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sábado, 13 de janeiro de 2024

Trens.

Era mais fácil falar sobre as viagens de trem quando elas não existiam. Na vida real, elas são feitas de horas de podcasts e textos na internet. Algumas vezes a paisagem te pega de surpresa, ou o timing perfeito de um por do sol sobre a ponte te alcança. Uma garota descansa sobre os ombros do seu parceiro, uma criança ri de celular de um de seus pais. O trabalhador aproveita o tempo para trocar as botas e um estudante fala por vídeo com seus amigos do outro lado do mundo. Eu penso sobre a vida de cada um deles e penso se eles pensam sobre minha vida também. O que eles vêem em mim que atiça suas curiosidades? Se é que veem algo em mim. Será se perguntam sobre onde estou indo ou porque pareço triste? Quais histórias eu vivi e o quais poemas se perderam nos meus cadernos? Muito mais do que nas pessoas que eu vejo no meu trajeto, eu penso também nas pessoas que eu não vejo. Aquelas que não chamam minha atenção o suficiente e saem do trabalho para suas casas sem serem notadas. Como uma árvore cai na floresta mas ninguém escuta. Às vezes eu me sinto como elas. Andando invisível em um planeta distante. E sempre quando me aproximo do abismo, em vez de escutar chamarem meu nome, escuto o anúncio que chegou minha estação.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Desvio (Inktober #004)

Você viu? Mas foi quase que me pegou em cheio. Eu estava sim distraído mas não quer dizer que eu mereça a maior das punições. Ou um alívio? Quem sabe o mesmo motivo que me levou até ali, essa distração consequência de aprender mais sobre si mesmo do que gostaria, essa eterna sessão de terapia que é a vida. Que te deixa atordoado te mostrando que pouco do que você faz importa, mas importa muito pra quem você faz, e que nada disso vai garantir que coisas boas vão acontecer, por exemplo, do nada, você distraído pode ser seu último momento.
Lembro dele sair do carro, também atordoado, pedindo desculpas, sem saber direito o que aconteceu. Eu estava bem, do que ele estava falando? Olha só, eu o conheço, mas de onde mesmo? Eu preciso ir, não consigo conversar agora, tive um dia muito difícil.
Mas às vezes, é quando você senta que realmente te acerta. Só são e salvo com a proteção da distância que você percebe que aquele rápido desvio sem pensar poderia ter custado muito mais do que um susto. Seu desvio do caminho pra ter tempo pra pensar sobre tudo que você não queria pensar, que ironia, podia resultar na solução final de todos os problemas. Todos os traumas, todos os pesos, os conhecimentos não bem-vindos, as noites de choros e os desesperos acabariam ali no desvio rápido de um carro em alta velocidade.
Um pequeno desvio fruto de uma pequena distração e tudo muda.

Caminhos (Inktober #003)

A gente sempre se pergunta se a gente tomou o melhor do caminho, principalmente quando lá na frente a estrada começa a parecer perigosa. Os “e se” tomam conta da cabeça pensando quão mais rápido ou mais longe chegaríamos se um outro caminho tivesse sido tomado. Que outras pessoas teríamos conhecidos e que outras comidas teríamos provados. Todos os banheiros de rodoviária catalogados e salgados que nunca experimentamos.
Mas a verdade é que o caminho é sempre um só, o caminho que foi passado. Não existe nenhum outro além do que o que você seguiu. Aliás, até que existe. O caminho dos outros está aí pra todo mundo ver. Principalmente pra alguns, as vitórias acabam sendo tão expostas, que esquecemos que cada um teve suas dificuldades pra chegar até ali. Ou mesmo, quando nos comparamos, nem sempre é claro que algumas pessoas tiveram caronas, ajudas, desvios ou atalhos. Fica apenas o sentimento de que fracassamos por não estar onde o outro está.
Enquanto a mim, eu sou estou aqui, onde eu acho que deveria estar fazendo o melhor que eu posso com as ferramentas que eu tenho na mão.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Aranhas (Inktober #002)

Você ria do meu medo de aranha, como se não fosse normal temer o desconhecido. E pra mim uma aranha é tão desconhecida e perigosa como um leão na Savana. O leão, no entanto, é uma ameaça muito visível o que me dá a falsa impressão de que eu poderia me proteger. A aranha num piscar de olhos se esconde no canto de um móvel como quem planeja qual a forma menos dolorosa de me matar enquanto durmo. Convenhamos, esse é o melhor cenário, pois a aranha, destemida como só ela, pode escolher ficar parada por horas fora do alcance das nossas mãos apenas em um grande jogo de encarar pra ver quem pisca primeiro. Eu, nervoso como sempre, já perdi o jogo ao mesmo tempo que não consigo parar de olhar.
Tento também ver o lado dela, em busca de comida e proteção pra suas filhas, as milhares de aranhas que em breve estarão prontos para o mundo. Eu, o monstro gigante que com uma enorme vassoura posso acabar com todos seus sonhos e tudo que ela construiu. Mal sabe ela do medo do gigante em encarar sua pequenez.
Será se as aranhas contam histórias de aranhas que sobreviveram? Aquelas que lutaram contra a grande ameaça que nós somos e com um ligeiro golpe de sorte, foram capaz de sobrepor a ameaça que assombrava sua família e sua cidade? Será se elas choram por aquelas que não sobreviveram? As que foram eliminadas em sprays inseticidas, esmagadas ou capturadas para a morte?
Às vezes eu penso sobre minha própria insignificância ante o universo, às vezes eu penso sobre quão gigante eu posso ser. Em ambos os casos, eu ficaria feliz se você lidasse com a aranha no meu quarto.

Sonho (Inktober #001)

Já te contei que às vezes sonho com coisas que acontecem anos depois? Lugares que eu nunca estive, pessoas que eu não conheço, todas habitando um subconsciente que não tenho controle sobre e, muitas vezes, que some depois de alguns minutos acordado.
Quando eu te vi pela segunda vez tinha algo familiar na maneira como você gesticulava empolgada sem derrubar uma gota do vinho fora da taça. Reconheci seu sorriso com se fosse a própria projeção do meu desejo, materializada diante dos meus olhos.
Assim foram todas as outras dezenas de vezes que te vi, sempre com um ar de reconhecimento e admiração, algo mágico além do meu entendimento que eu só poderia interpretar como amor.
Dias e meses e anos se passaram, a gente se gostou e desgostou, ficou e separou, até que um dia simplesmente em uma noite tranquila todas as peças do quebra-cabeça se juntaram. Você casualmente riu de mim do canto da sua sala de estar e meu cérebro resgatou a memória de um sonho de anos atrás.
Foi lá que eu te vi pela primeira vez: sentada no canto da sua sala de estar, cabelo amarrado pra cima, a luz quente iluminando seus olhos e a planta. Lembro exatamente da sua risada rindo de mim ou de algo que eu falei. Mas eu não te conhecia ainda, não sabia dos seus gostos pra móveis e muito menos do jeito que você gostar de sentar com as duas pernas dobradas na poltrona.
Eu era apenas um garoto que acordou cansado de uma noite mal dormida com uma breve e ligeira memória de ter sonhado com alguém, e hoje observo como os sonhos se tornam realidade, por algum mecanismo do universo ou alguma falha no espaço tempo que vazou essa cena pra mim.
Assim como o sonho, o momento real passa e fica a confusão: será que isso realmente aconteceu ou é apenas meu cérebro e seus truques. O mistério de ver o futuro continua mas sua explicação mais uma vez se perde para a irrelevância quanto ao todo.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Love craft.



