sábado, 13 de janeiro de 2024
Trens.
quarta-feira, 4 de outubro de 2023
Desvio (Inktober #004)
Lembro dele sair do carro, também atordoado, pedindo desculpas, sem saber direito o que aconteceu. Eu estava bem, do que ele estava falando? Olha só, eu o conheço, mas de onde mesmo? Eu preciso ir, não consigo conversar agora, tive um dia muito difícil.
Mas às vezes, é quando você senta que realmente te acerta. Só são e salvo com a proteção da distância que você percebe que aquele rápido desvio sem pensar poderia ter custado muito mais do que um susto. Seu desvio do caminho pra ter tempo pra pensar sobre tudo que você não queria pensar, que ironia, podia resultar na solução final de todos os problemas. Todos os traumas, todos os pesos, os conhecimentos não bem-vindos, as noites de choros e os desesperos acabariam ali no desvio rápido de um carro em alta velocidade.
Um pequeno desvio fruto de uma pequena distração e tudo muda.
Caminhos (Inktober #003)
Mas a verdade é que o caminho é sempre um só, o caminho que foi passado. Não existe nenhum outro além do que o que você seguiu. Aliás, até que existe. O caminho dos outros está aí pra todo mundo ver. Principalmente pra alguns, as vitórias acabam sendo tão expostas, que esquecemos que cada um teve suas dificuldades pra chegar até ali. Ou mesmo, quando nos comparamos, nem sempre é claro que algumas pessoas tiveram caronas, ajudas, desvios ou atalhos. Fica apenas o sentimento de que fracassamos por não estar onde o outro está.
Enquanto a mim, eu sou estou aqui, onde eu acho que deveria estar fazendo o melhor que eu posso com as ferramentas que eu tenho na mão.
segunda-feira, 2 de outubro de 2023
Aranhas (Inktober #002)
Tento também ver o lado dela, em busca de comida e proteção pra suas filhas, as milhares de aranhas que em breve estarão prontos para o mundo. Eu, o monstro gigante que com uma enorme vassoura posso acabar com todos seus sonhos e tudo que ela construiu. Mal sabe ela do medo do gigante em encarar sua pequenez.
Será se as aranhas contam histórias de aranhas que sobreviveram? Aquelas que lutaram contra a grande ameaça que nós somos e com um ligeiro golpe de sorte, foram capaz de sobrepor a ameaça que assombrava sua família e sua cidade? Será se elas choram por aquelas que não sobreviveram? As que foram eliminadas em sprays inseticidas, esmagadas ou capturadas para a morte?
Às vezes eu penso sobre minha própria insignificância ante o universo, às vezes eu penso sobre quão gigante eu posso ser. Em ambos os casos, eu ficaria feliz se você lidasse com a aranha no meu quarto.
Sonho (Inktober #001)
Quando eu te vi pela segunda vez tinha algo familiar na maneira como você gesticulava empolgada sem derrubar uma gota do vinho fora da taça. Reconheci seu sorriso com se fosse a própria projeção do meu desejo, materializada diante dos meus olhos.
Assim foram todas as outras dezenas de vezes que te vi, sempre com um ar de reconhecimento e admiração, algo mágico além do meu entendimento que eu só poderia interpretar como amor.
Dias e meses e anos se passaram, a gente se gostou e desgostou, ficou e separou, até que um dia simplesmente em uma noite tranquila todas as peças do quebra-cabeça se juntaram. Você casualmente riu de mim do canto da sua sala de estar e meu cérebro resgatou a memória de um sonho de anos atrás.
Foi lá que eu te vi pela primeira vez: sentada no canto da sua sala de estar, cabelo amarrado pra cima, a luz quente iluminando seus olhos e a planta. Lembro exatamente da sua risada rindo de mim ou de algo que eu falei. Mas eu não te conhecia ainda, não sabia dos seus gostos pra móveis e muito menos do jeito que você gostar de sentar com as duas pernas dobradas na poltrona.
