sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O melhor pastor da região.

Ele era pastor numa igrejinha no bairro onde morava. Além de gostar do status que sua posição lhe dava, também ficava muito satisfeito de poder passar uma mensagem interessante para todos. O que mais ninguém da comunidade sabia é que ele realmente não acreditava naquilo tudo. Cresceu num ambiente religioso, o que lhe deu intimidade com a bíblia e com seus ensinamentos, mas começou a se questionar sobre a origem daquilo tudo muito cedo. Com o tempo aprendeu a separar os valores e conceitos da mensagem bruta, o que mudou totalmente sua visão sobre religiões. Ele começou a entender que aquilo tudo era uma grande metáfora, uma ferramenta para manipular a sociedade, não necessariamente para o mal, mas ainda assim, manipular. Não existe realmente um ser superior, não existe céu, inferno, demônios e almas. O que existe é uma simplificação da mensagem para que todos possam digerir. E, também muito jovem, ele decidiu que ia ser pastor. Já que essas pessoas vão dar seu dinheiro para alguém mesmo, que esse alguém fosse ele. Quando completou a maioridade, mudou-se para um bairro mais afastado e começou a fazer mutirões para erguer sua igreja. Sempre falou muito bem, então foi fácil convencer a população a ajudá-lo. Em seu primeiro encontro oficial, eram mais de 200 pessoas na platéia. E falou por duas horas sobre bondade, amor ao próximo, não praticar o mal. Em seus encontros posteriores falou sobre aceitação, problemas familiares, dificuldades no trabalho. Em seis meses, sua igrejinha passou por uma reforma. Ele mesmo não cobrava nada, mas as pessoas, acostumadas com a mecânica, se dispunham a fazer suas doações. Eram três encontros semanais, um na quarta, um na sexta e outro no sábado. Os jovens da comunidade adoravam aquela igreja que, diferente das outras, não era proibitiva, ela fazia os jovens escolher o que era melhor para eles e, surpreendentemente, eles faziam melhor do que ninguém. Em um ano, ele já recebia mais de duas mil pessoas ao total por semana. Todas queriam casar com ele, todos queriam ser como ele. Ele continuava mantendo sua vida humilde, num apartamento de dois quartos financiado pela Igreja. E a maior satisfação que ele tinha, muito além de ser um formador de opinião ou de retorno financeiro, é que em um ano como pastor daquela região, ele nunca tinha falado as palavras "Deus" ou "fé" em público.