sexta-feira, 22 de março de 2019

Lição.

Você consegue sentir o peso saindo das suas costas?
A aposta que não tinha mais fim teve enfim um vencedor.
A dor, por maior que fosse, diminuiu gradualmente.
E sua mente achou a clareza que tanto procurava.

Estava difícil, como é todo trajeto
Perdido, nas primeiras páginas do projeto
O teto desabando e ficando sem chão
Tentando diferenciar o real da ilusão
Mas agora, pés firmes dão o passo
Ditam o ritmo, traçam o traço
Fora do caminho trilhado
Expandindo o possível do inacreditado

Sem asas você voa, boa visão do que vem pela frente
Enfrentar novos desafios, fio afiado corta rente
Se os tropeços doeram no começo
Agora você tem a certeza de joelhos resistentes

quarta-feira, 13 de março de 2019

Muralhas.

Alguma coisa repousa debaixo de tudo
Disfarçado com o chapéu e os óculos escuros
Que nem toda a roupa no chão revela
Nem mesmo o Sol ou a luz de uma vela
O que está por trás do sorriso forçado
Que o olho vermelho disfarça embaçado
As palavras desviam em outros assuntos
O que é que se esconde por baixo de tudo

Traumas tão grandes que inquietam a alma
Medos tão fortes que enrijecem os dedos
Muros tão duros que não se fazem mais furos
Na esperança que sumam quando ficam em segredo

Mas a vida é jogo
Cada um dá seu passo
O turno acaba e conquista seu espaço

Só que portas fechadas
Mantém as visitas de fora
De longe e nunca mais vistas
A dor encarada pode ser dividida
Não carregue sozinho o peso da vida


sexta-feira, 1 de março de 2019

Juntos.

Você soltou a mão por um segundo e me perdi na multidão de gente. Olha em volta em busca do lenço azul que você usava na cabeça não consegui te encontrar. Me preocupei que você se preocuparia sobre onde eu estava mas logo passou, é carnaval e cada um sabia bem seus próprios limites e como se manter seguro. Me deixei aproveitar as diferentes músicas que dava pra ouvir da minha posição, uma bem próxima, algo que era considerado brega quando saiu mas que hoje, vinte anos depois, ganhou status de cult e era entoado por todos a minha volta. Um pouco mais distante eu ouvia uma música que reconhecia. O ritmo e depois a letra. Lembro de adolescente ouvir aquilo na tv e me perguntar o que significa. Perdido na metáfora, que hoje eu entendo que era apenas sexo como a maioria das músicas que existem, criei minha própria interpretação quase que literal do que ela significa. Eram tempos mais puros, da minha parte pelo menos. Meu olhar continuava viajando em busca do seu lenço azul, e já pensando em como atravessar aquela multidão para o nosso ponto de encontro caso nos perdêssemos. Uma mão pousou no meu ombro e quando eu já virava automaticamente que tinha namorada, você sorridente me entregava um copo cheio de uma bebida azul. Seu sorriso me trouxe alívio e me fez perceber melhor onde estava. A atipicidade da situação, como cheguei ali, o que estava ouvindo, as pessoas em minha volta e, principalmente, estar com você me trouxeram uma sensação de leveza. Como no dia em que deitei em seu colo pela primeira vez e soube que ali eu poderia repousar. Sei que ali, no meio de milhares de pessoas, eu posso desligar minhas defesas. Os escudos e muros que construí em longos anos de exposição ao mundo e que moldaram a dura pedra dos meus valores. Por um momento, meus pais deixaram o chão pra trás e flutuei sobre todos nós. Enquanto me afastava, via quase em uma clareira, nós dois parados no meu momento de realização. Nem a música eu ouvia mais, só o bater do meu coração. O silêncio do momento indicava que eu não estava mais ali, transitava em uma outra dimensão onde coisas como essa se eternizam. Foi sua respiração próxima a minha boca que me trouxe de volta. Você repetiu o convite para irmos embora. Peguei o copo de sua mão e nos guiei em meio a multidão. Aquele dia eu voei. Não sei se vão acreditar em mim ou se um dia isso vai se repetir, mas a leveza desafia a gravidade e flutua a menor brisa. Se foi você que me soprou ou as forças da natureza, nunca vou saber. Mas lá do alto eu posso afirmar: nós somos muito bonitos juntos.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Recorte.

