sexta-feira, 13 de abril de 2018

Ícaro.

Quase na beira do precipício estendo minha mão
Vejo você dar um passo a frente e dizer não
Porque apesar de nascer sem asa,
Não se sentir em casa nesse mundo é a danação.
Por isso quer tanto voar, em direção a luz como Ícaro fez,
Pra poder sentir a queda eminente a cada bater de asa
Se aproximando da brasa que queima no céu e rindo dos próprios clichês
Enquanto cai, você me vê parado, ao longe observando seu feito
Eu aceito que era esse mesmo seu jeito
De não se contentar com o que não é perfeito
Achar defeito em tudo que seu Deus lhe deu.
Agora voa de encontro a ele, pronto pra confessar seus pecados
Como se o que fez te errado tivesse te levado até ali.
Mas tudo é escolha, e você escolheu cair.
Não era minha mão que ia te impedir.
E quando caído, te lembrarem como rei,
Eu vou ter a consciência de que eu tentei.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Poder.


O poder é uma rosa pequena, frágil e de cristal
E mesmo que sua mão pesada bata forte
Ainda precisa da validação do outro pra ser real
Mas qual o sentido de se sobrepor
Se o sobreposto precisa permitir
Será se os homens pedem pras formigas
"É ok se eu pisar aqui?"
E mesmo um deus todo poderoso
não perde tempo perdindo permissão
Aos humanos cheios de falhas
Que se humilham e imploram perdão
Mas o poder quando enfrentado,
Se a cabeça do outro não abaixa,
Ele se ofende como menino mimado
Que recolhe os brinquedos em sua caixa.
"Quem é você que não me reconhece,
não vês que sou todo-poderoso?"
Se fosse realmente quem você parece
Não estava discutindo como ouso
Apenas me puniria sem dizer porquê
Usando do que você tanto diz ter:
Poder.

sábado, 24 de março de 2018

Órbita.

Habitamos o microcosmo do meu quarto
E na quarta volta, nosso universo colidia
Em supernova que não ecoa no espaço
O grito do astro que ninguém ouvia
Estrelas marcavam e guiavam o caminho
E o satélite que enfeitava nosso teto
Era o ponto brilhante de não se estar sozinho
Perder-se na galáxia de afeto
Mas a rota de colisão em nosso frente
Pedia que medidas fossem feitas
Enquanto a gente flutuava calmamente
Você já orbitava outro planeta.

sexta-feira, 16 de março de 2018

O que morreu de mim.

Um tiro distante me atingiu em cheio
e, como se tivesse no meio,
senti meu sangue descer.
E o vermelho turvou minha vista
como uma lista borrada de coisas a fazer.
A esperança, se é que exista,
mesmo que dista, também foi morrer.
Porque se o caminho seguido
não foi garantido de destino chegado,
Faz diferença onde sigo,
me perco, amigo, ou se espero sentado?
Meu próximo passo é desconhecido,
Se vai melhorar, eu não confio,
Mas entendo agora o que aconteceu comigo.
Porque quando morrem pelo que eu acredito,
Fingir não ouvir o grito não é uma opção.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Precipício.


Dizem que quando você olha o precipício, ele olha de volta para você, mas eu tinha certeza que ninguém me olhava naquele momento. Andei por quilômetros e caminhos improváveis para me ver o mais sozinho que eu pudesse estar. Meu grito ecoaria pelas montanhas mais próximas mas não chegaria aos ouvidos de nenhum ser humano que pudesse me impedir. Pelo caminho eu repassei todas minhas decisões que me trouxeram até aqui. Todos os tropeços e injustiças que me fizeram aos poucos perder a fé não só na humanidade como no meu próprio futuro. Viver em sociedade não me recompensava mais, o trabalho, a família, os amigos, eu era apenas um enfeito empoeirado em um móvel próximo a televisão. E foi quando percebi que eu não tinha um futuro brilhante pela frente que comecei minha caminhada. Aos poucos parei ir atrás das pessoas, com o tempo elas pararam de insistir também. Em outra cidade, minha família mal acompanhava meus passos e no meu trabalho demoraram alguns dias pra perceber que eu nem ao menos estava lá. E foi caminhando até aqui, no frio da noite e no suor da tarde, que pude entender melhor o quão pequeno eu e minhas ações somos. Deixar de lado o ideal de mudar o mundo ou de fazer as pessoas mais felizes. Separar o lixo foi em vão, assim como ajudar senhoras a atravessar a rua e me manifestar quando presenciei injustiças. Enquanto me arranhava entre arbustos e me protegia da chuva em copa de árvores gigantes, minhas preocupações foram diminuindo e com ela também minha dor. A dor de ter machucado tanta gente, de ter me machucado tanto, me culpado e conscientemente errado tanto. Por tentar corrigir meus erros tarde demais. Não ter sido forte ou insistido pra que as pessoas não fossem embora. Continuei por alguns dias, confesso que em algum momento eu perdi a conta, mas foi só quando achei onde subir e comeci a sentir o ar se tornando cada vez mais rarefeito em meu pulmão, o corpo pesado e desacostumado, que senti o peso da minha decisão. As inseguranças voltaram, o sentimendo de covardia de ter deixado tudo para trás foi crescendo com força. Agora, dando mais um passo em direção ao precipício, minhas preocupações somem novamente. Tira o óculos como em um movimento simbólico de negação da sociedade. Tiro também meu cinto e meus sapatos. Abro os botões de minha camisa e começo a sentir o vento bater em meu peito. Abro os braços naturalmente, e penso como quem está vendo de fora deve estar me achando ridículo. Me posiciono mais a frente, meus pés já fora da borda. Respiro fundo para dar meu próximo e último passo. Chegou a hora. Antes que eu pudesse me despedir de mim mesmo, perco o equilíbrio, tento me lembrar do que eu estava fazendo por um último instante. Então percebo que estou voando.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Destino.


