terça-feira, 18 de julho de 2017

Trança.

A coluna arqueada revela
Mais sobre mim do que sobre ela
A unha na pele marcada
Cicatriz da noite passada
Perco o fôlego e a voz
Deixei de ser eu, passei a ser nós
Meu corpo pulsa, o seu treme
A vida navega, eu sou seu leme
Tormenta e calmaria em quinze minutos
O tempo para quando estamos juntos
O coração à deriva encontra o porto
Mar morto revive, flutua em conforto
Ofegante abraço finaliza a dança
Rosto colado, pernas em trança
Um último suspiro confirma o fim
Foi bom pra você? Foi lindo pra mim.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Mil graus.

O suor no corpo não disfarça
A cabeça quente embaraça
A decisão de quem diz que não.
E entre berros e apontamentos
Dedos deslizam sobre o copo
Vapor como em gelo seco
De um whisky que nunca foi cowboy
E se a gravata afrouxa no calor do momento
A ciência nega em descontento
Olham-se em desespero
Ricos rindo do futuro, sem medo.
A ignorância derrete a esperança,
As crianças brincam com o tempo
Pouco tempo que ainda resta.

Galo velho, sofredor.

Do alto da cerca o galo canta
Com a pouca força que o resta
No resto do dia ele descansa
Vivendo a vida de quem não tem pressa

O galo manca velho e fraco
Crente que não dá mais conta
Mas se outro galo canta no pedaço
Um estardalhaço ele apronta

E pra quem espera sua morte
Ansioso por uma bela canja
Sinto mas não está com sorte

Porque quando o dia nasce ele levanta
Iliuminado pela luz laranja
E de novo, do alto da cerca, ele canta.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O bobo não leva a culpa.

O lobo em pele de cordeiro
Passava tanto tempo camuflado
Que quando questionado
Se era carneiro ou se era lobo
Se fazia de bobo ou se confundia.
É que repetindo para si todo dia
Na hora de deitar no travesseiro
Com o tempo ele foi esquecendo
Se era lobo ou se era carneiro

Mas a mãe natureza é mais forte
E se por azar ou por sorte
Um colega se feria
E o cheiro de carne invadia suas narinas,
O ataque era brutal. 

Mas logo em seguida limpava sua lã
E se questionado por suas irmãs
A consciência nem pesava
Pois como alguém culpava
Um frágil cordeiro, pobre animal.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Um novo dia.

Se todo sonho
envolver perdas e ganhos
Qual o tamanho
do esforço que você
está disposto a assumir?
Rir de si mesmo
deixa a vida mais leve
mesmo que isso leve
Um tempo longo pra aprender.
As cicatrizes dóem
Como memórias que corróem
Sua mente mesmo que tente
esquecer.
E a felicidade é passageira,
pequenos momentos
de uma vida inteira.
Sentimentos de poder.
Poder chegar mais longe,
Sol que nenhum horizonte
Teve a honra de conhecer.
E se todo dia mais inerte
Você se perde na rotina,
O trabalho é a guilhotina
O dinheiro o carrasco.
O frasco vazio no criado mudo
O vento frio de assobio agudo
E a garantia que no final de tudo
Um novo dia vai nascer.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Conversas vazias.

Conversas repetidas, vazias sem nexo
Disfarçam o complexo medo de estar só
E se a distração do momento vale ouro
É triste ver todo esse tesouro virar pó
O eco na cabeça das palavras ditas
Automaticamente respondidas no impulso
Tiram a atenção da apatia e falta de pulso
Da indiferença de estar ali.

Mas em algum momento o corpo cede,
A mente pede por mais consistência
E se até a consciência pede ajuda,
Quem é que escuta o chamado final?

Se isola no silêncio, num quarto imenso de vazio
E se sozinho sente frio, esquenta o peito,
Dá-se um jeito de sobreviver.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Vizinhos.

A mão desliza sobre a blusa
Usa-me, ela diz, lê-se na sua boca
Peças caem sobre o chão
Corpos caem no colchão
O controle aumenta o som
pra disfarçar a movimentação
Os vizinhos não merecem
Mas invejam de saber
Cada rangido da cama
Cada grito de prazer
Lá em cima, dissociam
Se saciam entre medos
Língua, pele, toque, dedo 
Tocam-se em perfeita harmonia
A sinfonia em dueto
Toma o cômodo como um todo
E os dois se unem em contração
Ambos corpos em ação