quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Cowboy.


A porta do saloon ainda se fechava atrás de mim e o bar inteiro já me olhava. Meu rosto e meu nome eram conhecidos por essas bandas. Caminhei devagar até o balcão e pedi o whisky mais velho da casa. Virei o copo e a cadeira. O lugar inteiro ainda me olhava. "Perderam alguma coisa?", eu gritei. Todos voltaram a fazer o que quer que estivessem fazendo, o nervosismo denunciado pelo suor em suas testas. Mas como culpá-los? Está quente como nunca se viu e eu, eu realmente sou uma ameaça.
Meu rosto está no cartaz de "Procurado" lá fora e a recompensa não é baixa. Se fosse outra pessoa eu mesmo estaria me caçando. As pessoas que matei, as cargas que roubei, as vilas que transformei em cidades-fantasmas. Meu nome se espalhou mais rápido que barril de pólvora explodindo. E eu gostava disso. Gostava de chegar em uma cidade desconhecida e todos me conhecerem.
O barman tremia mais que trem descarrilado, quando perguntei pra ele se nessa cidade tinha um boticário. Seu dedo apontou para um velho senhor sentado no fim do balcão, com uma pastinha velha e um monóculo. Típico. Peguei mais uma dose e sentei ao seu lado.
"Você sabe quem eu sou?", o senhor confirmou com a cabeça, tentando mostrar firmeza e coragem. "Então você sabe porque eu estou aqui", novamente ele confirmou com a cabeça. Virei meu copo mais uma vez e pedi para me acompanhar. Gostava quando colaboravam, ter que sacar a arma por qualquer bobagem tirava minha credibilidade. Preferia apontar para alguém só quando estivesse disposto a disparar e aquele pobre cientista não precisava disso.
O senhor me guiou até a pensão onde estava hospedado, entrou em seu quarto e voltou com uma maleta de couro, provavelmente costurada por uma das tribos que viviam por essas terras antes da invasão. Abri com cuidado e conferi os pequenos frascos cheios de líquidos coloridos.
"Você sabe que pagam uma grana preta por isso aqui lá no Norte, né?", tentei puxar assunto. "Não quero saber, você já tem o que você quer", velhinho insolente. Devia apagar ele agora mesmo. Deixaria um agrado para as meretrizes que estavam no saguão de entrada e elas nunca teriam me visto aqui.
Fechei a maleta e me preparei para ir embora, quando reparei o velho nervoso demais. Em uma fração de segundo, levantei, dei um chute para desmontá-o e encostei minha colt em sua testa. O velho chorava descontroladamente ao lado da pequena Remington que tentara inutilmente sacar. "Velho idiota! Você acha que ia me derrubar com uma ou duas balas? Eu mataria essa cidade inteira antes de você conseguir me apontar uma arma!". Com um chute forte na barriga, eu me despedi do velho e da cidade. Peguei meu cavalo na porta do saloon e rumei para fora da cidade.
Olhei para trás e o pôr-do-sol pintava toda a cidade de vermelho. Meu coração era duro, mas eu sabia apreciar uma boa vista. Parei por alguns segundos. Odiava quando as coisas caminhavam para a violência. Afrouxei meu coltre e me preparei para a longa caminhada que eu tinha pela frente. Pessoas para conhecer, produtos para entregar. Não tem sido fácil essa vida de cowboy.