quarta-feira, 17 de julho de 2019

Capitão.

Mar calmo não faz bom marinheiro
Então guio o barco para o olho do furacão
Passo confiança para minha tripulação
Enquanto por dentro me tremo inteiro
Mas do outro lado tem nosso destino
A fama e glória que me prometeram
O tesouro de ouro genuíno
As praias que outros homens não conheceram

E eu finjo costume
Como de costume
Como sempre fiz
Assim guio os meus
No desejo de Deus
Contra o que eu quis

A onda levanta a proa
O mar se revolta irritado
Vira o barco como canoa
Testa meu fôlego e nado
Na praia, levanto perdido
Em meio a areia e derrota
Pior é ter sobrevivido
E ver afundar minha frota

De noite, fantasma me assusta
De dia o que me assombra é a fome
Tesouros não valem a luta
De ver morrer os meus homens

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Passarinho.

Observo o passarinho
E ele também me observa
De longe desconfio
De suas asas abertas
O galho no bico
O ninho de pedras
O canto sombrio
Prevê suas metas

Pobre passarinho
Que não sabe meus planos
Do meu sangue frio
Do meu lado humano
O que me faz sentir vivo
E minha mira certa

Rio bobo do pássaro assustado
Pobre passarinho
Com seu peito estufado
Me dá um rasante em que caio deitado
Pobre menino
Mexeu com o pássaro errado

domingo, 30 de junho de 2019

Desculpas.

A medicação já estava fazendo efeito há tanto tempo, que eu não conseguia mais medir o tempo. Meus cochilos duravam horas, dias às vezes, e minha mente transitava entre o quarto do hospital e um completo nada com mais facilidade do que eu gostaria. No começo ainda me traziam comida, depois tive que me contentar com o soro que me davam pra me manter. Não que eu sentisse fome, mas a memória dos sabores e da satisfação ainda era muito recente pra mim. O frio e o calor também se revezavam com facilidade no meu corpo, logo me acostumei a estar sempre suando, pelo menos assim diminuía as vezes que eu precisava ir ao banheiro, sempre um momento mias constrangedor pra mim do que pra enfermeira. Meu corpo, fraco, mal conseguia apertar o botão de auxílio, mas a equipe estava sempre alerta comigo. Qualquer descuido podia agravar demais minha situação.
Os médicos não me falavam, mas muitas vezes eu ouvia eles dizerem sobre meu estado enquanto achavam que eu dormia. Não havia muita esperança porque não havia resposta. Os exames eram inconclusivos e o tratamento não demonstrava grandes resultados. Com meus olhos abertos, a reação era sempre outra. Traziam boas notícias e esperanças. Como se viver meus últimos dias feliz diminuísse um pouco o peso desses meus últimos dias.
"As flores morreram antes de mim", eu disse numa tentativa de quebrar um pouco o gelo mas só consegui fazer minha mãe chorar ainda mais por não conseguir cuidar nem das flores que levou pro meu quarto. Dizem que você se acostuma com a dor, mas estar acordado era insuportável todos os dias. Por isso meus olhos escolhiam se fechar por muitos momentos, na esperança de que se eu não me mexesse, meu corpo se desligaria sozinho.
Sempre gostei muito de viver, e investi anos demais da minha vida nisso pra abrir mão facilmente, mas cada dia que eu acordava era uma decepção. Morrer dormindo era minha escolha desde sempre, nas brincadeiras de criança onde isso não passa de uma ideia tão distante quanto um filme no Espaço Sideral. Hoje era uma realidade e um desejo, meu corpo poderia se desligar a qualquer momento, mas insistia em não. Pros meus pai eu era um milagre, um sentimento egoísta de me manter ao lado deles a qualquer custo, como prova do sucesso deles como pais, mas se o Deus que eles acreditam fosse tão poderoso, ou piedoso ao menos, já teria me poupado desse processo cansativo e doloroso. Ou me explicado melhor o plano tão grandioso que me transformaria meu martírio em uma peça-chave. Mas não, era sempre a enfermeira, ou meus pais. Alguns amigos. E o ritmo cada vez menor, e eu ficando cada vez menos ativo e interativo.
Até que hoje, você veio. Sem dó, mas sem peso nas palavras, me falou sobre como eu poderia ter sido uma pessoa melhor. Falou também sobre como eu te machuquei tantas vezes, machuquei meus pais e as pessoas na minha volta. Assumi cada erro e tentei contextualizar o que eu pensava na época, mostrar um outro lado. "Nunca me considerei uma pessoa ruim, não queria seu mal", disse mas você discordou. Com a delicadeza de sempre, me ensinou muito tarde demais. Porque eu também percebi tarde demais o quanto você me fazia bem. Devaneios infantis de um homem que viveu demais e aprendeu pouco. Aprendizado tardio de coisas que deveriam estar ensinar na escola. Os bons momentos eram eclipsados pelo meu passado e pelo remédio que mais uma vez me derrubava. Pedi desculpas por não conseguir continuar a conversa e pedi desculpas por tudo que eu fiz. Tudo mesmo, cada detalhe. Fechei meus olhos pela última vez, carregando comigo toda a culpa dos meus erros.
Hoje, o mundo inteiro dormiu mais leve.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Dose.

