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quarta-feira, 16 de abril de 2025

Começar de novo.

Texto publicado originalmente na minha newsletter: https://guitosc.substack.com/

Há muito tempo venho ensaiando começar de novo. Voltar a escrever mais, produzir meus vídeos, meus eventos. Assim como muitos dos projetos que eu produzi, essas ideias existem por anos na minha cabeça enquanto eu cuidadosamente vou os construindo e esperando o momento perfeito para que elas comecem a existir.

Talvez por isso que nunca me incomodou ter mil projetos engavetados porque na minha cabeça eles estão sempre em desenvolvimento, mesmo que parados por anos. Um projeto só deixa de estar em desenvolvimento quanto ele se concretiza, nunca por abandono. Quem é mais próximo já deve ter ouvido da minha história em quadrinhos, um universo de super heróis que analisa a busca da identidade durante a adolescência, uma história “coming of age” que gerou até um spin off que se passa dez anos depois. Alguns até já viram artes-conceito que foram comissionadas em algum momento entre o começo da pandemia e o completo desespero da minha própria existência.

Projetos musicais, curtas metragens, game shows, zines, poesias, desenhos, performances, danças, stand up, quadrinhos, ensaios fotográficos. Tudo ali esperando o momento que elas deixarão de ser rascunhos num Google drive abandonado pra virar uma marca na minha vida, exposta com orgulho entre as outras coisas que conseguiram ver a luz do dia. Esse texto mesmo, enquanto o escrevo, ainda existe apenas em potência na possível newsletter que venho querendo lançar há meses pra me obrigar a voltar a publicar alguma coisa (qualquer coisa) semanalmente.

Quem lembra do podcast que lancei na pandemia? Eu mesmo gostaria de esquecer e morro de medo de voltar lá e presenciar novamente minha pública decadência mental enquanto tentava me agarrar a algum senso de comunidade. Algumas pessoas acompanhavam! Era diferente, inusitado, tinha música, reflexões, senso de humor. Está lá disponível ainda para quem for bom de investigações virtuais enquanto eu não descubro como apagar ele.

O amigo Príncipe Vidane tinha uma piada que um dia lançaria um livro chamado “Fiz tudo na internet menos sucesso” e sempre me identifiquei muito. Hoje, vendo ele fazendo sucesso nas internet, me lembro que o segredo é continuar fazendo realmente. Porque mesmo quando você não atinge milhares de pessoas, a sensação de anos depois ver alguém comentar sobre algo que você produziu e como aquilo marcou a vida da pessoa, é uma sensação maravilhosa.

Eu sempre tive muita dificuldade de fazer as coisas sozinho, mesmo sendo plenamente capaz e me faltando poucas habilidades pra realizar o que eu quero. Felizmente, nessa minha jornada de produção por diversas vezes encontrei pessoas que me inspiraram demais e outras que estiveram ao meu lado pra produzir coisas comigo. Mas o tempo passa, as prioridades mudam, as relações mudam e poucas pessoas estão interessadas em abrir mão de seu tempo livro no pouco que sobra de seus trabalhos pra tentar fazer coisas legais e criar arte por criar.

Mas quanto mais o tempo passa, mas eu vejo que meu lugar é esse mesmo e é isso que eu sei fazer. Ai cá estou eu, tentando entender como recomeçar a fazer as coisas. Sozinho (novamente?) planejando tudo na minha cabeça anos e anos procurando um pequeno empurrãozinho externo mas cada vez mais preocupado que (novamente?) sou eu mesmo que tenho que empurrar meu balanço.

E o que não é tudo isso além de uma grande metáfora pra minha volta pro Brasil, essa eterna busca de quem eu sou e como eu posso fazer do mundo a minha volta melhor? Eu não tenho a resposta, mas talvez eu esteja aqui convidando todos vocês a procurar comigo mais essa vez.


O que teremos semana que vem? Um review de filme? Uma receita? Uma reflexão sobre o inevitável apocalipse tecnológico alimentado por IA generativa? Uma dança de TikTok diretamente no seu e-mail?


Só o futuro dirá.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Crisálida.

