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quinta-feira, 11 de julho de 2024

Ciclos 2


O ciclo se fecha como a grande ficha
Que cai aos poucos e destrói como meteoro
Olho lá fora, o céu cinzento prevê
Os dias frios que me acompanharão daqui pra frente

Sobreviver é a meta, como foi desde o início
E, se possível, aprender alguma coisa no caminho
Que seja novas formas de não se errar
Raro fato de quem ousou sair

As portas abertas convidam a volta
Como o banco da cela que já esfriou
Outro ano, outro mundo, novas línguas
Como o gosto na garganta que nunca passou

Na meta de preencher, achei um vazio ainda maior
Mas do oco interno me transformo em tela branca
Tentando repetir um sentimento que passou
E descobrindo novos sentir pelo caminho

A ansiedade se põe no canto novamente,
O sentimento de que só ao agora se pertence
Vence a derrota, parabéns aos campeões
Peões que perecem em esquadros eternos

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

sonhei.

Sonhei que eu era bem vindo
Eu chegava e os sorrisos se abriam
O abraço não só de saudade
Mas também de carinho

Sonhei que me contavam histórias
Que riam e choravam
E não passavam as horas

Sonhei que eu dançava no escuro
Cercado de desconhecidos
Que também não se importavam com o futuro

Sonhei que estava presente
E o sentimento de vazio
Não era algo que todo mundo sente

Sonhei com você
Mas era diferente
Uma memória sem sentido
De algo que eu não vivi

Acordei sozinho.

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Data estelar.

Diário de Bordo, data estelar eu já perdi a conta. Derivo sem sol ou Lua nem sei mais a quanto tempo. Escrevo pra não esquecer das palavras ou do som do meu lamento. Romper a barreira da luz tem o seu preço, ser o primeiro também significa chegar sozinho. Sobrevivo. No universo tudo é noite mas o sono não vem. Penso nos planetas distantes, nas luzes cada vez mais fracas do que um dia me esquentou. Continuo em frente rumo a não sei o quê. Cada dia mais longe e cada dia mais perto. Certo seria eu voltar pra trás mas a essa velocidade não sobreviveria até lá. Catálogo novos sistemas, planetas e formações. Escrevo com cuidado cada detalhe que consigo capturar, pois assim como surgem eles logo vão embora. Mas eu sigo, e sigo sendo minha única companhia. Meu último "boa noite" e meu primeiro "bom dia". Sempre mais perto, sempre mais longe. Esperando chegar ainda não sei onde.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Coisa à toa.

Que bobagem
Uma coisa tão à toa
Tão pequena e reduzida
Irrisória e risível
Diria até que desprezível

Tempestade em copo d'água
Uma agulha no palheiro
O caroço do angu
Engrossado o dia inteiro
Um cisco no seu olho

Você viu os ipês?

Você viu os ipês?
Viu as cores do céu
Me lembraram de você
E sua paleta pastel

O canto dos passarinhos
De manhã na minha janela
A marca nas taças de vinho
O post it na minha tela

O jeito de abrir a lata
O nó errado da gravata
Hoje eu lembrei demais
De tudo que eu não lembrava

E até a minha rua
Você deu o seu jeito
De fazer dela sua
Mas que falta de respeito

Suas roupas, o seu cheiro
O seu corte de cabelo
Hoje eu lembrei demais
E não vou nunca esquecê-lo

E doeu né, sempre dói
Quem vai embora
Não tem dó do que destrói
Mas foi bom, né, sei que foi
O presente não
Depende do depois

segunda-feira, 14 de março de 2022

Perdido.

Tem esse lugar que vivo voltando
Onde minha mente deixa de reconhecer meu corpo
Flutuo num espaço sem reconhecer o todo
Escuto o silêncio ecoando

Qual peça falta para terminar
Qual impulso que eu não consigo
Qual desejo a se realizar
Qual caminho não foi percorrido

Há uns meses eu me perdi aqui
E tive que forçar minha saída
Usando toda a energia que eu reuni
E toda a força que acumulei na vida

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Peito.

Deixa eu ler teu peito em braile
Conversar na língua secreta
Que sua língua me ensinou
Segura minha mão, meu peito, meu pescoço
Ouça o silêncio que precede
Água que não mata a sede
Mas molha a cama e meu rosto
O gosto que espalho em sua coxa
Deixo roxa a marca dos dentes
Sente o peito batendo forte
No bater dos corpos pousa minha sorte
Feito e cansado no mesmo lado
Deitamos com o coração colado

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Três da manhã.