Entro arrastado mais uma vez na casa de um desconhecido que recebia nessa noite fria de julho alguns jovens em sua casa com as responsabilidades de trazerem suas próprias bebidas e não bagunçarem muito as coisas. Como acontecia muito nessa época, um amigo de um amigo estava ficando com uma menina que conhecia o dono da festa e por isso recebemos o convite informal em um grupo de WhatsApp. O trabalho tinha sido cansativo e eu estava numa parte especialmente empolgante do livro que eu lia nas horas vagas, então precisei de mais do que uma pequena insistência para sair de casa. O veredito veio com a garantia que iríamos embora no momento em que eu não quisesse mais estar lá, e a promessa de que eu ia adorar, ia me fazer bem sair um pouco de casa. Coloquei a roupa mais limpa que tinha, peguei uma garrafa de um vinho barato que estava parada em minha geladeira e esperei meus amigos chegarem. A casa ficava a poucos quilômetros da minha, em um bairro bem residencial. A música parecia vir dos fundos e não estava alta o suficiente para incomodar os vizinhos. Do lado de fora, um casal discutia o relacionamento enquanto era observado por um sujeito um pouco mais velho que tentava acender seu cigarro e era impedido de entrar. Entramos buscando algum rosto conhecido e logo encontramos o amigo do meu amigo que levantou do sofá para nos receber e logo nos apresentou o dono da casa. "A geladeira pode usar essa daqui e tem um isopor ali no fundo. O banheiro da casa é feminino, homens usam o banheiro lá de fora. Fumar só na rua. Fiquem à vontade, se precisar de algo é só me chamar". Enquanto eu procurava um saca-rolhas entre os talheres do meu anfitrião, eu já refletia que nem lembrava mais o nome dele. Encontrei meus amigos no fundo, encostados em um muro dando uma analisada na situação. Muitos rostos novos, poucos rostos amigáveis, a música estava bem baixa e tocando uma playlist nada a ver. Um sujeito de boina em um grupo do nosso lado, explicava para três caras e uma mina sobre as principais diferenças entre as fases do romantismo literário. Um dos sujeitos ouvindo a conversa mexia em seu celular e outro estava bêbado demais para captar o que estava acontecendo. Já a garota estava completamente dentro da discussão, exaltada, apontando os erros históricos que o primeiro cara citava. Em outro canto, encostados em um banco próximo a um tanque de lavar roupas, duas amigas ouviam um terceiro cara contar algo, completamente entediadas. Nós, eu e meus amigos, éramos auto-suficientes. Só queríamos mesmo um lugar onde pudéssemos beber e ver pessoas. Nossos assuntos flutuavam entre a atual situação do futebol brasileiro e as nuances de interpretação da Meryl Streep no seriado. Nosso talento era falar por horas sobre assuntos que nem sempre dominávamos, tínhamos descoberto o código do interesse, ou pelo menos a gente achava que sim. As horas se passaram, algumas pessoas entraram na órbita do nosso grupo e depois continuou sua noite, meu vinho acabou e aproveitei a oportunidade pra ir ao banheiro e tentar achar alguma outra bebida perdida na geladeira do dono da casa. Levantar do meu lugar foi o suficiente para perceber que o vinho tinha batido mais forte do que eu imaginava, talvez nos dias que ele ficou na geladeira, que eu não tinha ideia de quanto tempo, ele fermentou e ficou ainda mais forte, ou talvez eu que não estava me alimentando bem nos últimos dias. No banheiro fiquei uns segundos encarando minha face desmontada no espelho e refletindo como eu tinha chegado até ali. Não até a festa, pois isso eu acabei de narrar, mas até o estado deplorável que eu estava. O rosto muito magro, a barba rala por fazer, olheiras fundos e o cabelo sem corte. A frustração no trabalho não ajudava a lidar com a frustração da vida e só me afundava mais. O álcool era uma bengala torta que me ajudava a andar, mas poderia me derrubar  a qualquer momento. Escuto uma batida na porta e lembro que estou ali dentro a tempo demais. Saio pedindo desculpas e encontro um amigo: "Tá tudo bem, mano? Quer voltar pra casa?", saber que o acordo ainda valia me tranquilizou, mas queria dar uma chance praquela noite. Recuso e vou em direção a geladeira. Muita cerveja ocupando milimetricamente os espaços deixados entre vasilhas de comida guardada, frutas, legumes. Peguei a garrafa de água com a intenção de juntar a necessidade de ter um copo sempre à mão com a de me hidratar e acordar melhor no outro dia, ao fechar a geladeira vejo ela parada em frente a uma garrafa de vodka e uma dose já servida em sua frente, como se tomasse coragem pra virar. Eu não tinha a visto ainda durante a noite mas parecia conhecê-la de algum lugar. Ela ensaiava o movimento de virar com as mãos quando olhou pra mim surpresa, não tinha me visto ainda. "Eu viro uma dose com você se você quiser", eu disse já me arrependendo imaginando a vodka rsagando minha garganta. Ela olhou riu, disse "Não precisa", virou a dose de uma vez e saiu para o quintal. "Grande abordagem", eu pensei comigo mesmo enquanto enchia meu copo de água e voltava para o quintal, onde meus amigos me esperavam. Depois de assegurar a todos que eu estava bem e não queria ir embora, resolvi explorar um pouco a casa em busca da garota perdida na cozinha. Rodei todos os lugares ao meu alcance dentro da casa até que encontrei ela lá fora dividindo um cigarro com um amigo. Encostei perto e acendi um cigarro na esperança de entrar na conversa. "Eu fui muito grossa com você lá dentro?", e eu demorei alguns segundos pra entender que ela tinha falado comigo. "Meu amigo está falando que eu fui muito grossa com você", neguei sem graça. Queria entrar na conversa mas não imaginei que o assunto seria justamente eu. Respeitava o direito dela de ser grossa com um desconhecido, hoje em dia a gente nunca sabe quem está se aproximando. A conversa rolou muito fácil, ela fluia entre os assuntos com uma naturalidade incrível e me contou sobre suas paixões. Percebia as pequenas piadas que eu fazia no meio do meu tom sério e melancólico, me fez me sentir notado. Contou sobre seu curso que já estava terminando e o estágio encaminhado em uma grande empresa, estava vivendo seu sonho. E até ao ouvir minhas mazelas sobre meu trabalho e as coisas que eu gosto de fazer quando estou triste, ela parecia interessada. Seu amigo dividia seu entusiasmo pela vida, e insistiu para que eu bebesse com eles, um drink super forte. A garrafa de vinho já era um limite perigoso pra mim, mas levado pelo momento acabei aceitando um pouco do que eles tomavam. Quanto mais o tempo passava, mais nublado e mágico ficava aquela noite. Vê-la sorrir fazia tudo valer a pena, me preenchia por dentro de uma maneira que eu não sentia há anos. Meu copo de água se perdeu em meio a tantos drinks e logo  eu também me perdi. A lua iluminava forte nós três do lado de fora da casa, quando o celular do amigo dela tocou. Tenho um lampejo de memória meu vomitando no banheiro de dentro da casa. Meus amigos tentando me levantar do sofá e trazendo água pra mim. Eu pedindo desculpas para o anfitrião, em uma língua que com certeza não era a nossa e acordei em casa. Minha cabeça se comprimia de ressaca, usei o que me restava de forças para me arrastar ao banheiro, vomitar um pouco mais e me colocar debaixo do chuveiro. O dia já estava claro e no meu celular várias mensagens dos meus amigos pedindo notícias. Fiquei por alguns vários minutos debaixo do chuveiro tentando reviver a noite anterior, tentando lembrar da dupla mágica que foi minha salvação e minha perdição. Mandei mensagem a todos perguntando se alguém tinha visto os dois e se os conheciam, mas ninguém tinha visto nada. Fiquei horas sumido e quando me reencontraram eu já não estava em condições. Acharam que eu tinha ido para um dos quartos vazios da casa com alguém e ficado por lá. Tentava lembrar o nome dela ou descrever como ela era, mas tudo que me vinha era sua atitude, seu jeito de falar, de olhar nos olhos enquanto eu falava. Falaram pra eu focar em ficar bem que depois descobririam com o dono da casa quem era. Uma semana se passou e nada de notícias, ninguém os tinha visto e ninguém os conhecia. Até tinha feito a barba e me alimentado melhor na esperança de voltar a vê-la agora com uma figura um pouco mais aceitável, mas nada. Eu começava a duvidar da existência daquele momento, algo fora da realidade vindo de um vinho ruim mal armazenado por tempo demais. Até que, meu celular vibra em uma notificação: "Ainda vira uma dose comigo se eu quiser?"

