na sua caneca nova. Tirou o pernil do forno, percebendo que ainda estava cru. Sem hesitar, serviu-se do resto de comida de outro dia na geladeira, colocou no microondas e sentou em seu sofá com a taça de vinho na mão, observando sua obra de arte na janela. Aumentou o volume da sua playlist e não desejou estar em nenhum outro lugar do mundo.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O presente.

Ele tinha comprado um presente mas há anos não acertava. Lembrava que antigamente era o mestre nos presentes criativos e surpreendentes, depois de uma série de erros e menosprezos, presentear virou um bloqueio criativo. Assim, cada ida ao shopping ou um passeio nas lojas virtuais próximo a datas comemorativas, virava um pesadelo e uma crise de ansiedade. Nessa indecisão e insegurança, muitas vezes quando achava algo já era tarde demais, não seria entregue a tempo ou custava muito mais do que o orçamento permitia. Mas desse vez ele iria acertar, sem dúvida. Viu um colar com uma pedra roxa muito viva, parecido com outros colares que ela já usava e da mesma cor de muitos dos seus vestidos. Aproveitou a promoção de Natal e comprou na hora. Colocou no bolso da frente da calça para não perder e checava de tempos em tempos se o volume continuava ali. A viagem no metrô rumo a casa dela durava mais do que nunca, e o vagão lotado começava a esquentar de calor. A cada esbarrão de um trabalhador, ele checava novamente o embrulho no bolso. Tudo continuava na sua tranquilidade. Ele desceu uma estação antes de onde costumava descer, disposto a comprar o sorvete preferido dela numa padaria que ficava no caminho, iria andar alguns quarteirões a mais mas com certeza seria recompensado com a reação que ela teria ao receber tudo. Andando em direção a padaria, ele pensou o quanto ele se sentia bem com aquilo tudo, o quanto fazer alguém feliz o deixava feliz, mesmo que nos pequenos gestos. O dia começava a escurecer, o que o fez lembrar que não tinha avisado que estava indo. Tirou o celular do bolso e começou a digitar uma mensagem para avisar sua localização. Entrou na padaria, conferiu o horário e sentou, esperando a resposta de sua última mensagem. Com um emoji de coração e um gif animado, ela respondeu que estava a sua espera. Na padaria mesmo cogitou se levava um vinho para acompanhá-los durante a noite mas, em plena terça-feira onde ela trabalharia cedo no dia seguinte, chegou a conclusão de que o sorvete seria suficiente. Pegou o sorvete mais atrás na geladeira, uma técnica que aprendeu com o amigo que dizia que era lá que guardavam os sorvetes mais novos e mais gelados, e foi até o caixa pagar. Como tinha uns trocados, resolveu aproveitar o espírito de Natal para doar umas moedinhas pra caixinha de funcionários e continuou seu caminho rumo a casa dela. Com o celular na mão, colocou uma música para embalar seu percurso e andou como se num clipe musical. Foi em frente ao prédio de 15 andares onde ela morava desde os 16 que ele apertou o 802 para anunciar sua chegada. O portão abriu sem falar nada e ele bateu a mão no bolso uma última vez para conferir o presente que não estava mais lá.