Foram duas ou três horas que eu não existi. Estava no meu quarto escuro absorvido por amenidades na internet e simplesmente não existi.
Não existi pro outro e pouco existi pra mim.
Me senti a lagarta dentro da crisálida
Onde sua forma se remonta.
Mesmo consciente eu não estava ali.
Meu corpo não era físico, minha presença não existia.
A árvore que cai sozinha na floresta
E não faz barulho.
Mas quem está lá pra notar?
Não era um bom lugar, esses momentos me assustam.
E chegam com frequência nos momentos mais banais.
Não nos momentos de solidão, mas no vácuo da presença.
Naquelas horas onde eu não devia estar mas estava.
Podia estender um braço, uma mensagem, uma ligação.
Mas me faltava forma física para realizar.
Até que desisti.
E ao ir dormir, meu maior receio era
Será se ainda vou existir quando alguém me alcançar amanhã?

domingo, 15 de novembro de 2020

Constantes.

Me entreguei ao mar depois de desistir de tudo e fiquei lá pelo que pareceu horas na água fria. O movimento ia e vinha levando meu corpo sem resistência na esperança de que me tirasse minhas preocupações, medos e inseguranças. Sozinho, consigo viver os momentos de forma mais pura, mas sozinho também não consigo chegar nesses momentos. Um dilema que me persegue há mais tempo do que eu gostaria. E mais uma vez eu me vejo tendo que tomar frente e correr atrás do que eu preciso sozinho. Existe um limite de tempo que a gente pode esperar por uma mão amiga principalmente quando não há amigos em volta. O que eu tenho são minhas constantes: eu, a lua e, quem sabe agora, o mar. São as coisas que eu sei que sempre vou encontrar.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Ninho.

Sinceramente? Eu não achei que estava pronto até te segurar nos braços. Foi quando eu tive certeza de que eu não estava, mas fui mesmo assim. E cada choro, cada passo, cada sorriso e cada abraço, você me dava mais certeza de que eu não estava pronto. Mas a gente se esforça, porque sua agenda não espera a minha e o dia passa e a gente nem vê. As noites sem dormir viram semanas, meses viram anos e quando segurei o choro pra te deixar pela primeira vez, você olhou pra mim e falou que estava tudo bem, que eu podia ir que já voltava. E então me acostumei com sua ausência, que começou pequena e foi crescendo, como se eu estivesse perdendo um pouco de mim toda vez que te deixava ir. Você conheceu outros, e assim sua atenção se dividia e eu sofria muito por dentro, a cada novo colega que aparecia. Depois vieram as mudanças, que te colocaram ainda mais longe do que eu queria. De repente, a gente não se entendia e você se trancava e me tratava como inimigo. Meu esforço de me fazer querido, entendido, era confundido com outra coisa que, com o tempo, só ficou pior. Eu tentava me fazer presente, mostrar que mesmo depois das brigas mais quentes, meu colo ainda estava aberto se quisesse chorar. E vez por outra eu via seus olhos vermelhos me evitando para evitar perguntas, sem saber que não tinha nada que eu queria saber além de como você estava. Assim se seguiu, você cada vez mais longe, eu cada vez mais velho. Você escolheu seu caminho, eu apoiei e fiquei sozinho, vendo você de longe ir atrás de tudo o que você sempre quis. E, foi de longe também, que você me ligou, me contando de tudo o que você passou, empolgado de estar ali. E foi ali que eu percebi, eu ainda não estava preparado, mas a gente nunca está. 

domingo, 1 de novembro de 2020

Sinal.

 A gente podia combinar um sinal, sabe, tipo namorados que se olham de longe e sabem exatamente a hora de deixar uma festa? Vamos combinar. Um aceno, uma piscada, um arco íris no céu, qualquer coisa.Uma palavra de segurança, um post-it na geladeira. Mas deixa claro pra mim que acabou, pra eu jogar minhas esperanças no lixo e poder ir embora. Pra eu parar de tentar inutilmente, porque essa frustração está me matando e sei que não é o que você quer. Porque eu sei que você quer o melhor pra mim, mesmo nem raramente fazendo sua parte, e eu também quero. Mas se eu tô no caminho errado, se eu virei duas ruas antes há quilômetros atrás, me fala, porque nao é tarde demais pra eu pegar o próximo retorno e voltar pra estrada calma que eu tava. Você é cheio de mistérios, palavras certas, linhas tortas, etc. Mas comigo isso não funciona. Não quero indireta, sabe? Subtexto não é pra mim. Eu sou muito bom de fazer o que me pedem quando me explicam direitinho e, se eu tô errando tanto, dando soco em ponta de faca, batendo cabeça, o que que custa me falar que não é por aí? Eu apostei todas minhas fichas nisso aqui, mas a gente volta e consegue mais fichas pra apostar em outra coisa se precisar. Então, eu sigo esperando seu sinal. Até lá vou entender que o que me falta é esperar, que coisas boas acontecem pra quem vai atrás. Mas, sei lá, mesmo as melhores pessoas podem seguir o carro errado na rodovia. Se for esse o caso, me manda um sinal, qualquer um, mas deixa claro que é você, que acabou e que eu posso parar de tentar.