Eu era apenas um garoto que acordou cansado de uma noite mal dormida com uma breve e ligeira memória de ter sonhado com alguém, e hoje observo como os sonhos se tornam realidade, por algum mecanismo do universo ou alguma falha no espaço tempo que vazou essa cena pra mim.
Assim como o sonho, o momento real passa e fica a confusão: será que isso realmente aconteceu ou é apenas meu cérebro e seus truques. O mistério de ver o futuro continua mas sua explicação mais uma vez se perde para a irrelevância quanto ao todo.
terça-feira, 10 de novembro de 2020
Love craft.
própria sanidade, preciso lidar com os fatos os quais tão imaturamente tive que encarar. Tudo começou quando em último dezembro percorria os velhos diários de meu tio para enfrentar o tédio sufocante de outro verão no interior. Nas velhas páginas rabiscadas, de um tempo onde papel e caneta ainda cumpriam sua função primitiva de guardar segredos, encontrei um singelo recado que me chamou atenção: um pequeno papel rasgado, oriundo de um saco de pão, com uma sequência numérica intrigante e um nome feminino ao lado. Comecei a buscar em outros trechos qualquer referência ao nome "Sara", mas obtive pouco sucesso. Os números desafiavam qualquer sequência conhecida pelo homem e mesmo minha incessante busca pelos anais dos buscadores digitais se demonstrou infrutífera enquanto minha mente se tomava por uma obstinada obsessão pelos códigos em minha frente. Minhas noites eram tomadas por pensamentos errantes que me impediam de focar em outra coisa, meus dias ocupados pela busca de uma explicação. Quanto mais dias se passavam, mais distante eu me via de uma resposta. O falecimento prematuro de meu tio, o qual pouco conheci além das velhas fotos espalhadas por sua casa de campo, os empoeirados discos no armário e o diário com pequenas anotações cotidianas de seus tempos na cidade, me deixavam poucas opções além de uma abordagem mais direta dessa questão. Levei as poucas evidências que tinha em mãos e fui até a irmã de minha progenitora na vã esperança de ela abrir meus olhos para novas direções, mas fui agressivamente dispensado e caçoado pela minha obsessão infantil com aquelas informações. Dias se passaram, semanas, talvez anos, minha mente já não registrava mais o conceito de tempo linear da mesma maneira. Tudo parecia distorcido em minha própria realidade. Quanto mais encarava aquele recorte, mais confuso ficava. Talvez não fosse realmente um nome feminino, poderia ser um verbo, um adjetivo, uma sigla, a infinidade da língua e das possibilidades não-linguísticas me colocavam em uma nova espiral. O vazio dentro de mim ecoava a ausência de informação e, ao mesmo tempo, permitia que um apego inexplicável crescesse dentro de mim referente aquele mísero pedaço de papel. O números se embaralham ao olhar em busca de qualquer sentido e relação entre eles, combinações de cofres secretos em escotilhas sobre a cama, analogias a letras e outros símbolos criptografados. Minha incessante busca por um significado só tornava aquele processo, e meu tio consequentemente, ainda mais interessante e misterioso. As palavras em seu diário extrapolavam sua denotação, todo registro de compra, apostas em jogo, cada ação relatada naquelas velhas páginas escondiam em si a resolução do mistério que dominava meu pensamento. O fim de meu recesso de verão se aproximava e com ele findava também as minhas esperanças de encontrar respostas satisfatórias às minhas obsessões. Tendo checado todas as canções em sua velha vitrola, todos os livros em sua vasta biblioteca, prostrado em meus aposentos encarando a arquitetura em minha frente, tenho então um sinal que a única explicação é a verdadeira vontade cósmica dos deuses antigos de saciar essa jovem mente com um conhecimento além da verdade. O sinal sonoro que se perdeu além dos tempos, uma verdade tão pura e verdadeira, que nem o mais sapiente dos gurus poderia imaginar: um pequeno dispositivo mecânico utilizado por nossos ancestrais dava seu ressoar sonoro e me mostrava o que eu me neguei a ver durante toda minha jornada. Corro na direção de tal dispositivo como a feroz águia em direção a sua ignorante presa. Ao alcançá-lo, hesito, pois sei que a verdade está a um breve momento de se revelar a minha frente. Com minhas pequenas mãos trêmulas, giro o disco com os algarismos marcados no singelo papel. Um toque. O segundo. Sinto o suor frio escorrer sobre meu rosto enquanto meu peito palpita incessantemente, a qualquer momento... Ouço do outro lado uma voz suave, porém vivida, me