Querido diário, venho aqui tentar transcrever em palavras algo que me falta ainda compreensão. Algo que só tinha lido nos livros antigos e em histórias tradicionais. Algo que, quando jovem, ri da mera menção a sua existência e hoje, vendo a realidade de forma mais turva e perdendo um pouco de minha
própria sanidade, preciso lidar com os fatos os quais tão imaturamente tive que encarar. Tudo começou quando em último dezembro percorria os velhos diários de meu tio para enfrentar o tédio sufocante de outro verão no interior. Nas velhas páginas rabiscadas, de um tempo onde papel e caneta ainda cumpriam sua função primitiva de guardar segredos, encontrei um singelo recado que me chamou atenção: um pequeno papel rasgado, oriundo de um saco de pão, com uma sequência numérica intrigante e um nome feminino ao lado. Comecei a buscar em outros trechos qualquer referência ao nome "Sara", mas obtive pouco sucesso. Os números desafiavam qualquer sequência conhecida pelo homem e mesmo minha incessante busca pelos anais dos buscadores digitais se demonstrou infrutífera enquanto minha mente se tomava por uma obstinada obsessão pelos códigos em minha frente. Minhas noites eram tomadas por pensamentos errantes que me impediam de focar em outra coisa, meus dias ocupados pela busca de uma explicação. Quanto mais dias se passavam, mais distante eu me via de uma resposta. O falecimento prematuro de meu tio, o qual pouco conheci além das velhas fotos espalhadas por sua casa de campo, os empoeirados discos no armário e o diário com pequenas anotações cotidianas de seus tempos na cidade, me deixavam poucas opções além de uma abordagem mais direta dessa questão. Levei as poucas evidências que tinha em mãos e fui até a irmã de minha progenitora na vã esperança de ela abrir meus olhos para novas direções, mas fui agressivamente dispensado e caçoado pela minha obsessão infantil com aquelas informações. Dias se passaram, semanas, talvez anos, minha mente já não registrava mais o conceito de tempo linear da mesma maneira. Tudo parecia distorcido em minha própria realidade. Quanto mais encarava aquele recorte, mais confuso ficava. Talvez não fosse realmente um nome feminino, poderia ser um verbo, um adjetivo, uma sigla, a infinidade da língua e das possibilidades não-linguísticas me colocavam em uma nova espiral. O vazio dentro de mim ecoava a ausência de informação e, ao mesmo tempo, permitia que um apego inexplicável crescesse dentro de mim referente aquele mísero pedaço de papel. O números se embaralham ao olhar em busca de qualquer sentido e relação entre eles, combinações de cofres secretos em escotilhas sobre a cama, analogias a letras e outros símbolos criptografados. Minha incessante busca por um significado só tornava aquele processo, e meu tio consequentemente, ainda mais interessante e misterioso. As palavras em seu diário extrapolavam sua denotação, todo registro de compra, apostas em jogo, cada ação relatada naquelas velhas páginas escondiam em si a resolução do mistério que dominava meu pensamento. O fim de meu recesso de verão se aproximava e com ele findava também as minhas esperanças de encontrar respostas satisfatórias às minhas obsessões. Tendo checado todas as canções em sua velha vitrola, todos os livros em sua vasta biblioteca, prostrado em meus aposentos encarando a arquitetura em minha frente, tenho então um sinal que a única explicação é a verdadeira vontade cósmica dos deuses antigos de saciar essa jovem mente com um conhecimento além da verdade. O sinal sonoro que se perdeu além dos tempos, uma verdade tão pura e verdadeira, que nem o mais sapiente dos gurus poderia imaginar: um pequeno dispositivo mecânico utilizado por nossos ancestrais dava seu ressoar sonoro e me mostrava o que eu me neguei a ver durante toda minha jornada. Corro na direção de tal dispositivo como a feroz águia em direção a sua ignorante presa. Ao alcançá-lo, hesito, pois sei que a verdade está a um breve momento de se revelar a minha frente. Com minhas pequenas mãos trêmulas, giro o disco com os algarismos marcados no singelo papel. Um toque. O segundo. Sinto o suor frio escorrer sobre meu rosto enquanto meu peito palpita incessantemente, a qualquer momento... Ouço do outro lado uma voz suave, porém vivida, me saudando. Minha voz, prejudicada pela distância que me separa da puberdade, tenta parecer madura enquanto requisito que passem o telefone para ela... Sara. A doce senhora ao outro lado do telefone se identifica e ouve pacientemente meu relato. Minha pouca idade a delicia e vejo que tenho em minha frente aquilo que tanto esperava. Sara não se prende em contar como conhecera meu tio, Milton, em uma festividade na cidade, muitos anos atrás. Seu jeito galante e o nariz marcado por uma desavença anterior o faziam um sujeito cobiçado entre as outras jovens da região, mas foi por Sara que ele se apaixonou. Era comum ver Milton com buquê de flores pela cidade, encomendando discos estrangeiros para presenteá-la e até trazendo costureiras de fora para a produção de vestidos sob medida a cada evento e gala. Ele não só dava presentes, mas era presente e carinhoso, fato que o tornava o pretendente ideal aos olhos dos pais de Sara. E por dois anos, Sara viveu intensamente aquela relação, fazendo planos de matrimônio e filhos assim que pudessem sustentar seu próprio lar. Infelizmente, o Destino é um ser mais antigo que os deuses, e suas decisões pouco levam em conta a nossa vontade. Em um descuido durante sua volta pra casa, Milton perdeu o controle de seu automóvel e se envolveu em um horrível acidente. A cidade estava de luto, mas irremediável estava Sara, cujo futuro feliz ao lado de seu amor também tinha nos deixado no acidente. Os anos se passaram e a dor diminuiu. Milton se transformou em apenas uma feliz lembrança de um passado e um futuro que já não existia mais. Sara, então me revelou com sua voz embargada, que o recorte que encontrei havia sido escrito por ela, a primeira vez que Milton a abordara. Era seu telefone para que eles pudessem se contactar em uma realidade pré-internet. Agradeci, também emocionado, não só pelas respostas que tanto procurei mas também por compartilhar esse relato de um amor que sobreviveu a maior das fatalidades. Um acontecimento maior que o passar do tempo e que o entendimento humano. Um amor que para mim só existia nos velhos livros de um árabe louco e que agora estava diante de mim. Escrevo essas palavras em meu caminho de volta para minha cidade, onde nas próximas semanas retornarei a minhas atividades escolares. Divido com você esse relato pois sei que meus companheiros de estudos pouco levarão a sério a grandeza de tal descoberta. Eu, mais próximo dos meus treze anos, enfim posso afirmar que presencial algo maior do que a própria existência humana. Algo que meu cérebro ainda tem dificuldades de entender. Volto para minha vida como um novo homem, ainda com dificuldades de lidar com um sentimento de tal grandeza como o amor.