quarta-feira, 19 de junho de 2019

De que adianta.

De que vale o Big Bang
Os átomos em rotação
As rochas se solidificarem
E a sopa em emulsão
Gerar vida aqui na Terra
Num cantinho do universo?

As células se multiplicarem
Em seres mais complexos
Os peixinhos criarem pernas
E depois subir nas árvores
Nosso cérebro aumentar
Dominar o fogo e o ar?

A caça e a plantação
O auge da civilização
A escrita e filosofia
A caverna de Platão
As naus de exploração?

De que adianta o Iluminismo
O planeta em rotação
Gutemberg e sua prensa
Enlatados na despensa
O tempo relativizado
Resolver as desavenças
Em um muro derrubado?

De que adianta a ovelha-clone
E qualquer smartphone
O fim de todas as doenças
E a erradicação da fome
De que adianta, você me diz,
Se sem você não sou feliz?

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Deito.

Minhas mãos guiam o concerto
Cerco seus dedos com meus medos
Me perco no cheiro do seu cabelo
Um conto que não planejei o enredo

Sua boca pressionada contra a minha
Como se sozinha ela não fosse uma
Sem atrito, nosso suor se mistura
Sem lua, nosso corpo brilha

Tropeço em meias, saltos, sapatos
Tateio os móveis do meu quarto

Sincronizo meu corpo no seu
Deito cansado em seu peito
Meu coração bate com o seu
E suspeito que não tem mais jeito

O sonho invade minha mente
Nele também estamos juntos
Você me confessa o que sente
Ri de algo e muda de assunto

Deitados debaixo das nuvens
Com as costas coladas no chão
Sentindo o movimento do vento
E você apertando minha mão

Acordo me sentindo seguro
Seguro você contra mim
Sinto o sentimento mais puro
De uma noite que não terá fim

terça-feira, 28 de maio de 2019

Boa Noite.