saudando. Minha voz, prejudicada pela distância que me separa da puberdade, tenta parecer madura enquanto requisito que passem o telefone para ela... Sara. A doce senhora ao outro lado do telefone se identifica e ouve pacientemente meu relato. Minha pouca idade a delicia e vejo que tenho em minha frente aquilo que tanto esperava. Sara não se prende em contar como conhecera meu tio, Milton, em uma festividade na cidade, muitos anos atrás. Seu jeito galante e o nariz marcado por uma desavença anterior o faziam um sujeito cobiçado entre as outras jovens da região, mas foi por Sara que ele se apaixonou. Era comum ver Milton com buquê de flores pela cidade, encomendando discos estrangeiros para presenteá-la e até trazendo costureiras de fora para a produção de vestidos sob medida a cada evento e gala. Ele não só dava presentes, mas era presente e carinhoso, fato que o tornava o pretendente ideal aos olhos dos pais de Sara. E por dois anos, Sara viveu intensamente aquela relação, fazendo planos de matrimônio e filhos assim que pudessem sustentar seu próprio lar. Infelizmente, o Destino é um ser mais antigo que os deuses, e suas decisões pouco levam em conta a nossa vontade. Em um descuido durante sua volta pra casa, Milton perdeu o controle de seu automóvel e se envolveu em um horrível acidente. A cidade estava de luto, mas irremediável estava Sara, cujo futuro feliz ao lado de seu amor também tinha nos deixado no acidente. Os anos se passaram e a dor diminuiu. Milton se transformou em apenas uma feliz lembrança de um passado e um futuro que já não existia mais. Sara, então me revelou com sua voz embargada, que o recorte que encontrei havia sido escrito por ela, a primeira vez que Milton a abordara. Era seu telefone para que eles pudessem se contactar em uma realidade pré-internet. Agradeci, também emocionado, não só pelas respostas que tanto procurei mas também por compartilhar esse relato de um amor que sobreviveu a maior das fatalidades. Um acontecimento maior que o passar do tempo e que o entendimento humano. Um amor que para mim só existia nos velhos livros de um árabe louco e que agora estava diante de mim. Escrevo essas palavras em meu caminho de volta para minha cidade, onde nas próximas semanas retornarei a minhas atividades escolares. Divido com você esse relato pois sei que meus companheiros de estudos pouco levarão a sério a grandeza de tal descoberta. Eu, mais próximo dos meus treze anos, enfim posso afirmar que presencial algo maior do que a própria existência humana. Algo que meu cérebro ainda tem dificuldades de entender. Volto para minha vida como um novo homem, ainda com dificuldades de lidar com um sentimento de tal grandeza como o amor.
" Love Craft" (ou "Um amor além da compreensão")
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
Ninho.
Sinceramente? Eu não achei que estava pronto até te segurar nos braços. Foi quando eu tive certeza de que eu não estava, mas fui mesmo assim. E cada choro, cada passo, cada sorriso e cada abraço, você me dava mais certeza de que eu não estava pronto. Mas a gente se esforça, porque sua agenda não espera a minha e o dia passa e a gente nem vê. As noites sem dormir viram semanas, meses viram anos e quando segurei o choro pra te deixar pela primeira vez, você olhou pra mim e falou que estava tudo bem, que eu podia ir que já voltava. E então me acostumei com sua ausência, que começou pequena e foi crescendo, como se eu estivesse perdendo um pouco de mim toda vez que te deixava ir. Você conheceu outros, e assim sua atenção se dividia e eu sofria muito por dentro, a cada novo colega que aparecia. Depois vieram as mudanças, que te colocaram ainda mais longe do que eu queria. De repente, a gente não se entendia e você se trancava e me tratava como inimigo. Meu esforço de me fazer querido, entendido, era confundido com outra coisa que, com o tempo, só ficou pior. Eu tentava me fazer presente, mostrar que mesmo depois das brigas mais quentes, meu colo ainda estava aberto se quisesse chorar. E vez por outra eu via seus olhos vermelhos me evitando para evitar perguntas, sem saber que não tinha nada que eu queria saber além de como você estava. Assim se seguiu, você cada vez mais longe, eu cada vez mais velho. Você escolheu seu caminho, eu apoiei e fiquei sozinho, vendo você de longe ir atrás de tudo o que você sempre quis. E, foi de longe também, que você me ligou, me contando de tudo o que você passou, empolgado de estar ali. E foi ali que eu percebi, eu ainda não estava preparado, mas a gente nunca está.