(Inspirado em "Jesus Christ" da banda Brand New)

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O acaso.

O acaso às vezes apronta uma, né. Voltando da escola, começando o segundo semestre, depois de meses de incerteza sobre aulas onlines e/ou presenciais, sem saber direito como as coisas seriam por agora. Na primeira aula de direção (de cinema, não de carro), o professor começa a indicar que provavelmente vamos usar o roteiro que eu escrevi no semestre anterior com a produção. Fiquei feliz do meu jeito, com todos os pés atrás até realmente as coisas acontecerem. Mas, no caminho de volta, bateu. Bateu demais o quanto as últimas semanas eu tenho ficado triste, preocupado com dinheiro, com minha cabeça. Bateu demais o quanto tem sido frustrante procurar emprego em um momento onde ninguém está contratando, mesmo os trabalhos que eu nem queria pegar. Bateu demais se sentir sozinho, longe dos meus amigos, da minha família, de todo mundo que eu amo, e não saber direito o que vai ser daqui pra frente. Hoje um dos professores me perguntou por quanto tempo eu consigo me manter ainda. Mais um mês? Dois? Não sei. E nisso me deu uma vontade de chorar gigante. E foi tentando ao máximo segurar pra não chorar muito na rua que fui andando até uma pracinha pequena no caminho, pra eu ficar sozinho um tempo e poder tirar isso de dentro de mim. Mas o acaso, né. Logo que eu sentei uma senhora bem velhinha chegou com seus cachorros e ficou conversando comigo, um dos cachorros parou do meu lado pra pedir carinho. Foi bom, me distraiu, tirou um pouco o peso do que eu tava carregando. Ela perguntou se eu era novo ali (me mudei tem uma semana), me contou do neto que voltou a estudar esse semana também e que tinha muito tempo que não fazia tanto frio, que era pra eu me agasalhar mais. Eu, mais calmo, agradeci a preocupação e a conversa e voltei pra casa sorrindo.

domingo, 31 de maio de 2020

Eu não sirvo pra nada.

Tem dia que é mais pesado mesmo. Tem dia que as notícias são mais do que a gente consegue aguentar. Que eu engasgo quando minha vó pergunta se eu tô bem e eu só respiro fundo pra dizer que as coisas aqui estão mais tranquilas que lá, que o povo não tá doente, que a economia está voltando mesmo que eu ainda não tenha achado meu lugar. Mas o mundo tá doente em um nível esquisito. Onde a única resposta válida é realmente colocar fogo em prédio e lutar contra a polícia. Uma luta que eu não consigo lutar. Uma luta que mata só por existir. Lembro quando a Marielle foi assassinada, uma ou duas horas antes da minha terapia. Eu cheguei lá e não conseguia falar mais sobre meus problemas, meus traumas. Porque nada parecia relevante diante da realidade do mundo escroto que me foi escancarada. E isso tudo do alto do meu privilégio de homem, hétero, classe média e branco (nos padrões brasileiros pelo menos). É um tiro que atravessa e estoura a bolha que a gente vive, como outros deveriam fazer sempre. E ali eu percebi que eu não consigo suportar demais, eu preciso entender meus limites. Porque tem muita coisa que está fora do meu alcance e, por mais injusto que isso seja com quem morre, eu preciso continuar vivendo. "Não adianta sobreviver à pandemia se você ficar maluco", tem sido meu mantra e conselhos nos últimos meses, mas tem dia que não tem como. É difícil demais ter que explicar pra alguém que a gente precisa se importar com o outro. Empatia é uma parada que não se ensina, só se demonstra e torce pelo melhor. Eu só posso ajudar quem eu alcanço e, eu juro, que eu tento meu melhor para ajudar o quanto eu posso. Mas hoje é um daqueles dias que eu preciso aceitar que eu não consigo. Que eu não posso acompanhar notícias, não posso me preocupar, porque me destrói. E se eu não me manter são, eu não consigo me ajudar nem ajudar os outros e daí eu não sirvo pra nada.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Projeção.

