sábado, 10 de agosto de 2019

Quem são.

Quem foram vocês
Que não me beijaram boa noite
Não me cobriram no frio
Nem escutaram meu choro
Que não me inspiraram histórias
Não marcaram memória
Nem se fizeram presente
Que não me ensinaram as palavras
Nem a somar ou tirar
Não me mostraram os mapas
Nem deixaram sonhar
Que me cobraram sem dar
Mesmo eu dando tudo que tinha
As metas que nem eram minhas
Eu cumpri sem questionar
Que nem se ligaram
Quando o telefone tocou
E eu saí sem avisar
Voltei tropeçando
Entrei direto no quarto
Pra que não me ouvissem chorar
E hoje questionam
Porque não agradeço
Porque não obedeço
E não abaixo a cabeça
Onde eu aprendi
A responder desse jeito
A me comportar desse jeito
A tratar vocês desse jeito
Eu sei onde eu não aprendi
Onde eu mais buscava
Já que nada que eu sou
Eu me tornei em casa

terça-feira, 6 de agosto de 2019

A pequena sereia.


O sol estava mais quente que o normal, mas ela não ligava. Enterrava os pés na areia só para poder levantá-los e sentir as pedrinhas caindo entre seus dedos. Às vezes o mar subia e enchia de água o buraco que ela estava sentada. De longe seu irmãozinho construía um pequeno castelo de areia. Ela gostava de pensar que aquilo tudo era seu reino, e que todos ali na praia eram seus súditos. Não que existissem para serví-la, mas que sua benevolência e cuidado que mantinha todos em um ambiente seguro. Sua mãe vinha de tempos em tempos reforçar o protetor, e trouxe um coco imenso com dois canudos coloridos. Ela enterrou o coco na sua frente, no limite do canudo, que abaixava para poder tomar mas deixava as mãos livres. Ela também fazia pose, com os braços pra trás e as pernas semiesticadas, como as moças adultas que ela via por ali. Levantava os óculos muito maior que sua cara, e manda piscadinhas e beijinhos para o mar. Quando crescer ela quer ser sereia, pra poder viver no mar e só sair para cantar. Com um cabelo gigante e colorido, ela já imaginava o movimento dele no oceano. Teria uma coleção completa de todas as conchas, com vários tamanhos, cores e texturas. Também seria amiga de todos os animais, que nadariam com ela numa dança ritmada. Algumas vezes ela voltaria à terra pra poder visitar seus pais, ela realmente gostava do bolo de fubá da sua vó. Mas fora isso não gostava de ver como trabalhar cansava sua mãe e como as contas estressava seu pai. Então ela tinha decidido que seria sereia, porque sereia não tem trabalho de adulto. Seu irmão poderia ir com ela se ela quisesse, mas ele teria que se comportar porque ela não iria ficar cuidando dele o tempo todo. Será se as algas e outras plantas aquáticas tinham que ser podadas de vez em quando? Ou elas já nascem do jeito que elas tem para crescer? Ela podia se encarregar de regar as plantas do oceano, ou colocar em vasinhos pra poderem tomar sol. Esse seria o trabalho dela, tinha decidido. Reuniu seus brinquedos cheios de areia, viu a marca do seu bumbum encher de água mais uma vez e foi dar a grande notícia para sua mãe, mas ela estava ocupada demais no telefone.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O texto.

