quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Gigantes.

Cavalgo enquanto penso, distante:
"E se os moinhos forem mesmo gigantes?"
Continuo meu caminho, com o tintilar das panelas:
"Se ela não pensa mais em mim, por que ainda penso nela?
A estrada é longa e solitária, e a secura as vezes dói:
"Se superei meu passado, por que ele me corrói?"


Pobre Quixote, atormentado pela razão
De tanto sol na cabeça, de certo perdeu a noção
Sabia tanto de tudo agora mal sabe quem é


Ficou doido da cabeça e doente do pé

domingo, 1 de setembro de 2013

Mofo.

Meu coração tem cheiro de guardado
Daqueles que passam anos no fundo do armário
Tem cheiro de mofo e de tom manchado
De quem guardou pra proteger e nunca voltou pra pegar.

Em pastas com documentos que já não importam
Naftalina escondida numa veia cava
Do lado dele eu guardo o seu retrato
Desbotado como o que nosso amor significava

E quando eu me mudar, e tiver que guardar tudo em caixas
Vou achar esse velho coração que um dia eu usei mas já não cabe
Vou doar para os pobres ou pra um bazar
E ver se ainda serve pra alguém usar.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Uma mancha no travesseiro.

É foda. Acordei com meu batom borrado, minhas roupas amassadas e com você se remexendo. Não lembro quando foi que passamos de "Boa noite, amor." para "Já tá dormindo?". Quem eu tô tentando enganar, meu rímel tá borrado também, você já chegou cansado ontem a noite e mal teve tempo de escovar os dentes. Carinho é luxo depois de um tempo. E quem sou eu pra julgar, apesar de todos meus medos, se você já não estiver pensando em outra? Meu corpo não é o mesmo, minha dedicação não é a mesma e cada dia, minha vontade de você diminui mais um pouco. Mas parte de mim está presa na memória de você, em tudo que sofremos pra chegar onde estamos, de tudo que abrimos mão. Mas valeu a pena? Para chegar aqui, você babando de um lado da cama e eu chorando do outro. Chorando por ter perdido você e pior, me perdido em algum momento do caminho. Eu não me reconheço mais, não me cuido mais. Depois da milésima vez que passei desapercebida, não me dei mais ao trabalho. Mas ainda sou bonita, sei que sou. O pessoal da repartição ainda repara em mim. Outro dia, no bar com as meninas, um moço até me cantou. Me ofereceu casa, comida, roupa lavada. Tudo que eu já tenho com você. Mal sabia ele o tanto que me falta. Se ele falasse as palavras mágicas eu iria na hora. Abriria mão das minhas amigas, de você, do meu emprego, das viagenzinhas pro interior todo fim de ano, por um desconhecido que me oferecesse um pouco mais de emoção. Um pouco mais de atenção. Não te culpo, não me culpo. Culpo o tempo, a ocasionalidade da vida que faz a gente transformar prioridade em banalidade. Deus, aquele que eu sempre confiei, nos juntou quase que ao acaso, mas quem é que está nos separando senão o próprio? Borro meu rímel, meu batom, minha visão. Olha pra você ali do lado e você é só uma versão borrada de tudo que eu esperava de você, tudo que você me prometeu. E eu? Nem borrão eu sou. Sou uma mancha que pingou em cima da mulher que você se apaixonou e se entregou e que escondeu ela por inteiro. Por trás disso aqui, tem aquela mesma menina boba e inocente, mas depois de tanto tempo, quem vai ter interesse em me achar atrás disso tudo? Você eu já percebi que não vai ser.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Onde foi que eu te perdi?

Olhei pro lado e você não estava. Procurei na gaveta e debaixo da escada, olhei embaixo da cama e revirei o meu armário. Revirei meus documentos, virei a casa ao contrário. Refiz meus passos até em casa, voltei no banco e na padaria, simulei mentalmente minha rotina, repassei tudo que fiz no meu dia. Fui meio-dia a sorveteria e no parque cinco da tarde. Te procurei em todo lado mas você não estava.
Tentei lembrar de todos os lugares que estive com você mas acho que te perdi muito antes de tudo isso. Foi quando a gente brigou por causa de um filme ou aquela vez que esqueci nosso aniversário. Te perdi quando esqueci de te ligar para falar que te amava e quando esqueci de te dizer o quanto você me fazia feliz. Eu te perdi há muito tempo, mas só agora que percebi. Olhei pro lado e você não estava.
Te perdi e não vi, provavelmente nunca te mereci. Não importa muito onde você está, se não está aqui. A distância quando quer, é longe independente se são 3 metros ou 300 quilômetros. Quando percebi já era tarde demais. Quando as coisas acabam não vale muito olhar pra trás. Procurei nos bolsos, na cama e ali. Seu não sei onde você está, nunca vou saber onde te perdi.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Sobre o vazio.