Na janela, um recorte da cidade
Na fotografia, um recorte do tempo
No espelho, um recorte de mim
Na memória, só o que eu me lembro

Isolar um pedaço para emular o todo
Enfeitar sua parede com um quadro torto
Uma pequena irregularidade em seu controle
Contra todo o descontrole de um dia morto

Troca a roupa, o cabelo
O sorriso e a mão
Pois trocar de quem se é
Está fora de cogitação

A inquietude da perna acompanha o relógio
Dezoito horas se aproxima a passos lentos
Uma linha fina entre o amor e o ódio
Que dissipa e se confunde com o passar do tempo

Porque o recorte do tempo quando se imita
Se resume a reviver sempre seu próprio fim
Como um ciclo infinito se repetindo em vida
E as mesmas motivações ditas para mim

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Caça.

Um bicho faminto
O confunde com presa
Afiando suas presas
E vasculhando o recinto
Jogado-se fora
Fazendo frio lá fora
Você percebe que a hora
De ir embora chegou
Se coragem te falta
De falar em voz alta
E por fim, não adianta
Pois um grito espanta
Predador acuado
Caçador assustado
E é você que resiste
Se ainda existe
Algo em que se apoiar
É esse o caminho,
Não é preciso ir sozinho
Mas é melhor levantar

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Meu jeito.

Meu jeito de me vestir
A cara quando como algo ruim
O pé que mexe a noite
Meu tique com o anel
A boca quando me concentro
A lágrima em filme bobo
O tempero na comida
O carinho na barriga
Meu cheiro pós-banho
Como cheiro sua nuca
Deitado no chão
Mudando o canal
Seguro a porta
Falo por favor
Peço desculpas
Franzo a testa
Testo sua pele
Faço cosquinhas
Enxugo suas lágrimas
Piada fora de hora
Com o tema errado
Converso demais
Com você e seus amigos
Falo o que não devo
Busco aprovação
A noite, sozinho, o travesseiro recebe
As energias acumuladas
Em transações banais
No sonho, sou leve
Acordo melhor
O amanhã sempre chega
E dissipa a dor

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Broca.

Minha vida me ensinou uma estratégia simples de lidar com frustrações: se eu não vou ter, eu não vou nem querer. O que é bom demais porque evitou que eu sofresse desnecessariamente por diversas coisas ao longo desses quase trinta anos. Esperar tudo estar certo, e acontecendo, pra me empolgar evitou que eu criasse expectativas em diversas situações onde as coisas não se realizaram. Da mesma forma, me blindou demais ao pegar os pequenos sinais de que as coisas dariam errado, em momentos ou em pessoas, e me apoiar naquilo na minha preparação e alinhamento de expectativas. Nisso, foram raríssimas as vezes que as pessoas me surpreenderam, negativa ou positivamente, já que meu cérebro já me preparou para todas as variáveis que eu consegui simular na minha cabeça. Como o Doutor Estranho no filme do Vingadores onde todo mundo morre porque as possibilidades eram gigantemente maiores que todo mundo fosse morrer mesmo. Mas uma vida quase livre de decepções cobra seu preço e na terapia descobri qual era: simplesmente perdi parte da capacidade de sonhar. Não o sonho automático do nosso subconsciente quando estamos em modo descanso durante a noite, mas o sonho de traçar planos (quase) impossíveis para continuar e seguir em frente. Meu superpoder de saber que as coisas podem dar e geralmente dão errado me cegou para aquela pequena chance das coisas realmente darem certo. E não é nem que eu PENSO que não vai dar certo, muitas vezes meu cérebro nem sequer cogita a possibilidade de algo acontecer tão escorado na possibilidade dela não acontecer que existe. "Quais são seus sonhos?" foi a pergunta-gatilho dessa vez, e minha resposta foi um pequeno passo de onde eu estou. Tenho muito orgulho de estar aqui, mas é triste entender que cheguei aqui em pequenos passos possíveis, que, apesar de desejar o grande, ele é tão distante da minha realidade que é como se não existisse. E a cada pequeno passo eu calculo os próximos passos seguros e possíveis, no máximo alguns passos à frente. Porque a estrada distante só existe realmente quando eu estiver lá e me empolgar com um prospecto tão "improvável" é algo que eu guardo pra quando eu estiver realmente. Como tantas outras coisas que me privaram e me privei, a capacidade de sonhar longe é uma das que mais eu sinto falta. Não existe um manual para mudar isso, não tem uma técnica que eu possa treinar e mudar meu pensamento. Sigo na terapia, que atualmente tem sido meus pequenos passos, mas algumas coisas estão tão intrínsecas a mim que vou precisar de uma broca mais dura para encontrar.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Cheiro.