" Love Craft" (ou "Um amor além da compreensão")

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Ninho.

Sinceramente? Eu não achei que estava pronto até te segurar nos braços. Foi quando eu tive certeza de que eu não estava, mas fui mesmo assim. E cada choro, cada passo, cada sorriso e cada abraço, você me dava mais certeza de que eu não estava pronto. Mas a gente se esforça, porque sua agenda não espera a minha e o dia passa e a gente nem vê. As noites sem dormir viram semanas, meses viram anos e quando segurei o choro pra te deixar pela primeira vez, você olhou pra mim e falou que estava tudo bem, que eu podia ir que já voltava. E então me acostumei com sua ausência, que começou pequena e foi crescendo, como se eu estivesse perdendo um pouco de mim toda vez que te deixava ir. Você conheceu outros, e assim sua atenção se dividia e eu sofria muito por dentro, a cada novo colega que aparecia. Depois vieram as mudanças, que te colocaram ainda mais longe do que eu queria. De repente, a gente não se entendia e você se trancava e me tratava como inimigo. Meu esforço de me fazer querido, entendido, era confundido com outra coisa que, com o tempo, só ficou pior. Eu tentava me fazer presente, mostrar que mesmo depois das brigas mais quentes, meu colo ainda estava aberto se quisesse chorar. E vez por outra eu via seus olhos vermelhos me evitando para evitar perguntas, sem saber que não tinha nada que eu queria saber além de como você estava. Assim se seguiu, você cada vez mais longe, eu cada vez mais velho. Você escolheu seu caminho, eu apoiei e fiquei sozinho, vendo você de longe ir atrás de tudo o que você sempre quis. E, foi de longe também, que você me ligou, me contando de tudo o que você passou, empolgado de estar ali. E foi ali que eu percebi, eu ainda não estava preparado, mas a gente nunca está. 

domingo, 1 de novembro de 2020

Sinal.

 A gente podia combinar um sinal, sabe, tipo namorados que se olham de longe e sabem exatamente a hora de deixar uma festa? Vamos combinar. Um aceno, uma piscada, um arco íris no céu, qualquer coisa.Uma palavra de segurança, um post-it na geladeira. Mas deixa claro pra mim que acabou, pra eu jogar minhas esperanças no lixo e poder ir embora. Pra eu parar de tentar inutilmente, porque essa frustração está me matando e sei que não é o que você quer. Porque eu sei que você quer o melhor pra mim, mesmo nem raramente fazendo sua parte, e eu também quero. Mas se eu tô no caminho errado, se eu virei duas ruas antes há quilômetros atrás, me fala, porque nao é tarde demais pra eu pegar o próximo retorno e voltar pra estrada calma que eu tava. Você é cheio de mistérios, palavras certas, linhas tortas, etc. Mas comigo isso não funciona. Não quero indireta, sabe? Subtexto não é pra mim. Eu sou muito bom de fazer o que me pedem quando me explicam direitinho e, se eu tô errando tanto, dando soco em ponta de faca, batendo cabeça, o que que custa me falar que não é por aí? Eu apostei todas minhas fichas nisso aqui, mas a gente volta e consegue mais fichas pra apostar em outra coisa se precisar. Então, eu sigo esperando seu sinal. Até lá vou entender que o que me falta é esperar, que coisas boas acontecem pra quem vai atrás. Mas, sei lá, mesmo as melhores pessoas podem seguir o carro errado na rodovia. Se for esse o caso, me manda um sinal, qualquer um, mas deixa claro que é você, que acabou e que eu posso parar de tentar.


(Inspirado em "Jesus Christ" da banda Brand New)

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O garoto que bloqueou.

Eu te perdoo porque eu sei as condições das suas escolhas. Eu sei que não é fácil enxergar quando nossa cabeça está confusa. Quantas vezes fui eu que julguei errado e acabei te machucando? E não foi um desses erros que lá na frente estragou tudo? Espero que você possa me perdoar um dia. Mas, assim como você, é difícil demais esquecer. Porque você muda de cidade, sai do meu caminho mas todo quadro meu ainda tem seu rosto. E por mais que você escute minhas reclamações/acusações/frustrações, não desfaz tudo o que aconteceu e não diminui o quanto doeu e o quanto me machucou. Minha pele é fina mas nem toda cicatriz deixa marca e, seu pedido de desculpas só me deixa ainda mais triste. Se você entende a dor que causou hoje, porque não tentou me entender naquela época? Enquanto, entre lágrimas e gritos, eu tentava me fazer ouvido? Eu apostaria em você sem hesitar mas, sinceramente, eu perdi todas as apostas até agora. Eu te perdôo, mas eu não posso esquecer. E, enquanto eu ainda sentir dor, você vai me sentir no cheiro da chuva e no sangue nas suas veias.

(Inspirado em "The boy who blocked his own shot" da banda Brand New)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A árvore.

