sábado, 16 de março de 2013

Caleidoscópio.

Entre os espelhos que formam esse quarto
Só vejo indefinições e formas sem moldura
Como um futuro que não tem muro pra pular
Portas sobrepostas onde cada abre mais sete
Como gilete, corta a cada escolha errada
E tropeço em escada em espiral dando náusea
Natural, caindo ao chão, vendo o mundo em movimento
E soprando, como vento em furacão de folhas
Quando olha pra cima, mais uma vez, caleidoscopia
Em folha, vidro, suor sangue e lágrima.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Pequenos monstros.

Conheceu ele na casa de um amigo em comum, entre taças de vinho, ele tentava inutilmente explicar um jogo de cartas para o grupo. Ninguém estava realmente interessado, mas ele continuava sua explicação com tanta paixão e dedicação que ganhou a atenção dela. Não o jogo, que era realmente chato, mas o jeito dele. Ele era simples, dessas pessoas que parecem menos do que realmente é. Mas ela o via além. Ela via nele um homem que não descansaria antes de vê-la feliz. Ela via alguém que talvez trouxesse café da manhã na cama, e com certeza lavava sua própria vasilha. Alguém que saberia o valor de ver um filme a dois e aconchegá-la em seus braços quando ela dormisse no meio do filme. Alguém que daria presentes de aniversário planejados com meses de antecedência, talvez até personalizados a mão. Alguém que ensinaria seus filhos a andar de bicicleta, jogar futebol de botão, respeitar os mais velhos e não brigar na rua. E aceitaria ela do jeito que ela é, com todos os pequenos monstros que habitam sua mente, suas manias, trejeitos e preconceitos e nunca, nunca, reclamaria dela cantando as músicas do Agnaldo Rayol do cd que ela ouvia quando criança. Recolheria as toalhas que ela deixa jogada e ensinaria ela a tocar violão. Caminharia três vezes por semana no parque, não para emagrecer, mas pra não morrer de ataque cardíaco aos 40 anos. Não admitiria que ela tivesse engordado, mesmo a calça claramente não entrando mais. Deixaria ela comprar o requeijão light e aquela geleia de abóbora que ela tanto gosta. E não seria um problema também se fugissem da confusão da cidade grande para morar na cidadezinha que ela cresceu, lugar ideal para criar os filhos e... E ele continuava falando sobre o tal jogo de cartas quando ela saiu pra pegar outra taça de vinho e se distrair com outra coisa.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Punchline.


Ele te pegou pela mão, te afastou do grupo, apontou para o céu e começou a recitar um poema. Meio que de brincadeira ele começou e então parou, não por receio, não por esquecimento, mas por ignorância de como era o fim do poema. Mal sabia ele que era exatamente tudo o que ele queria dizer. Que o tom de humor que ele começou o primeiro verso se dissiparia com o peso não planejado daquelas palavras. Ele não estava pronto para dizê-las, nunca saberemos se você estava pronto pra ouvi-las. E ali, como muitas vezes antes e muitas vezes depois, abriu-se um ponto paralelo. O que teria acontecido se... Um coração temeroso considera todas as condições negativas para uma ação, ele nunca teria começado a recitar se soubesse o final. Não era o lugar, não era a situação e não eram as testemunhas ideais para que acontecesse. Precisava ser só ele, você e a lua. Ninguém para julgar a tentativa e possível negativa. Ninguém para comentar caso fosse um sucesso. Mas ainda assim, não foi medo, foi ignorância. Ele não continuou até o final, ele não disse o que queria (e precisava) dizer naquela hora porque simplesmente não sabia que as palavras que ele tanto ensaiara estava ali, dois versos a frente. Dois versos que o separou de um futuro feliz ao lado da mulher que ele tanto ama. Você. E você sabia o final do poema, esperou que ele completasse e te tomasse nos braços, ou torceu que ele simplesmente parasse ali para que você pudesse voltar pro grupo. Não cabe a ele saber a verdade. Não cabe a mim contar pra ele como o poema acaba. Ele nunca vai se perdoar. Se deve-se aproveitar a chance quando a tem, essa é só mais uma entre todas as que ele perdeu.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Minha lista de "Não-Resoluções"