Era a terceira vez que ele começava a escrever e jogava tudo fora. As palavras não pareciam expressar o que ele sentia, mas urgia a necessidade de escrever. O lápis e o caderno, plataformas obsoletas, só geraram rabiscos e mais lixos, seguidos novamente pela culpa em relação às àrvores, mas a tela branca do computador também não estava fazendo efeito. Decidiu narrar todo seu processo como forma de começar algo. Começou escolhendo sua posição na cama, de forma a não superaquecer o computador e não cansar seus músculos enquanto escrevia. Abriu o primeiro editor de texto que viu e deu a chance das palavras saírem. Depois da primeira vez, já tinha entendido mais ou menos o formato que queria para seu texto, mas apagou tudo e tentou recomeçar do zero. Outras palavras, outros pensamentos para passar a mesma ideia. Por alguns segundos se arrependeu de ter apagado tudo, era melhor ter continuado de onde estava e depois reeditar, mas a segunda vez fluiu melhor. Quando travou em uma forma de acabar o texto, decidiu apagar novamente e recomeçá-lo. Sabia que mesmo sabendo o destino, era o caminho que decidia como as coisas iriam ser. Voltou novamente para a página em branco e escreveu no fluxo de ideias. Relendo o que escreveu, reconheceu os sentimentos que estavam presos em si, escondidos nas pequenas vírgulas e no ritmo inserido. Refletiu se mais alguém perceberia, refletiu também se alguém leria e se compensava realmente publicá-lo. Após quase apagar para começar pela quarta vez, preferiu colocar junto dos outros textos públicos mas estrategicamente escondidos, para que no futuro esse momento seja registrado e para que, alguém um dia, possa se inspirar nele e fazer o seu próprio texto.

Meu melhor amigo Werther.

Terminei de reler Os Sofrimentos do Jovem Werther, um dos livros que mais li na minha adolescência e que tanto fez sentido em momentos de desilusão amorosa. Ler hoje, mais maduros e principalmente com ideias mais claras sobre relações abusivas, me traz um receio muito grande no tipo de reforço que esse livro pode trazer pra adolescentes. Diz a história que o número de suicídios entre jovens na Europa aumentou consideravelmente depois da publicação desse livro, um fenômeno interessante de um momento séculos antes da internet, das redes sociais, do Tumblr e dos desafios da baleia azul.
Mas é difícil demais não se identificar com a história do jovem que vai para o campo em busca de inspiração para uma vida vazia e lá conhece uma pessoa que atende todas suas demandas e sonhos, para depois descobrir que ela está noiva de outro. Vemos o sentimento de Werther crescer a medida que a convivência dos dois aumenta, até chegar no caso extremo dele precisar se afastar por não conseguir estar perto dela sem ter ela como amante. E Charlotte, ou Carlota dependendo da versão do livro que você lê, sempre gostou muito de Werther. Ele era uma pessoa erudita, de conversa fácil, muito carinhoso com ela e com os seus vários irmãos que ela cuidava desde que a mãe morreu. Mas o amor, ou o desejo de se relacionar, não é um campeonato onde se acumula pontos e ganha o direito de vivê-lo, e Albert, seu noivo, também era uma pessoa boa que fazia muito bem para ela e sua família.
Durante o livro, vemos Werther entrando em um labirinto próprio que dificilmente conseguiria sair, principalmente em um momento onde terapia e psicologia mal existia nos livros. Não conseguimos saber quão reais são as características de Charlotte, já que estamos sempre vendo o ponto de vista de Werther em suas cartas para o amigo Wilheim (Guilherme em algumas traduções!!!). Mas mesmo do ponto de vista dele, vemos que Charlotte sempre foi muito respeitosa com seu relacionamento e que Werther se prendia nos pequenos gestos para alimentar seu sentimento. Por diversas vezes, ele se passava horas admirando objetos que ela havia tocado.
Quando adolescente, consegui me ver em muitas das atitudes dele. O que mais me chama a atenção nessa relação é a ideia de injustiça ao não ter sentimentos tão intensos correspondidos. Como que alguém que está tão disposto a fazer tudo que a outra pessoa quer e precisa pode ser descartado com tanta facilidade? Como alguém que é querido, não odiado, não menosprezado, pode ser descartado como interesse romântico? Mesmo em seus últimos momentos, Werther ainda não entendia isso. Ainda buscava em cada momento de afeição, cada demonstração de carinho, como um sinal de posse e entrega de Charlotte para si. O respeito e admiração que nutria por Albert alternavam-se com um ressentimento gigante por ele ter sido o escolhido para estar ao lado dela.
Mesmo com os olhos atuais, onde existe uma certa responsabilidade em alimentar um sentimento alheio não correspondido, Charlotte seria aprovada com louvor. Suas ações eram verdadeiras e bem intencionadas, inclusive em buscar se afastar de Werther quando entendeu necessário. Já Werther usava da sua personalidade e educação para buscar meios de estar na presença dela, criar situações que os aproximavam e, por fim, criar nela a culpa pelo seu fim trágico. Não uma culpa de chantagem, mas um entendimento de que eles só poderiam estar juntos em outro plano e por isso ele estaria lá esperando por ela.
O comportamento de Werther hoje me traz vários alertas e vejo como inconscientemente me tornei meu chará Wilheim. A busca por apoiar, achar soluções, propor saídas e incentivar as artes daqueles que amo e que buscam ajuda felizmente me aproximou mais do receptor das cartas do que seu autor. Entendo a dor do meu amigo Werther, mas não alimento-a e, acima de tudo, não apoio os meios que ele usa para lidar com ela. Mas tudo que posso oferecer são sugestões, conselhos baseados nas minhas experiências e na minha observação do mundo.
Sofro pelos jovens do século XIX e do século XXI que não tiveram pessoas ao seu lado para ajudá-los com seus dilemas e agradeço quem esteve ao meu lado e quem contou comigo. Chorei por diversas vezes lendo o livro e pensando por quantas vezes outras pessoas passaram por aquilo e não conseguiram enxergar os próprios erros e caminhos de volta. A internet traz acesso a redes de apoio mas também ensina e incentiva o mal, assumo aqui, bem mais consciente, meu papel de Wilheim. Que eu possa fazer o que ele não conseguiu.