Desce do salto que o conforto te espera
Apaga a luz e acende uma vela
Deixa o perfume preencher o ambiente
Permita-se deitar e limpar sua mente
É disso que falam as grandes histórias
Momentos intranquilos que antecedem a glória
Então, por agora, apenas descanse
Ache uma posição e se dê essa chance
Amanhã promete ser um novo dia
Novos desafios e novas manias
Por enquanto, no entanto, só tente dormir
Em um esforço ativo, deixe o sonho fluir
Num piscar de olhos eles não se abrirão
E a calma te alcança em cima do colchão

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Olho roxo.

Carregar o peso das suas escolhas
Cobra mais do que olhar o peso do outro
Pois não podemos impedir que a bolha estoura
E a bagunça se espalhe pelo chão de novo
Pois pra você mesmo não se pede desculpa
Não se justifica nem se refuta
O que você externaliza não muda
A verdade que só você escuta

Anos de terapia não são a solução
Se seu coração continua em negação
Achando que o mundo está contra você
Quando sua mente insiste em te prender
Em um mundo de ilusão e superfície
Apoiando-se no primeiro que ouvisse

Mas o olho roxo não é medalha
A pena dos outros não esconde a falha
Porque ela também é passageira
Não sobrevive nem à próxima segunda-feira
Enquanto sua luta for contra o mundo
Seu revés continuará cada vez mais profundo

quarta-feira, 22 de maio de 2019

A Vista.

Vou me permitir viver esse momento um pouco. Esse breve instante onde as coisas estão bem e prometem melhorar. Nesse tempo, uma felicidade contínua como poucas vezes vivi ou percebi com tanta clareza, deve ser enunciado para ser lembrado no futuro. Ele, potência mil de onde não se via nada, pega embalo em uma reta ascendente cada vez mais rápida. Não sei se meus planos se cumprirão, não sei se os sonhos que me deixaram sonhar vão se realizar. Pode tudo dar errado, inclusive, e no final eu estar muitos passos para trás. Mas agora, quero curtir e reconhecer onde estou. Quero agradecer todos que me trouxeram até aqui e aqueles que prestaram atenção o suficiente para se inspirarem. Inspirei-me em tantos outros, em seus próprios momentos de ascenção e clareza. Achei exemplo onde poucos viram e não diminuo nenhum empurrãozinho que me levou pra frente. Estou onde quero estar, com as pessoas que eu quero estar, fazendo o que eu gosto de fazer e olhando pros próximos passos e feliz demais com o que vem pela frente. Desvios são naturais e nos levam a lugares diferentes, mas vou me permitir parar agora, sentar na estrada, e observar a vista.

terça-feira, 7 de maio de 2019

Hoje.

Não sou quem eu queria ser porque eu mesmo não sabia quais eram minhas opções, mas sou uma versão melhor de mim. Principalmente em critérios diferentes dos que eu julgava antes. Se eu achava que estava em meu auge, olhando ao meu redor e vendo que me destacava, mal eu sabia o quanto ainda poderia crescer em outras direções e os traumas que aquele caminho tinham causado. Tive que fechar o olho e dar um salto de fé, em um rumo que eu, em toda minha segurança, tinha medo. Olhar pra dentro foi doloroso, já que com os anos aprendi a negligenciar minhas vontades com receio de me frustrar. Aquilo estava tão encrustado em mim que eu nem me percebia mais. Mas como tirar band-aids, nesse processo me obrigou a tomar uma decição e ação. Essa ação me levou pra fora em lugares que eu já tinha ido mas que ainda não tinha estado. Aprendi a andar de uma nova forma, com um olhar diferente e, finalmente, independente. A dependência que se manifestava de maneiras não-óbvias me prendia, como se não me julgasse merecedor apesar de me entender capaz. Mas sair de casa, pelos pequenos períodos, me fez entender que posso ir mais longe. A casa, que já não é casa a muito tempo e eu ainda me apoiava em azulejos quebrados, pode ser onde eu estiver, me entender como minha própria morada (como diz a música aqui descontextualizada) é estar confortável onde eu estiver. Minha história, como o próprio nome diz, existiu e me formou, mas é história e não há de se repetir, nem aqui nem em outro lugar, e esse último processo (um ano e meio? dois?) me fez estar mais confortável com a inquietude e frustração que estar aqui me causava, me mostrando a saída. Ter pessoas ao meu lado passando por processos parecidos, dispostas a me entender e se fazer entendidas, foi crucial também. Não me sentir o Don Quixote em sua jornada contra os gigantes, entender que os gigantes são reais e que a batalha é vencida em conjunto. O apoio veio de outros lados inimagináveis, não impossíveis. O empurrão e a cobrança de me mover, mesmo quando eu perco o momento (falando de física) vieram na medida certa para me manter ativo. Até os problemas e dias ruins, que antes eram protagonistas, começaram a ser meros coadjuvanets que pouco interferem na história, ou me trazer novas perspectivas. O filtro sou eu, e na verdade sempre fui. Agora, como um prisma do outro lado da lua, consigo refratar o que recebo em arte e aprendizado. O passo, o peso, muitas vezes difícil, já anda com naturalidade e leveza. Não sou meus problemas, não sou meu passado, eu sou o que eu escolhi ser e o que vem depois. O esforço na mudança, ainda ativo como tantos outros na minha vida, começa a fazer parte de mim naturalmente e me torno uma versão melhor de quem eu era, como a continuação de um filme que muda de gênero e consegue superar o sucesso do antecessor. Hoje sou um novo eu que não esperava e, diferente do meu eu de ontem, já entendo que o de amanhã vai sim ser melhor. Só me resta a curiosidade de saber como.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Amanhã.

