quarta-feira, 14 de novembro de 2018

As vezes que eu morri.

Morri bem novo na praia e um anjo me salvou, me jogando contra a correnteza para os braços do meu avô. Morri também na piscina, numa quina traiçoeira, que marcou meu rosto e minha memória. Morri aos dezesseis, com um beijo e um coração partido, um ano depois, na mesma boca renasci fortalecido. Morri com uma chave que me trancou fora de casa e me obrigou a ir na janela desenvolver minhas próprias asas. Morri anos depois, quando fui pai dos meus próprios pais, e o choro abafado que seguiu eu não esqueço nunca mais. Morri quando traí uma amizade que amava, em busca de um amor que também me completava. Morri com os corações que parti sem intender, mas boas intenções também não os impediram de morrer. Morri ao achar que tudo estava conversado, e morri de novo ao entender que nem sempre o que é entendido é o que se é falado. Morri ao entender que bom trabalho não garante, e que mesmo sem impulso a solução é ir adiante. Morri na insegurança do outro que me matou diversas vezes, e mesmo tendo sobrevivido a dor ainda doerá por meses. Morri ao olhar em volta e não reconhecer onde estou, e buscar outros lugares é entender quem eu sou. Morri ao olhar pra trás e não saber de onde vim, mas isso é passaporte para onde eu quiser ir. Morri muito mais vezes do que eu precisava ter morrido, e sei que vou morrer muito mais vezes no caminho.

Aqui.

Fecho os olhos e dou o próximo passo
Porque quando o destino não importa
Muito menos importa o espaço
O trajeto a gente tateia,
Piso firme na areia
Em uma pista torta e desgastada
Que leva onde não se espera nada
Tenho em mim um mundo que não me cabe
Saber o que eu sou e onde está
Mas quando aqui não me completa
É porque posso estar em qualquer lugar

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Túnel.

Sigo perdido em direção a uma luz distante
Tento tatear a parede fora do meu alcance
Cada passo incerto me leva pra mais perto
Mas tropeço e caio em mais um bueiro aberto
Levantar gasta a energia que não tenho mais
Em um esforço gigante de não voltar atrás
Novas barreiras cobram que eu me reinvente
Mas a única certeza é que ainda tenho muito pela frente.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Caos.


Ele andava na rua cabisbaixo, os últimos dias haviam sido pesados. O frio que sentia era amenizado pelas fachadas em chamas das lojas do centro. Seu passo lento destoava do clima de animosidade em sua volta. Pessoas corriam na direção contrária, carregando parte de seus pertences em uma mão e seus filhos em outra. Lenços cobriam o rosto um pouco para proteger da fumaça e um pouco para esconder suas identidades. Nem os eventuais esbarrões em meio ao caos o tirava de sua imersão. Ele não escolheu estar ali, muito menos escolheu a situação. Ele sabia onde tinha que ir mas não sabia direito o que fazer quando chegasse lá. Carros de polícia cortam ao seu lado a toda velocidade, a sirene abafada pelos gritos há alguns quarteirões. Alheio a tudo ele continuava andando a passos lentos. Uma moça, alguns anos mais nova que ele o para e pergunta se ele precisa de ajuda, ele demora alguns segundos para entender a situação mas diz que não, que estava bem. Ela tenta convencê-lo a acompanhá-la, apontando que aquela direção era perigosa, mas ele sorri sem graça e agradece. Ela se afasta buscando outras pessoas que estariam mais dispostas a serem ajudadas. Ele vira na esquina escura que tantas memórias viveu nos últimos anos, mas agora ela estava coberta de lixo e vidros quebrados. Ele para em frente a um dos prédios mais antigos e toca o interfone. Ele insiste um pouco até que uma voz rouca atende:
- Quem é?
- Sou eu, Lu. Acho que precisamos conversar.
- Pelo amor de Deus, Roberto. Vai pra casa, vai pra um lugar seguro.
- É que eu eu queria... Me deixa subir.
O barulho da porta se abrindo é um alívio no coração dele. Ele sobe as escadas que ele achou que nunca voltaria e chega em frente ao 4B a tempo de ouvir as trancas serem abertas e ela olhar pra ele com a mesma incredulidade de quando se viram pela primeira vez.
- Você está maluco? O que você está fazendo aqui?
- Eu não consegui mais ficar em casa.
- E você vem pra cá? Já não basta...
- Me perdoa.
- Cansei da suas desculpas! Olha a situação que você me coloca.
- Eu vou embora, eu não devia ter vindo.
- Não devia mesmo. Você teve sorte de chegar aqui vivo. Agora espera aí que vou preparar um café.
Ele senta no sofá surrado e sente-se em tranquilo pela primeira vez em meses.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Pedra.

O esforço de mover uma pedra
em nada se compara ao de mover montanhas
Mas tamanha força emprega
Que há de se reconhecer a façanha
Pois se o todo pouco move
Pra quem da pedra conta
Muito ganha e se comove
Com o movimento da ponta
E se o caminho libera
Ou se vira matéria-prima
Já ajuda quem espera
Um dia chegar lá em cima

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Caleidoscópio 4.

O céu quebra em estilhaços no chão
O barulho do trovão ensurdece como cega o raio
Caio sem forças e forço a porta, que corta minha mão
O arco-íris colore com sadismo o piso da sala
A mala aberta sobre a cama, a bota ainda suja de lama
De viagens que nunca serão feitas
O vento chama meu próprio nome e ecoa
As dores me fazem perder sentido, cores inundam as vistas
Visitas chegam, chamam na entrada
Calei-me, meu rosto reparte em mil
Calei dos que não me achavam soma
A porta abre forçada, a cena choca na entrada
Chuva limpa o piso
Espalha o sangue em cor luz
A cena seduz os olhos de um sentimento sem tradução

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Recorte.

Um espaço todo em branco, sem limites. Por todos os lados, apenas branco e luz. Começo criando uma pessoa. Um homem, alto, jovem, com um casaco de frio, luvas e uma bolsa/pasta de lado. Muito parecido comigo. Transformo em uma mulher. Um pouco mais baixa, mesmas roupas. Dou a ela óculos e o cabelo colorido em um roxo desbotado. Ela toma café do lado de fora de uma cafeteria. O branco agora é substituido por ruas, prédios antigos, uma mesinha de madeira embaixo de um guarda-sol. Não que faça Sol, está bem nublado na verdade. Ela pensa em algo, não, melhor, ela escreve algo em um caderninho. Ela desenha. Começou rabiscando a árvore do outro lado da rua, agora desenha uma outra garotinha brincando com seu cachorro ao lado da árvore. Ela queria saber desenhar melhor, mas ainda é um ótimo passatempo. Seu celular está sem bateria em algum lugar da bolsa, mas ela nem liga. As coisas acontecem quando tem que acontecer. Um garçom a aborda perguntando se ela quer mais alguma coisa, ela nega e sorri. Uma garota chega e senta do outro lado. Tira o lenço que prendia seus cabelos e pede desculpas pelo atraso. Eu, autor, observo de longe para ver o que vai acontecer. As duas conversam, não consigo ouvir a conversa, mas parece animada. A segunda garota pede um café e tira suas luvas para esquentar sua mão na xícara. Parece que tem tempo que elas não se viam, elas conversam muito e parecem estar bem felizes.  Uma checa o caderninho da outra, abre um sorriso e continua a folhear.  Saca o celular e mostra a tela empolgada. A câmera imaginária se afasta, a imagem se desbota em branco novamente. Aquele momento fica para sempre, sem começo e sem final. Apenas três personagens, em um recorte da vida.