O mundo é muito competitivo. Todos querendo se dar bem, estar melhor que alguém, ganhar milhões de dólares, ter a maior casa, o melhor emprego, a melhor família. E quando acaba um ciclo, como o ano que está acabando, você começa a planejar todas as coisas que você quer fazer no plano seguinte, seus objetivos, ideais, lugares que quer visitar, pessoas que quer conhecer. Uma lista de promessas e/ou sonhos que você coloca na responsabilidade daquele período de tempo que você está entrando agora. O ser humano sobrevive a partir da esperança de um mundo melhor, afinal se o próximo ano for pior que esse, ele não precisa nem vir. Mas o ano está acabando e eu olho em volta e não tenho os troféus que eu achei que teria. E os que eu tenho, eu tenho que deixar pra trás. Abrindo espaço na prateleira para os troféus que eu planejo ganhar. E as perdas, não fazem falta. O que você não tem não ocupa espaço nem na estante nem na memória. Ninguém planeja tudo o que não vai conseguir no ano seguinte. Começo minha lista de "Não-Resoluções" de Ano Novo com os quilos que vou engordar, o cabelo que vai cair, as decepções que eu vou causar e as pessoas que vou ofender. Depois coloco os amigos que vão embora por minha causa, os que vão embora por causa própria e os que vão embora sem motivo. Como esquecer os olhares de desaprovação de meus pais a cada dia sem-emprego, a cada nova tatuagem ou namorada, eles terão um tópico especial. Todas as ilusões que eu causar aos outros e a mim mesmo, também estão na minha lista. As vezes que eu vou deixar me enganarem, mentirem na cara dura. Os livros que eu não vou escrever, os textos que vou apagar antes de terminar, os roteiros que ficarão só na ideia e os projetos que ficarão só na conversa de bar. A roupa velha que eu vou me recusar a jogar fora, o dinheiro que eu não vou dar pro mendigo. Meu sarcasmo, que eu vou cuspir pra todo mundo, até pro mais bem intencionado, ninguém sairá a salvo. E quando chegar o fim do ano e eu fizer meu prognóstico para o ano seguinte, vou deixar tudo isso de lado novamente, pensar nas coisas boas que eu fiz para mim e para todos. Como fui um cara benevolente que só age para o bem do próximo. Altruísmo não reconhecido pelos demais. E que coisas melhores ainda me aconteçam no ano que está por vir, porque eu, acima de qualquer um, mereço.

Mas o que importa mesmo no fim das coisas são sua família, seus amigos, amar a si mesmo mas não só a si mesmo, os caminhos bons, os difíceis e as garotas que você fez chorar durante isso tudo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Querido Diário, (2)

Hoje ele não falou comigo. Na verdade, ele nem me viu. Passou do meu lado, sentou na minha frente, mas nem olhou na minha cara. Não sei o que pensar. Eu ia me oferecer pra recolher os trabalhos da sala pra que puxar assunto com ele mas aquela puxa-saco de professor que senta lá na frente se ofereceu antes. Fiquei sentada e calada a aula toda. Não tive coragem de falar nada e na hora de ir embora eu peguei minhas coisas e sai antes de todo mundo com a cabeça baixa. Não sei o que pensar. A Carlinha tinha me avisado, mas ele pareceu tão carinhoso e sincero ontem. Ele deve ter tido um dia ruim.
Não quis ver a novela hoje, tava sem vontade de fazer nada. Minha mãe veio me perguntar o que tinha acontecido mas eu não queria conversar com ela. Nem fiquei vendo tv com meus pais na sala e quase não consegui comer. Tinha vontade de chorar, mas eu aprendi que mulheres não devem chorar. Não sei como eu cheguei a esse ponto. Ele nunca pareceu gostar ou se importar muito comigo, não sei o que eu estava pensando, ele só queria saber do trabalho ontem e quando eu percebi eu já estava nomeando nossos filhos.
Queria ligar pra Carlinha mas ela foi naquele culto esquisito que os pais dela frequentam. E ela só me chamaria de burra mesmo, ia jogar um monte de coisa na minha cara e mostrar que a culpa era minha. Eu sei que a culpa era minha, poxa. Ele mesmo não fez nada. Até estava com outra menina na festa semana passada.
Que droga. Só sobrou você. Tenho vergonha de me abrir pras outras pessoas, todas cheias de julgamentos e opiniões. Você não me julga, só me escuta. Ah, se todo amigo fosse que nem você. Já tá tarde, vou acabar me atrasando pra escola amanhã. Ia ser ruim chegar no meio da aula com todo mundo me olhando. Ah, pelo menos assim ele me olharia de novo. O que eu to falando? Vou dormir, tiau.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Querido Diário,

