domingo, 22 de janeiro de 2012

Drogas.

metanfetaminas disfarçadas de meninas
safadas e viciantes, ligadas a cento e vinte
mil volts, alto-falantes bem altos incomodando
os vizinhos ou barulhinhos discretos que só
se ouvem de perto, te amassa contra a parede
sem saciar sua sede de mãos suadas e pulsantes
passando por curvas quentes de sangue
por baixo do seu vestido e sussurando ao
ouvido palavras doces e suspiros que nenhuma
outra droga pode causar além de mim.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Sobre o Risosponto.


Essa semana, uma semana cheia de assuntos polêmicos, fúteis ou não, revoluções e guerras virtuais, pela primeira vez em um ano e alguma coisa, eu tive saudades do Risosponto.
O Risosponto, para quem não conheceu, era um blog meu com o (atualmente) Pedro Ascar e o Gabriel Mota, editores do site OH!FUCKMusic. A premissa era basicamente analisar o que estava acontecendo na mídia e na sociedade com humor e com uma linguagem facilitada, atingindo um público ali no início da sua adolescência, público este que herdamos de uma série de vídeos que Pedro Ascar (em sua encarnação Pedro Vítor, antes de ser Pedro Carvalho) fez com seu primo e chegou a fazer um sucesso bacana no YouTube.
Cada autor tinha seu estilo bem característico e o que mais me marcava e o que eu mais prezava quando eu ia escrever um texto pro Risosponto é que eu tentava sempre passar uma mensagem. Às vezes uma mensagem ideológica, as vezes ensinando mesmo alguns conceitos ou tentando mostrar o outro lado de alguma coisa. O que eu pensava era, por mais que eu não pudesse influenciar milhares, eu poderia levar uma ou duas pessoas a refletirem sobre o assunto e aquilo pra mim já era o suficiente. Não por acaso tratei sobre assuntos mais pesados e consegui (talvez só na minha cabeça também) atingir um público mais velho e mais maduro.
A repercussão foi massa, conheci muita gente legal, tive fãs (olha isso mano), tive leitores (olha isso mano) e até alguns amigos liam meus textos. Foi legal. Até que em algum momento eu perdi o tesão naquilo. Os textos estavam caindo de qualidade, cada vez mais aquilo deixava de ser uma diversão pra mim e virava uma obrigação. Um saco ter que procurar algo pra escrever a cada dez dias (porra, tempo pra caralho pra achar algo pra escrever) e eu larguei. O PV e o Glabo sempre foram muito mais próximos entre si do que de mim, sem dúvida. Gostos parecidos, programas parecidos. Quando saí deixei bem claro que se eles quisessem continuar sem mim eu não teria problemas, mas eles já estavam em outra vibe. Era hora de amadurecer mesmo, continuar com aquilo não ia levar ninguém a lugar nenhum, principalmente nessa Era de piadas traduzidas e imagens compartilhadas em que vivemos. Ninguém quer entrar num blog de "Humor" (não sei como nenhum blog roubou nosso nome ainda) e se deparar com um puta texto imenso sobre o Senado. I let it go and they did it too.
Mas porra! Olha essa última semana! Estupro no BBB, Luiza no Canadá, Sopa, Pipa e a (so called) Terceira Guerra Mundial (online). São 4 pautas sensacionais para textos do Risosponto. Quatro assuntos amplamente discutidos (e amplamente procurados nos sites de busca). Quatro assuntos que poderiam gerar grandes reflexões, que poderia ensinar algo pra alguém, que poderia mostrar um lado disso tudo que não está tão claro. Essa semana cogitei voltar com o Risosponto. Chamar eles de volta ou recrutar uma nova equipe. Eles não voltariam, página virada total, e eu conheço meus amigos, ninguém ali animaria de tocar o site por mais de dois meses. Mas eu queria, porra! Queria poder falar com aquele público de novo, queria sentir que eu estou fazendo algo pra sociedade, nem que seja o mínimo do mínimo.
Você pode dizer: "Ah, mas você ainda tem O Cowboy, pode escrever aqui". Não é a mesma coisa. Primeiro porque são poucas as pessoas que lêem aqui, e ninguém realmente entra aqui pra ver se tem algo novo. Vejo esse blog como se eu fosse um bardo recitando poemas na rua. De vez em quando passa um amigo ou um desconhecido, escuta cinco minutos e fala "É, até que é interessante" e então vai embora. É sempre uma surpresa quando alguém me diz conhecer esse blog, sempre.
Outro problema é que não me sinto muito a vontade de falar de mim aqui. Por mais incoerente que seja, por ser um blog íntimo demais (e frequentado por pessoas íntimas demais), eu evito falar coisas muito pessoais. A maioria dos meus textos são vazios de significados íntimos porque eu simplesmente não "aprovo o texto" quando percebo que estou falando demais sobre mim e sobre o que eu penso. No Risosponto eu não tinha essa preocupação, era uma público genérico que não estava do meu lado todos os dias. Estranho como é muito mais fácil se abrir com alguém que não tem idéia de quem você seja do que com alguém que realmente vai se importar com aquela situação.
Qual a solução que eu encontro? Às vezes eu começo a falar sobre um assunto no twitter, e falo por 15, 20 tweets, mas tudo parece efêmero demais. Parece que ninguém vai ler e quem ler vai passar batido entre piadas e trending topics. Tenho uma porrada de seguidores, mas nunca consigo mais de duas respostas pra uma pergunta qualquer que eu faço. É tudo muito passageiro. Nada fica ali realmente, a mensagem não chega, ninguém reflete nada. No Risosponto sempre tinha alguém que ficou pra trás e foi ler (e comentar) um texto três meses depois. A mensagem estava ali e chegava eventualmente. Sinto falta disso. Hoje a mensagem vai embora. Me falta uma plataforma mais fixa e acessada. Envio a mensagem mas ela some no tempo antes de atingir o alvo. E cara, essa semana eu tinha muito a dizer. Essa semana eu tive saudades do Risosponto.