domingo, 1 de novembro de 2020
Sinal.
A gente podia combinar um sinal, sabe, tipo namorados que se olham de longe e sabem exatamente a hora de deixar uma festa? Vamos combinar. Um aceno, uma piscada, um arco íris no céu, qualquer coisa.Uma palavra de segurança, um post-it na geladeira. Mas deixa claro pra mim que acabou, pra eu jogar minhas esperanças no lixo e poder ir embora. Pra eu parar de tentar inutilmente, porque essa frustração está me matando e sei que não é o que você quer. Porque eu sei que você quer o melhor pra mim, mesmo nem raramente fazendo sua parte, e eu também quero. Mas se eu tô no caminho errado, se eu virei duas ruas antes há quilômetros atrás, me fala, porque nao é tarde demais pra eu pegar o próximo retorno e voltar pra estrada calma que eu tava. Você é cheio de mistérios, palavras certas, linhas tortas, etc. Mas comigo isso não funciona. Não quero indireta, sabe? Subtexto não é pra mim. Eu sou muito bom de fazer o que me pedem quando me explicam direitinho e, se eu tô errando tanto, dando soco em ponta de faca, batendo cabeça, o que que custa me falar que não é por aí? Eu apostei todas minhas fichas nisso aqui, mas a gente volta e consegue mais fichas pra apostar em outra coisa se precisar. Então, eu sigo esperando seu sinal. Até lá vou entender que o que me falta é esperar, que coisas boas acontecem pra quem vai atrás. Mas, sei lá, mesmo as melhores pessoas podem seguir o carro errado na rodovia. Se for esse o caso, me manda um sinal, qualquer um, mas deixa claro que é você, que acabou e que eu posso parar de tentar.
(Inspirado em "Jesus Christ" da banda Brand New)
quarta-feira, 19 de agosto de 2020
O garoto que bloqueou.
Eu te perdoo porque eu sei as condições das suas escolhas. Eu sei que não é fácil enxergar quando nossa cabeça está confusa. Quantas vezes fui eu que julguei errado e acabei te machucando? E não foi um desses erros que lá na frente estragou tudo? Espero que você possa me perdoar um dia. Mas, assim como você, é difícil demais esquecer. Porque você muda de cidade, sai do meu caminho mas todo quadro meu ainda tem seu rosto. E por mais que você escute minhas reclamações/acusações/frustrações, não desfaz tudo o que aconteceu e não diminui o quanto doeu e o quanto me machucou. Minha pele é fina mas nem toda cicatriz deixa marca e, seu pedido de desculpas só me deixa ainda mais triste. Se você entende a dor que causou hoje, porque não tentou me entender naquela época? Enquanto, entre lágrimas e gritos, eu tentava me fazer ouvido? Eu apostaria em você sem hesitar mas, sinceramente, eu perdi todas as apostas até agora. Eu te perdôo, mas eu não posso esquecer. E, enquanto eu ainda sentir dor, você vai me sentir no cheiro da chuva e no sangue nas suas veias.
(Inspirado em "The boy who blocked his own shot" da banda Brand New)
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
A árvore.
terça-feira, 17 de dezembro de 2019
O presente.
terça-feira, 8 de outubro de 2019
Baldeação.
