sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O Cavalo.


Às vezes, a estrada é muito solitária, mas a gente se distrái como pode. Deitei ao lado de um trilho com Faísca, meu alazão, e fiquei formando imagens com as estrelas. Minha vó sempre dizia que os deuses antigos moravam lá, mas eu achava complicado. Devia ser frio e solitário demais para alguém morar ali.
Não que minha vida fosse muito diferente. Passo dias andando por terras sem mato nem rio, montando fogueiras à noite para afastar os chacais, em companhia só do meu cavalo. O último irmão que me sobrou. Um por um os outros foram assassinados por ladrões, xerifes, índios e cafetinas. Nós éramos dezessete quando comecei, hoje somos dois. Eu e o Faísca.
Ele não é de falar muito, então a maior parte do tempo eu divago sozinho, mas é um ótimo ouvinte. Seu olhar de repreensão quando conto minhas aventuras é mais duro do que a cinta de couro do meu velho pai.
Consigo listar vários motivos pelos quais cavalos são melhores que homens, mas o principal é eles não precisarem de dinheiro. Sem ganância não tem traição nem sangue. Seu propósito de vida é estar ao meu lado e meu propósito é estar ao lado dele.
Andamos mais de duas mil milhas juntos, fomos do sul ao norte do país em áreas que os peregrinos não chegaram a invadir. Carregando corpos e encomendas de um lado e sacos de dinheiro e mantimentos do outro.
Um companheiro que nunca me delataria, independente do valor da minha recompensa. Até ouvi uma vez em um bar que a cabeça do velho Faísca valia tanto quanto a minha. Junto viramos lendas. As pessoas já conhecem cada cicatriz da minha face e cada mancha de seu pêlo. O barulho do seu trote já é o suficiente para amedrontar os mais corajosos dos coiotes.
Faísca já pulou na frente de bala por mim, me salvou do enforcamento. Hoje, apontando para as estrelas, tento mostrar que aquele grupo ali no canto formam uma cabeça de cavalo, provavelmente de algum ancestral dele, um rei antigo das terras além-mar. Minha vó contava sobre homens com cabeças de cavalo com poderes maravilhosos, mil mulheres, mil tesouros. Gostava de acreditar que era nosso ancestral comum.
Ele parecia sonolento, eu com a cabeça em sua barriga e o chapéu cobrindo meus olhos. O poncho de lã esquentava meu peito e a fogueira esquentava meu pé. Andar por essas bandas era perigoso essa época do ano, mas ao lado do meu cavalo, não tinha medo de nada.
Ainda não tinha amanhecido quando o chão começou a tremer. Nos levantamos rápido, apaguei a fogueira com areia, peguei minhas bolsas no chão e nos preparamos. Mais alguns minutos e conseguimos ver a fumaça da locomotiva aparecendo no horizonte. Atrasada, como sempre.
Eu e meu cavalo começamos a correr para poder alcançar o trem em movimento. Quanto mais ele se aproximava, mais o chão tremia e mais rápido nós corríamos. Apertei a colt na cintura, e fui aos pouco me preparando para o pulo. Até que a locomotiva nos alcançou e nos passou a toda velocidade.
Eu tinha alguns segundos para acertar exatamente meu salto. Os vagões passavam enquanto eu calculava mentalmente a hora certa de pular. Não é como se fosse meu primeiro assalto em um trem, mas cada um que faço eu rezo para ser o último. Odiava toda essa tensão. Só mais um segundo e… Um pouso quase perfeito no último vagão. Pelas lamparinas que foram se acendendo nos momentos que se seguiram, devo ter feito bastante barulho quando caí.
Olhei para trás e vi meu companheiro diminuindo a medida que nos afastávamos. Ele sabia onde me encontrar: seguir o trilho até a próxima estação e esperar até o sol se pôr novamente, mas ainda assim partia meu coração abandoná-lo novamente. Um nobre senhor abriu a portinhola de acesso para ver o que estava acontecendo, bom que não precisei nem liberar uma das mãos para rendê-lo. Meu Faísca não estava mais a vista, era hora de fazer meu trabalho.