quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Labirinto.

Existe uma técnica para sair de labirintos, infelizmente não existe uma pra entender o que eu sinto. A mão direita acompanha a parede do início até o final, indicando a entrada e a saída. O caminho é maior mas é seguro. Já minha mão direita só segura o peito com força como se minha dor autoinflingida fosse superar a dor interna. É como se eu soubesse o caminho mas o conhecimento não fosse exatamente a resposta certa. O instinto vai me levar para a saída, talvez não a saída que eu esperava, mas para fora. Mas como acessá-lo? Acostumado a ter o mapa na mão, é díficil demais continuar. Mas existe uma técnica, que deixa o caminho maior e mais seguro. Observo os outros e parece fácil, eles se perdem, encontram becos e voltam até achar outro caminho. Eventualmente a saída aparece. A naturalidade que se perdem e continuam me espanta. Como virar a próxima curva sem tentar entender o que vem depois?  Mas existe uma técnica. Existe uma técnica para sair do labirinto.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Cicatrizes.

Existe um certo charme no imperfeito
Na cicatriz, no desequilíbrio do defeito
O grão da foto, o leve desfoque
O sorriso torto, o abraço que
não encaixa direito.

Traz conforto ver no outro
Tudo que me culpa ver em mim

Sintomas escondidos sob a luz do camarim
Máscara que se usa todo dia no trabalho
Mas que no quarto abre guarda
Guarda sua insegurança, dança do meu lado
O frágil em você é o que precisa ser conservado.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Nas montanhas.

Entro como quem entra em um lugar não-reconhecível. Longe de apenas desconhecido, um lugar onde a geometria não segue as regras padrões. Ângulos impossíveis e caminhos improváveis. Assustado com o que meus olhos desentendem, ando sem rumo em busca de uma porta, ponte ou qualquer coisa que simplesmente faça sentido. A solidão ecoa de formas pouco prováveis e o silêncio se mostra mais presente do que nunca. A presença da ausência incomoda, a contradição se manifesta de forma física e dói. Cada passo pede um esforço muito maior do que o previsto, como se a gravidade trabalhasse contra em todas as direções. Nem a textura das paredes meus dedos reconhecem, como se tudo fosse ligeiramente diferente de propósito. A luz bate como na borracha mas o toque sente o aço frio. O corpo pesa mas a necessidade de resposta luta contra. A caminhada continua enquanto a montanha segue. Sem saída, continuo em busca de um mísero sinal de sanidade fora ou dentro de mim.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Ressaca.

Entre a cortina, um raio de sol ilumina parte do seu rosto.
O gosto da ressaca, a cabeça dói, a mente fraca.
A água falta, desidrata.
A noite passada se esconde em mistério.
O critério, cada vez menor, reflete em arrependimentos.
O pensamento a mil, confuso, febril.
O corpo retorce, abraço e aceito.
Porque o que foi feito acaba tendo pouco efeito num panorama geral.
E se o corpo passa mal, que sirva de aprendizado
De que o passado volta pra assombrar no dia seguinte
Mas outros dias seguem.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Última balada.

Numa tarde de domingo de um dia nublado,
seu sorriso e risada preenchiam meu quarto.
No meu violão uma balada triste
que você acompanhava num rima livre.
As roupas jogadas como quem não tem pressa.
a fotografia pegava o detalhe.

Numa noite de domingo de um dia chuvoso,
seu sorriso nervoso dizia o que eu não queria ouvir.
A meia-luz destacava a meia-lua no chão,
a lua cheia iluminava o colchão.
"Uma última balada?", eu pedi,
mas perdi, você já tinha ido.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Deriva.

O vazio é o que mais incomoda. O buraco na rotina. Um membro-fantasma que dói só para chamar atenção para sua ausência. A dependência física e psicológica é um quebra-cabeça incompleto que você precisa aceitar que está faltando peças. Estão perdidas debaixo de tapetes ou dentro do sofá. A conversa casual que fazia o ponteiro rodar não pode ser substituída porque nenhuma outra conversa é casual. Tudo tem objetivos e motivações. E o tempo é o que não passa, porque só ele mesmo que tem que passar. Livros, filmes, séries, festas, trabalhos, amigos, jogos. Tudo em câmera lenta como se me puxasse para fora do palco e dissesse "você não está pronto". E nunca vou estar, a gente só se acostuma e toma coragem pra continuar apesar dos medos, apesar do despreparo, apesar do vazio. É o castelos de cartas que desmorona quase no fim. Não só desmorona, pega fogo e de repente não há mais cartas. O fogo queima sua mão. Você respira fundo e pensa se quer mesmo recomeçar. Você viu seu objetivo tão próximo e já não sabe se compensa passar por tudo de novo para chegar em um lugar que não era aonde você queria. Tem dia que bate mais pesado mesmo. O silêncio fala mais alto que o fone de ouvido. O eco reverbera as palavras não ditas, os fatos não feitos. Como dói. A lágrima cai fácil e inesperada, tudo é gatilho. Um tiro doeria menos. O consolo é saber que sobreviveu até aqui, de momentos piores, tudo isso vai passar. Não hoje, nem amanhã, mas vai. O vazio se preenche com outras coisas, a ausência de torna menos presente e menos notada. Enquanto isso o barco flutua a deriva, torcendo pra que o vento não bata nem que nada o afunde. O sol queima e o sal desidrata. Mas a terra chega pra todo náufrago.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Relatividade.

Não sei quando foi
que o tempo começou a passar diferente,
mas sei que de repente
as horas não eram mais as mesmas.
E mesmo que eu ocupe a cabeça,
peça aos céus que algo aconteça,
a hora está mais devagar.
Divago sobre o motivo,
sobrevivo cada minuto,
mas a hora seguinte demora a chegar.
No meu peito, mora a angústica,
a perspectiva vive perdida,
porque a dor mais doída
é a espera de algo que não vai voltar.
Preencho as lacunas com linhas e colunas,
tentando ocupar o tempo que sobra.
Mas as sobras, migalhas de um outro momento,
ganham a atenção
como um ponto preto em uma superfícia branca.
A gota de sangue estancada segura a sangria a cada dia.
E quando os olhos fecham finalmente
em pesadelos consecutivos,
É breve o descanso pela frente
É longo o tempo de mais um dia.