quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Ressaca.

Entre a cortina, um raio de sol ilumina parte do seu rosto.
O gosto da ressaca, a cabeça dói, a mente fraca.
A água falta, desidrata.
A noite passada se esconde em mistério.
O critério, cada vez menor, reflete em arrependimentos.
O pensamento a mil, confuso, febril.
O corpo retorce, abraço e aceito.
Porque o que foi feito acaba tendo pouco efeito num panorama geral.
E se o corpo passa mal, que sirva de aprendizado
De que o passado volta pra assombrar no dia seguinte
Mas outros dias seguem.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Última balada.

Numa tarde de domingo de um dia nublado,
seu sorriso e risada preenchiam meu quarto.
No meu violão uma balada triste
que você acompanhava num rima livre.
As roupas jogadas como quem não tem pressa.
a fotografia pegava o detalhe.

Numa noite de domingo de um dia chuvoso,
seu sorriso nervoso dizia o que eu não queria ouvir.
A meia-luz destacava a meia-lua no chão,
a lua cheia iluminava o colchão.
"Uma última balada?", eu pedi,
mas perdi, você já tinha ido.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Deriva.

O vazio é o que mais incomoda. O buraco na rotina. Um membro-fantasma que dói só para chamar atenção para sua ausência. A dependência física e psicológica é um quebra-cabeça incompleto que você precisa aceitar que está faltando peças. Estão perdidas debaixo de tapetes ou dentro do sofá. A conversa casual que fazia o ponteiro rodar não pode ser substituída porque nenhuma outra conversa é casual. Tudo tem objetivos e motivações. E o tempo é o que não passa, porque só ele mesmo que tem que passar. Livros, filmes, séries, festas, trabalhos, amigos, jogos. Tudo em câmera lenta como se me puxasse para fora do palco e dissesse "você não está pronto". E nunca vou estar, a gente só se acostuma e toma coragem pra continuar apesar dos medos, apesar do despreparo, apesar do vazio. É o castelos de cartas que desmorona quase no fim. Não só desmorona, pega fogo e de repente não há mais cartas. O fogo queima sua mão. Você respira fundo e pensa se quer mesmo recomeçar. Você viu seu objetivo tão próximo e já não sabe se compensa passar por tudo de novo para chegar em um lugar que não era aonde você queria. Tem dia que bate mais pesado mesmo. O silêncio fala mais alto que o fone de ouvido. O eco reverbera as palavras não ditas, os fatos não feitos. Como dói. A lágrima cai fácil e inesperada, tudo é gatilho. Um tiro doeria menos. O consolo é saber que sobreviveu até aqui, de momentos piores, tudo isso vai passar. Não hoje, nem amanhã, mas vai. O vazio se preenche com outras coisas, a ausência de torna menos presente e menos notada. Enquanto isso o barco flutua a deriva, torcendo pra que o vento não bata nem que nada o afunde. O sol queima e o sal desidrata. Mas a terra chega pra todo náufrago.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Relatividade.

Não sei quando foi
que o tempo começou a passar diferente,
mas sei que de repente
as horas não eram mais as mesmas.
E mesmo que eu ocupe a cabeça,
peça aos céus que algo aconteça,
a hora está mais devagar.
Divago sobre o motivo,
sobrevivo cada minuto,
mas a hora seguinte demora a chegar.
No meu peito, mora a angústica,
a perspectiva vive perdida,
porque a dor mais doída
é a espera de algo que não vai voltar.
Preencho as lacunas com linhas e colunas,
tentando ocupar o tempo que sobra.
Mas as sobras, migalhas de um outro momento,
ganham a atenção
como um ponto preto em uma superfícia branca.
A gota de sangue estancada segura a sangria a cada dia.
E quando os olhos fecham finalmente
em pesadelos consecutivos,
É breve o descanso pela frente
É longo o tempo de mais um dia.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Nostalgia.

Eu julgava a nostalgia uma ferramenta fácil para atender uma geração que não se acostumou a ter seus brinquedos tirados de si. Estampamos nossos gostos infantilizados em camisetas e prateleiras, e somos convencidos por qualquer coisa que tenha um gostinho de infância. O remake ou uma continuação de um filme que gostávamos, um produto que traz de volta a embalagem dos anos 90. A nostalgia como argumento de vendas sempre existiu e quando você trabalha com publicitário, algumas cordas do sistema parecem visíveis demais.
Crescendo na cidade, nunca entendi muito bem aquele carinho que as pessoas tem pelo interior do país e as comidas da roça e mesmo os melhores aspectos da minha infância eram muito bem quistos como memória mas não entendidos como saudades ou vontade de voltar para uma época X ou Y.
Mas foi recentemente que a Nostalgia ganhou um aspecto diferente da minha vida, me mostrou lados que eu não conhecia e que me fez entender melhor o sentimento geral das pessoas. Foi quando, em crise, um instinto me fez procurar um lugar seguro e me transportou para a infância. Por uns minutos novamente eu tinha 6/7 anos. Sem nenhuma preocupação a não ser conseguir dormir, e foi o que eu fiz. Horas acordado em pesadelo lúcido resolvidos nos primeiros acordes de uma canção de ninar ou conto de fadas.
Sem ter consciência do teletransporte temporal que minha mente é capaz, ativei sem querer e entendi novamente esse meu super poder. A crise era outra, o momento era difícil e, por outros motivos, revi uma história que gostava muito há uns anos atrás. De repente, era eu novamente com vinte e poucos anos, sem as preocupações e problemas atuais, revivendo um breve momento de tranquilidade. Aquilo me sugou da neblina que vem cobrindo meus dias e me mostrou uma saída. Ainda que distante, é importante saber que ela existe.
A nostalgia então, mais que um mero capricho de pessoas que insistem em não envelhecer, ela é um lugar de conforto. Um porto seguro em um mundo desconhecido e cada vez mais perigoso. As mudanças não se mostraram boas até aqui, então encontrar um rosto conhecido nas telas, prateleiras e vestuário nos leva, mesmo que inconscientemente, para um momento onde as coisas eram mais simples.
Claro que o passado também tem suas armadilhas e os momentos felizes chegam como socos no estômago de quem não poderá repetí-los, mas se apegar ao que te fez bem é um começo para quem está buscando novas memórias para o futuro.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Inspiração.

Seu corpo é poesia
obra prima de um
mestre renascentista
inspirado pelo
mais belo dia
na tela e tinta a óleo
Olho pra você
e me emociono
como em um sonho
que no outro dia
não vou esquecer
é você que me tira o sono
abandono o dia
pra dormir com você
puxa o cobertor
como que sente frio
mas o arrepio
mesmo vem da nuca
sua respiração profunda
batimento cardíaco
calma, que sou cardíaco
meu coração não guenta
arrebenta
pulsando sangue pelo corpo
torpe torto vivo ou morto
motivo pra viver.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Trança.

A coluna arqueada revela
Mais sobre mim do que sobre ela
A unha na pele marcada
Cicatriz da noite passada
Perco o fôlego e a voz
Deixei de ser eu, passei a ser nós
Meu corpo pulsa, o seu treme
A vida navega, eu sou seu leme
Tormenta e calmaria em quinze minutos
O tempo para quando estamos juntos
O coração à deriva encontra o porto
Mar morto revive, flutua em conforto
Ofegante abraço finaliza a dança
Rosto colado, pernas em trança
Um último suspiro confirma o fim
Foi bom pra você? Foi lindo pra mim.