Me vejo mais leve e me movimento
O vento me leva em passo lento
O peso nos ombros se dissipa
Fortifica os joelhos e solidifica
O próximo passo passa rápido
Peso e descarto o que ficou pra trás
Trago comigo muito bem guardado
Tudo o que sobrou do que não quero mais
Mas sei da incerteza do meu futuro
Mando recado pra quem eu vou ser
Que se meu eu de ontem sobreviveu a tudo
Não vai ser o de amanhã que não vai viver

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Caminho.

Aos 13, eu descobri que poderia ser quem eu quiser
Aos 15, eu fui quem eu achava que era
Aos 18, me contaram que não era legal
Aos 21, eu me esforcei pra ser diferente
Com 23, eu tive uma visão clara da evolução
E com 25, eu me coloquei no caminho certo
Com 27, eu parei e não cheguei onde queria
Aos 29, percebo que ainda tem muito por aí.
Racionalizar os sentimentos
Sentir não é errado
Respeitar os meus limites
Sem limitar minhas escolhas
Entender o meu processo
E o processo de quem eu amo
Dar sempre o próximo passo
Pois mesmo sozinho,
Sempre vai ter gente do meu lado.

E quando for mais difícil
Quando o joelho falhar
Para e respira
Não tem problema em voltar
Porque quando estiver lá longe
Uns passos pra trás ainda vão ser
Muito na frente do que você estava.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Vento.

Olhar pra frente e ver o oceano me cercando, sem indicação para onde ir mas também sem amarras. Treinado para estar preso, hesito em começar, como se minhas pernas ainda sentissem o peso das correntes. Uma leve brisa corre em meu rosto que me faz pensar por um segundo como deve ser voar. Ao mesmo tempo, sinto a água me levando levemente para outro lugar. Impossível ficar parado quando o mundo parece te querer longe. A pressão em meus ouvidos faz minha cabeça doer, como se eu não soubesse que pra ela diminuir é só dar alguns passos. Não estou preso mas ainda me sinto. Estou leve o suficiente para me deixar levar, não sofro com as dificuldades. O que me segura agora é invisível e imaterial. Como o vento, que me empurra. Só preciso aceitar e planar.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Gaiola.

O que é essa sensação de desprendimento que cresce? Depois de tanto tempo que eu me esforcei para fazer parte? Depois que eu voei por um tempinho e a situação me isolou do solo, parece que tudo continua pequeno mesmo depois que eu pousei. Os problemas não me atingiam lá de cima, as expectativas também não. Fui livre como me preparei para ser. E agora que voltei, estou quase sem lugar, como se aqui também fosse só passagem. O destino é para fora, o lugar que não me permitia conhecer. E me deixar vagar sem rumo, deixar o acaso tomar conta dentro do pequeno controle que tenho de escolher estar naquela situação. O poder que isso dá é imenso, pois toda dor é menor e passageira quando você olha o todo. Vai doer, com certeza, como uma tatuagem sofrida que pra sempre está marcada. Mas tudo me empurra pra fora, mesmo fora do meu controle. Apressam o processo, bloqueiam meus desvios. A ladeira me deu o embalo necessário para ganhar velocidade e voar novamente. Mas eu ainda vacilo, desacostumado a poder. Ansiando por uma direção que não depende de mais ninguém. Só me querem fora daqui, tudo conspira. Eu deixo a corrente me levar, menos preocupado em firmar os pés no chão. Outras quedas virão mas também novos vôos. Não adianta olhar da gaiola e imaginar o mundo lá fora, a porta está aberta.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Aquário.

Esbarro em paredes de vidro
Que não tinha notado até então
Talvez por nunca ter ido
Muito além do que me alcança a mão
O crescimento força as paredes
Rompendo aos poucos o que me prende
Sem indicação de caminho certo
Me deixando a deriva num mar aberto

Flutuo sem direção
A corrente indica um rumo
Mas no nado está a intenção
Na potência do querer que consumo

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Orquestra.

O suor na testa
Testa a resistência
E atesta o esforço
No osso, o músculo grudado
Fatigado em câimbra
Sombra projetada
Na parede branca
Emulando o movimento
Lento e devagar
Vago os dedos no teu corpo
Sopro quente e ofegante
Preso como presa em seus dentes
Imóvel olhar hipnotizante
Antes do auge, ruge
Urge o tempo em instante
Instrumentos sincronizados
Em ritmo e tempo
Maestria regente
E afinados

quarta-feira, 27 de março de 2019

Areia.

A areia é o efeito colateral
De milhares de anos
de ondas batendo em pedras
Um leve tropeço no final
De vários planos, pontos e metas
Um pequeno preço a se pagar
Pelo movimento errático da natureza
A onda feroz vinda do mar
Engolindo aos poucos a sua presa
Se pudesse a pedra ficava mais
Mas se vê aos poucos se desfazendo
Em nova forma, novos cristais
Novos lugares guiados pelo vento
Assim segue o caminho torto
Assim funciona o seu destino
Onda que bate forte no morro
Carrega aos poucos o seu refino

sexta-feira, 22 de março de 2019

Lição.