Às vezes divago sobre a dor do outro: a mulher que digita rapidamente na tela do celular, enquanto segura as compras com a perna. O moço que chora discretamente enquanto escuta algo em seus fones, com a cabeça recostada no vidro. O homem que, de tão vazia sua expressão, deixa o corpo ser levado pelo movimento em busca de sentir algo finalmente. A criança que se comporta ao lado da mãe na esperança de pararem no caminho para comprar um doce ou algo assim. A senhora que repete silenciosamente trechos da bíblia como se aquilo fosse limpar seus pensamentos impuros e levá-la direto para o céu. O adolescente que sente o peso da responsabilidade não só do próprio futuro mas também o de toda sua família, e não sabe se está preparado para as provas que virão nos próximos dias.
Cada pessoa é um mundo inteiro de sentimentos e histórias, que se cruzam diariamente nas suas rotinas e rotas. Quando cruzamos o olhar, faço um sorriso discreto, não daqueles que querem puxar conversa, mas daqueles que entendem a nossa dor. Peço desculpas quando esbarro em alguém e quando esbarram em mim. Peço licença e por favor, mesmo quando não é necessário. Falo bom dia, boa tarde, boa noite aos trabalhadores que fazem todo o sistema de transporte funcionar. Se alguém puxa assunto, tento estar atento dentro das minhas possibilidades. Quando não posso, peço desculpas e invento um motivo para colocar meu fone.
Não me sinto responsável pela vida dos outros, minha vida já é difícil por si só, mas entendo que estender a mão muitas vezes é fácil e muito significativo para quem está para baixo. Ou continuo fazendo na esperança de que um dia façam comigo, não sei. Só sei que minha dor diminui um pouco quando o outro não dói mais.
terça-feira, 6 de agosto de 2019
A pequena sereia.
O sol estava mais quente que o normal, mas ela não ligava. Enterrava os pés na areia só para poder levantá-los e sentir as pedrinhas caindo entre seus dedos. Às vezes o mar subia e enchia de água o buraco que ela estava sentada. De longe seu irmãozinho construía um pequeno castelo de areia. Ela gostava de pensar que aquilo tudo era seu reino, e que todos ali na praia eram seus súditos. Não que existissem para serví-la, mas que sua benevolência e cuidado que mantinha todos em um ambiente seguro. Sua mãe vinha de tempos em tempos reforçar o protetor, e trouxe um coco imenso com dois canudos coloridos. Ela enterrou o coco na sua frente, no limite do canudo, que abaixava para poder tomar mas deixava as mãos livres. Ela também fazia pose, com os braços pra trás e as pernas semiesticadas, como as moças adultas que ela via por ali. Levantava os óculos muito maior que sua cara, e manda piscadinhas e beijinhos para o mar. Quando crescer ela quer ser sereia, pra poder viver no mar e só sair para cantar. Com um cabelo gigante e colorido, ela já imaginava o movimento dele no oceano. Teria uma coleção completa de todas as conchas, com vários tamanhos, cores e texturas. Também seria amiga de todos os animais, que nadariam com ela numa dança ritmada. Algumas vezes ela voltaria à terra pra poder visitar seus pais, ela realmente gostava do bolo de fubá da sua vó. Mas fora isso não gostava de ver como trabalhar cansava sua mãe e como as contas estressava seu pai. Então ela tinha decidido que seria sereia, porque sereia não tem trabalho de adulto. Seu irmão poderia ir com ela se ela quisesse, mas ele teria que se comportar porque ela não iria ficar cuidando dele o tempo todo. Será se as algas e outras plantas aquáticas tinham que ser podadas de vez em quando? Ou elas já nascem do jeito que elas tem para crescer? Ela podia se encarregar de regar as plantas do oceano, ou colocar em vasinhos pra poderem tomar sol. Esse seria o trabalho dela, tinha decidido. Reuniu seus brinquedos cheios de areia, viu a marca do seu bumbum encher de água mais uma vez e foi dar a grande notícia para sua mãe, mas ela estava ocupada demais no telefone.
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
O texto.
domingo, 30 de junho de 2019
Desculpas.
