domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mil tsurus.

Ela estava sentada há mais de cinco horas na beira do lago, pensando se jogava ou não os objetos que foram guardados cuidadosamente nos ultimos dois anos dentro daquela caixa no meio de suas pernas. Garças de papel cuidadosamente feitos. Mil deles pra ser mais exato. Diz a lenda que depois de fazer o milésimo tsuru, um desejo seu se realizaria. Encarando o lago, ela refletia sobre seu desejo. "Qualquer coisa, qualquer coisa!" disse aquele senhor japonês dois anos antes enquanto explicava como montar o origami. Como nada tinha funcionado até aquela hora, ela resolveu tentar. E um por um foi fazendo os pássaros de papel. E a medida que já acumulava centenas, ela foi vendo sua irmã melhorar consideravelmente. Suas pernas já começam a responder a estímulos e seu pulmão estava quase funcionando sozinho. A incerteza se era resultado do esforço dos médicos ou daqueles origamis a fez continuar a sua jornada aos mil tsurus. Sua família não entendia muito bem o porque dela se prender tanto naqueles pássaros de papel, nem ela se esforçava para explicar. O importante é que ela sabia que estava funcionando. Sua irmã parecia bem melhor, apesar de ainda não poder nem se levantar do leito daquele hospital. Porém, como ser humano que era, ela se acomodou. Ao ver sua irmã melhorar, os tsurus não pareciam tão mágicos assim. Soavam mais como uma perda de tempo, enquanto poderia estar ajudando sua irmã a comer ou algo assim. E ela foi deixando de fazer. Faltavam pouco mais de 100, mas eles já estavam esquecidos em uma caixa debaixo de sua cama enquanto ela, mais tranquila com sua irmã, ia retomando aos poucos sua vida. Até que numa noite, os pulmões de sua irmã param de funcionar. Ela é acordada de madrugada apenas para ouvir sua mãe, aos prantos, lhe dizer que a irmã tinha morrido. Desesperada, ela começa a refazer os tsurus na esperança de eles a ajudarem. Antes de amanhecer ela já tinha os 100 tsurus e seu desejo era ter sua irmã de volta. Era tarde demais e ela sabia disso. E seguiram os dois piores dias de sua vida, o velório e enterro de sua irmã. Ela tendo que ouvir de cada parente que não era culpa dela, que essas coisas acontecem. Mas ela sabia que a única a culpar era ela mesma. Algumas semanas depois, um pouco mais calma, ela pegou a caixa e foi para um lago que tinha nas redondezas da cidade. Sentada lá, ela pensava se se livrava ou não dos pássaros presos naquela gaiola de papelão. A culpa era dela. Se ela tivesse feito os origamis a tempo, ou melhor, se não tivesse insistido em dirigir naquela noite dois anos antes, sua irmã ainda estaria viva. Concluía isso enquanto observava seus mil tsuru boiando rumo ao centro do lago.