domingo, 26 de junho de 2011

Espelhos

O primeiro passo foi tirar todos os espelhos da casa. Se ela não podia ver sua própria imagem, ela podia se imaginar como quiser. E com um pouco de esforço, ela já conseguia se ver como queria quando era obrigado a passar por alguma superfície refletora. Cabelo, maquiagem, vestido, ela já conseguia se arrumar sem a necessidade de se ver e a medida que ela não se olhava, reforçava a imagem mental, a versão idealizada de si mesma. E com a certeza de que ela era realmente daquela forma, não foi tão difícil convencer os outros. As pessoas já acreditavam e reforçavam tudo que ela acreditava ser. Poucos eram o que a conheciam antes da transformação e menos ainda eram os que a conheceram depois e conseguiam enxergar isso. Era tudo muito cômodo, poder manipular sua própria imagem e tinha começado com um simples ato de retirar os espelhos da própria casa. Se ela acredita que pode ser o que quiser, quem vai dizer que aquilo não é ela mesma? A verdade é individual, apesar de todos quererem convencer uns aos outros da sua própria verdade. A verdade dela era aquela e enquanto ela quisesse olhar para tudo que não seja a si mesma, ela pode acreditar no que quiser.