Tenho me projetado nos outros. Nos amores dos outros, nos empregos dos outros, na mudança dos outros. Apoio e dou conselhos como se fossem os meus. Ajudo e guio no que posso, na experiência que o tempo me deu e na disposição que me sobra. Cada vitória do outro é uma pequena vitória minha, já que as minhas ainda não chegaram. Projeto minha solidão em todos aqueles que brevemente me estendem as mãos, dando gotas das conversas profundas que a distância me privou de ter. Não quero inundar ninguém com meu fluxo acumulado de pensamentos ou assustar quem só queria saber se tava tudo bem e ouvir um "sim". Porque por mais que muitos se mostrem dispostos, eles não conseguem suprir o que eu preciso, dar um ar mais natural pra que a conversa evolua, construir um ambiente propicio pro esclarecimento. Me contento com as migalhas de uma atenção dividida entre a panela no fogão, a série na tv e as contas pra pagar. Mas me projeto nessas pequenas interações enquanto não acho meu conforto novamente. Meu conforto social, meu conforto financeiro. Ao mesmo tempo, tendo o cuidado de não cair onde eu estava há dois anos atrás, exausto socialmente, tendo crises por me forçar a conversar com outras pessoas. Por outro lado, tudo anda bem, porque a cidade é incrível e o curso é muito mais do que eu queria. Só preciso me cuidar pra conseguir me manter aqui.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Aperto.

O curso tem sido incrível, muito melhor do que eu esperava. O nível dos professores é algo que eu nunca vi em lugar nenhum no Brasil. Profissionais com experiência nos grandes mercados de cinema, muito conhecimento e disposição pra ensinar o que viveram. As matérias, que tem um aspecto prático em sua maioria, são bem diretas e sempre voltadas para a formação de profissionais da indústria do Cinema. É muito maior do que qualquer coisa que eu já produzi, de equipe, equipamento, qualidade técnica, etc. Alguns professores ainda se apoiam na TV e no Cinema como patamar de qualidade, sem entender direito que as formas de consumo mudaram e, consequentemene, a forma de se produzir também. A maior parte do conteúdo audiovisual consumido hoje é em pequenas telas e fora de casa, não existe a necessidade de produções gigantes se o conteúdo for relevante. Mas isso não diminui também a importância de aprender a lidar com essa outra indústria. O aprendizado tem sido gigante e com um potencial ainda maior para as próximas semanas. A cidade não me incomoda tanto, apesar de muito diferente de onde eu morava, e da língua não ser minha nativa, existe muitos lugares diferentes pra ir, muitas experiências novas, e todos, nativos ou não, sempre muito dispostos a entender e se comunicar. A solidão bate bem forte às vezes, pela falta de alguém pra conversar sobre os dramas da vida, as amenidades. A falta da Larissa e dos meus amigos. Vê-los de longe continuando suas vidas é muito doloroso, sabendo que eles estão olhando pra mim e pensando o mesmo. As festas, os aniversários, os rolês em casa, as dificuldades, os momentos de fraqueza, tudo acontecendo isolado de mim, assim como eu estou vivendo meus próprios dramas e eventos por aqui. Estar sozinho ainda dói demais. Acho que não tratei isso o suficiente na terapia, apesar de hoje lidar bem melhor do que há dois anos. Morar com brasileiros tem tornado o processo mais fácil, especialmente a host e meu roommate, muito tranquilos de lidar e sociáveis. Mas hoje, o que tem me derrubado mesmo, é a questão do emprego. Estou completando meu quarto mês sem trabalho, primeiro mês na Austrália. Tenho enviado currículos todos os dias, conversado com desconhecidos na esperança deles terem algum contato ou algo assim, mas nada. Sei que é uma indústria ruim a que eu quero entrar, eu mesmo nunca contrataria alguém sem alguma referência vindo de uma pessoa que eu confie muito, mas é difícil. Mostro meus trabalhos pras pessoas e a resposta que tenho é como ainda não me contrataram, mas os profissionais da área não se deram ao trabalho de vê-lo ainda. Preciso urgentemente de um intermediador que não achei ainda. Enquanto isso, cada pequeno gasto (nunca foram tão pequenos), cada semana que preciso transferir mais dinheiro do Brasil pra me manter aqui, é uma facada no coração. Eu que cresci sem dinheiro algum, que quase tudo que conquistei veio de um esforço direto do meu próprio trabalho, sempre acabei nessa paranóia de não ser o suficiente, de não poder consumir as coisas boas por não serem pra mim. Mesmo entender que estou aqui na Austrália é um grande passo em pensar se mereço ou não essa posição. Daí a falta de uma fonte de renda pesa demais. Não me sinto confortável de gastar 5 dólares num almoço pelo medo de que me vai faltar depois. Daí vem gastos inevitáveis como aluguel, taxas de licença que preciso para trabalhar, etc. Converso com professores, nativos, brasileiros, ninguém tem uma solução boa. Enquanto isso me mantenho diariamente mandando currículos, adicionando pessoas, forçando conversas, que, se não servem pra nada, pelo menos acalma meu peito por estar tentando algo.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Chuva diária.