Desde que ela se mudou da cidade que morava, era a primeira vez que não ia conseguir passar o Natal por lá. O emprego estava uma bagunça, ela não andava bem, tinha faltado uns dias onde simplesmente não conseguia se levantar da cama e, foi informada um pouco em cima da hora de que ia precisar trabalhar na véspera de Natal. Essa época sempre foi muito delicada para ela. Mesmo antes de se mudar, era um momento muito emotivo, quase uma trégua de sua família que vivia brigando e um esforço conjunto para manter uma imagem de união ao menos para as crianças mais novas. Não tinham muito dinheiro, e a cidadezinha não oferecia grandes opções de presente, mas sempre faziam questão de comprar uma lembrancinha ou outro para todos. As crianças ganhavam os melhores presentes, os jovens ganhavam livros e cadernos e os adultos dividiam uma garrafa de vinho e se lembravam de histórias antigas. O Natal era a trégua das brigas. Quando ela ficou adulta, a realidade começou a bater pesado. Primeiro veio a transição dos presentes, depois a entender a dinâmica da própria família. Muito mais voltada na hipocrisia e no respeito à matriarca da família do que realmente um momento de paz. Mas ainda assim, foi com o que ela foi criada e se ver tirada dessa tradição familiar foi dolorido e inesperado. Foi na confusão das últimas semanas que ela levou sem querer para casa um enfeite de Natal que o RH da empresa tinha colocado próximo à sua mesa. Chegou em casa e se deparou com aquela estrela dourada jogada na mesa. Sem pensar muito, colocou pendurada no fecho da janela e ficou olhando a luz de fora refletindo no papel dourado. No outro dia, saindo do restaurante onde almoçava todos os dias, entrou em um mercadinho que sempre parava para comprar um chocolate. Já no caixa, viu ao lado uma caixinha amassada com luzes quebradas de Natal. Observar aquela caixa foi como se ver no espelho, um objeto abandonado e despido de espírito natalino. Perguntou para o atendente quanto custava que, quase como um pequeno ato rebelde contra o capitalismo, deu de ombros e colocou a caixa junto na sacola do chocolate. Ela passou a tarde toda pensando nisso. Chegou em casa, jogou sua mochila no sofá e foi direto para a janela instalar as luzes meio falhas. Organizou-as no formato de uma árvore e realocou a estrela dourada no topo. A manhã seguinte no trabalho foi agitada: procurando referências no Pinterest, ela achou uma neozelandesa que usou pequenas fotos para decorar a própria árvore em vez de bolinhas coloridas. Aproveitando a ausência de sua gerente, ela escolheu fotos suas, dos seus antigos amigos, do seu cachorrinho que ainda estava na casa de seus pais, dos personagens de um filme que ela gostava, e imprimiu pequenas versões que foram mais tarde cuidadosamente coladas com durex em sua janela, onde uma árvore improvisada brilhava. Satisfeita com sua obra de arte, ela encarou por olhas tentando julgar o que faltava, enquanto tocava uma playlist de Natal em seu Spotify. Presentes! Era isso que faltava. Mas ela não tinha para quem dar esses presentes, muito menos dinheiro para presentear qualquer um. Os poucos amigos que ela mantinha na cidade não pareciam próximos o suficiente para ser presenteados, mas tinha alguém que ela conhecia muito e sem dúvida ia amar tudo que ela escolhesse: ela mesma! No sábado seguinte, ela acordou cedo, separou o dinheiro que ela usaria nas passagens de ônibus que não seriam mais usadas e foi para o shopping na intenção de comprar o máximo de coisas possíveis. Comprou um livro que queria ler há tempos, comprou pulseiras coloridas, comprou uma caneca comemorativa de Natal e, por fim, comprou o vinho com a garrafa mais bonita até 30 reais que ela achou. Tudo devidamente embrulhado e com uma etiquetinha "de:/para:". Os próximos dias no trabalho passaram voando, ela fazia sua função da maneira mais eficiente possível para usar o resto do tempo para planejar sua festa de Natal. E foi assim que sua casa ganhou plantas novas para fazerem companhia, um Papai Noel de pelúcia pendurado na árvore, uma assadeira nova e um pernil ocupando 80% da sua geladeira. Dia 24 de dezembro, 18h00, ela saiu correndo do trabalho para casa. Colocou o forno para esquentar e foi tomar banho. Se arrumou toda, cada detalhe do vestido à maquiagem. Preparou a mesa para a ceia, iluminadas apenas com velinhas vermelhas e a luz da árvore improvisada na janela. Abriu seu vinho e serviu na sua caneca nova. Tirou o pernil do forno, percebendo que ainda estava cru. Sem hesitar, serviu-se do resto de comida de outro dia na geladeira, colocou no microondas e sentou em seu sofá com a taça de vinho na mão, observando sua obra de arte na janela. Aumentou o volume da sua playlist e não desejou estar em nenhum outro lugar do mundo.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O presente.

Ele tinha comprado um presente mas há anos não acertava. Lembrava que antigamente era o mestre nos presentes criativos e surpreendentes, depois de uma série de erros e menosprezos, presentear virou um bloqueio criativo. Assim, cada ida ao shopping ou um passeio nas lojas virtuais próximo a datas comemorativas, virava um pesadelo e uma crise de ansiedade. Nessa indecisão e insegurança, muitas vezes quando achava algo já era tarde demais, não seria entregue a tempo ou custava muito mais do que o orçamento permitia. Mas desse vez ele iria acertar, sem dúvida. Viu um colar com uma pedra roxa muito viva, parecido com outros colares que ela já usava e da mesma cor de muitos dos seus vestidos. Aproveitou a promoção de Natal e comprou na hora. Colocou no bolso da frente da calça para não perder e checava de tempos em tempos se o volume continuava ali. A viagem no metrô rumo a casa dela durava mais do que nunca, e o vagão lotado começava a esquentar de calor. A cada esbarrão de um trabalhador, ele checava novamente o embrulho no bolso. Tudo continuava na sua tranquilidade. Ele desceu uma estação antes de onde costumava descer, disposto a comprar o sorvete preferido dela numa padaria que ficava no caminho, iria andar alguns quarteirões a mais mas com certeza seria recompensado com a reação que ela teria ao receber tudo. Andando em direção a padaria, ele pensou o quanto ele se sentia bem com aquilo tudo, o quanto fazer alguém feliz o deixava feliz, mesmo que nos pequenos gestos. O dia começava a escurecer, o que o fez lembrar que não tinha avisado que estava indo. Tirou o celular do bolso e começou a digitar uma mensagem para avisar sua localização. Entrou na padaria, conferiu o horário e sentou, esperando a resposta de sua última mensagem. Com um emoji de coração e um gif animado, ela respondeu que estava a sua espera. Na padaria mesmo cogitou se levava um vinho para acompanhá-los durante a noite mas, em plena terça-feira onde ela trabalharia cedo no dia seguinte, chegou a conclusão de que o sorvete seria suficiente. Pegou o sorvete mais atrás na geladeira, uma técnica que aprendeu com o amigo que dizia que era lá que guardavam os sorvetes mais novos e mais gelados, e foi até o caixa pagar. Como tinha uns trocados, resolveu aproveitar o espírito de Natal para doar umas moedinhas pra caixinha de funcionários e continuou seu caminho rumo a casa dela. Com o celular na mão, colocou uma música para embalar seu percurso e andou como se num clipe musical. Foi em frente ao prédio de 15 andares onde ela morava desde os 16 que ele apertou o 802 para anunciar sua chegada. O portão abriu sem falar nada e ele bateu a mão no bolso uma última vez para conferir o presente que não estava mais lá.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Baldeação.

