quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Passarinhos.

Quando eu era pequeno caçava passarinho. Me sentia o próprio Indiana Jones com meu estilingue. Imagine minha decepção quando descobri que o próprio Indy, explorador e paleontólogo, não caçava nada. Mas eu me enfiava no mato sem dó, saia todo arranhado atrás do passarinho perfeito, mirava a pedrinha já prevendo o curso do passarinho durante a fuga. Tinha nascido praquilo. No momento que eu o acertava e ele caia indefeso no chão de folhas, batia a culpa. Por que eu tinha atingido aquele bichinho tão bonito? A família dele ia ficar preocupada, isso se não brigasse com ele por ter arranjado confusão lá fora. Não era culpa dele, Dona Passarinha, eu que acertei ele enquanto ele tava distraído! Vendo os olhinhos tristes, eu o levava pra casa pra cuidar. Colocava água e um pouco de farinha e milho pra ele comer. Minha mãe brigava comigo por estar machucando os animaizinhos de novo, mas depois ria da minha dedicação em fazer o bichinho voltar a voar. Teve uma época que eu escrevia cartas e colocava nas árvores pra poder tranquilizar a família dos passarinhos. Explicava que ele passava bem e estava sob cuidados de um especialista (eu), que em breve ele retornava pra casa. Geralmente em um ou dois dias no máximo, o passarinho já estava em condições e eu levava ele de volta pro bosque perto da minha casa. Meu pai não deixava eu colocar nome nos passarinhos, com medo de eu me apegar, mas eu era forte. Sempre me despedia e pedia desculpas pelos transtornos causados.  Fazia ele me prometer que ia voltar pra eu ver como estava o machucado e então o observava ir embora.

No segundo ou terceiro dia, quando eu percebia que ele não ia voltar, eu pegava meu estilingue novamente e ia atrás de outro paciente.