Tenho chorado todos os dias a tarde desde que começaram as chuvas. Chorado de saudade, chorado de solidão, frustração, insegurança. Chorado de não ter conseguido ainda um emprego, de não conseguir tirar a licença que eu preciso pra trabalhar. Chorado de ver as pessoas que eu amo do outro lado do mundo sofrendo e eu não podendo fazer nada. Inclusive as vezes eu mesmo sendo a causa desse sofrimento. Choro quando penso que a abandonei eles talvez quando mais precisavam. Choro de não poder diminuir e consolar a dor nos momentos difíceis. De não estar disponível para conversar e, mesmo que não ache uma solução, de pelo menos compartilhar e refletir sobre. A casa nova me ajuda um pouco, eles são bem mais amigáveis e sociáveis, já conversei com mais gente em três dias do que nos outros dez que estive nessa cidade. Eles parecem se importar e se esforçar. Mas quem eu sou nisso tudo? Qual o caminho que eu quero seguir? Eu não sei como vou me manter financeiramente, as experiências dos outros não me animaram muito com minhas possibilidades. Não sei se em um ano, quando e se eu voltar, vai ter alguém me esperando. Seja por não estar mais lá ou por não se importarem mais. Eu tinha tudo e precisei ir embora por não conseguir continuar lá. Por não me sentir capaz de segurar a barra que eu segurava. Agora estou aqui e triste por não estar lá fazendo o quê eu conseguia fazer. E aí acaba comigo, ver todo mundo triste, sofrendo e eu aqui triste e sofrendo. Muito alto o preço que eu paguei, muito alto. Eu preciso estar bem, preciso me resolver aqui pra que tudo isso valha a pena. Esse é meu medo, de olhar pra trás e ver que o preço foi alto demais. Que o que eu ganhei, se é que ganho algo, não e nada comparado ao que eu perdi. E eu perdi muito e sou lembrado o tempo todo disso. Cada segundo eu penso sobre as coisas que eu estou perdendo e perco cada vez mais. E nada de ganhar. Só dor e tristeza acumulada até agora. Sei que tem muito pela frente, que eu não posso ter a urgência de resolver as coisas com tão pouco tempo. Mas a dor não tem esperado e tá doendo demais.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Buraco na Tarde.

Esse horário entre 14 e 18 horas é um buraco negro no meu dia. Um vazio gigante de conteúdo e contato. É o horário em que todas as pessoas que eu conheço (que estão no Brasil) dormem o sono dos justos, com seus pesadelos, inquietudes, sonhos e metas. É o horário que um puxa a coberta do outro ou que inconscientemente abraça mais apertado por uns instantes pra saber que está tudo bem. E eu do outro lado do mundo, me isolo da casa que desconheço e finjo estar lá com eles. Começou a chover agora e me sinto um personagem de filme qualquer, escrevendo em seu computador na sala de uma casa que não é a dele enquanto pensa como gostaria de estar em outro lugar. Porque a viagem tem seu propósito, "terminar seu livro" nessa versão ficcional de mim mesmo, mas isso não diminui a dor do processo. Quando todos dormem por aí, é o momento que ninguém mais me responde nas conversas, quando param de atualizar as redes sociais, quando deixam de reagir às minhas coisas. É o momento de isolamento total que eu fugi por tanto tempo e que vou ter que encarar por alguns meses até eu internalizar realmente minha mudança. Porque dói de um jeito diferente, a vontade de chorar não vem com um consolo viável: é isso mesmo, tem que chorar mesmo, não tem o que fazer. Tento ocupar minha cabeça com coisas pra fazer, o que geralmente funciona no resto do dia, mas agora, nesse buraco da tarde, só me deixa mais desesperado. Até quando isso vai durar? Até eu desistir e voltar? Até o processo atual acabar? Até eu me acostumar com cada novo processo e entender que não estou mais lá? Sem trabalho, sem amigos, sem propósito, o preço continua alto demais, a solidão e o silêncio continuam doendo demais. Mesmo durante o resto do dia, todos parecem estar sofrendo da mesma dor sem resposta e sem solução que eu, mas pelo menos nesses horários estamos sofrendo juntos. Posso focar meu esforço em diminuir a dor do outro, consequentemente diminuindo a minha. Agora, no entando, sou só eu, minha dor e a chuva que insiste em tornar o momento ainda mais triste.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Dor que coexiste.

