quarta-feira, 17 de abril de 2019

Gaiola.

O que é essa sensação de desprendimento que cresce? Depois de tanto tempo que eu me esforcei para fazer parte? Depois que eu voei por um tempinho e a situação me isolou do solo, parece que tudo continua pequeno mesmo depois que eu pousei. Os problemas não me atingiam lá de cima, as expectativas também não. Fui livre como me preparei para ser. E agora que voltei, estou quase sem lugar, como se aqui também fosse só passagem. O destino é para fora, o lugar que não me permitia conhecer. E me deixar vagar sem rumo, deixar o acaso tomar conta dentro do pequeno controle que tenho de escolher estar naquela situação. O poder que isso dá é imenso, pois toda dor é menor e passageira quando você olha o todo. Vai doer, com certeza, como uma tatuagem sofrida que pra sempre está marcada. Mas tudo me empurra pra fora, mesmo fora do meu controle. Apressam o processo, bloqueiam meus desvios. A ladeira me deu o embalo necessário para ganhar velocidade e voar novamente. Mas eu ainda vacilo, desacostumado a poder. Ansiando por uma direção que não depende de mais ninguém. Só me querem fora daqui, tudo conspira. Eu deixo a corrente me levar, menos preocupado em firmar os pés no chão. Outras quedas virão mas também novos vôos. Não adianta olhar da gaiola e imaginar o mundo lá fora, a porta está aberta.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Aquário.

Esbarro em paredes de vidro
Que não tinha notado até então
Talvez por nunca ter ido
Muito além do que me alcança a mão
O crescimento força as paredes
Rompendo aos poucos o que me prende
Sem indicação de caminho certo
Me deixando a deriva num mar aberto

Flutuo sem direção
A corrente indica um rumo
Mas no nado está a intenção
Na potência do querer que consumo

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Orquestra.

O suor na testa

Testa a resistência

E atesta o esforço

No osso, o músculo grudado

Fatigado em câimbra

Sombra projetada

Na parede branca

Emulando o movimento

Lento e devagar

Vago os dedos no teu corpo

Sopro quente e ofegante

Preso como presa em seus dentes

Imóvel olhar hipnotizante

Antes do auge, ruge

Urge o tempo em instante

Instrumentos sincronizados

Em ritmo e tempo

Maestria regente 

E afinados

quarta-feira, 27 de março de 2019

Areia.

A areia é o efeito colateral
De milhares de anos
de ondas batendo em pedras
Um leve tropeço no final
De vários planos, pontos e metas
Um pequeno preço a se pagar
Pelo movimento errático da natureza
A onda feroz vinda do mar
Engolindo aos poucos a sua presa
Se pudesse a pedra ficava mais
Mas se vê aos poucos se desfazendo
Em nova forma, novos cristais
Novos lugares guiados pelo vento
Assim segue o caminho torto
Assim funciona o seu destino
Onda que bate forte no morro
Carrega aos poucos o seu refino

sexta-feira, 22 de março de 2019

Lição.

Você consegue sentir o peso saindo das suas costas?
A aposta que não tinha mais fim teve enfim um vencedor.
A dor, por maior que fosse, diminuiu gradualmente.
E sua mente achou a clareza que tanto procurava.

Estava difícil, como é todo trajeto
Perdido, nas primeiras páginas do projeto
O teto desabando e ficando sem chão
Tentando diferenciar o real da ilusão
Mas agora, pés firmes dão o passo
Ditam o ritmo, traçam o traço
Fora do caminho trilhado
Expandindo o possível do inacreditado

Sem asas você voa, boa visão do que vem pela frente
Enfrentar novos desafios, fio afiado corta rente
Se os tropeços doeram no começo
Agora você tem a certeza de joelhos resistentes

quarta-feira, 13 de março de 2019

Muralhas.

Alguma coisa repousa debaixo de tudo
Disfarçado com o chapéu e os óculos escuros
Que nem toda a roupa no chão revela
Nem mesmo o Sol ou a luz de uma vela
O que está por trás do sorriso forçado
Que o olho vermelho disfarça embaçado
As palavras desviam em outros assuntos
O que é que se esconde por baixo de tudo

Traumas tão grandes que inquietam a alma
Medos tão fortes que enrijecem os dedos
Muros tão duros que não se fazem mais furos
Na esperança que sumam quando ficam em segredo

Mas a vida é jogo
Cada um dá seu passo
O turno acaba e conquista seu espaço

Só que portas fechadas
Mantém as visitas de fora
De longe e nunca mais vistas
A dor encarada pode ser dividida
Não carregue sozinho o peso da vida


sexta-feira, 1 de março de 2019

Juntos.

Você soltou a mão por um segundo e me perdi na multidão de gente. Olha em volta em busca do lenço azul que você usava na cabeça não consegui te encontrar. Me preocupei que você se preocuparia sobre onde eu estava mas logo passou, é carnaval e cada um sabia bem seus próprios limites e como se manter seguro. Me deixei aproveitar as diferentes músicas que dava pra ouvir da minha posição, uma bem próxima, algo que era considerado brega quando saiu mas que hoje, vinte anos depois, ganhou status de cult e era entoado por todos a minha volta. Um pouco mais distante eu ouvia uma música que reconhecia. O ritmo e depois a letra. Lembro de adolescente ouvir aquilo na tv e me perguntar o que significa. Perdido na metáfora, que hoje eu entendo que era apenas sexo como a maioria das músicas que existem, criei minha própria interpretação quase que literal do que ela significa. Eram tempos mais puros, da minha parte pelo menos. Meu olhar continuava viajando em busca do seu lenço azul, e já pensando em como atravessar aquela multidão para o nosso ponto de encontro caso nos perdêssemos. Uma mão pousou no meu ombro e quando eu já virava automaticamente que tinha namorada, você sorridente me entregava um copo cheio de uma bebida azul. Seu sorriso me trouxe alívio e me fez perceber melhor onde estava. A atipicidade da situação, como cheguei ali, o que estava ouvindo, as pessoas em minha volta e, principalmente, estar com você me trouxeram uma sensação de leveza. Como no dia em que deitei em seu colo pela primeira vez e soube que ali eu poderia repousar. Sei que ali, no meio de milhares de pessoas, eu posso desligar minhas defesas. Os escudos e muros que construí em longos anos de exposição ao mundo e que moldaram a dura pedra dos meus valores. Por um momento, meus pais deixaram o chão pra trás e flutuei sobre todos nós. Enquanto me afastava, via quase em uma clareira, nós dois parados no meu momento de realização. Nem a música eu ouvia mais, só o bater do meu coração. O silêncio do momento indicava que eu não estava mais ali, transitava em uma outra dimensão onde coisas como essa se eternizam. Foi sua respiração próxima a minha boca que me trouxe de volta. Você repetiu o convite para irmos embora. Peguei o copo de sua mão e nos guiei em meio a multidão. Aquele dia eu voei. Não sei se vão acreditar em mim ou se um dia isso vai se repetir, mas a leveza desafia a gravidade e flutua a menor brisa. Se foi você que me soprou ou as forças da natureza, nunca vou saber. Mas lá do alto eu posso afirmar: nós somos muito bonitos juntos.