terça-feira, 30 de março de 2021

O que foi você?

O que foi essa parte de mim
Que de um dia pro outro
Se fez um ser por si
E me fez me sentir um pouco mais eu?

O que foi você que corria sem me ouvir
Sem medo de cair ou de se machucar
E cada choro sofrido
Rasgava meu peito devagar?

O que foi você me olhando nervosa
Esperando sua hora de subir no palco
Tentando lembrar cada passo que a gente ensaiou em casa?

O que foi você de coração partido
Procurando no meu colo apoio silencioso
Sua comida preferida e um filme bobo
Até chegar a hora de dormir de novo?

E o que foi quando você foi embora?
Quando chegou a hora de me despedir
Porque seu lugar era lá fora e não dentro de mim

O que sobrou de mim se tudo que eu era
Existia por você, pra você, de você?
Quem eu sou agora se foi você que me fez
Do mesmo jeito que eu fiz você
E agora só sobrou eu?

Presa.

Preso em casa eu percebo
A marca da presa na minha pele
A pressa da cura de quem fere
Vestígio visível do meu medo
Escondo embaixo da cama
Amanhã me traz novos tentos
Me esquenta e protege do vento
Emula o carinho de quem ama
Detrás do muro eu mantenho
E tenho tudo que eu preciso
O básico pra me manter vivo
Motivo pra guardar o que tenho
E se eu declarar meu amor
Por favor não responda o chamado
Pois consigo colocar de lado
Mas não com a certeza de não se amado

quarta-feira, 17 de março de 2021

Molde.

As botas apertam como deveriam
Elas precisam de tempo para se moldar
Eu ignoro o incômodo e persevero
Talvez não seja minha vez de se adaptar
Um passo de cada vez, um metro mais perto
Qual é o jeito certo de se mudar?
Longe de mim dizer que estou correto
Mas se estiver errado sou eu mesmo que vou pagar
"Reto é o caminho do sucesso
Não tem erro, é só seguir, pode confiar"
Me perco em atalhos desertos
Na esperança de que me levem pro mesmo lugar
O não-caminho é uma escolha em si
Passar por onde ninguém quis passar
Mas a falta de um guia aperta
Quando não tem sinal algum pra continuar
Mas a cada passo a bota se molda
Dessa vez não sou eu que vou mudar
Que o mundo se mude em minha volta
Meu destino é onde quer que eu vá chegar

sábado, 21 de novembro de 2020

Explosão.

A explosão instaura o silêncio
Lá fora, nem um pio se ouve
"O que houve?" todos pensam

Tonto levanto do canto escuro
No susto nem vi a queda chegar
Duro encaro os caídos muros

Espera a ajuda mas não vem
Pega tudo que puder salvar
Deixa pra trás o que não faz bem

Lembra quando éramos felizes
Narizes juntos na noite fria
Apoio mútuo em tempos de crise

Hoje vago sozinho pela cidade
Ou o que restou depois da explosão
Um segundo acaba com uma comunidade

Carrego comigo minhas lembranças
E a esperança de dias melhores
Se não por mim, pelas nossas crianças

Poesia.

Nosso amor era prosa poética
Com métrica e rima escondida em cada canto
Ainda por cima, nossa conversa era canto
Difícil explicar a dialética
Pra alguém que nunca amou tanto
A gente sincronizava nos detalhes
No entalhe da madeira da estante
E no instante de silêncio
que se tornava um vale imenso

Por isso que senti tanto quando foi embora
Fora a falta, quanto eu queria estar ali sem você

E meu verso ficou sem rima
Complexo e sem graça ainda por cima
Uma poesia fria, sem ritmo
Palavras vazias que um algoritmo organizou
Hoje meu texto falta
Sobra espaço, desejo vital
Não recebo alta nem ponto final

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Abrigo.

Não precisa bater
A porta está aberta
Não tem hora certa
Pra você chegar

Não repara a bagunça
É que eu tô mudando
Até o final do ano
Não sei onde eu vou estar

Mas fique a vontade
Pode tirar o sapato
Você já conhece meu gato
E onde eu gosto de sentar

Aceita um café?
Eu tô sem açúcar
Fumando bituca
Pra economizar

Mas cabe mais um
Não tem muito luxo
Mas só mais um bucho
Não vai estorvar

Vou deitar um pouco
Minha cabeça doída
Minha vida falida
Quero descansar

Mas não vai embora
Vem deitar comigo
Me faz de abrigo
Até acordar

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Sozinho.

A gente não tá sozinho
Sei que parece às vezes
Quando a gente olha em volta
E não vê ninguém
Mas eu prometo
Você também não está sozinho

A gente anda tentando se esconder do frio
Chora de noite no colchão vazio
A gente luta como quem não tem chance
E tenta se manter em pé só mais um instante
Mesmo nessa hora, quando seu olho perde o brilho
Eu prometo, você não está sozinho

A gente guarda muita coisa pra si
Se joga morrendo de medo de cair
Ultrapassa limites que nunca pensou
E chega em lugares que nunca chegou

Mas me algum lugar, de verdade,
Tem alguém que sente saudade
Que torce pra que tudo corra bem
Que lembra de você quando diz amém
Tem alguém, sempre tem alguém
Esperando por você no final do trilho
Porque a gente até sente mas nunca está realmente sozinho.