No transporte público, eu penso sobre o meu dia. Saio cansado do trabalho nas minhas frustrações cotidianas pra pegar uma hora de avenidas lotadas até minha casa. O choro entalado por um mal entendido esperando só uma brecha para sair, mas seguro para não incomodar e não ser incomodado. Abro meu livro, mas não concentro, leio uma e volto duas páginas em busca de distração. O processo dói, mas doeu chegar até aqui e me prometeram que no final da dor tem conforto. Daí eu continuo, diariamente, sofrendo todas minhas dores no metrô.

Às vezes divago sobre a dor do outro: a mulher que digita rapidamente na tela do celular, enquanto segura as compras com a perna. O moço que chora discretamente enquanto escuta algo em seus fones, com a cabeça recostada no vidro. O homem que, de tão vazia sua expressão, deixa o corpo ser levado pelo movimento em busca de sentir algo finalmente. A criança que se comporta ao lado da mãe na esperança de pararem no caminho para comprar um doce ou algo assim. A senhora que repete silenciosamente trechos da bíblia como se aquilo fosse limpar seus pensamentos impuros e levá-la direto para o céu. O adolescente que sente o peso da responsabilidade não só do próprio futuro mas também o de toda sua família, e não sabe se está preparado para as provas que virão nos próximos dias.

Cada pessoa é um mundo inteiro de sentimentos e histórias, que se cruzam diariamente nas suas rotinas e rotas. Quando cruzamos o olhar, faço um sorriso discreto, não daqueles que querem puxar conversa, mas daqueles que entendem a nossa dor. Peço desculpas quando esbarro em alguém e quando esbarram em mim. Peço licença e por favor, mesmo quando não é necessário. Falo bom dia, boa tarde, boa noite aos trabalhadores que fazem todo o sistema de transporte funcionar. Se alguém puxa assunto, tento estar atento dentro das minhas possibilidades. Quando não posso, peço desculpas e invento um motivo para colocar meu fone.

Não me sinto responsável pela vida dos outros, minha vida já é difícil por si só, mas entendo que estender a mão muitas vezes é fácil e muito significativo para quem está para baixo. Ou continuo fazendo na esperança de que um dia façam comigo, não sei. Só sei que minha dor diminui um pouco quando o outro não dói mais.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

A pequena sereia.


O sol estava mais quente que o normal, mas ela não ligava. Enterrava os pés na areia só para poder levantá-los e sentir as pedrinhas caindo entre seus dedos. Às vezes o mar subia e enchia de água o buraco que ela estava sentada. De longe seu irmãozinho construía um pequeno castelo de areia. Ela gostava de pensar que aquilo tudo era seu reino, e que todos ali na praia eram seus súditos. Não que existissem para serví-la, mas que sua benevolência e cuidado que mantinha todos em um ambiente seguro. Sua mãe vinha de tempos em tempos reforçar o protetor, e trouxe um coco imenso com dois canudos coloridos. Ela enterrou o coco na sua frente, no limite do canudo, que abaixava para poder tomar mas deixava as mãos livres. Ela também fazia pose, com os braços pra trás e as pernas semiesticadas, como as moças adultas que ela via por ali. Levantava os óculos muito maior que sua cara, e manda piscadinhas e beijinhos para o mar. Quando crescer ela quer ser sereia, pra poder viver no mar e só sair para cantar. Com um cabelo gigante e colorido, ela já imaginava o movimento dele no oceano. Teria uma coleção completa de todas as conchas, com vários tamanhos, cores e texturas. Também seria amiga de todos os animais, que nadariam com ela numa dança ritmada. Algumas vezes ela voltaria à terra pra poder visitar seus pais, ela realmente gostava do bolo de fubá da sua vó. Mas fora isso não gostava de ver como trabalhar cansava sua mãe e como as contas estressava seu pai. Então ela tinha decidido que seria sereia, porque sereia não tem trabalho de adulto. Seu irmão poderia ir com ela se ela quisesse, mas ele teria que se comportar porque ela não iria ficar cuidando dele o tempo todo. Será se as algas e outras plantas aquáticas tinham que ser podadas de vez em quando? Ou elas já nascem do jeito que elas tem para crescer? Ela podia se encarregar de regar as plantas do oceano, ou colocar em vasinhos pra poderem tomar sol. Esse seria o trabalho dela, tinha decidido. Reuniu seus brinquedos cheios de areia, viu a marca do seu bumbum encher de água mais uma vez e foi dar a grande notícia para sua mãe, mas ela estava ocupada demais no telefone.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O texto.

Era a terceira vez que ele começava a escrever e jogava tudo fora. As palavras não pareciam expressar o que ele sentia, mas urgia a necessidade de escrever. O lápis e o caderno, plataformas obsoletas, só geraram rabiscos e mais lixos, seguidos novamente pela culpa em relação às àrvores, mas a tela branca do computador também não estava fazendo efeito. Decidiu narrar todo seu processo como forma de começar algo. Começou escolhendo sua posição na cama, de forma a não superaquecer o computador e não cansar seus músculos enquanto escrevia. Abriu o primeiro editor de texto que viu e deu a chance das palavras saírem. Depois da primeira vez, já tinha entendido mais ou menos o formato que queria para seu texto, mas apagou tudo e tentou recomeçar do zero. Outras palavras, outros pensamentos para passar a mesma ideia. Por alguns segundos se arrependeu de ter apagado tudo, era melhor ter continuado de onde estava e depois reeditar, mas a segunda vez fluiu melhor. Quando travou em uma forma de acabar o texto, decidiu apagar novamente e recomeçá-lo. Sabia que mesmo sabendo o destino, era o caminho que decidia como as coisas iriam ser. Voltou novamente para a página em branco e escreveu no fluxo de ideias. Relendo o que escreveu, reconheceu os sentimentos que estavam presos em si, escondidos nas pequenas vírgulas e no ritmo inserido. Refletiu se mais alguém perceberia, refletiu também se alguém leria e se compensava realmente publicá-lo. Após quase apagar para começar pela quarta vez, preferiu colocar junto dos outros textos públicos mas estrategicamente escondidos, para que no futuro esse momento seja registrado e para que, alguém um dia, possa se inspirar nele e fazer o seu próprio texto.

domingo, 30 de junho de 2019

Desculpas.

