quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Construção.

Quem sou eu quando eu for embora
Seria ausência ou serei memória
Porque se o que eu fiz e onde estive
Definem minha própria existência
O que eu vou ser quando me faltar presença
Quando o lembrete diário de estar aqui
Não estiver mais
Quando o reforço da minha ação
Não relembrar que estou aqui
Quem eu sou longe de tudo que eu construí?

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Ingratidão.

Seguir em frente significa deixar pra trás
Mas deixar pra trás é tão pesado
Porque soa quase como um abandono, ingratidão
A gente olha pro passado e se orgulha
Vê o caminho que já andou
Vê os tropeços e acertos
Vê o tanto que cresceu
E continua o caminho quase sem pensar
Mas quando o passo é mais longo
Quando o pulo é mais arriscado
Parece que a gravidade puxa mais forte
E o ar fica mais pesado
A gente respira fundo
Mas o peito trava no meio
E olho se enche de lágrima

Não posso mais ficar parado
A curva de crescimento é lenta demais
Mas dói demais olhar o passado
E aceitar que ele ficou para trás

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Semana.

Você ouve os passarinhos lá fora?
Sente o calor do sol?
A brisa leve que não demora
E a textura do lençol
Sente o cheiro do café
Que sobrou na cafeteira
Hoje pode ser um dia bom
mesmo sendo segunda feira

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Sonhos intranquilos.

A batida do teclado ecoa na sala vazia
Mente vazia oficina de sonhos
Transporto-me para um resort em tel-aviv
Tela ao vivo transmite meu sono
Corrente invisível me prende à cadeira
Cadeia de processos me trouxeram aqui
Acordo cansado em plena segunda-feira
Consequência de tudo que apostei e perdi
Meus pais dizem que é só trabalhar mais
Meus avós falam que o melhor é após
Meus amigos, perdidos, não falam mais nada
Dividem a dor e os pesadelos de madrugada

A noite me caçam e acordo suado
Uma voz infantil, imatura e mimada
É só um sonho, diz um senhor cansado
Mas se são só sonhos
Sonhar aqui não vale nada

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Tudo bem.

Queria que você me olhasse nos olhos
E me dissesse que vai ficar tudo bem
Que depois de tudo não vou ficar 
Com um gosto amargo na boca
E um choro engasgado na garganta
Que vou ter vivido o que eu precisava viver
Quando eu precisei viver
E que um passo pra fora é importante
Pra quem quer ir mais longe

Me fala de coração que vai ser difícil
Mas que sempre é
E que pouca gente teve o privilégio de viver 
O que a gente viveu

Fala que você também vai ficar bem
Do seu jeito de lidar com as coisas
E que eu não preciso me preocupar
Porque você é assim, parece não precisar
Mesmo estando muito feliz em ter

Mas e eu?
Quem eu vou ser longe de quem eu era
Será se eu consigo ser eu mesmo
Será se o mundo vai me abraçar 
Ou me chutar pra fora

Fala pra mim que vai ficar tudo bem
E se precisar, mente pra mim também
Porque eu não estou preparado para que dê errado
Então que, caso dê, que eu erre com certeza
Mas quando eu perguntar
Fala que vai melhorar
Que as coisas são assim mesmo
Que é um dia de cada vez

Porque vou sentir demais a falta
De você pra me falar que vai ficar tudo bem

sábado, 10 de agosto de 2019

Quem são.

Quem foram vocês
Que não me beijaram boa noite
Não me cobriram no frio
Nem escutaram meu choro
Que não me inspiraram histórias
Não marcaram memória
Nem se fizeram presente
Que não me ensinaram as palavras
Nem a somar ou tirar
Não me mostraram os mapas
Nem deixaram sonhar
Que me cobraram sem dar
Mesmo eu dando tudo que tinha
As metas que nem eram minhas
Eu cumpri sem questionar
Que nem se ligaram
Quando o telefone tocou
E eu saí sem avisar
Voltei tropeçando
Entrei direto no quarto
Pra que não me ouvissem chorar
E hoje questionam
Porque não agradeço
Porque não obedeço
E não abaixo a cabeça
Onde eu aprendi
A responder desse jeito
A me comportar desse jeito
A tratar vocês desse jeito
Eu sei onde eu não aprendi
Onde eu mais buscava
Já que nada que eu sou
Eu me tornei em casa

terça-feira, 6 de agosto de 2019

A pequena sereia.


O sol estava mais quente que o normal, mas ela não ligava. Enterrava os pés na areia só para poder levantá-los e sentir as pedrinhas caindo entre seus dedos. Às vezes o mar subia e enchia de água o buraco que ela estava sentada. De longe seu irmãozinho construía um pequeno castelo de areia. Ela gostava de pensar que aquilo tudo era seu reino, e que todos ali na praia eram seus súditos. Não que existissem para serví-la, mas que sua benevolência e cuidado que mantinha todos em um ambiente seguro. Sua mãe vinha de tempos em tempos reforçar o protetor, e trouxe um coco imenso com dois canudos coloridos. Ela enterrou o coco na sua frente, no limite do canudo, que abaixava para poder tomar mas deixava as mãos livres. Ela também fazia pose, com os braços pra trás e as pernas semiesticadas, como as moças adultas que ela via por ali. Levantava os óculos muito maior que sua cara, e manda piscadinhas e beijinhos para o mar. Quando crescer ela quer ser sereia, pra poder viver no mar e só sair para cantar. Com um cabelo gigante e colorido, ela já imaginava o movimento dele no oceano. Teria uma coleção completa de todas as conchas, com vários tamanhos, cores e texturas. Também seria amiga de todos os animais, que nadariam com ela numa dança ritmada. Algumas vezes ela voltaria à terra pra poder visitar seus pais, ela realmente gostava do bolo de fubá da sua vó. Mas fora isso não gostava de ver como trabalhar cansava sua mãe e como as contas estressava seu pai. Então ela tinha decidido que seria sereia, porque sereia não tem trabalho de adulto. Seu irmão poderia ir com ela se ela quisesse, mas ele teria que se comportar porque ela não iria ficar cuidando dele o tempo todo. Será se as algas e outras plantas aquáticas tinham que ser podadas de vez em quando? Ou elas já nascem do jeito que elas tem para crescer? Ela podia se encarregar de regar as plantas do oceano, ou colocar em vasinhos pra poderem tomar sol. Esse seria o trabalho dela, tinha decidido. Reuniu seus brinquedos cheios de areia, viu a marca do seu bumbum encher de água mais uma vez e foi dar a grande notícia para sua mãe, mas ela estava ocupada demais no telefone.