A grande verdade é que eu não me sinto na Austrália. Tipo, a impressão que eu tenho estando aqui é como se eu estivesse em Belo Horizonte resolvendo uma inconveniência que fosse me segurar por um pouco mais de tempo mas em uma ou duas semanas eu estivesse de volta. Tipo, depois que passa um dia ou dois que eu enfrentei a maratona de aeroportos, o efeito não é diferente de passar 15 horas em um ônibus. O desconforto da língua também não difere muito da minha dificuldade inicial de interagir com desconhecidos normalmente. Mais uma vez como se isso tudo fosse só um rolê diferente, como já foi em SP ou em BH. Algo passageiro e pontual e que em breve eu estarei de volta às pessoas que eu amo. Eu não sei o que é viver diferente disso e, depois de um ano me perguntando se estava em negação durante o processo me pergunto de novo se ainda estou em negação do outro lado do mundo. As coisas estão caminhando bem, se resolvendo mais fácil e mais rápido do que eu imaginei. Ainda falta o emprego, ainda estou inseguro com dinheiro. Mas fora isso tá tudo bem. Meus amigos, mais uma vez, ainda sinto como se eu fosse voltar em algumas semanas. Não sinto que será um ano ou mais, não sinto que vou ter que fazer novos amigos pra não ficar sozinhos aqui. O que mais me derruba é a Larissa, que apesar de ter sido fundamental durante todo o processo da minha saída do país, consequentemente se tornou também meu maior ponto fraco. Pensar na distância dela, nos caminhos que vamos ter que tomar daqui pra frente, na mudança dela pra onde ela queria estar, na eventualidade de termos que seguir em frente sem um ao outro, na esperança de nós encontramos depois e isso tudo fazer sentido. Era isso que me fazia chorar em Goiânia e é isso que me faz chorar aqui. Porque é como se vc ganhasse na loteria, tivesse dinheiro ilimitado pra gastar, mas tivesse também um prazo final pra gastar esse dinheiro. E eu sempre comentei como esse prazo nos fez ter uma visão diferente do que é se relacionar. Nos ver ter carinho e empatia pelo processo do outro, respeito pelos limites, apoio e amor. A gente foi (é?) sortudo demais de ter vivido isso. Coisa que a gente nem ouvia falar ou sonhava, de repente se fez possível em um relacionamento onde os dois lados estavam dispostos a falar e escutar. E é isso que me derruba, como algo tão bom pode nos levar a caminhos separados? Como se, caso fôssemos piores namorados um ao outro, ainda estaríamos juntos. Com pequenas sabotagens e chantagens que fariam o outro ceder, mudar de ideia, abrir mão. Não foi o caso, a gente apoiou ao ponto de sangrar a própria carne e estarmos os dois feridos profundamente com a distância, mas no caminho que julgamos ser o melhor. Mas dói demais. Não ter uma briga, não ter um desentendimentos ou chateação pra nos apoiar na separação. Esse último mês foi perfeito de maneiras que eu nem achava ser possível. Ela ajudou a manter minha cabeça boa, ir nos lugares que eu tinha que ir, encontrar que eu tinha que encontrar. Mas era em casa que a gente chorava, sem conseguir consolar um ao outro. De novo e de novo. Sem ter uma palavra de apoio ou esperança que não reforçasse ainda mais a dor da separação. Eu posso estar vivendo aqui o passo mais importante da minha vida, ou estar num mundo fantasioso onde as coisas nem estão acontecendo. Mas esse pedaço ali que coexiste no cérebro e no coração sabe, e dói demais, e dói não do jeito que cura depois, mas do jeito que você acostuma com a dor lá, o tempo todo. Porque tem coisa que não tem como superar, você só convive com o sentimento pra sempre e chora quando tiver que chorar.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Sono dos justos.

Transito nesses corredores como quem já conhece cada canto. Sei qual é meu papel e já o desempenho com naturalidade. Muito mudou desde que vim aqui cheio de dúvidas e fora de lugar. Hoje, me despedindo, sei que posso voltar quando quiser. Que não estou na casa dos outros, que aqui também é parte do que é meu lar. Sei quando mediar, quando ouvir, quando fazer. Meus horários e minhas funções estão claras na minha cabeça. Já sou livre para fazê-las do meu jeito. O nível máximo de confiança é quando lhe permitem fazer sua função como você julgar melhor e é onde eu me encontro. Preparo uma cortina improvisada e busco um ventilador auxiliar. Estou pronto para a enfrentar a última barreira: o sono tranquilo.

domingo, 15 de dezembro de 2019

Represa.