A medicação já estava fazendo efeito há tanto tempo, que eu não conseguia mais medir o tempo. Meus cochilos duravam horas, dias às vezes, e minha mente transitava entre o quarto do hospital e um completo nada com mais facilidade do que eu gostaria. No começo ainda me traziam comida, depois tive que me contentar com o soro que me davam pra me manter. Não que eu sentisse fome, mas a memória dos sabores e da satisfação ainda era muito recente pra mim. O frio e o calor também se revezavam com facilidade no meu corpo, logo me acostumei a estar sempre suando, pelo menos assim diminuía as vezes que eu precisava ir ao banheiro, sempre um momento mias constrangedor pra mim do que pra enfermeira. Meu corpo, fraco, mal conseguia apertar o botão de auxílio, mas a equipe estava sempre alerta comigo. Qualquer descuido podia agravar demais minha situação.
Os médicos não me falavam, mas muitas vezes eu ouvia eles dizerem sobre meu estado enquanto achavam que eu dormia. Não havia muita esperança porque não havia resposta. Os exames eram inconclusivos e o tratamento não demonstrava grandes resultados. Com meus olhos abertos, a reação era sempre outra. Traziam boas notícias e esperanças. Como se viver meus últimos dias feliz diminuísse um pouco o peso desses meus últimos dias.
"As flores morreram antes de mim", eu disse numa tentativa de quebrar um pouco o gelo mas só consegui fazer minha mãe chorar ainda mais por não conseguir cuidar nem das flores que levou pro meu quarto. Dizem que você se acostuma com a dor, mas estar acordado era insuportável todos os dias. Por isso meus olhos escolhiam se fechar por muitos momentos, na esperança de que se eu não me mexesse, meu corpo se desligaria sozinho.
Sempre gostei muito de viver, e investi anos demais da minha vida nisso pra abrir mão facilmente, mas cada dia que eu acordava era uma decepção. Morrer dormindo era minha escolha desde sempre, nas brincadeiras de criança onde isso não passa de uma ideia tão distante quanto um filme no Espaço Sideral. Hoje era uma realidade e um desejo, meu corpo poderia se desligar a qualquer momento, mas insistia em não. Pros meus pai eu era um milagre, um sentimento egoísta de me manter ao lado deles a qualquer custo, como prova do sucesso deles como pais, mas se o Deus que eles acreditam fosse tão poderoso, ou piedoso ao menos, já teria me poupado desse processo cansativo e doloroso. Ou me explicado melhor o plano tão grandioso que me transformaria meu martírio em uma peça-chave. Mas não, era sempre a enfermeira, ou meus pais. Alguns amigos. E o ritmo cada vez menor, e eu ficando cada vez menos ativo e interativo.
Até que hoje, você veio. Sem dó, mas sem peso nas palavras, me falou sobre como eu poderia ter sido uma pessoa melhor. Falou também sobre como eu te machuquei tantas vezes, machuquei meus pais e as pessoas na minha volta. Assumi cada erro e tentei contextualizar o que eu pensava na época, mostrar um outro lado. "Nunca me considerei uma pessoa ruim, não queria seu mal", disse mas você discordou. Com a delicadeza de sempre, me ensinou muito tarde demais. Porque eu também percebi tarde demais o quanto você me fazia bem. Devaneios infantis de um homem que viveu demais e aprendeu pouco. Aprendizado tardio de coisas que deveriam estar ensinar na escola. Os bons momentos eram eclipsados pelo meu passado e pelo remédio que mais uma vez me derrubava. Pedi desculpas por não conseguir continuar a conversa e pedi desculpas por tudo que eu fiz. Tudo mesmo, cada detalhe. Fechei meus olhos pela última vez, carregando comigo toda a culpa dos meus erros.
Hoje, o mundo inteiro dormiu mais leve.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Dose.