Você consegue sentir o peso saindo das suas costas?
A aposta que não tinha mais fim teve enfim um vencedor.
A dor, por maior que fosse, diminuiu gradualmente.
E sua mente achou a clareza que tanto procurava.

Estava difícil, como é todo trajeto
Perdido, nas primeiras páginas do projeto
O teto desabando e ficando sem chão
Tentando diferenciar o real da ilusão
Mas agora, pés firmes dão o passo
Ditam o ritmo, traçam o traço
Fora do caminho trilhado
Expandindo o possível do inacreditado

Sem asas você voa, boa visão do que vem pela frente
Enfrentar novos desafios, fio afiado corta rente
Se os tropeços doeram no começo
Agora você tem a certeza de joelhos resistentes

quarta-feira, 13 de março de 2019

Muralhas.

Alguma coisa repousa debaixo de tudo
Disfarçado com o chapéu e os óculos escuros
Que nem toda a roupa no chão revela
Nem mesmo o Sol ou a luz de uma vela
O que está por trás do sorriso forçado
Que o olho vermelho disfarça embaçado
As palavras desviam em outros assuntos
O que é que se esconde por baixo de tudo

Traumas tão grandes que inquietam a alma
Medos tão fortes que enrijecem os dedos
Muros tão duros que não se fazem mais furos
Na esperança que sumam quando ficam em segredo

Mas a vida é jogo
Cada um dá seu passo
O turno acaba e conquista seu espaço

Só que portas fechadas
Mantém as visitas de fora
De longe e nunca mais vistas
A dor encarada pode ser dividida
Não carregue sozinho o peso da vida


sexta-feira, 1 de março de 2019

Juntos.

Você soltou a mão por um segundo e me perdi na multidão de gente. Olha em volta em busca do lenço azul que você usava na cabeça não consegui te encontrar. Me preocupei que você se preocuparia sobre onde eu estava mas logo passou, é carnaval e cada um sabia bem seus próprios limites e como se manter seguro. Me deixei aproveitar as diferentes músicas que dava pra ouvir da minha posição, uma bem próxima, algo que era considerado brega quando saiu mas que hoje, vinte anos depois, ganhou status de cult e era entoado por todos a minha volta. Um pouco mais distante eu ouvia uma música que reconhecia. O ritmo e depois a letra. Lembro de adolescente ouvir aquilo na tv e me perguntar o que significa. Perdido na metáfora, que hoje eu entendo que era apenas sexo como a maioria das músicas que existem, criei minha própria interpretação quase que literal do que ela significa. Eram tempos mais puros, da minha parte pelo menos. Meu olhar continuava viajando em busca do seu lenço azul, e já pensando em como atravessar aquela multidão para o nosso ponto de encontro caso nos perdêssemos. Uma mão pousou no meu ombro e quando eu já virava automaticamente que tinha namorada, você sorridente me entregava um copo cheio de uma bebida azul. Seu sorriso me trouxe alívio e me fez perceber melhor onde estava. A atipicidade da situação, como cheguei ali, o que estava ouvindo, as pessoas em minha volta e, principalmente, estar com você me trouxeram uma sensação de leveza. Como no dia em que deitei em seu colo pela primeira vez e soube que ali eu poderia repousar. Sei que ali, no meio de milhares de pessoas, eu posso desligar minhas defesas. Os escudos e muros que construí em longos anos de exposição ao mundo e que moldaram a dura pedra dos meus valores. Por um momento, meus pais deixaram o chão pra trás e flutuei sobre todos nós. Enquanto me afastava, via quase em uma clareira, nós dois parados no meu momento de realização. Nem a música eu ouvia mais, só o bater do meu coração. O silêncio do momento indicava que eu não estava mais ali, transitava em uma outra dimensão onde coisas como essa se eternizam. Foi sua respiração próxima a minha boca que me trouxe de volta. Você repetiu o convite para irmos embora. Peguei o copo de sua mão e nos guiei em meio a multidão. Aquele dia eu voei. Não sei se vão acreditar em mim ou se um dia isso vai se repetir, mas a leveza desafia a gravidade e flutua a menor brisa. Se foi você que me soprou ou as forças da natureza, nunca vou saber. Mas lá do alto eu posso afirmar: nós somos muito bonitos juntos.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Recorte.

Na janela, um recorte da cidade
Na fotografia, um recorte do tempo
No espelho, um recorte de mim
Na memória, só o que eu me lembro

Isolar um pedaço para emular o todo
Enfeitar sua parede com um quadro torto
Uma pequena irregularidade em seu controle
Contra todo o descontrole de um dia morto

Troca a roupa, o cabelo
O sorriso e a mão
Pois trocar de quem se é
Está fora de cogitação

A inquietude da perna acompanha o relógio
Dezoito horas se aproxima a passos lentos
Uma linha fina entre o amor e o ódio
Que dissipa e se confunde com o passar do tempo

Porque o recorte do tempo quando se imita
Se resume a reviver sempre seu próprio fim
Como um ciclo infinito se repetindo em vida
E as mesmas motivações ditas para mim

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Caça.

