quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O dia que descobri que meu pai não torcia para o Galo.

Nunca fui muito de futebol. Não estava entre os dez melhores jogadores e sempre acabava "de próximo". Também nunca tive paciência de assistir jogos. Porém sou mineiro e a rivalidade Atlético x Cruzeiro sempre foi bem presente na minha família. Não lembro bem quando eu comecei a torcer pro Galo, mas foi bem natural. Meu avô torcia, todos meus primos (meu irmão e eu inclusos) torcíamos também. A oposição era minha vó, sempre na dela, e meu padrinho, corneteiro e uma das maiores influências em tudo que eu sou e já fiz na vida (inclusive muito me espanta eu não ser cruzeirense hoje).
O negócio é que desenvolvi essa paixão irracional pelo GALO, mesmo não gostando de futebol, que dura até hoje. E até hoje eu acompanho os jogos, torço, grito, sofro, choro e comemoro cada vitória ou empate sofrido. E fico triste quando perde, seja por inabilidade dentro de campo, erros de juiz, má vontade ou algum esquema maior por fora. E agora vamos para o assunto principal desse texto: meu pai.
Meu pai também nunca fui um entusiasta de futebol. Chego até a dizer que meu pai não é um entusiasta de nada na vida, mas isso não vem ao caso. Lembro de poucas vezes em que meu pai jogou futebol, mesmo brincando, comigo e com meu irmão, e muito provavelmente isso só aconteceu porque meu irmão gostava muito do esporte. Ainda assim, meu pai sempre se declarou atleticano, talvez por comodidade, lembrança da infância ou mesmo pra marcar um certo regionalismo sendo um mineiro morando em Goiânia. Nunca cobrei nada, principalmente porque em vinte e dois anos de vida, o Atlético não me deu tanta alegria quanto qualquer outro time deu a todas as outras pessoas do mundo.
Até que um dia as coisas se esclareceram. Quando anunciaram a contratação do Ronaldo Fenômeno pelo Corinthians, meu pai pulava de alegria. Ele realmente era muito fã do Ronaldo. Ele começou a acompanhar todos os jogos do Corinthians. Gritava, se empolgava, xingava, chorava, tudo isso de uma forma que ele nunca chegou nem a esboçar vendo um jogo do Atlético. Aquilo era outra coisa. Aquela empolgação vendo o Ronaldo jogar só me lembrava de uma outra empolgação demonstrada pelo meu pai: nas corridas do Senna domingo de manhã. Não ouso muito em dizer que meu pai deve ter acompanhado todos os jogos do Ronaldo com a camisa do Corinthians. E se empolgou com cada passada gorda, cada arrancada de dez metros e, vez ou outra, com cada gol que ele fazia.
Foi quando eu percebi que meu pai não era atleticano, meu pai era brasileiro. E como todo brasileiro, ele precisa de um ídolo pra se espelhar. Um ídolo que impressiona o mundo inteiro. Um ídolo que dá a volta por cima. Um ídolo que, mesmo em sua pior fase, ainda consegue arrancar sorrisos de quem insiste em acreditar nele.
Meu pai, quando me irrita comentando o quanto o Atlético não tem jeito, que não é possível que o Atlético empatou de novo, que não adianta nada contratar um ou outro se é pra continuar desse jeito, só espera que o Atlético seja esse ídolo que ele não tem mais. Esse ídolo que o Atlético, mesmo em sua melhor fase em 40 anos, nunca vai ser. Meu pai espera um time impecável, e o futebol de hoje já não é mais assim. As coisas mudaram, os "ídolos" são passageiros tanto em fama quanto em atitude. Só me resta continuar vendo os jogos do Galo longe dele para não me irritar com cada comentário depreciativo ao time que ele diz torcer mas insiste em ofender quem torce de verdade.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Bala de Carabina

Um alvo em meu peito cheio de furos de um olhar
Que mata como pistola golpe de vista e vida
Como tiro ao alvo e ao álvaro e a mim
E a todos os outros que tentaram
Se proteger de tudo que vem de você

Toques inocentes nunca inocentam realmente
O sorriso planejado e brilhante, o encanto bobo
De uma bruxa cruel que conhece todo seu poder

E sabe que é só ligar que eu volto
E ele volta e todos voltam porque é essa nossa sina
De não se controlar ao menor sinal de simpatia fina
Ou de atenção.