Entro arrastado mais uma vez na casa de um desconhecido que recebia nessa noite fria de julho alguns jovens em sua casa com as responsabilidades de trazerem suas próprias bebidas e não bagunçarem muito as coisas. Como acontecia muito nessa época, um amigo de um amigo estava ficando com uma menina que conhecia o dono da festa e por isso recebemos o convite informal em um grupo de WhatsApp. O trabalho tinha sido cansativo e eu estava numa parte especialmente empolgante do livro que eu lia nas horas vagas, então precisei de mais do que uma pequena insistência para sair de casa. O veredito veio com a garantia que iríamos embora no momento em que eu não quisesse mais estar lá, e a promessa de que eu ia adorar, ia me fazer bem sair um pouco de casa. Coloquei a roupa mais limpa que tinha, peguei uma garrafa de um vinho barato que estava parada em minha geladeira e esperei meus amigos chegarem. A casa ficava a poucos quilômetros da minha, em um bairro bem residencial. A música parecia vir dos fundos e não estava alta o suficiente para incomodar os vizinhos. Do lado de fora, um casal discutia o relacionamento enquanto era observado por um sujeito um pouco mais velho que tentava acender seu cigarro e era impedido de entrar. Entramos buscando algum rosto conhecido e logo encontramos o amigo do meu amigo que levantou do sofá para nos receber e logo nos apresentou o dono da casa. "A geladeira pode usar essa daqui e tem um isopor ali no fundo. O banheiro da casa é feminino, homens usam o banheiro lá de fora. Fumar só na rua. Fiquem à vontade, se precisar de algo é só me chamar". Enquanto eu procurava um saca-rolhas entre os talheres do meu anfitrião, eu já refletia que nem lembrava mais o nome dele. Encontrei meus amigos no fundo, encostados em um muro dando uma analisada na situação. Muitos rostos novos, poucos rostos amigáveis, a música estava bem baixa e tocando uma playlist nada a ver. Um sujeito de boina em um grupo do nosso lado, explicava para três caras e uma mina sobre as principais diferenças entre as fases do romantismo literário. Um dos sujeitos ouvindo a conversa mexia em seu celular e outro estava bêbado demais para captar o que estava acontecendo. Já a garota estava completamente dentro da discussão, exaltada, apontando os erros históricos que o primeiro cara citava. Em outro canto, encostados em um banco próximo a um tanque de lavar roupas, duas amigas ouviam um terceiro cara contar algo, completamente entediadas. Nós, eu e meus amigos, éramos auto-suficientes. Só queríamos mesmo um lugar onde pudéssemos beber e ver pessoas. Nossos assuntos flutuavam entre a atual situação do futebol brasileiro e as nuances de interpretação da Meryl Streep no seriado. Nosso talento era falar por horas sobre assuntos que nem sempre dominávamos, tínhamos descoberto o código do interesse, ou pelo menos a gente achava que sim. As horas se passaram, algumas pessoas entraram na órbita do nosso grupo e depois continuou sua noite, meu vinho acabou e aproveitei a oportunidade pra ir ao banheiro e tentar achar alguma outra bebida perdida na geladeira do dono da casa. Levantar do meu lugar foi o suficiente para perceber que o vinho tinha batido mais forte do que eu imaginava, talvez nos dias que ele ficou na geladeira, que eu não tinha ideia de quanto tempo, ele fermentou e ficou ainda mais forte, ou talvez eu que não estava me alimentando bem nos últimos dias. No banheiro fiquei uns segundos encarando minha face desmontada no espelho e refletindo como eu tinha chegado até ali. Não até a festa, pois isso eu acabei de narrar, mas até o estado deplorável que eu estava. O rosto muito magro, a barba rala por fazer, olheiras fundos e o cabelo sem corte. A frustração no trabalho não ajudava a lidar com a frustração da vida e só me afundava mais. O álcool era uma bengala torta que me ajudava a andar, mas poderia me derrubar  a qualquer momento. Escuto uma batida na porta e lembro que estou ali dentro a tempo demais. Saio pedindo desculpas e encontro um amigo: "Tá tudo bem, mano? Quer voltar pra casa?", saber que o acordo ainda valia me tranquilizou, mas queria dar uma chance praquela noite. Recuso e vou em direção a geladeira. Muita cerveja ocupando milimetricamente os espaços deixados entre vasilhas de comida guardada, frutas, legumes. Peguei a garrafa de água com a intenção de juntar a necessidade de ter um copo sempre à mão com a de me hidratar e acordar melhor no outro dia, ao fechar a geladeira vejo ela parada em frente a uma garrafa de vodka e uma dose já servida em sua frente, como se tomasse coragem pra virar. Eu não tinha a visto ainda durante a noite mas parecia conhecê-la de algum lugar. Ela ensaiava o movimento de virar com as mãos quando olhou pra mim surpresa, não tinha me visto ainda. "Eu viro uma dose com você se você quiser", eu disse já me arrependendo imaginando a vodka rsagando minha garganta. Ela olhou riu, disse "Não precisa", virou a dose de uma vez e saiu para o quintal. "Grande abordagem", eu pensei comigo mesmo enquanto enchia meu copo de água e voltava para o quintal, onde meus amigos me esperavam. Depois de assegurar a todos que eu estava bem e não queria ir embora, resolvi explorar um pouco a casa em busca da garota perdida na cozinha. Rodei todos os lugares ao meu alcance dentro da casa até que encontrei ela lá fora dividindo um cigarro com um amigo. Encostei perto e acendi um cigarro na esperança de entrar na conversa. "Eu fui muito grossa com você lá dentro?", e eu demorei alguns segundos pra entender que ela tinha falado comigo. "Meu amigo está falando que eu fui muito grossa com você", neguei sem graça. Queria entrar na conversa mas não imaginei que o assunto seria justamente eu. Respeitava o direito dela de ser grossa com um desconhecido, hoje em dia a gente nunca sabe quem está se aproximando. A conversa rolou muito fácil, ela fluia entre os assuntos com uma naturalidade incrível e me contou sobre suas paixões. Percebia as pequenas piadas que eu fazia no meio do meu tom sério e melancólico, me fez me sentir notado. Contou sobre seu curso que já estava terminando e o estágio encaminhado em uma grande empresa, estava vivendo seu sonho. E até ao ouvir minhas mazelas sobre meu trabalho e as coisas que eu gosto de fazer quando estou triste, ela parecia interessada. Seu amigo dividia seu entusiasmo pela vida, e insistiu para que eu bebesse com eles, um drink super forte. A garrafa de vinho já era um limite perigoso pra mim, mas levado pelo momento acabei aceitando um pouco do que eles tomavam. Quanto mais o tempo passava, mais nublado e mágico ficava aquela noite. Vê-la sorrir fazia tudo valer a pena, me preenchia por dentro de uma maneira que eu não sentia há anos. Meu copo de água se perdeu em meio a tantos drinks e logo  eu também me perdi. A lua iluminava forte nós três do lado de fora da casa, quando o celular do amigo dela tocou. Tenho um lampejo de memória meu vomitando no banheiro de dentro da casa. Meus amigos tentando me levantar do sofá e trazendo água pra mim. Eu pedindo desculpas para o anfitrião, em uma língua que com certeza não era a nossa e acordei em casa. Minha cabeça se comprimia de ressaca, usei o que me restava de forças para me arrastar ao banheiro, vomitar um pouco mais e me colocar debaixo do chuveiro. O dia já estava claro e no meu celular várias mensagens dos meus amigos pedindo notícias. Fiquei por alguns vários minutos debaixo do chuveiro tentando reviver a noite anterior, tentando lembrar da dupla mágica que foi minha salvação e minha perdição. Mandei mensagem a todos perguntando se alguém tinha visto os dois e se os conheciam, mas ninguém tinha visto nada. Fiquei horas sumido e quando me reencontraram eu já não estava em condições. Acharam que eu tinha ido para um dos quartos vazios da casa com alguém e ficado por lá. Tentava lembrar o nome dela ou descrever como ela era, mas tudo que me vinha era sua atitude, seu jeito de falar, de olhar nos olhos enquanto eu falava. Falaram pra eu focar em ficar bem que depois descobririam com o dono da casa quem era. Uma semana se passou e nada de notícias, ninguém os tinha visto e ninguém os conhecia. Até tinha feito a barba e me alimentado melhor na esperança de voltar a vê-la agora com uma figura um pouco mais aceitável, mas nada. Eu começava a duvidar da existência daquele momento, algo fora da realidade vindo de um vinho ruim mal armazenado por tempo demais. Até que, meu celular vibra em uma notificação: "Ainda vira uma dose comigo se eu quiser?"

sexta-feira, 1 de março de 2019

Juntos.

Você soltou a mão por um segundo e me perdi na multidão de gente. Olha em volta em busca do lenço azul que você usava na cabeça não consegui te encontrar. Me preocupei que você se preocuparia sobre onde eu estava mas logo passou, é carnaval e cada um sabia bem seus próprios limites e como se manter seguro. Me deixei aproveitar as diferentes músicas que dava pra ouvir da minha posição, uma bem próxima, algo que era considerado brega quando saiu mas que hoje, vinte anos depois, ganhou status de cult e era entoado por todos a minha volta. Um pouco mais distante eu ouvia uma música que reconhecia. O ritmo e depois a letra. Lembro de adolescente ouvir aquilo na tv e me perguntar o que significa. Perdido na metáfora, que hoje eu entendo que era apenas sexo como a maioria das músicas que existem, criei minha própria interpretação quase que literal do que ela significa. Eram tempos mais puros, da minha parte pelo menos. Meu olhar continuava viajando em busca do seu lenço azul, e já pensando em como atravessar aquela multidão para o nosso ponto de encontro caso nos perdêssemos. Uma mão pousou no meu ombro e quando eu já virava automaticamente que tinha namorada, você sorridente me entregava um copo cheio de uma bebida azul. Seu sorriso me trouxe alívio e me fez perceber melhor onde estava. A atipicidade da situação, como cheguei ali, o que estava ouvindo, as pessoas em minha volta e, principalmente, estar com você me trouxeram uma sensação de leveza. Como no dia em que deitei em seu colo pela primeira vez e soube que ali eu poderia repousar. Sei que ali, no meio de milhares de pessoas, eu posso desligar minhas defesas. Os escudos e muros que construí em longos anos de exposição ao mundo e que moldaram a dura pedra dos meus valores. Por um momento, meus pais deixaram o chão pra trás e flutuei sobre todos nós. Enquanto me afastava, via quase em uma clareira, nós dois parados no meu momento de realização. Nem a música eu ouvia mais, só o bater do meu coração. O silêncio do momento indicava que eu não estava mais ali, transitava em uma outra dimensão onde coisas como essa se eternizam. Foi sua respiração próxima a minha boca que me trouxe de volta. Você repetiu o convite para irmos embora. Peguei o copo de sua mão e nos guiei em meio a multidão. Aquele dia eu voei. Não sei se vão acreditar em mim ou se um dia isso vai se repetir, mas a leveza desafia a gravidade e flutua a menor brisa. Se foi você que me soprou ou as forças da natureza, nunca vou saber. Mas lá do alto eu posso afirmar: nós somos muito bonitos juntos.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Bom garoto.