Um bicho faminto
O confunde com presa
Afiando suas presas
E vasculhando o recinto
Jogado-se fora
Fazendo frio lá fora
Você percebe que a hora
De ir embora chegou
Se coragem te falta
De falar em voz alta
E por fim, não adianta
Pois um grito espanta
Predador acuado
Caçador assustado
E é você que resiste
Se ainda existe
Algo em que se apoiar
É esse o caminho,
Não é preciso ir sozinho
Mas é melhor levantar

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Meu jeito.

Meu jeito de me vestir
A cara quando como algo ruim
O pé que mexe a noite
Meu tique com o anel
A boca quando me concentro
A lágrima em filme bobo
O tempero na comida
O carinho na barriga
Meu cheiro pós-banho
Como cheiro sua nuca
Deitado no chão
Mudando o canal
Seguro a porta
Falo por favor
Peço desculpas
Franzo a testa
Testo sua pele
Faço cosquinhas
Enxugo suas lágrimas
Piada fora de hora
Com o tema errado
Converso demais
Com você e seus amigos
Falo o que não devo
Busco aprovação
A noite, sozinho, o travesseiro recebe
As energias acumuladas
Em transações banais
No sonho, sou leve
Acordo melhor
O amanhã sempre chega
E dissipa a dor

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Broca.

Minha vida me ensinou uma estratégia simples de lidar com frustrações: se eu não vou ter, eu não vou nem querer. O que é bom demais porque evitou que eu sofresse desnecessariamente por diversas coisas ao longo desses quase trinta anos. Esperar tudo estar certo, e acontecendo, pra me empolgar evitou que eu criasse expectativas em diversas situações onde as coisas não se realizaram. Da mesma forma, me blindou demais ao pegar os pequenos sinais de que as coisas dariam errado, em momentos ou em pessoas, e me apoiar naquilo na minha preparação e alinhamento de expectativas. Nisso, foram raríssimas as vezes que as pessoas me surpreenderam, negativa ou positivamente, já que meu cérebro já me preparou para todas as variáveis que eu consegui simular na minha cabeça. Como o Doutor Estranho no filme do Vingadores onde todo mundo morre porque as possibilidades eram gigantemente maiores que todo mundo fosse morrer mesmo. Mas uma vida quase livre de decepções cobra seu preço e na terapia descobri qual era: simplesmente perdi parte da capacidade de sonhar. Não o sonho automático do nosso subconsciente quando estamos em modo descanso durante a noite, mas o sonho de traçar planos (quase) impossíveis para continuar e seguir em frente. Meu superpoder de saber que as coisas podem dar e geralmente dão errado me cegou para aquela pequena chance das coisas realmente darem certo. E não é nem que eu PENSO que não vai dar certo, muitas vezes meu cérebro nem sequer cogita a possibilidade de algo acontecer tão escorado na possibilidade dela não acontecer que existe. "Quais são seus sonhos?" foi a pergunta-gatilho dessa vez, e minha resposta foi um pequeno passo de onde eu estou. Tenho muito orgulho de estar aqui, mas é triste entender que cheguei aqui em pequenos passos possíveis, que, apesar de desejar o grande, ele é tão distante da minha realidade que é como se não existisse. E a cada pequeno passo eu calculo os próximos passos seguros e possíveis, no máximo alguns passos à frente. Porque a estrada distante só existe realmente quando eu estiver lá e me empolgar com um prospecto tão "improvável" é algo que eu guardo pra quando eu estiver realmente. Como tantas outras coisas que me privaram e me privei, a capacidade de sonhar longe é uma das que mais eu sinto falta. Não existe um manual para mudar isso, não tem uma técnica que eu possa treinar e mudar meu pensamento. Sigo na terapia, que atualmente tem sido meus pequenos passos, mas algumas coisas estão tão intrínsecas a mim que vou precisar de uma broca mais dura para encontrar.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Cheiro.

Você saiu mas ficou o cheiro
Do seu cabelo no meu travesseiro
Mesmo quando troco a roupa de cama
Lembro da sua roupa do lado da cama
Sua voz baixa dizendo que me ama
Vestindo minha camiseta de pijama
Seu dedo deslizava na minha nuca
Nunca pensei que diria isso
Seu jeito ausente que me machuca
Sua presença que criou o vício
Porque quando você teve que ir embora
E nada que eu fizesse impediria essa hora
Afundei meu rosto na tentativa ilusória
De que seu cheiro também impregnasse minha memória

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O Verbo.

No início era apenas o Verbo
Com ele aprendi o que era certo
O errado veio como consequência

Nos primeiros passos foi minha ferramenta
Depois foi meu refúgio
O fogo que me esquenta
Na lareira de um quarto escuro
Minha arma sempre pronta
Uma faca afiada
Como um mergulho de ponta
Que rompe a tensão de entrar na água
Em algum momento virei seu escravo
Preso na coerência da linha reta
No que eu digo e no que eu faço
No que entendo como coisa certa

Estou parado em uma encruzilhada
Torcendo os trilhos com minhas próprias mãos
Fazendo aproximar as duas estradas
Mesmo que caminhem em outra direção
O verbo é meu lugar-comum
Minha morada, meu conforto
Sou o monge em jejum
Lutando para não estar morto

O verbo prende, a mente salva
Mas o caminho não é fácil
Se a palavra foi minha armadura
A mente é meu ponto frágil

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Mancha.