Que horas são?
Já passou das três
Ainda tem gente na rua
Volta pra cama, tá frio aí
Só queria ver onde a Lua estava
Nem sempre ela vai estar te esperando
Eu me sinto mais seguro quando a vejo

(silêncio)

Trouxe a coberta pra você
Não precisava, volta a dormir que eu já vou
Não vou conseguir dormir sozinha
Bobagem, você sempre dorme
Mas agora que acordei vou me juntar a você

(silêncio)

Você está dormindo em pé
Vou pra cama, vamos?
Vou sim.
Você acha que amanhã ela vem?
Quem?
A Lua.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

A gente se fala.

Você olhou no relógio mais uma vez
Eu olhei pra você preocupado
Será se tava chato?
Ou tinha outro lugar
Que você gostaria de estar

Você me abraçou distante
Se despediu sem graça
"A gente se fala" no tom
De quem nunca mais vai se falar

Queria mandar parabéns
Vi que é seu aniversário
Mas tem tanto tempo
Que eu nem sei por onde começar

Será se você vai querer de volta
A blusa que ficou pra trás
Você ficava tão bonita com ela
Eu devia te entregar um dia

Te vi num café outro dia
Você parecia feliz em me ver
Disse que tinha mudado de cidade
Mas que a gente devia se topar por aí

Lembra quando a gente existia?
Completando frases e combinando roupas
É como se sempre faltasse algo
E toda ideia se perdesse no ar

sábado, 4 de dezembro de 2021

Precipício.

"A gente morre sozinho"
Eu escuto de longe
E a queda é mesmo solitária
O vento corta frio

E mais que o impacto
É o espaço que mata
A distância da minha mão
Eu sobrevivo mais uma vez
De nove dias eu caio dez
E nunca é bom

A gente aprende
A gente acostuma
O tempo cura
Cura a mente

A palavra pesa
Mas dizem que o demônio
Só sucumbe pelo nome
E eu abraço a dor
Ainda sem entender a fonte

Encarando o precipício
Como quem não quer cair
Mas há uma certa fascinação
Que te prende no vazio

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

O livro.

Lhes dei um livro de despedida
Onde eu contava parte da minha vida
Mais especificamente a sua parte
A arte se mostra de formas estranhas

Minhas entranhas em poema métrico
Registro fosco de um olhar de encanto
Pai, filho, espírito santo
Olhando por cima em um salão simétrico

A ótica na forma de um passado recente
A mente viaja pra salões vazios
O riso e o choro com marcas recentes
A coberta quente em um canto frio

Eu busco memórias positivas
Sentado em frustrado presente
Encontra a história e reviva
Depois volte a olhar pra frente

Hoje eu olho distante pro livro
Como ponto final e partida
Não ressinto mais essa vida
Começo de novo o que vivo

Em poema
Ganhei a liberdade
De amar quem vocês
São de verdade

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Crisálida.

Foram duas ou três horas que eu não existi. Estava no meu quarto escuro absorvido por amenidades na internet e simplesmente não existi.
Não existi pro outro e pouco existi pra mim.
Me senti a lagarta dentro da crisálida
Onde sua forma se remonta.
Mesmo consciente eu não estava ali.
Meu corpo não era físico, minha presença não existia.
A árvore que cai sozinha na floresta
E não faz barulho.
Mas quem está lá pra notar?
Não era um bom lugar, esses momentos me assustam.
E chegam com frequência nos momentos mais banais.
Não nos momentos de solidão, mas no vácuo da presença.
Naquelas horas onde eu não devia estar mas estava.
Podia estender um braço, uma mensagem, uma ligação.
Mas me faltava forma física para realizar.
Até que desisti.
E ao ir dormir, meu maior receio era
Será se ainda vou existir quando alguém me alcançar amanhã?

terça-feira, 25 de maio de 2021

Túnel.

Ícaro voou perto demais do Sol
Mas quem pode julgar que ele caiu?
Antes de descobrir o anzol
O peixe não sabia o que o atraiu
Me sinto ali, perto demais do meu futuro
Mas quanto mais rápido eu corro
Mais perto eu fico do muro
Descer a ladeira é o risco de subir o morro
Mas quem não quer ver a vista do alto
Se todo mundo tivesse medo da queda
Ninguém mais tentaria o salto
E quando túnel parece não ter fim
A entrada já está longe demais
Desistir não é opção pra mim
Tarde demais para voltar atrás

terça-feira, 30 de março de 2021

O que foi você?

O que foi essa parte de mim
Que de um dia pro outro
Se fez um ser por si
E me fez me sentir um pouco mais eu?

O que foi você que corria sem me ouvir
Sem medo de cair ou de se machucar
E cada choro sofrido
Rasgava meu peito devagar?

O que foi você me olhando nervosa
Esperando sua hora de subir no palco
Tentando lembrar cada passo que a gente ensaiou em casa?

O que foi você de coração partido
Procurando no meu colo apoio silencioso
Sua comida preferida e um filme bobo
Até chegar a hora de dormir de novo?