Lembro de acordar ansioso pelo presente que me esperava no andar de baixo. Tinha sido um bom garoto, com notas boas e muito educado. Ajudei meu irmão com o dever de casa e velhinhas a atravessar a rua. Dividi meus brinquedos com meus coleguinhas, ensinei o que eu sabia sobre o céu e a lua. Rezei pros astronautas não se perderem no espaço e pro meu cachorro fazer xixi no lugar certo. Superei meu medo de palhaço e não saí nenhuma vez deixando o portão aberto. Ajudei minha mãe a cozinhar quando podia e andei de bicicleta sem rodinha. Brinquei de queimada com meus amigos mas sem jogar a bola muito forte nas meninas. Não chorei (muito) quando arranquei meu dente, e o dinheiro no travesseiro eu dei pro meu irmão de presente. Pois na boca dele, banguelinha, ia demorar muito pra nascer e ele precisava começar a economizar pra ter quando crescer. Ouvi meu pai falando que o ano foi complicado e que o Natal seria um pouco mais magro que no ano passado. Daí listei todas essas coisas e escrevi pro Papai Noel que ficava no shopping aqui do lado. Contei pra ele do meu irmão, do meu pai e do meu dente. Contei também da escola, da rodinha e do presente. Acordei hoje cedo e encontrei o que eu queria na sala de estar. Minha família reunida me esperando acordar. Minha mãe levando panquecas para frente da tv, meu irmão deitado no seu colo ainda sem entender. O chocolate quente esquentando minha mão, meu pai escolhendo algo pra ver na televisão. Puxei a coberta e me estiquei no sofá, tinha tudo o que eu queria, o que mais eu ia sonhar?

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Beijos são tão engraçados.

Beijos são tão engraçados. Como um mínimo toque entre pessoas transmite energias tão grandes. Elétricas e sentimentais. Beijos são tão engraçados. Você massageia a pessoa ali de uma forma diferente e parece que tudo faz sentido. Beijos são tão engraçados. Trazem conforto, carinho, amor, tesão, e na verdade são só lábios encostando um pouquinho. Beijos são tão engraçados. É como ligar algo na tomada e deixar lá esquentando. Beijos são tão engraçados porque podem significar tanto e tão pouco ao mesmo tempo. Beijos são tão engraçados, que às vezes quando não encaixa a gente se frustra, mas tem vez que rimos mesmo. Beijos são tão engraçados que quando você beija várias vezes a mesma pessoa, o beijo de vocês vira uma mistura entre o seu beijo anterior e o beijo dela. Beijos são tão engraçados. Às vezes vem de manhã antes mesmo do bom dia. Beijos são tão engraçados. Como aquele momento mágico pré-beijo, onde o coração bate forte e você sente o cheiro do rosto da outra pessoa e você se aproxima só o suficiente pra que ela possa ser a responsável por beijar realmente. Beijos são muito engraçados. Trocam-se bactérias, salivas, gostos, jeitos, sorrisos de lado, impulsos elétricos, mãos que deslizam em um abraço e pressiona um corpo contra o outro. Beijos são tão engraçados. Na velocidade certa, na errada, quando o rosto não encaixa, os óculos batem e os aparelhos se encostam. Beijos ruins também são engraçados. Porque o rosto bonito e a conversa boa não é garantia de química. Beijos são tão engraçados, porque se eu quero e você quer, não tem nada errado em tentar um beijo nem que seja pra gente rir disso tudo depois, afinal, beijos são tão engraçados.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Caos.


Ele andava na rua cabisbaixo, os últimos dias haviam sido pesados. O frio que sentia era amenizado pelas fachadas em chamas das lojas do centro. Seu passo lento destoava do clima de animosidade em sua volta. Pessoas corriam na direção contrária, carregando parte de seus pertences em uma mão e seus filhos em outra. Lenços cobriam o rosto um pouco para proteger da fumaça e um pouco para esconder suas identidades. Nem os eventuais esbarrões em meio ao caos o tirava de sua imersão. Ele não escolheu estar ali, muito menos escolheu a situação. Ele sabia onde tinha que ir mas não sabia direito o que fazer quando chegasse lá. Carros de polícia cortam ao seu lado a toda velocidade, a sirene abafada pelos gritos há alguns quarteirões. Alheio a tudo ele continuava andando a passos lentos. Uma moça, alguns anos mais nova que ele o para e pergunta se ele precisa de ajuda, ele demora alguns segundos para entender a situação mas diz que não, que estava bem. Ela tenta convencê-lo a acompanhá-la, apontando que aquela direção era perigosa, mas ele sorri sem graça e agradece. Ela se afasta buscando outras pessoas que estariam mais dispostas a serem ajudadas. Ele vira na esquina escura que tantas memórias viveu nos últimos anos, mas agora ela estava coberta de lixo e vidros quebrados. Ele para em frente a um dos prédios mais antigos e toca o interfone. Ele insiste um pouco até que uma voz rouca atende:
- Quem é?
- Sou eu, Lu. Acho que precisamos conversar.
- Pelo amor de Deus, Roberto. Vai pra casa, vai pra um lugar seguro.
- É que eu eu queria... Me deixa subir.
O barulho da porta se abrindo é um alívio no coração dele. Ele sobe as escadas que ele achou que nunca voltaria e chega em frente ao 4B a tempo de ouvir as trancas serem abertas e ela olhar pra ele com a mesma incredulidade de quando se viram pela primeira vez.
- Você está maluco? O que você está fazendo aqui?
- Eu não consegui mais ficar em casa.
- E você vem pra cá? Já não basta...
- Me perdoa.
- Cansei da suas desculpas! Olha a situação que você me coloca.
- Eu vou embora, eu não devia ter vindo.
- Não devia mesmo. Você teve sorte de chegar aqui vivo. Agora espera aí que vou preparar um café.
Ele senta no sofá surrado e sente-se em tranquilo pela primeira vez em meses.