Volto porque sei que por pior que seja serei
O melhor de mim pra tentar te impressionar
Volto porque sei que o pior que você me faz
Ainda é melhor do que o que sinto sem você

E quando cansar de maus-tratos e rasgar nossos retratos
Que você nunca realmente quis tirar
Quando cansar de ser eu serei outro alguém
Que vive sem você fingir mesmo nunca se importar

Mas no fundo, o peito marcado de bala,
Lata furada e retorcida de um alvo a distância
Só aceitar que não há remendo que segure algo ali dentro
Novamente.

sábado, 18 de agosto de 2012

Sobre suas mentiras e as minhas verdades. (Parte 2)

É impossível ser sincero com as pessoas quando nem você mesmo sabe o que é verdade e o que não é. Falar a verdade pra alguém requer um pouco mais do que a coragem (que poucos tem), o passo essencial de se falar a verdade é saber o que ela é. Ter certezas e seguranças na vida. Se você não se sente firme nem no chão onde pisa, se a pressão é grande demais, você vai continuar se contradizendo, falando coisas sem pensar, enganando pessoas e sempre passando uma impressão errada de quem é você. Não é que você finja ser quem você não é, é que você não sabe o que é e por isso tenta ser o que os outros esperam. Saber o que se é não é fácil, muitos morrem tentando. Mas cobrir-se de uma casca tão superficial que não resiste a primeira agulhada é tão adolescente quanto se trancar no quarto como revolta ao castigo que os pais impuseram (se trancar no quarto). Com a idade, vem responsabilidades, sua palavra começa a importar cada vez mais em se você não consegue ter credibilidade nem com os que estão em sua volta, não vai ser o mundo lá fora que vai te reconhecer. E a epifania dessa noite foi essa: só se consegue ser sincero com as pessoas quando se é sincero consigo mesmo. Espero que vocês tenham aprendido alguma coisa na lição de hoje.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Dívida

O compromisso poda a criatividade
Como a dívida poda o pagamento
Se não for pra pagar por obrigação
Que poste ao menos por sentimento

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Rostos de Rua.

Aos poucos eu começo a reconhecer os mendigos e pedintes que vejo na rua. Como os amigos de balada em uma cidade tão pequena, os rostos que me pedem dinheiro no sinal não são desconhecidos. Eles não têm nome, nem história. Alguns nem voz tem. Mas são rostos conhecidos a ponto de eu ficar constrangido de dizer pela terceira vez que não tenho dinheiro agora. Simpáticos, uns conversam, agradecem, pedem pra Deus me abençoar, apesar de não acreditar, reconheço e admiro o gesto. Outros só te olham e resmungam como se você tivesse obrigação de ajudá-los: "Olha pra mim, olha meu estado. Você vai ficar aí do alto do seu carro, do seu tênis importado e não quer nem me dar umas moedas? Que não vão fazer diferença alguma pra você". Pessoas que por acaso do destino ou desistência, simplesmente perderam a razão e a esperança de um mundo melhor. Se aceitaram como parte externa a sociedade. A máquina urbana precisa deles como precisa dos cachorros de rua com que dividem sua comida. Eles não ajudam então escolhem por não atrapalhar. Contando com a solidariedade de uma sociedade que convive cada vez mais com a culpa da desigualdade social. O sistema os colocou ali, não fui eu. Mas o que eu poderia ter feito? Por desencargo de consciência, eu despejo 35 centavos nas mãos sujas de um senhor que pode ter 30 ou 60 anos. Nunca saberei, pois me sobra pressa e me falta interesse.

Sobre suas mentiras e as minhas verdades.

Eu nunca pedi pra você mentir mim, todas as vezes foi escolha sua, seja pra me proteger ou pra te proteger. Todas as vezes que você trocou de assunto sutilmente, todas as vezes que você não atendeu o telefone, todas as vezes que você olhou pro lado. Eu não faço questão da verdade, acho que pequenas mentiras podem ter sua motivação honesta e nunca te questionei por mais óbvio e bobo que parecesse. Você tinha seus motivos e eu tinha os meus. Mas a questão é que não preciso da sua proteção justamente por que eu criei minha própria bolha. Meu mundo é o meu mundo, o que eu sei é a verdade, o que eu não sei não importa. Mas você, tomando a responsabilidade da curadoria do meu conhecimento para si, chega como um irmão mais novo querendo ajudar a construir meu castelo de cartas. Desmonta tudo, jogando fora todo a concentração e força de vontade necessária para terminar a construção da minha verdade. Eu nunca pedi pra você mentir pra mim não por não querer saber a verdade, mas pra que eu pudesse escolher minha própria verdade e viver ela pra sempre.