Você saiu mas ficou o cheiro
Do seu cabelo no meu travesseiro
Mesmo quando troco a roupa de cama
Lembro da sua roupa do lado da cama
Sua voz baixa dizendo que me ama
Vestindo minha camiseta de pijama
Seu dedo deslizava na minha nuca
Nunca pensei que diria isso
Seu jeito ausente que me machuca
Sua presença que criou o vício
Porque quando você teve que ir embora
E nada que eu fizesse impediria essa hora
Afundei meu rosto na tentativa ilusória
De que seu cheiro também impregnasse minha memória

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O Verbo.

No início era apenas o Verbo
Com ele aprendi o que era certo
O errado veio como consequência

Nos primeiros passos foi minha ferramenta
Depois foi meu refúgio
O fogo que me esquenta
Na lareira de um quarto escuro
Minha arma sempre pronta
Uma faca afiada
Como um mergulho de ponta
Que rompe a tensão de entrar na água
Em algum momento virei seu escravo
Preso na coerência da linha reta
No que eu digo e no que eu faço
No que entendo como coisa certa

Estou parado em uma encruzilhada
Torcendo os trilhos com minhas próprias mãos
Fazendo aproximar as duas estradas
Mesmo que caminhem em outra direção
O verbo é meu lugar-comum
Minha morada, meu conforto
Sou o monge em jejum
Lutando para não estar morto

O verbo prende, a mente salva
Mas o caminho não é fácil
Se a palavra foi minha armadura
A mente é meu ponto frágil

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Mancha.

No esforço de apagar minha história
Rasguei e manchei o papel
A marca ficou na memória
Como sangue em um chão de hotel
Que desconforta quem chega por lá
Ou se tampa com um carpete bonito
Apagando um trauma pesado
Como se não tivesse sido escrito

Mas a marca não mente
E expõe que esconde
Quando de repente
Surge não se sabe de onde
Mostrando a história que não foi contada
Obrigando a lidar com o que aconteceu
Voltando sempre pra página virada
Trazendo de volta o que já morreu

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Mas nada disso...