domingo, 28 de julho de 2019

O menino e o mar.

Corria em sua direção com os punhos fechados
Com a certeza de quem domina a luta
As pernas magras em passos rápidos
A barriga inchada e o sol na nuca
Mas a coragem se transformava em medo
Assim que a onda vinha na direção
Pois o mar que puxa não guarda segredo
Que voltará com ódio a quem o levantou a mão

Pobre menino, correndo sozinho
Chorando salgado, tropeçando na areia
A onda o gira como um moinho
Ralando o joelho e com água na orelha

Mas no instante seguinte o mar recua
E o menino concentra coragem no peito
Fecha-se os punhos, a bermuda flutua
Até que a onda o pega de jeito

Pequeno Quixote, sonha com gigantes
Desafia o mar mas teme a onda
Quando crescer não será como antes
O mar te procura onde quer que se esconda

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Capitão.

Mar calmo não faz bom marinheiro
Então guio o barco para o olho do furacão
Passo confiança para minha tripulação
Enquanto por dentro me tremo inteiro
Mas do outro lado tem nosso destino
A fama e glória que me prometeram
O tesouro de ouro genuíno
As praias que outros homens não conheceram

E eu finjo costume
Como de costume
Como sempre fiz
Assim guio os meus
No desejo de Deus
Contra o que eu quis

A onda levanta a proa
O mar se revolta irritado
Vira o barco como canoa
Testa meu fôlego e nado
Na praia, levanto perdido
Em meio a areia e derrota
Pior é ter sobrevivido
E ver afundar minha frota

De noite, fantasma me assusta
De dia o que me assombra é a fome
Tesouros não valem a luta
De ver morrer os meus homens

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Passarinho.

Observo o passarinho
E ele também me observa
De longe desconfio
De suas asas abertas
O galho no bico
O ninho de pedras
O canto sombrio
Prevê suas metas

Pobre passarinho
Que não sabe meus planos
Do meu sangue frio
Do meu lado humano
O que me faz sentir vivo
E minha mira certa

Rio bobo do pássaro assustado
Pobre passarinho
Com seu peito estufado
Me dá um rasante em que caio deitado
Pobre menino
Mexeu com o pássaro errado