O melhor pastor da região.

Ele era pastor numa igrejinha no bairro onde morava. Além de gostar do status que sua posição lhe dava, também ficava muito satisfeito de poder passar uma mensagem interessante para todos. O que mais ninguém da comunidade sabia é que ele realmente não acreditava naquilo tudo. Cresceu num ambiente religioso, o que lhe deu intimidade com a bíblia e com seus ensinamentos, mas começou a se questionar sobre a origem daquilo tudo muito cedo. Com o tempo aprendeu a separar os valores e conceitos da mensagem bruta, o que mudou totalmente sua visão sobre religiões. Ele começou a entender que aquilo tudo era uma grande metáfora, uma ferramenta para manipular a sociedade, não necessariamente para o mal, mas ainda assim, manipular. Não existe realmente um ser superior, não existe céu, inferno, demônios e almas. O que existe é uma simplificação da mensagem para que todos possam digerir. E, também muito jovem, ele decidiu que ia ser pastor. Já que essas pessoas vão dar seu dinheiro para alguém mesmo, que esse alguém fosse ele. Quando completou a maioridade, mudou-se para um bairro mais afastado e começou a fazer mutirões para erguer sua igreja. Sempre falou muito bem, então foi fácil convencer a população a ajudá-lo. Em seu primeiro encontro oficial, eram mais de 200 pessoas na platéia. E falou por duas horas sobre bondade, amor ao próximo, não praticar o mal. Em seus encontros posteriores falou sobre aceitação, problemas familiares, dificuldades no trabalho. Em seis meses, sua igrejinha passou por uma reforma. Ele mesmo não cobrava nada, mas as pessoas, acostumadas com a mecânica, se dispunham a fazer suas doações. Eram três encontros semanais, um na quarta, um na sexta e outro no sábado. Os jovens da comunidade adoravam aquela igreja que, diferente das outras, não era proibitiva, ela fazia os jovens escolher o que era melhor para eles e, surpreendentemente, eles faziam melhor do que ninguém. Em um ano, ele já recebia mais de duas mil pessoas ao total por semana. Todas queriam casar com ele, todos queriam ser como ele. Ele continuava mantendo sua vida humilde, num apartamento de dois quartos financiado pela Igreja. E a maior satisfação que ele tinha, muito além de ser um formador de opinião ou de retorno financeiro, é que em um ano como pastor daquela região, ele nunca tinha falado as palavras "Deus" ou "fé" em público.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Nostalgia


Lembrava de sentar comendo pão-de-ló
Na calçada da cidade em que cresceu
Que o gosto daquilo não podia ser pior
Mas a velha tinha alzheimer, coitadinha da vovó

Relógio biológico parou de funcionar

No relógio, duas horas de atraso
No coração, "mais quinze minutos"
Ela, infelizmente, não conseguiu cumprir prazos
Pois se jogou hoje mais cedo 
lá do alto do viaduto






Texto revisado pela Manoela aqui embaixo nos comentários.

Na cozinha do Guto


Na cozinha do Guto quem mandava era o Guto
Não gostava de ver uma panela fora de lugar
E se um dos cozinheiros o deixasse puto
A carcaça do coitado era servida no jantar

Jesus.


Jesus reuniu os doze e disse:
- Desculpe amigos, esse fim de semana não vai rolar de sair.
Paulo, o mais preocupado, perguntou:
- Porra, Jesus, aconteceu alguma coisa? Você parece bolado.
Jesus, que sabia muito mais do que gostaria, deu uma desculpa qualquer:
- Ah, é uns lances chatos com meu Pai. Deixa pra lá.
Tiago, o menor, sempre carismático, tentou persuadí-lo:
- Ah, Jota! Sem você não vai ser a mesma coisa. Você sabe que é o diferencial entre uma festa paia e outra sensacional!
Jesus, sabia.
- Ah, mas é porque eu sempre dou um jeito de levar as bebidas. Confio em vocês, vai ser massa.
João Batista, seu primo, também tentou:
- Se você quiser eu falo com o tio.
Jesus, meio desconcertado para não dar explicação demais, se apressou.
- Melhor não, de verdade. Meu Pai nunca escuta ninguém mesmo. Deixa eu ir, desculpa aí, galera.
Antes de ir embora, passou por Judas, o Iscariotes, que tava caladão meio distante. Trocaram olhares e Jesus perguntou:
- E você, Jiscas? Tá de boa?
Ele respondeu:
- Tô de boa, Jota. Tô de boa.
Se cagando todo por dentro. Ele já tinha visto Jesus fazer umas coisas inacreditáveis, vai que o filho da puta lia mente também.

Tanto

De tanto usar luvas
Esqueceu das texturas
De tanta aspirina
Esqueceu de se cuidar
E de tanto se esconder
Esqueceu de olhar

Que a vida continua
Mesmo sem ele lá