segunda-feira, 29 de junho de 2020

Domo.

Veste teu pronome preferido
Marca a barra do vestido
Como quem escreve em árvore
Ou esculpe em mármore
O rosto de dois amantes

Deixa teu padrão em casa
Se permita ser um novo você
Sai na janela e expande sua asa
Alçando vôos sem brevê
Não importa o que veio antes

Quando você se torna o que se é
É mais fácil ver o que não somos
O sapato de cristal entra no pé
Você sai da proteção do domo
Pois se sentia pequeno mas está gigante

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Você não é meu mundo.

Você não é meu mundo
A casa que eu moro
A cama que eu durmo
A lágrima que eu choro
Você não é o que eu visto
E o que eu falo pros outros
Prêmios que conquisto
Comida que eu como
Você também não é
A história que eu conto
A memória que volta
O rosto que desaponto
O momento de revolta

Você é o universo
O próprio tecido da realidade
O tempo além da idade
O poema além do verso
Você é a mecânica dos átomos 
O choque do elétrons
A realidade quântica
De que tanta gente tem medo
Você é o próprio toque
O impulso gerado
No olho, o desfoque
No tempo marcado

E eu sou só o ponto
Distante referencial
Do movimento constante
Sou ponto final.

domingo, 31 de maio de 2020

Eu não sirvo pra nada.

Tem dia que é mais pesado mesmo. Tem dia que as notícias são mais do que a gente consegue aguentar. Que eu engasgo quando minha vó pergunta se eu tô bem e eu só respiro fundo pra dizer que as coisas aqui estão mais tranquilas que lá, que o povo não tá doente, que a economia está voltando mesmo que eu ainda não tenha achado meu lugar. Mas o mundo tá doente em um nível esquisito. Onde a única resposta válida é realmente colocar fogo em prédio e lutar contra a polícia. Uma luta que eu não consigo lutar. Uma luta que mata só por existir. Lembro quando a Marielle foi assassinada, uma ou duas horas antes da minha terapia. Eu cheguei lá e não conseguia falar mais sobre meus problemas, meus traumas. Porque nada parecia relevante diante da realidade do mundo escroto que me foi escancarada. E isso tudo do alto do meu privilégio de homem, hétero, classe média e branco (nos padrões brasileiros pelo menos). É um tiro que atravessa e estoura a bolha que a gente vive, como outros deveriam fazer sempre. E ali eu percebi que eu não consigo suportar demais, eu preciso entender meus limites. Porque tem muita coisa que está fora do meu alcance e, por mais injusto que isso seja com quem morre, eu preciso continuar vivendo. "Não adianta sobreviver à pandemia se você ficar maluco", tem sido meu mantra e conselhos nos últimos meses, mas tem dia que não tem como. É difícil demais ter que explicar pra alguém que a gente precisa se importar com o outro. Empatia é uma parada que não se ensina, só se demonstra e torce pelo melhor. Eu só posso ajudar quem eu alcanço e, eu juro, que eu tento meu melhor para ajudar o quanto eu posso. Mas hoje é um daqueles dias que eu preciso aceitar que eu não consigo. Que eu não posso acompanhar notícias, não posso me preocupar, porque me destrói. E se eu não me manter são, eu não consigo me ajudar nem ajudar os outros e daí eu não sirvo pra nada.

domingo, 24 de maio de 2020

Combinação.

Se a gente combina tanto desse jeito
Por que a gente não combina de se ver?
Pega o avião que eu vou no primeiro trem
E a gente se encontra no meio

Meio que de improviso, seguro o riso pra não dar na cara
Que por você eu atravessaria a pé o deserto do Saara
O que é um oceano do tamanho do mundo
Pra quem, em um segundo, faz tudo valer a pena?

Pena de quem nunca se sentiu assim.
Pra mim, eu espero o que for preciso
Me diz o que você quer que eu também te digo
Se a gente combina tanto, meu bem,
Por que voce não está comigo?

sábado, 16 de maio de 2020

Círculos.

Que mundo louco para se acordar. 
Até outro dia meu mundo era outro.
Um mundo de pé no chão e portas abertas
Onde o único desconforto era estar parado.
Mas aí eu tentei voar e acabei em uma gaiola.
Pobre passarinho, mal pode ir na janela.

Logo ele se acostuma com suas migalhas.
O tempo passa em círculo 
e é difícil concentrar quando não se está em casa.
Porque nem dentro de casa as coisas parecem seguras

Tento cozinhar para me manter ativo.
Sei o que fazer pra me manter vivo.
Minha cabeça se perde, focada, no processo:
Comer, dormir, quando der, tomar sol.
Repetir de novo e de novo.
Até onde eu consigo?

A gente se conecta como pode
Mas sabe que, lá atrás, a gente já se desconectou.

Nada me tira da cabeça a hora errada de tudo
Péssima hora para o fim do mundo
Quando não tem uma mão ao seu alcance para segurar
São muros invisíveis que me proíbem de sair.
De voltar, nem sei.

Me faltam palavras, mas me sobra tela em branco
Que em vez de inspirarem, cria mais vazio.

Então eu fujo pra onde posso.
Um mundo de fantasia ou uma história que me acolha.
Me alimento de esperança mas me lembra que a essa hora
eram minhas histórias que deveriam estar sendo contadas
Quantos romances, quantas aventuras,
Quantas comédias e dramas esses tempos me privaram?
Mas minhas batalhas são diárias
E continuar já é uma vitória.

Quando durmo, não sonho com um amanhã melhor,
apenas espero mais um amanhã.
Os dias passam mas o futuro não chega.
Quem sabe quando tudo isso passar.
Quem sabe quando tudo isso vai passar?

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Ajuda.

Vejo sua mão esticada oferecendo ajuda
Mas quando tento alcancá-la sua feição muda
O sorriso se fecha
Seu olhar se perde
Meu corpo cede e se deixa ir

Levado pelo mar pra cada vez mais longe
Sem forças pra nadar e sem saber pra onde
Você virá um borrão
Um detalhe, uma lembrança
Uma dança que eu não soube

À deriva, novamente, mar por todos os lados
A água fria e o sol quente, em equilíbrio forçado
Quanto tempo eu tenho
Pra lembrar da gente
Até eu me perder completamente

Na escuridão, meu corpo desliga
Um brinquedo que acabou a pilha
E afunda pesado no oceano
Se perguntando
Se era mesmo esse o plano

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Muros.

As paredes não me dão mais senso
Se perderam entre o momento e o começo
Faz tanto tempo que não saio de mim
Que duvido que eu deixe de ser assim
Repito os padrões agora em jaula
As mesmas lições nas mesmas aulas
A mesma comida servida sozinha
As mesmas louças se acumulam na pia
Tento ao menos me sentir produtivo
Basear quem eu sou em um flash criativo
Conto para os outros como se fosse vantagem
Tentando me convencer que não perdi a viagem

Mas sem passagem de volta, 
Sem lugar pra voltar
Sem ânimo de revolta
Sem causa pra lutar

Quem eu sou quando estou preso
E quando me tiram o futuro?
Quem eu sou quando o presente
Me prende dentro de um muros?