sábado, 13 de fevereiro de 2010

Um ciclo vicioso.

De tempos em tempos ele voltava pra casa onde tudo aconteceu. Por mais doloroso que fosse voltar praquele lugar, seus pés o guiavam meio inconsciente para aquela rua. Quando dava por si, parado em frente aquele portão cinza que tantas vezes se abriu para que entrasse, já estava se imaginando andando pelos corredores que hoje estão vazios em uma época onde aquela ocasião nem ao menos esboçava existir. Cada cômodo daquela casa o fazia arrepiar por dentro e ainda assim não conseguia parar de ir lá. Ele via as crianças brincando no quintal, a televisão ligada na sala, sentia o cheiro de comida vindo da cozinha. Mas faltava algo... faltava a realidade. Nada estava realmente lá, a casa estava vazia há anos, desde que tudo aconteceu. Eles preferiram se mudar do que ter que encarar de frente e superar juntos. O tempo passou e eles já esqueceram. Continuaram com suas vidas, por mais doloroso que fosse. Pra ele é muito mais difícil esquecer, afinal, foi com ele que aconteceu. E essa mania de ir parar lá toda vez que se distrai torna a superação impossível. Todos dizem que ele tem que esquecer, o que aconteceu, aconteceu. Dizem que ele tem que aproveitar o lugar em que está e se envolver mais com as pessoas que estão na mesma condição que ele. Mas a culpa não é dele. Ele só vai conseguir superar quando parar de ir lá e só vai parar de ir lá quando conseguir superar. Um ciclo vicioso. Não era tão fácil assim se conformar com a própria morte.

4 comentários:

  1. ele podia puxar o pé de alguém, pelo menos ele se divertiria.

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  2. Gosto de rir com seus textos, claro, mas acho os seus textos sérios lindos.

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  3. morreu, se fudeu, perdeu, preibói!
    Muito bom!

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