terça-feira, 19 de novembro de 2019

Conto.

Quando se conta uma boa história
As pessoas sempre querem mais
Elas esperam pelas derrotas e vitórias
Anseiam pela guerra e pela paz

E cada capítulo que passa,
Que traz mais daquele mundo,
Traz pro real muito mais graça
Deixa seu sentimento mais profundo

Então não tenha medo de continuar
Porque o final pode ser só um ponto
Que alguém colocou sem querer

Se uma vírgula entrar no lugar
Abre espaço para um novo conto
Seu leitor vai agradecer

Chegada.

Vem, beija a vó
Pede bença que chegou
Pergunta como foi
e porque que demorou
Bebe água
Lava a mão
Já comeu?
Diz que não
E as coisas
como estão?
O que que conta?
E a escola?
As namoradas?
E o clima, como tá
Tem chovido
Sem parar?
Continua,
como sempre,
Tempo seco
Clima quente
Deita um pouco
Viagem longa
Toma banho
Trouca de roupa
Vai ter língua
Pro almoço
Frango cozido
Rói o osso
Lava o prato
Enxuga e guarda
A sobremesa
Na bancada
À tarde bate
Um sono leve
O sol esquenta
A minha pele
O dia cai
Com meus olhos
Acordo logo
E reaprumo
Vejo a novela
Palavras cruzadas
Conversas cruzadas
Janta, lava, deita
Bom dia a todos
Lê o jornal
Lava o rosto
Pão de doce ou sal
Uma fatia de queijo
Outra fatia
Só mais uma
E mais uma fatia
Volta pra sala
Escolhe um livro
Tenta não dormir
Desce pro mercado
Revê amigos
Lojas, produtos
Vai ao shopping
Compra presentes
Volta pro almoço
Pra não perder carona
Todos comem
Falam dos outros
Arrumam cozinha
Deitam de novo
Pra mais tarde
Comer, conversar
Em frente a tv
Se arrumar 
E dormir novamente
Siga assim
Até chegar o dia

De voltar

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Casa.

Vamos construir uma casa
Que caiba todos nossos planos
Caiba os filhos e seus filhos
Dê um teto e dure anos

Que os discos e os livros
Não se cansem de tocar
Onde todos se reúnam
Sempre à mesa de jantar

Que as diferenças se resolvam
Em palavras, não em punhos
Que o perdão seja o rumo
E o coração seja mais puro

Que os muros tenham portas
E que as deixem abertas
Que ventilem as janelas
Que importa se lá chove
Molha o chão mas traz a calma
Que descansa pós-domingo
Recolhe a roupa e lava a alma

E como pedra, ela dura
Mira longe, acerta em cheio
Cada muro e sua textura
E o amor em seu recheio

domingo, 10 de novembro de 2019

Fantasia.

Me disfarço de adulto
Como quem se veste de palhaço
Faço os movimentos certos
Com os sorrisos e os passos
Ser adulto é nada mais
Que fingir até colar
Até ser tarde demais
E não dar mais pra voltar
Por isso brincar é essencial
Ver brilho onde não tem
Entrar em nave espacial
Conversar com o além
Ver a vida em aventuras
Sob cachoeiras e outras matas
Fingir ter medo de altura
Enquanto ajeita sua gravata

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Carne e Osso*.

Meu passado bate em ondas
Destruindo muitas rochas
Todo leão vira rato
Se perde muitas apostas

Também vi seu sofrimento
Apoiado em sua fé
Se não sou seu inimigo
Não sei quem é

Pois afinal, lá no fundo
Somos só de carne e osso
Somos imagens no espelho
Cada um para um lado oposto
Dentro de si, fora de nós e sem razão

Que deixa uma cicatriz
Me castiga e me machuca
Me ensina a ser humilde
E não deixa que eu retruca

E quando eu paro pra pensar
Meu orgulho é meu dilema
Pois preciso aceitar
que eu sou parte do problema

Pois afinal, lá no fundo
Somos só de carne e osso
Somos imagens no espelho
Cada um para um lado oposto
Dentro de si, fora de nós e sem razão

A gente volta onde parou
Protegendo a visão
Dos cacos de uma nova vida
Espalhados pelo chão

Viver pra trás é muito errado
Num mundo só de pecados
Todos merecem ser perdoados
É nossa chance de mudar

Pois afinal, lá no fundo
Somos só de carne e osso
Somos imagens no espelho
Cada um para um lado oposto
Dentro de si, fora de nós e sem razão

*Tradução livre da música "Guts n'Teeth", de Old Man Markley.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Solidão.

