quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Madrugada.


3 da manhã ela acorda pela terceira noite seguida. Os carros passam em sua janela no terceiro andar. Ela estranha tanto movimento na avenida, mas prefere acender um cigarro pra espairecer. Observa lá embaixo onde um casal se despede com a melancolia de quem vai demorar muito pra voltar a se ver. A garota ensaia entrar no carro umas três vezes e sua namorada a puxa novamente em um abraço hesitante. 

O vento evita que o cheiro de fumaça se espalhe pelo apartamento pequeno no centro da cidade. 


Ela imagina outros insones ao observar janelas iluminadas, e devaneia se estudam ou dormem na frente da TV. No quarto dela só o isqueiro ilumina seu rosto, a cada dez ou quinze minutos num ritual sem fé. 


Ela se esforça pra lembrar o sonho que ela sonhava, em que caçava cervos em um chalé nas montanhas. Sonhava se um dia sairia da vida urbana, deixando tudo para trás para viver no mato. Sem regras de vestimenta, sem cobranças de prazo. Sem expectativas geradas por sorrisos e abraços. Decide que largaria enfim o cigarro, como se se livrar da poluição a desse liberdade pra respirar. 


4 da manhã o maço acaba, e com ela, seus hábitos. Escova o dente pra não acordar com gosto de cigarro. Pensa que queria sonhar agora com uma viagem de carro. Cabelo solto, som ligado. Só ela, a estrada e seu passado.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Soneto insone.

A tristeza fica a espreita de qualquer desatento
Esperando atrás da porta pra me pegar de surpresa
E se eu tento disfarçar o que eu sinto por dentro
Ela me destrói como um predador destrói sua presa

Tristeza como lágrima que insiste em não cair
Para crescer em angústia me digerindo aos poucos
Sorriso que disfarça o que tem dentro de mim
Impacto que deixa marcas e dói mais que um soco

O braço estica mas não alcança nada
O pé pisa mas não encontra o chão
O pulmão infla quando o ar acaba

Você segura mas não encontra a mão
E seu grito o travesseiro abafa
O tempo bate mas não o coração

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Um dia.

Um dia você passa pela porta pela última vez
E tudo que está lá dentro fica pra trás
Tudo o que você foi e o que você fez
Guardados em um lugar que não te pertence mais

Um dia você deixa de se sentir em casa
E percebe que nunca mais vai se sentir assim
A gente cresce e falta espaço pras nossas asas
Cria raízes mas se sente preso no jardim

Um dia o vazio no coração
Fica maior do que o vazio da mudança
Roupas e livros em caixas de papelão
Sem ouvir música não tem como continuar a dança

Um dia você se pergunta se deve olhar novamente
Pra guardar uma imagem daquilo pra sempre
E quando olha, não reconhece o que sente
Se é alívio de ir embora ou medo de seguir em frente

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Sereia.

Sou eu te guiando corredeira abaixo?
Irresponsavelmente te conduzindo pro abismo
De onde vamos cair juntos e sabe-se lá como voltar
Só porque a correnteza nos leva em uma viagem fácil
Sou eu que não nado contra a corrente
Ou te empurro para terra?
Sabendo que eu mesmo não estarei de pé no final da jornada
Por que não largar sua mão e aceitar meu destino
De barco firme e seguro lá no fundo do oceano?
Atraio a sereia para a terra e me realizo em suas realizações
Mesmo sabendo que quem não vai conseguir respirar debaixo d'água sou eu.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Amor-próprio.

Existem palavras que são difíceis demais de falar, principalmente por causa do peso que elas carregam pra gente. O significado pessoal é muito maior que qualquer definição do dicionário e seu uso indiscriminado pode gerar até mesmo um vazio semântico. E quando você acha que ultrapassou a maior barreira do mundo em dizer algo para alguém, você percebe que voltar aquilo para o outro é bem mais fácil do que para si mesmo. Não que você não seja merecedor, muito pelo contrário, racionalmente entende e construiu seu mérito, mas falar isso voltado para si se mostrou quase impossível. Porque entende perfeitamente o que aquilo é para o outro, e como identificar, mas para si já não tem tão claro assim. Desviando de clichês de propagandas motivacionais, onde o discurso se esvazia mais uma vez, agora com ambições comerciais, você sabe que não é só aquilo. Não é raso, não são pequenas ações, não são pequenos momentos para si, é algo maior e, por enquanto, difícil de identificar. E quando a própria indefinição de algo que poderia ser tão clichê te afeta de um tanto, difícil explicar que sua tristeza não originada de outro, e sim de uma frustração (decepção talvez) de não conseguir aplicar ou aceitar algo que parece tão claro e tão óbvio, por simplesmente não ter certeza do que é que aquele sentimento significa quando voltado para si. E de todas as dificuldades em externalizar isso, o mero fato de escrevê-lo já se mostra outra barreira, buscando novamente o atalho da descrição em uma análise racional só para não ter que escrever realmente o que é tão difícil falar. Fica no ar então.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Ilumina.

Não seja tecnologia
Como se eu pudesse desligar seu amor em uma máquinha fria
Não me alimente seus restos
Não sou um vira-lata em sua cama em busca de afeto

Não ondule,
sele meu destino, marinha
Me iluda que me procura
e seja minha isca, seja minha

Não seja o tom que não consigo
Ou o caso que de tanto contar ficou antigo
Não seja a mão na minha garganta que me asfixia
Se é minha amiga porque você não quer ser minha família?

Então, se formar uma
Não me assuma
Seja minha isca, seja minha
Seja minha calmaria

Você entende o que eu digo? (me contradiga)
Você me traz luz mas não me ilumina
Você não é minha (então me diz quem eu sou?)

(Tudo queima)
Por fora sinto sua boca fria
(Esteja aqui)
Você me traz luz mas não me ilumina
Você não é minha

Então, me engana que me ama
e seja minha isca, seja minha



Livre tradução de "Not The Sun", por Brand New.

Morada.

Vem morar no meu peito
Se sua casa já não é lar
Deixe eu me adaptar ao seu jeito
E faz de mim o seu lugar
Posso ser o porto-seguro
Se você está perdido no mar
A parada no meio-caminho
de alguém sem pressa de chegar

E se precisar partir, leve parte de mim
De suprimento para uma viagem extensa
Porque é bobagem pensar em fim
Do que é maior do que a gente pensa
E se precisa voltar, não precisa temer nada
Se sua casa não for seu lar,
meu peito ainda será morada.