Aprendi a não julgar as emoções por suas intensidades, a dar valor para os pequenos momentos felizes assim como a sofrer a tristeza quando necessário. Aprendi também o limite do meu envolvimento em diminuir o sofrimento do outro, entender até onde eu poderia ir sem prejuízo próprio do que me mantém em pé. Vivo um momento onde não tenho a opção de ser ameno. É tudo muito intenso, e cada escolha é uma vitória de um lado e uma derrota do outro. Por mais que eu aceite e conviva com esse sistema auto-estabelecido, não estou imune a suas consequências. Continuo sofrendo o impacto das tristezas que causo em mim e nos outros. O sofrimento das notícias reais, o sofrimento dos personagens fictícios, o sofrimento de antes, de agora e de depois. Todos são pequenas facas que torcem dentro de mim e que, de certa forma eu aprendi a lidar, sofrer, chorar e continuar. Sei que não tento não passar isso para os outros, principalmente aqueles que não buscam mais do que a superfície e a frivolidade. É sempre importante escolher com quem você divide seu sofrimento e a forma como fazer isso para não sobrecarregar o outro. A gente sofre pelas nossas demandas e carências, por mais que as ações do outro possam engatilhar sofrimentos, mas nosso processo é sempre nosso. Então, às vezes, acumulam coisas demais e derramamos. Eu não posso impedir isso, não posso guardar para mim e explodir sozinho. Emanar felicidade é um esforço muito grande, e uma escolha consciente e difícil. Mas é importante saber canalizar a tristeza sem represá-la. Ela existe, e para quem se importa, é inevitável. Tirar ela do peito é uma das melhores formas de lidar com ela. Dividir e entender. Os próximos dias serão cada vez mais assim, a calmaria está longe demais. Já peço desculpas pra quem eu molhar no processo.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Solidão.

Me peguei pensando em tudo que eu já fiz para não estar sozinho. Aprendi a conversar e a tratar as pessoas bem. Virei líder quando precisei e soldado quando foi pedido. Aprendi a tomar decisões por todos e a seguir quando necessário. Aprendi a ser divertido, interessante, com muitas curiosidades e histórias sobre coisas que nem mesmo eu sabia o que são. Tentei ser bonito, agradavelmente simpático, mais ou menos bem vestido. Sorrir é uma grande chave, pras pessoas entenderem que você está feliz de estar ali, ou de falar com elas. E estive. Até que não estive mais. Teve aquele momento que estar cercado de pessoas me fazia me sentir ainda mais sozinho. Sem me ver nelas, me comparar, me inspirar. Olhava em volta e me sentia sufocado e isolado ao mesmo tempo, e isso foi difícil demais. E aí voltei praqueles que me traziam conforto, até entender que nem sempre quem está ao seu lado te faz companhia. E fui obrigado a estar sozinho de novo e foi desesperador. Preencher meu tempo e a cabeça sem o outro, fazer minhas coisas, cumprir meus objetivos sozinho. Tudo parecia longe demais e difícil demais. Foi na terapia que aprendi a observar essas coisas que me davam medo em estar sozinho, e em também observar o que eu fazia pra não lidar com isso. Mas só entendendo o porquê de me incomodar que eu realmente me vi livre. Primeiro, me obriguei a andar sem rumo, só comigo mesmo. Depois entendi minha individualidade mesmo nos grupos que eu participava, e entendi que estava tudo bem em às vezes dar um passo para o lado para poder viver as coisas de maneira mais plena. E de passo em passo, percebi que posso ir para longe, o mais longe possível inclusive. Mas ainda tenho medo, de quando chegar lá eu perceber que não sou tão forte, que a solidão ainda pode me derrubar e não ter nenhuma base para apoiar. Eu conheço minhas armas, sei que posso usá-las, mas bate o receio de novamente eu me perder sobre elas. Desde já eu penso sobre o que fazer quando eu estiver realmente sozinho. E isso vai acontecer muito em breve.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Trinta.