A insuficiência foi algo que sempre me marcou. Aquele sentimento eterno de dar seu melhor, oferecer resultados positivos, crescimento, uma boa experiência e ainda assim... ver isso tudo escorrer pelos dedos. Talvez por ter sido criado num ambiente de insatisfação constante, o que até me deu certa liberdade de entender que se por mais que eu me esforçasse eu não agradaria me permitindo focar minhas energias nas coisas que eu realmente acreditava. Mas o subconsciente tá aí pra não deixar nenhum sentimento ruim ir embora sem rasgar seu peito primeiro e, por toda minha vida, em todos seus aspectos, a insuficiência minha diante do outro se fez presente. O trabalho é um exemplo perfeito, onde você pode ser o melhor, gerar lucros, elogios, prêmios, inspirar outras pessoas, e ainda assim ser diminuído ou negado reconhecimento por causa do ego ferido de outra pessoa que tem mais poder circunstacial e menos capacidade técnica. Em relacionamentos isso também se faz presente, onde a imagem idealizada do outro sobre você, ou sobre sua posição, dificilmente estará alinhada com a realidade e, mesmo se estiver, outras demandas e traumas estarão no caminho para dizer que nada daquilo é o suficiente. O ser humano é falho, e a convivência com o outro torna a nossa experiência delicada. O esforço ou performance individual tem pouco impacto na socialização porque diversos outros elementos filtram ou esbarram na percepção. O que você faz, quem você é, não é necessariamente, e muitas vezes até diverge completamente, da percepção do outro sobre você. Daí caímos num espiral de frustrações, de um lado por não conseguir entregar o que o outro espera e por outro por não ter o que se espera.

Me chamou atenção nesse fim de ano a música "Solamento" da banda Tuyo. Mesmo não tendo percebido de primeira o porque daquela música me tocar tanto, foi parando um pouco pra refletir na letra que entendi completamente o que ressoava tanto em mim. A música fala justamente da insuficiência, no caso em um relacionamento amoroso. Como o eu-lírico pode se adaptar da maneira que for, ou mesmo ser o que for, e isso não será o suficiente para trazer a pessoa amada de volta, e como aprender isso é um processo cruel. Penso um pouco na minha experiência com a banda, onde gravei um vídeo deles em um show e, por um problema com o áudio da gravação, a entrega do vídeo atrasou alguns meses. Com o problema resolvido e tendo uma das coisas mais bonitas que eu já registrei pronto para ser lançado, entramos em contato com a banda para avisarmos do lançamento e fomos ignorados completamente. Não por serem escrotos, muito pelo contrário, são um dos artistas mais doces e simpáticos que eu já convivi, mas por ignorância nossa eles estarem lançando um outro clipe, muito maior, na mesma data. Em meio a tantas preocupações, não nos cabia cobrar deles um mínimo de atenção a algo secundário na vida deles, por mais importante que fosse na nossa vida. Não são vilões, são pessoas com suas demandas que, naquele momento, não se encaixavam com a nossa. De uma maneira bem literal, nosso melhor não foi o suficiente para se encaixar na demanda daquelas pessoas que não tinham a menor intenção de nos fazer mal. Deixo aqui o vídeo que produzimos da canção "Boi".


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Estômago.


A sensação na boca do estômago
o gosto de vômito na boca
A queimação que esquenta e derruba
na primeira gota de pimenta
O café de bom dia que acaba com seu dia
A coca que traz dor não traz prazer
Até onde seu estômago aguenta?

O homem que pede dinheiro no sinal
A mãe que não consegue alimentar seus filhos
O trem que mata cem ao sair dos trilhos
O jovem armado na escola numa terça normal
A criança que não tem o que comer em casa
O político que rouba sem consequência
A cicatriz feita a brasa
Por um marido com pouca paciência
Até onde seu estômago aguenta?

Estender a mão quando não se está de pé
Tirar da boca pra alimentar alguém
Pular do penhasco num salto de fé
De que depois do chão tem algo além
Do soco no estômago que te desnorteia
Rindo de quem ri de barriga cheia
Se você é menor que a barra que você enfrenta
Me diz, até onde seu estômago aguenta?

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Sono.

Ontem quis ser seu travesseiro
Entre suas pernas e seus braços
Na sua nuca sentir seu cheiro
No seu calor estar guardado
Queria ser seu cobertor
Trazendo calor e proteção
Roçar suave entre seus pés
Entrelaçar em suas mãos
Queria ser sua janela
Entreaberta com a luz da lua
Deixa o vento passar por ela
E ilumina a noite sua
Queria ser o sol que te desperta
Trazendo calor para seu rosto
Com a permissão da cortina aberta
Liberta você de maus sonhos