No esforço de apagar minha história
Rasguei e manchei o papel
A marca ficou na memória
Como sangue em um chão de hotel
Que desconforta quem chega por lá
Ou se tampa com um carpete bonito
Apagando um trauma pesado
Como se não tivesse sido escrito

Mas a marca não mente
E expõe que esconde
Quando de repente
Surge não se sabe de onde
Mostrando a história que não foi contada
Obrigando a lidar com o que aconteceu
Voltando sempre pra página virada
Trazendo de volta o que já morreu

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Mas nada disso...

A insuficiência foi algo que sempre me marcou. Aquele sentimento eterno de dar seu melhor, oferecer resultados positivos, crescimento, uma boa experiência e ainda assim... ver isso tudo escorrer pelos dedos. Talvez por ter sido criado num ambiente de insatisfação constante, o que até me deu certa liberdade de entender que se por mais que eu me esforçasse eu não agradaria me permitindo focar minhas energias nas coisas que eu realmente acreditava. Mas o subconsciente tá aí pra não deixar nenhum sentimento ruim ir embora sem rasgar seu peito primeiro e, por toda minha vida, em todos seus aspectos, a insuficiência minha diante do outro se fez presente. O trabalho é um exemplo perfeito, onde você pode ser o melhor, gerar lucros, elogios, prêmios, inspirar outras pessoas, e ainda assim ser diminuído ou negado reconhecimento por causa do ego ferido de outra pessoa que tem mais poder circunstacial e menos capacidade técnica. Em relacionamentos isso também se faz presente, onde a imagem idealizada do outro sobre você, ou sobre sua posição, dificilmente estará alinhada com a realidade e, mesmo se estiver, outras demandas e traumas estarão no caminho para dizer que nada daquilo é o suficiente. O ser humano é falho, e a convivência com o outro torna a nossa experiência delicada. O esforço ou performance individual tem pouco impacto na socialização porque diversos outros elementos filtram ou esbarram na percepção. O que você faz, quem você é, não é necessariamente, e muitas vezes até diverge completamente, da percepção do outro sobre você. Daí caímos num espiral de frustrações, de um lado por não conseguir entregar o que o outro espera e por outro por não ter o que se espera.

Me chamou atenção nesse fim de ano a música "Solamento" da banda Tuyo. Mesmo não tendo percebido de primeira o porque daquela música me tocar tanto, foi parando um pouco pra refletir na letra que entendi completamente o que ressoava tanto em mim. A música fala justamente da insuficiência, no caso em um relacionamento amoroso. Como o eu-lírico pode se adaptar da maneira que for, ou mesmo ser o que for, e isso não será o suficiente para trazer a pessoa amada de volta, e como aprender isso é um processo cruel. Penso um pouco na minha experiência com a banda, onde gravei um vídeo deles em um show e, por um problema com o áudio da gravação, a entrega do vídeo atrasou alguns meses. Com o problema resolvido e tendo uma das coisas mais bonitas que eu já registrei pronto para ser lançado, entramos em contato com a banda para avisarmos do lançamento e fomos ignorados completamente. Não por serem escrotos, muito pelo contrário, são um dos artistas mais doces e simpáticos que eu já convivi, mas por ignorância nossa eles estarem lançando um outro clipe, muito maior, na mesma data. Em meio a tantas preocupações, não nos cabia cobrar deles um mínimo de atenção a algo secundário na vida deles, por mais importante que fosse na nossa vida. Não são vilões, são pessoas com suas demandas que, naquele momento, não se encaixavam com a nossa. De uma maneira bem literal, nosso melhor não foi o suficiente para se encaixar na demanda daquelas pessoas que não tinham a menor intenção de nos fazer mal. Deixo aqui o vídeo que produzimos da canção "Boi".


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Estômago.


A sensação na boca do estômago
o gosto de vômito na boca
A queimação que esquenta e derruba
na primeira gota de pimenta
O café de bom dia que acaba com seu dia
A coca que traz dor não traz prazer
Até onde seu estômago aguenta?

O homem que pede dinheiro no sinal
A mãe que não consegue alimentar seus filhos
O trem que mata cem ao sair dos trilhos
O jovem armado na escola numa terça normal
A criança que não tem o que comer em casa
O político que rouba sem consequência
A cicatriz feita a brasa
Por um marido com pouca paciência
Até onde seu estômago aguenta?

Estender a mão quando não se está de pé
Tirar da boca pra alimentar alguém
Pular do penhasco num salto de fé
De que depois do chão tem algo além
Do soco no estômago que te desnorteia
Rindo de quem ri de barriga cheia
Se você é menor que a barra que você enfrenta
Me diz, até onde seu estômago aguenta?

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Sono.

Ontem quis ser seu travesseiro
Entre suas pernas e seus braços
Na sua nuca sentir seu cheiro
No seu calor estar guardado
Queria ser seu cobertor
Trazendo calor e proteção
Roçar suave entre seus pés
Entrelaçar em suas mãos
Queria ser sua janela
Entreaberta com a luz da lua
Deixa o vento passar por ela
E ilumina a noite sua
Queria ser o sol que te desperta
Trazendo calor para seu rosto
Com a permissão da cortina aberta
Liberta você de maus sonhos