Tem muito vazio no mundo. Outro dia eu tava olhando pro céu e me toquei que não tinha muita coisa praquela direção. Quer dizer, até tem muita coisa mas entre essas muitas coisas tem muito nada separando elas. E tudo é muito longe uma coisa da outra e a gente é tão ridiculamente pequeno numa imensidão de... nada. Sim, tem milhares de outras coisas ridiculamente pequenas mas no todo mesmo é um monte de nada com uma poeira espalhada de um lugar pro outro, mas não estou aqui para falar na pequenez relativa do ser humano. Qual a diferença entre os vazios? Uma mente vazia (como a que inspirou esse texto), um coração vazio (como o que inspirou vários outros textos desse blog), um copo vazio (que estava até meio cheio antes), uma casa vazia (de uma mãe que viu seus filhos crescerem e sair de casa). O vazio existencial e o vazio material andam muito juntos. Um sujeito que não é feliz no emprego, alguém que consome tudo que lhe oferecem. Igualmente vazios, mas de diferentes formas. Mas sendo o vazio a ausência, as ausências não deveriam ser todas iguais? O conceito de "não estar/ser/ter" não deveria ser um só, independente do que você não está, é ou tem? Por exemplo, não podemos dizer que um vazio é maior que o outro, os dois são igualmente vazios ou algum não o é por definição. O vazio é um conceito puramente baseado na não existência de algo e um objeto não pode "não existir" mais do que um outro. Uma cama vazia incomoda, mas um coração vazio incomoda mais. Uma sala vazia te assusta, um prédio vazio te assusta muito mais. Grande bobagem, a gente vive numa dimensão tão vazia de matéria, com idéias tão vazias de ideais, pessoas tão vazias de sentimento, tempo tão vazio de ocupação. Cercado de vazios por todos os lados, acho que já era gente ter se acostumado. Você não precisa estar sozinho para estar solitário.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Cartas e poemas.

Não escrevo poemas para ninguém porque não escrevo cartas. Cartas chegam no destinatário com selo e linguagem própria. Você avisa que vai voltar que tá com saudades e conta o que aconteceu. E no clips no canto do papel você coloca uma foto sua numa paisagem bonita. O poema não, o poema é para você mas é para qualquer um, a mensagem está lá mas lá também existem dez mil outras mensagens que variam de acordo com o humor de cada pessoa que o lê. E o lirismo, e as metáforas, nada é natural. Na carta o recado está lá exatamente como é. "E todo lugar que eu olho eu lembro de você" é uma afirmação direta e pontual. Ele vai na cozinha e lembra de você, vai no banco e lembra de você, vai no açougue e lembra de você. E ele precisa, além de tudo, deixar você saber disso. No poema não, no poema a intenção do autor se perde. Assim como seu professor de literatura dizia mil coisas sobre as obras de Machado de Assis, no poema sua vontade pouco importa. No poema, o eu-lírico é o leitor. Ele precisa se ver naquelas palavras, ele precisa compartilhar aquele sentimento. A leitura da carta é passiva, você recebe a informação, você sabe dos sentimentos. A carta é o jornal, a poesia é a publicidade. Se o poema é a indireta, e a melhor forma de você informar algo a alguém é jogando isso na cara da outra pessoa, a carta resolve esse problema. Não escrevo poemas porque não quero ser mal interpretado. Não escrevo cartas porque não confio em carteiros.

sábado, 16 de março de 2013

"Recados de Amor Matinal".

Entregava jornais como a última causa nobre que um ser humano pode fazer, ele garantia a ligação entre cada indivíduo e o resto do mundo. Abriu mão da graduação em direito, do emprego na firma do pai, das vantagens em ser associado ao clube da família, para poder ir para a forma mais simples de seu sonho: levar informação as pessoas. Acordava antes de todos e ia com sua bicicleta para a central de distribuição onde pegava os jornais da região pela qual era responsável. Não conversava muito, não interagia com os colegas de empresa, pegava seus jornais e ia pra sua rota. Seu salário mal dava pra pagar as contas do apartamentozinho que morava com uma geladeira, um colchão e uma máquina de escrever. Não tinha namorada nem amigos. O que tomava seu tempo livre, era redigir palavras de incentivo em forma de verso, que anexava com cada jornal que entregava. Poemas sobre o sol, sobre a chuva. Dizia que tudo ia acabar bem, mesmo que não parecesse agora. Incentivava as pessoas a sorrirem mais, conhecerem novos lugares e pessoas, enquanto ele mesmo não fazia. Ele sacrificava a própria liberdade em virtude de sua clareza, ele sabia o que devia ser feito, estudou todas as formas de se atingir o próprio bem estar, porém, como mártir de seu conhecimento, ele escolheu se dedicar a levar seu conhecimento para os outros, da forma mais trivial possível, pequenas notinhas anexadas ao jornal de domingo. Com o tempo a notícia se espalhou no bairro, as assinaturas do jornal aumentaram consideravelmente. Os patrões desconfiaram, foram investigar e no primeiro telefonema para um assinante, já descobriram os chamados "Recados de Amor Matinal" que vinham junto ao jornal. Chamaram ele para conversar, admirando ou não sua atitude, aquele comportamento não poderia continuar. A lista de assinantes era coisa séria e não deveria ser usada de outra forma que não a entrega dos jornais, e só dos jornais. Foi mandado embora. Sem dinheiro, sem recados de incentivo e sem levar o bem para as pessoas. Em seu quarto, seus textos ficavam cada vez mais sombrios, agora sem destinatários. Sua família já não se preocupava com o jeito de vida excêntrico do garoto para notar a mudança de humor e comportamento. Passou dois anos redigindo textos sobre solidão e suicídio. Quando tanto papel não mais cabia no apartamentozinho que morava, ele teve a grande ideia: reuniu toda a papelada em caixas e doou para um centro de reciclagem mais próxima. Começou a recolher papéis e papelões na rua e quando ia entregar, misturava em meio ao material poemas e frases de incentivo. Se ele não podia chegar até as pessoas com suas palavras, que cada ideia sua estivesse intrinsicamente presa a todo novo papel produzido.