quarta-feira, 26 de abril de 2017

Vizinhos.

A mão desliza sobre a blusa
Usa-me, ela diz, lê-se na sua boca
Peças caem sobre o chão
Corpos caem no colchão
O controle aumenta o som
pra disfarçar a movimentação
Os vizinhos não merecem
Mas invejam de saber
Cada rangido da cama
Cada grito de prazer
Lá em cima, dissociam
Se saciam entre medos
Língua, pele, toque, dedo 
Tocam-se em perfeita harmonia
A sinfonia em dueto
Toma o cômodo como um todo
E os dois se unem em contração

Ambos corpos em ação

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Transtorno.

O tique do relógio dita o passo do caminho
A linha na calçada guia o TOC direitinho
A tranca destrancada vai e volta por certeza
Limpando novamente sem deixar marcas na mesa
Os quadros alinhados mostram a bela paisagem
Levando suas próprios lençóis em cada viagem
E se o ritmo da vida é planejado em preocupação

Incerto apenas é o ritmo da batida do coração.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Dissociação.

Dissocio do meu corpo após mais um copo
Os óculos sujos disfarçam o vermelho dos olhos
A dor espiritual e física espera tal hora, cínica, 
pra se manifestar
O passo pesado dita o ritmo do translado
Do trabalho para o lar
Onde um banho quente espanta de repente
Os males a me incomodar.
Na cabeceira da cama minha cabeça descansa
Como quem amansa uma fera faminta
E se não era, sinta como se fosse
O fundo do fosso nos trouxe
Um outro jeito de murchar.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Atrás do morro distante.

Atrás do morro distante
Mora um velho viajante
Que caminha pelos campos
Com olhar baixo e passo manco

Em sua bolsa leva tudo
Sua espada e seu escudo
Em busca de uma loucura
Que justifique uma aventura

Um ouro escondido
Uma princesa em perigo
Que vire sua amante
Atrás do morro distante

E é atrás do mesmo morro
Que a noite ouve-se o choro
Do viajante, bem baixinho
Triste por estar sozinho

Nem relincha seu cavalo
Que insiste em acompanhá-lo
Se esquentando ao seu lado
Pelas viagens do passado

O viajante pobre coitado
Ainda espera a motivação
Está sempre preparado
Pra pegar a próxima missão

Mas enquanto ela não chama
Faz-se do mato sua cama
Esperando doravante
Atrás do morro distante

quarta-feira, 29 de março de 2017

Viagem no tempo.

Qual foi a música, sabor ou cheiro
Que me levou através do tempo
para o dia que conheci você?

E estando aqui agora, 
me diz ainda se demora
Pro nosso beijo acontecer.

A mão suada me entrega,
Seu nervosismo não nega.
Aconteceu o que era pra ser.

E se hoje eu vejo 
Com carinho aquele beijo
Sei que deixo muito mais do que uma boa impressão

Porque o tempo muda tudo
Trabalho, viagens, estudo
Mas não apaga o que marcou pra sempre o coração.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Leve atraso.

Você você indo embora me fez faltar o ar,
Grito mas você ignora o que eu quero falar
O tempo passa como um relógio de engrenagens ruins
Esquecendo que o tempo corre contra mim
E quando o tempo passa e você não vê
O ponteiro atrasa e passa sobre você
Pesando os anos nas costas de quem não espera
A hora de largar as armas e sair da guerra.
Escuto o eco dentro de mim de não ser alguém,
A cobrança de chegar em um lugar e de ir além
O que o futuro me reserva não quero saber

Deixo que o tempo, na hora certa, mostre o que vai ser.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Caleidoscópio 3.

Piso com cuidado no espelho quebrado sobre o chão.
Vejo, perplexo, o reflexo do sangue pingando das minhas mãos.
O sol do fim da tarde invade 
e ilumina de baixo pra cima o copo no balcão.
Meu cérebro em ópio não enxerga ao certo a imagem formada em pedaços.
Como em caleidoscópio, visto bem de perto, um rosto rabiscado por traços.
Tento em vão limpar o chão manchado de mim.
Mas o pano vermelho só espalha o espelho adiando seu fim.
A parede marcada denuncia o descuido,
coagulado o fluido, posso ir embora enfim.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Luta.


Cada um é o herói da própria história. Cada um sabe os seus motivos e justificativas que relativizam a dor causada no outro. Somos sempre a vítima, o sobrevivente contra tudo e contra todos. Um complô do mundo para nos fazer mal. Mocinhos e bandidos dividindo os mesmos gatilhos. Não muda nem a roupa, muda só o ponto de vista. Na régua para medir quem causou o menor mal, a dor de cada um é imensurável. Não há fita métrica para comparar os sacrifícios de um lado que gerou o sofrimento do outro. Na nossa cabeça, estamos sendo prejudicados pelo destino, quando na verdade a vida segue. A gente cai é pra levantar mesmo, o segredo é o cuidado de não derrubar ninguém no caminho. O cuidado de ser sincero com os outros e com você mesmo. De entender seus próprios sentimentos e saber a hora certa de colocá-los como prioridade. O mundo não gira em torno da gente, não conspira contra a gente. A folha cai, o rio corre e a gente… a gente é pequeno demais no todo. No tempo e no espaço. O planeta sobrevive sem a gente, mas a gente precisa um do outro. Então, vamos só ter cuidado, ser leal, ser humilde, ser honesto com nossos sentimentos. Não precisamos de vilões e planos mirabolantes. Somos só pessoas tentando fazer o melhor com a vida que a gente tem. As batalhas são inúmeras, todos os dias por todos os frontes. Que nossas lutas sejam justas.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Para Michel.

Presidente,
A gente entende. 
É triste aí de cima
Não ter ninguém pra te ouvir.

Os seus amigos, decorativos
Ao menos riam pra te ver sorrir.

Mas agora, no salão vazio,
Um vento frio entra na janela
Deixada pela Marcela
Pro pequeno Michelzinho poder dormir.

A luz da vela ilumina mal
O poema rabiscado no jornal.
Não liga com medo de que ela atenda
Mas ela te ouvia, a presidenta.
Num neologismo incorreto,
queria você
ser o nosso poeto.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Ghostin' Town.

Na minha cidade fantasma
Só a asma ataca
A poeira acumulada
Por anos de deixar pra trás
Esquecida, abandonada
Forjada em memória morta
Suas portas tortas não encaixam mais
As ruas frias seguem vazias e escuras
E, em vez da cura, o que se acha é dor
Do parapeito da janela, 
dói no peito a lembrança dela
Encostada esperando 
uma volta que não está nos planos
Pois no primeiro passo para fora,
No mero pensamento de ir embora,
A cidade já se esquecia do agora
E sumia junto com a aurora.

Na visita, invade a sala, 
Uma poltrona acabada
Como um livro em uma estante

Que não estava ali antes.