Me peguei pensando em tudo que eu já fiz para não estar sozinho. Aprendi a conversar e a tratar as pessoas bem. Virei líder quando precisei e soldado quando foi pedido. Aprendi a tomar decisões por todos e a seguir quando necessário. Aprendi a ser divertido, interessante, com muitas curiosidades e histórias sobre coisas que nem mesmo eu sabia o que são. Tentei ser bonito, agradavelmente simpático, mais ou menos bem vestido. Sorrir é uma grande chave, pras pessoas entenderem que você está feliz de estar ali, ou de falar com elas. E estive. Até que não estive mais. Teve aquele momento que estar cercado de pessoas me fazia me sentir ainda mais sozinho. Sem me ver nelas, me comparar, me inspirar. Olhava em volta e me sentia sufocado e isolado ao mesmo tempo, e isso foi difícil demais. E aí voltei praqueles que me traziam conforto, até entender que nem sempre quem está ao seu lado te faz companhia. E fui obrigado a estar sozinho de novo e foi desesperador. Preencher meu tempo e a cabeça sem o outro, fazer minhas coisas, cumprir meus objetivos sozinho. Tudo parecia longe demais e difícil demais. Foi na terapia que aprendi a observar essas coisas que me davam medo em estar sozinho, e em também observar o que eu fazia pra não lidar com isso. Mas só entendendo o porquê de me incomodar que eu realmente me vi livre. Primeiro, me obriguei a andar sem rumo, só comigo mesmo. Depois entendi minha individualidade mesmo nos grupos que eu participava, e entendi que estava tudo bem em às vezes dar um passo para o lado para poder viver as coisas de maneira mais plena. E de passo em passo, percebi que posso ir para longe, o mais longe possível inclusive. Mas ainda tenho medo, de quando chegar lá eu perceber que não sou tão forte, que a solidão ainda pode me derrubar e não ter nenhuma base para apoiar. Eu conheço minhas armas, sei que posso usá-las, mas bate o receio de novamente eu me perder sobre elas. Desde já eu penso sobre o que fazer quando eu estiver realmente sozinho. E isso vai acontecer muito em breve.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Trinta.

Estou espantado como os 30 anos estão chegando de maneiro confortável pra mim. Lembro que senti bem meus vinte anos, muito mais que os 18, falando sobre a mudança que realmente aconteceu pra mim. Queria achar esse texto. Agora estou aqui há um mês de completar essa terceira dezena de idade e prestes a ter a maior mudança geográfica e social que eu já tive em minha vida. Além de ter um certo orgulho de onde estou, vindo de dois anos de muito crescimento pessoal, me sinto também muito confortável e esperançoso com o que há por vir. Começo, talvez pela primeira vez inclusive, a me identificar com séries e filmes que retratam essa faixa etária a qual me incluo. Os dilemas profissionais e de relacionamento, os dramas existenciais, tudo são coisas que tem aparecido muito no conteúdo que consumo e tem me confortado. Mesmo no reality show japonês que poucas vezes fez muito sentido, já me sinto parte daquilo como se a mudança que cada um busca em participar é a mudança que eu também busco nos próximos meses/anos. Ter trinta anos hoje, um millennial nativo em sua mais pura essência, é muito louco. Não me sinto velho, a palavra adulto ainda me assusta, mas não sou mais o "jovem adulto" que me via antes. Tenho minha carreira, meu dinheiro, minha história. Até por isso pouco me identifico ou me interesso pelas pessoas que acabaram de sair de suas adolescências e tem muita coisa pra descobrir ainda. Me vejo mais nas pessoas em crise profissional, ou felizes e acomodadas em seus relacionamentos (ou falta deles). A terapia caminha pro seu final nesse momento de transição pesado, mas sei que cheguei longe demais, que não sou quem eu era há dois anos atrás quando não vi outra opção a não ser começá-la. Me identifico com os dramas dos meus amigos, e vejo todos nós em movimento, cada um a sua maneira. Completar trinta anos é uma consolidação muito pesada da minha vida. É o momento que as dúvidas são mais existenciais, que a insegurança vem de outras formas, porque as certezas estão ali já fincadas. E é muito louco viver uma mudança tão drástica em um momento tão sólido. Mas também tem aquele sentimento que é o momento perfeito para mudar, porque se não mudar agora, talvez eu esteja aqui pra sempre. Nesse lugar, nessa mentalidade, nesse corpo, com essas pessoas. Então eu vou, nessa mudança de tudo, começar essa nova fase da minha vida que vai me levar não direito pra onde, mas sei que estou preparado.

Ps. lembro de escrever um texto falando sobre como completar vinte anos foram bem mais marcantes pra mim do que os 18. Infelizmente não consegui encontrá-lo.