Estou parado há uma semana tentando escolher o caminho.
Os dois lados tem rosas, os dois lados tem espinhos.
De um lado tem impulso, do outro lado estou sozinho.
Mas desse lado me sufoca, daquele eu respiro.
Os dois lados terminam muito próximo do meu destino
Mas preciso decidir urgente qual estrada que eu sigo.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Passeio.


O Sol tinha se escondido pra não incomodar nosso passeio, e enquanto a gente andava eu pensava o tanto que o céu nublado combinava com seu rosto, equilibrando luz e sombra de maneira a valorizar cada detalhe. Eu me espantava como com você tudo parece o videoclipe de uma banda indie. Desde a maneira como prendia o cabelo enquanto tomava café de manhã até a maneira como se encolhia no sofá, puxando a coberta para si, nas cenas de tensão do seu seriado preferido. E eu ali, de observador onisciente de um espétaculo que não era pra mim, era pro mundo. O passeio continuava e você parava para olhar de perto uma flor que crescia no tronco de uma árvore. Seu encantamento não conhecia limites, até os girassóis se inclinavam um pouco na sua direção quando você passava. Nas conversas era sempre o centro das atenções, entre amigos, familiares e até quando éramos só nós dois parecia que eu não me importava muito em apenas observar você falando sobre suas paixões. Achei que com o tempo eu me acostumaria, mas anos se passaram e eu ainda me distraia no movimento da sua boca, no toque da sua mão sobre a minha, no seu cheiro. Você era tão completa e cheia de si, que mesmo minhas falhas e ausências não pareciam incomodar. Eu somava com o que eu podia em uma pessoa que parecia transbordar em tudo que alguém gostaria de ser. Eu tentava só absorver o que você tinha para me ensinar, observar pra ser melhor. A delicadeza de cada ação, a intenção pura de quem só quer fazer o bem mesmo que ganhando nada em troca. Mas o que poderiam te oferecer que você não tinha? O que eu poderia te oferecer que você não tinha? Você resolveu parar no parque, estendeu uma toalha no gramado e me chamou para sentar. Aproveitei a grama recém molhada e me deitei no seu colo. Você enxergava desenhos nas nuvens enquanto eu, distraído, só estava feliz de estar ali. Fechei os olhos pra concentrar nos seus dedos que deslizavam em meus cabelos. Pensei naqueles que trocariam tudo para estar no meu lugar, sentir seu abraço e enxugar suas lágrimas nos dias difíceis. Ali eu me percebi feliz, como nunca tinha sentido antes. Não queria estar em nenhum outro lugar. Feliz como quando te vi pela primeira vez e entendi que você tinha me escolhido. Como quando você me convidou pra sua cama e eu entendi que ali que eu queria dormir pelo resto da minha vida. Feliz quanto quando você me apresentou pra sua família e eu entendi que em breve ela seria minha família também. E então abri os olhos, percebi que você também estava feliz. Lambi sua mão, e empurrei ela com a cabeça pra eu me aconchegar novamente. Você soltou minha coleira pra que eu pudesse correr por aí mas não tinha nada naquele parque que me interessava mais do que você.