Os médicos não me falavam, mas muitas vezes eu ouvia eles dizerem sobre meu estado enquanto achavam que eu dormia. Não havia muita esperança porque não havia resposta. Os exames eram inconclusivos e o tratamento não demonstrava grandes resultados. Com meus olhos abertos, a reação era sempre outra. Traziam boas notícias e esperanças. Como se viver meus últimos dias feliz diminuísse um pouco o peso desses meus últimos dias.
"As flores morreram antes de mim", eu disse numa tentativa de quebrar um pouco o gelo mas só consegui fazer minha mãe chorar ainda mais por não conseguir cuidar nem das flores que levou pro meu quarto. Dizem que você se acostuma com a dor, mas estar acordado era insuportável todos os dias. Por isso meus olhos escolhiam se fechar por muitos momentos, na esperança de que se eu não me mexesse, meu corpo se desligaria sozinho.
Sempre gostei muito de viver, e investi anos demais da minha vida nisso pra abrir mão facilmente, mas cada dia que eu acordava era uma decepção. Morrer dormindo era minha escolha desde sempre, nas brincadeiras de criança onde isso não passa de uma ideia tão distante quanto um filme no Espaço Sideral. Hoje era uma realidade e um desejo, meu corpo poderia se desligar a qualquer momento, mas insistia em não. Pros meus pai eu era um milagre, um sentimento egoísta de me manter ao lado deles a qualquer custo, como prova do sucesso deles como pais, mas se o Deus que eles acreditam fosse tão poderoso, ou piedoso ao menos, já teria me poupado desse processo cansativo e doloroso. Ou me explicado melhor o plano tão grandioso que me transformaria meu martírio em uma peça-chave. Mas não, era sempre a enfermeira, ou meus pais. Alguns amigos. E o ritmo cada vez menor, e eu ficando cada vez menos ativo e interativo.
Até que hoje, você veio. Sem dó, mas sem peso nas palavras, me falou sobre como eu poderia ter sido uma pessoa melhor. Falou também sobre como eu te machuquei tantas vezes, machuquei meus pais e as pessoas na minha volta. Assumi cada erro e tentei contextualizar o que eu pensava na época, mostrar um outro lado. "Nunca me considerei uma pessoa ruim, não queria seu mal", disse mas você discordou. Com a delicadeza de sempre, me ensinou muito tarde demais. Porque eu também percebi tarde demais o quanto você me fazia bem. Devaneios infantis de um homem que viveu demais e aprendeu pouco. Aprendizado tardio de coisas que deveriam estar ensinar na escola. Os bons momentos eram eclipsados pelo meu passado e pelo remédio que mais uma vez me derrubava. Pedi desculpas por não conseguir continuar a conversa e pedi desculpas por tudo que eu fiz. Tudo mesmo, cada detalhe. Fechei meus olhos pela última vez, carregando comigo toda a culpa dos meus erros.
Hoje, o mundo inteiro dormiu mais leve.
terça-feira, 25 de junho de 2019
Dose.
sexta-feira, 1 de março de 2019
Juntos.