Hoje ele falou comigo. Eu estava nervosa mas acho que não passei vergonha. Ele me perguntou se eu tinha feito o trabalho pra amanhã, mas é claro que eu tinha feito o trabalho pra amanhã, eu fiz há um mês atrás quando a professora pediu. Não queria parecer cdf demais então falei que tinha começado ontem mas que ia terminar hoje, ele pareceu decepcionado. Não sei qual resposta que ele queria de mim, queria ter dado a resposta certa. Aí ele virou de costas e voltou pro lugar dele.
Depois que acabou a aula, fui contar pra Carlinha. Ela falou que ele só queria copiar meu trabalho, porque eu era a das mais inteligentes da sala. Fiquei feliz pelo elogio, mas chateada porque ele queria me usar. Falaram que ele beijou alguém na festa semana passada, minha mãe não deixou eu ir porque eu tinha que estudar. Poderia ter sido eu! Eu odeio minha mãe. Primeiro ela não deixou eu ir no shopping, depois não deixou eu ir na festa.
O episódio de hoje da novela foi super empolgante! O Carlos descobriu que a Eduarda estava tramando tudo e depois o Pedro Daniel sequestrou ele. Mas acho que ele não sabe que foi o Pedro Daniel.
No jornal eu vi uma notícia que me deixou preocupada. Uma menina se matou depois de xingarem ela na internet. Eu sempre fico com medo de um dia me xingarem. Tento fazer o bem pra todo mundo, mas parece que todo mundo em odeia. Ele me odeia, com certeza. Só queria me usar, meu trabalho. E eu boba achando que ele ia me chamar pra sair. Ir no cinema, talvez. Ou me beijar, que nem ele fez com alguma garota na festa semana passada.
Eu queria que você pudesse me dar conselhos também. É o que eu sinto falta. A Carlinha é boa nisso, mas ela não me escuta como você. E você não dá conselhos. Difícil escolhas que eu tenho que fazer. Agora eu vou comer, tiau.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Invencível.

Eu era invencível até que perdi. Desci de nível, caí. Chorei, gritei e implorei perdão. Mesmo sabendo que sua resposta seria não, me humilhei. Você erra e acha que deixou o erro pra trás, mas ele te assombra toda noite, não te deixa em paz. Você revive a situação dez mil vezes sabendo exatamente onde errar, mas sabendo que todas as vezes que você faria, você erraria no mesmo lugar. E ainda assim o erro te machuca, como dez mil facas indo e voltando do seu cóccix a sua nuca. E você percebe que seu corpo vai e volta das facas deliberadamente, não é ninguém te esfaqueando; A dor está na sua mente. Mas não são todas as dores fruto de sua imaginação? O tapa é na cara mas a dor é no coração.

Você erra uma vez e ele te assombra até a morte. Quem dera se todo erro fosse questão de sorte. Se a vida fosse um jogo de dados andando de casa em casa e fazendo o que é mandado, tiraria a responsabilidade de cada um e jogando toda a culpa a consciência de nenhum. Mas pelo meu erro me responsabilizo e me martirizo. Reclamo porque faz parte da minha personalidade, mas carrego o fardo da culpa com responsabilidade. E se, como agora, ele a cada dia ficar mais pesado, estou pronto a envelhecer curvado quando tudo tiver acabado.

Mas, o que é o final, se não a fuga de todas as responsabilidades?

Eu era invencível, e tirando minha derrota, ainda sou assim. Uma nota vermelha que mancha todo meu boletim.