E o que foi quando você foi embora?
Quando chegou a hora de me despedir
Porque seu lugar era lá fora e não dentro de mim

O que sobrou de mim se tudo que eu era
Existia por você, pra você, de você?
Quem eu sou agora se foi você que me fez
Do mesmo jeito que eu fiz você
E agora só sobrou eu?

Presa.

Preso em casa eu percebo
A marca da presa na minha pele
A pressa da cura de quem fere
Vestígio visível do meu medo
Escondo embaixo da cama
Amanhã me traz novos tentos
Me esquenta e protege do vento
Emula o carinho de quem ama
Detrás do muro eu mantenho
E tenho tudo que eu preciso
O básico pra me manter vivo
Motivo pra guardar o que tenho
E se eu declarar meu amor
Por favor não responda o chamado
Pois consigo colocar de lado
Mas não com a certeza de não se amado

quarta-feira, 17 de março de 2021

Molde.

As botas apertam como deveriam
Elas precisam de tempo para se moldar
Eu ignoro o incômodo e persevero
Talvez não seja minha vez de se adaptar
Um passo de cada vez, um metro mais perto
Qual é o jeito certo de se mudar?
Longe de mim dizer que estou correto
Mas se estiver errado sou eu mesmo que vou pagar
"Reto é o caminho do sucesso
Não tem erro, é só seguir, pode confiar"
Me perco em atalhos desertos
Na esperança de que me levem pro mesmo lugar
O não-caminho é uma escolha em si
Passar por onde ninguém quis passar
Mas a falta de um guia aperta
Quando não tem sinal algum pra continuar
Mas a cada passo a bota se molda
Dessa vez não sou eu que vou mudar
Que o mundo se mude em minha volta
Meu destino é onde quer que eu vá chegar

sábado, 21 de novembro de 2020

Explosão.

A explosão instaura o silêncio
Lá fora, nem um pio se ouve
"O que houve?" todos pensam

Tonto levanto do canto escuro
No susto nem vi a queda chegar
Duro encaro os caídos muros

Espera a ajuda mas não vem
Pega tudo que puder salvar
Deixa pra trás o que não faz bem

Lembra quando éramos felizes
Narizes juntos na noite fria
Apoio mútuo em tempos de crise

Hoje vago sozinho pela cidade
Ou o que restou depois da explosão
Um segundo acaba com uma comunidade

Carrego comigo minhas lembranças
E a esperança de dias melhores
Se não por mim, pelas nossas crianças

Poesia.

Nosso amor era prosa poética
Com métrica e rima escondida em cada canto
Ainda por cima, nossa conversa era canto
Difícil explicar a dialética
Pra alguém que nunca amou tanto
A gente sincronizava nos detalhes
No entalhe da madeira da estante
E no instante de silêncio
que se tornava um vale imenso

Por isso que senti tanto quando foi embora
Fora a falta, quanto eu queria estar ali sem você

E meu verso ficou sem rima
Complexo e sem graça ainda por cima
Uma poesia fria, sem ritmo
Palavras vazias que um algoritmo organizou
Hoje meu texto falta
Sobra espaço, desejo vital
Não recebo alta nem ponto final

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Abrigo.

Não precisa bater
A porta está aberta
Não tem hora certa
Pra você chegar

Não repara a bagunça
É que eu tô mudando
Até o final do ano
Não sei onde eu vou estar

Mas fique a vontade
Pode tirar o sapato
Você já conhece meu gato
E onde eu gosto de sentar

Aceita um café?
Eu tô sem açúcar
Fumando bituca
Pra economizar

Mas cabe mais um
Não tem muito luxo
Mas só mais um bucho
Não vai estorvar

Vou deitar um pouco
Minha cabeça doída
Minha vida falida
Quero descansar

Mas não vai embora
Vem deitar comigo
Me faz de abrigo
Até acordar

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Sozinho.

A gente não tá sozinho
Sei que parece às vezes
Quando a gente olha em volta
E não vê ninguém
Mas eu prometo
Você também não está sozinho

A gente anda tentando se esconder do frio
Chora de noite no colchão vazio
A gente luta como quem não tem chance
E tenta se manter em pé só mais um instante
Mesmo nessa hora, quando seu olho perde o brilho
Eu prometo, você não está sozinho

A gente guarda muita coisa pra si
Se joga morrendo de medo de cair
Ultrapassa limites que nunca pensou
E chega em lugares que nunca chegou

Mas me algum lugar, de verdade,
Tem alguém que sente saudade
Que torce pra que tudo corra bem
Que lembra de você quando diz amém
Tem alguém, sempre tem alguém
Esperando por você no final do trilho
Porque a gente até sente mas nunca está realmente sozinho.