Você soltou a mão por um segundo e me perdi na multidão de gente. Olha em volta em busca do lenço azul que você usava na cabeça não consegui te encontrar. Me preocupei que você se preocuparia sobre onde eu estava mas logo passou, é carnaval e cada um sabia bem seus próprios limites e como se manter seguro. Me deixei aproveitar as diferentes músicas que dava pra ouvir da minha posição, uma bem próxima, algo que era considerado brega quando saiu mas que hoje, vinte anos depois, ganhou status de cult e era entoado por todos a minha volta. Um pouco mais distante eu ouvia uma música que reconhecia. O ritmo e depois a letra. Lembro de adolescente ouvir aquilo na tv e me perguntar o que significa. Perdido na metáfora, que hoje eu entendo que era apenas sexo como a maioria das músicas que existem, criei minha própria interpretação quase que literal do que ela significa. Eram tempos mais puros, da minha parte pelo menos. Meu olhar continuava viajando em busca do seu lenço azul, e já pensando em como atravessar aquela multidão para o nosso ponto de encontro caso nos perdêssemos. Uma mão pousou no meu ombro e quando eu já virava automaticamente que tinha namorada, você sorridente me entregava um copo cheio de uma bebida azul. Seu sorriso me trouxe alívio e me fez perceber melhor onde estava. A atipicidade da situação, como cheguei ali, o que estava ouvindo, as pessoas em minha volta e, principalmente, estar com você me trouxeram uma sensação de leveza. Como no dia em que deitei em seu colo pela primeira vez e soube que ali eu poderia repousar. Sei que ali, no meio de milhares de pessoas, eu posso desligar minhas defesas. Os escudos e muros que construí em longos anos de exposição ao mundo e que moldaram a dura pedra dos meus valores. Por um momento, meus pais deixaram o chão pra trás e flutuei sobre todos nós. Enquanto me afastava, via quase em uma clareira, nós dois parados no meu momento de realização. Nem a música eu ouvia mais, só o bater do meu coração. O silêncio do momento indicava que eu não estava mais ali, transitava em uma outra dimensão onde coisas como essa se eternizam. Foi sua respiração próxima a minha boca que me trouxe de volta. Você repetiu o convite para irmos embora. Peguei o copo de sua mão e nos guiei em meio a multidão. Aquele dia eu voei. Não sei se vão acreditar em mim ou se um dia isso vai se repetir, mas a leveza desafia a gravidade e flutua a menor brisa. Se foi você que me soprou ou as forças da natureza, nunca vou saber. Mas lá do alto eu posso afirmar: nós somos muito bonitos juntos.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2018
Bom garoto.
quarta-feira, 21 de novembro de 2018
Beijos são tão engraçados.
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Caos.
Ele andava na rua cabisbaixo, os últimos dias haviam sido pesados. O frio que sentia era amenizado pelas fachadas em chamas das lojas do centro. Seu passo lento destoava do clima de animosidade em sua volta. Pessoas corriam na direção contrária, carregando parte de seus pertences em uma mão e seus filhos em outra. Lenços cobriam o rosto um pouco para proteger da fumaça e um pouco para esconder suas identidades. Nem os eventuais esbarrões em meio ao caos o tirava de sua imersão. Ele não escolheu estar ali, muito menos escolheu a situação. Ele sabia onde tinha que ir mas não sabia direito o que fazer quando chegasse lá. Carros de polícia cortam ao seu lado a toda velocidade, a sirene abafada pelos gritos há alguns quarteirões. Alheio a tudo ele continuava andando a passos lentos. Uma moça, alguns anos mais nova que ele o para e pergunta se ele precisa de ajuda, ele demora alguns segundos para entender a situação mas diz que não, que estava bem. Ela tenta convencê-lo a acompanhá-la, apontando que aquela direção era perigosa, mas ele sorri sem graça e agradece. Ela se afasta buscando outras pessoas que estariam mais dispostas a serem ajudadas. Ele vira na esquina escura que tantas memórias viveu nos últimos anos, mas agora ela estava coberta de lixo e vidros quebrados. Ele para em frente a um dos prédios mais antigos e toca o interfone. Ele insiste um pouco até que uma voz rouca atende:
- Quem é?
- Sou eu, Lu. Acho que precisamos conversar.
- Pelo amor de Deus, Roberto. Vai pra casa, vai pra um lugar seguro.
- É que eu eu queria... Me deixa subir.
O barulho da porta se abrindo é um alívio no coração dele. Ele sobe as escadas que ele achou que nunca voltaria e chega em frente ao 4B a tempo de ouvir as trancas serem abertas e ela olhar pra ele com a mesma incredulidade de quando se viram pela primeira vez.
- Você está maluco? O que você está fazendo aqui?
- Eu não consegui mais ficar em casa.
- E você vem pra cá? Já não basta...
- Me perdoa.
- Cansei da suas desculpas! Olha a situação que você me coloca.
- Eu vou embora, eu não devia ter vindo.
- Não devia mesmo. Você teve sorte de chegar aqui vivo. Agora espera aí que vou preparar um café.
Ele senta no sofá surrado e sente-se em tranquilo pela primeira vez em meses.


