terça-feira, 8 de outubro de 2019

Baldeação.

No transporte público, eu penso sobre o meu dia. Saio cansado do trabalho nas minhas frustrações cotidianas pra pegar uma hora de avenidas lotadas até minha casa. O choro entalado por um mal entendido esperando só uma brecha para sair, mas seguro para não incomodar e não ser incomodado. Abro meu livro, mas não concentro, leio uma e volto duas páginas em busca de distração. O processo dói, mas doeu chegar até aqui e me prometeram que no final da dor tem conforto. Daí eu continuo, diariamente, sofrendo todas minhas dores no metrô.

Às vezes divago sobre a dor do outro: a mulher que digita rapidamente na tela do celular, enquanto segura as compras com a perna. O moço que chora discretamente enquanto escuta algo em seus fones, com a cabeça recostada no vidro. O homem que, de tão vazia sua expressão, deixa o corpo ser levado pelo movimento em busca de sentir algo finalmente. A criança que se comporta ao lado da mãe na esperança de pararem no caminho para comprar um doce ou algo assim. A senhora que repete silenciosamente trechos da bíblia como se aquilo fosse limpar seus pensamentos impuros e levá-la direto para o céu. O adolescente que sente o peso da responsabilidade não só do próprio futuro mas também o de toda sua família, e não sabe se está preparado para as provas que virão nos próximos dias.

Cada pessoa é um mundo inteiro de sentimentos e histórias, que se cruzam diariamente nas suas rotinas e rotas. Quando cruzamos o olhar, faço um sorriso discreto, não daqueles que querem puxar conversa, mas daqueles que entendem a nossa dor. Peço desculpas quando esbarro em alguém e quando esbarram em mim. Peço licença e por favor, mesmo quando não é necessário. Falo bom dia, boa tarde, boa noite aos trabalhadores que fazem todo o sistema de transporte funcionar. Se alguém puxa assunto, tento estar atento dentro das minhas possibilidades. Quando não posso, peço desculpas e invento um motivo para colocar meu fone.

Não me sinto responsável pela vida dos outros, minha vida já é difícil por si só, mas entendo que estender a mão muitas vezes é fácil e muito significativo para quem está para baixo. Ou continuo fazendo na esperança de que um dia façam comigo, não sei. Só sei que minha dor diminui um pouco quando o outro não dói mais.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Águas.

Debaixo da água eu tinha o silêncio
E a leveza de um mundo sem peso
Quando foi que deixei a água pra trás?
Lembro de ficar sozinho por horas
Até o sol ir embora
E minha mãe me mandar voltar

Estranho como hoje já não consigo
O silêncio incomoda
O despropósito também
Preencho com música
Todo o tempo que tem

Mas debaixo da água, 
Na calma da apneia
De repente me sinto bem
Privado por um momento 
De todas minhas sensações
Sem questões e sem ideias
Apenas eu, cercado pelos lados
Duma paz que não lembrava

Sempre subo para pegar ar
O fundo não é meu lar
Mas quisera eu flutuar tranquilo
Para sempre em alto-mar
Sem o peso das contas
E dos que contam comigo
Sendo levado por ondas
De um oceano sem perigo

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Construção.

Quem sou eu quando eu for embora
Seria ausência ou serei memória
Porque se o que eu fiz e onde estive
Definem minha própria existência
O que eu vou ser quando me faltar presença
Quando o lembrete diário de estar aqui
Não estiver mais
Quando o reforço da minha ação
Não relembrar que estou aqui
Quem eu sou longe de tudo que eu construí?

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Ingratidão.

Seguir em frente significa deixar pra trás
Mas deixar pra trás é tão pesado
Porque soa quase como um abandono, ingratidão
A gente olha pro passado e se orgulha
Vê o caminho que já andou
Vê os tropeços e acertos
Vê o tanto que cresceu
E continua o caminho quase sem pensar
Mas quando o passo é mais longo
Quando o pulo é mais arriscado
Parece que a gravidade puxa mais forte
E o ar fica mais pesado
A gente respira fundo
Mas o peito trava no meio
E olho se enche de lágrima

Não posso mais ficar parado
A curva de crescimento é lenta demais
Mas dói demais olhar o passado
E aceitar que ele ficou para trás

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Semana.

Você ouve os passarinhos lá fora?
Sente o calor do sol?
A brisa leve que não demora
E a textura do lençol
Sente o cheiro do café
Que sobrou na cafeteira
Hoje pode ser um dia bom
mesmo sendo segunda feira

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Sonhos intranquilos.

A batida do teclado ecoa na sala vazia
Mente vazia oficina de sonhos
Transporto-me para um resort em tel-aviv
Tela ao vivo transmite meu sono
Corrente invisível me prende à cadeira
Cadeia de processos me trouxeram aqui
Acordo cansado em plena segunda-feira
Consequência de tudo que apostei e perdi
Meus pais dizem que é só trabalhar mais
Meus avós falam que o melhor é após
Meus amigos, perdidos, não falam mais nada
Dividem a dor e os pesadelos de madrugada

A noite me caçam e acordo suado
Uma voz infantil, imatura e mimada
É só um sonho, diz um senhor cansado
Mas se são só sonhos
Sonhar aqui não vale nada

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Tudo bem.

Queria que você me olhasse nos olhos
E me dissesse que vai ficar tudo bem
Que depois de tudo não vou ficar 
Com um gosto amargo na boca
E um choro engasgado na garganta
Que vou ter vivido o que eu precisava viver
Quando eu precisei viver
E que um passo pra fora é importante
Pra quem quer ir mais longe

Me fala de coração que vai ser difícil
Mas que sempre é
E que pouca gente teve o privilégio de viver 
O que a gente viveu

Fala que você também vai ficar bem
Do seu jeito de lidar com as coisas
E que eu não preciso me preocupar
Porque você é assim, parece não precisar
Mesmo estando muito feliz em ter

Mas e eu?
Quem eu vou ser longe de quem eu era
Será se eu consigo ser eu mesmo
Será se o mundo vai me abraçar 
Ou me chutar pra fora

Fala pra mim que vai ficar tudo bem
E se precisar, mente pra mim também
Porque eu não estou preparado para que dê errado
Então que, caso dê, que eu erre com certeza
Mas quando eu perguntar
Fala que vai melhorar
Que as coisas são assim mesmo
Que é um dia de cada vez

Porque vou sentir demais a falta
De você pra me falar que vai ficar tudo bem