quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A última canção

Ele olhou para frente e estava lotado. Lotado mais ou menos, já que o lugar não era tão grande. Umas 60 pessoas já lotava lá. Devia ter umas 100. Todos suados, se empurrando para tentar chegar na frente. Tinha gente até sem camisa já. Olhou pro chão, o set list já rasgado e pisado, mas ainda preso, debaixo da base do microfone, era agora. André, meio alcoolizado, empunhando a Gibson Explorer herdada do pai, chega no seu ouvido e grita "Bota pra fuder, velho". Marcos, na bateria, com o maior sorriso que já tinha dado na vida, concorda com a cabeça e começa a contar. O público vai a loucura só de reconhecer a próxima música. Ele acompanhava a contagem da bateria batendo no microfone. Aquelas pastilhas pra garganta realmente vieram a calhar, sua voz não estava boa desde o ensaio de quinta-feira. Quando o Paulo começou aquele riff no baixo, ele pode jurar que viu um sujeito começar a chorar. Todos entraram, só faltava ele. No primeiro verso, meio gritado, meio cuspido, ele já não ouvia sua própria voz. O retorno estava funcionando perfeitamente, era o público que o impediu. E assim continuou, ele meio que dublando a própria canção enquanto o público repetia aqueles versos bobos de adolescente revoltado com o fato de não ter com o que se revoltar. Bem na frente do palco, quatro caras berrando a letra enquanto se espremiam na multidão. O André sabia bem mexer com eles, fingia que ia jogar a guitarra, brincava com o público e não errava uma nota, aquele bêbado filho da puta. Marcos tinha o público e a banda nas mãos, controlando a velocidade da noite enquanto rodava a baqueta entre os dedos. O público tinha decorado todos os versos. É agora, agora o momento que todos esperávamos. Aquela pausa milidecimal de segundo entre o último verso da estrofe e o começo do refrão. Nesse instante, a banda e o público estão parados no ar. Espero que alguém consiga tirar uma foto. O refrão começa e o público não está mais olhando para o palco. Os caras lá embaixo se empurram e se batem numa bagunça ordenada, daquelas que quem está de fora nunca vai entender. Ele, arrepiado, grita o refrão como agradecimento àqueles caras que estão com ele e àqueles que se deram ao trabalho de estar ali. Paulo o completa com os backing-vocals, ele também nunca esteve tão feliz. Os versos voltam mas a roda não para. Os caras começam a usar o retorno como base para pular em cima um dos outros. Dois caras tomam o microfone do Paulo e cantam, totalmente fora do tom, mas naquela empolgação. Um deles tropeça no cabo do André, o público nem percebe que a segunda estrofe foi quase inteira sem a guitarra. O refrão de novo e ele simplesmente entrega o microfone para um grupo que estava na beira do palco, toma distância e salta. Enquanto era segurado no ar pelo público, ele tentava ouvir cada voz que tava cantando sua letra, cada jovem que pensa como ele. O público o põe no chão a tempo de voltar pro palco e cantar o último refrão. Esses caras não cansam de se empurrar e fazer moshs e gritar os versos como se a gente fosse os Beatles, caralho. E o refrão termina com o resto da banda, todos sincronizados e guiados pelo mestre Marcos. Só se ouve aplausos e gritos. Ele fica imóvel observando a reação do público, boquiaberto como se estivesse na frente da Mona Lisa. Ele só volta a si quando André o abraça meio sem jeito, com a guitarra entre eles, e gritando no seu ouvido "Obrigado". Aquilo no seu rosto era lágrima ou era suor? Provavelmente os dois.

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