Estou espantado como os 30 anos estão chegando de maneiro confortável pra mim. Lembro que senti bem meus vinte anos, muito mais que os 18, falando sobre a mudança que realmente aconteceu pra mim. Queria achar esse texto. Agora estou aqui há um mês de completar essa terceira dezena de idade e prestes a ter a maior mudança geográfica e social que eu já tive em minha vida. Além de ter um certo orgulho de onde estou, vindo de dois anos de muito crescimento pessoal, me sinto também muito confortável e esperançoso com o que há por vir. Começo, talvez pela primeira vez inclusive, a me identificar com séries e filmes que retratam essa faixa etária a qual me incluo. Os dilemas profissionais e de relacionamento, os dramas existenciais, tudo são coisas que tem aparecido muito no conteúdo que consumo e tem me confortado. Mesmo no reality show japonês que poucas vezes fez muito sentido, já me sinto parte daquilo como se a mudança que cada um busca em participar é a mudança que eu também busco nos próximos meses/anos. Ter trinta anos hoje, um millennial nativo em sua mais pura essência, é muito louco. Não me sinto velho, a palavra adulto ainda me assusta, mas não sou mais o "jovem adulto" que me via antes. Tenho minha carreira, meu dinheiro, minha história. Até por isso pouco me identifico ou me interesso pelas pessoas que acabaram de sair de suas adolescências e tem muita coisa pra descobrir ainda. Me vejo mais nas pessoas em crise profissional, ou felizes e acomodadas em seus relacionamentos (ou falta deles). A terapia caminha pro seu final nesse momento de transição pesado, mas sei que cheguei longe demais, que não sou quem eu era há dois anos atrás quando não vi outra opção a não ser começá-la. Me identifico com os dramas dos meus amigos, e vejo todos nós em movimento, cada um a sua maneira. Completar trinta anos é uma consolidação muito pesada da minha vida. É o momento que as dúvidas são mais existenciais, que a insegurança vem de outras formas, porque as certezas estão ali já fincadas. E é muito louco viver uma mudança tão drástica em um momento tão sólido. Mas também tem aquele sentimento que é o momento perfeito para mudar, porque se não mudar agora, talvez eu esteja aqui pra sempre. Nesse lugar, nessa mentalidade, nesse corpo, com essas pessoas. Então eu vou, nessa mudança de tudo, começar essa nova fase da minha vida que vai me levar não direito pra onde, mas sei que estou preparado.

Ps. lembro de escrever um texto falando sobre como completar vinte anos foram bem mais marcantes pra mim do que os 18. Infelizmente não consegui encontrá-lo.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Baldeação.

No transporte público, eu penso sobre o meu dia. Saio cansado do trabalho nas minhas frustrações cotidianas pra pegar uma hora de avenidas lotadas até minha casa. O choro entalado por um mal entendido esperando só uma brecha para sair, mas seguro para não incomodar e não ser incomodado. Abro meu livro, mas não concentro, leio uma e volto duas páginas em busca de distração. O processo dói, mas doeu chegar até aqui e me prometeram que no final da dor tem conforto. Daí eu continuo, diariamente, sofrendo todas minhas dores no metrô.

Às vezes divago sobre a dor do outro: a mulher que digita rapidamente na tela do celular, enquanto segura as compras com a perna. O moço que chora discretamente enquanto escuta algo em seus fones, com a cabeça recostada no vidro. O homem que, de tão vazia sua expressão, deixa o corpo ser levado pelo movimento em busca de sentir algo finalmente. A criança que se comporta ao lado da mãe na esperança de pararem no caminho para comprar um doce ou algo assim. A senhora que repete silenciosamente trechos da bíblia como se aquilo fosse limpar seus pensamentos impuros e levá-la direto para o céu. O adolescente que sente o peso da responsabilidade não só do próprio futuro mas também o de toda sua família, e não sabe se está preparado para as provas que virão nos próximos dias.

Cada pessoa é um mundo inteiro de sentimentos e histórias, que se cruzam diariamente nas suas rotinas e rotas. Quando cruzamos o olhar, faço um sorriso discreto, não daqueles que querem puxar conversa, mas daqueles que entendem a nossa dor. Peço desculpas quando esbarro em alguém e quando esbarram em mim. Peço licença e por favor, mesmo quando não é necessário. Falo bom dia, boa tarde, boa noite aos trabalhadores que fazem todo o sistema de transporte funcionar. Se alguém puxa assunto, tento estar atento dentro das minhas possibilidades. Quando não posso, peço desculpas e invento um motivo para colocar meu fone.

Não me sinto responsável pela vida dos outros, minha vida já é difícil por si só, mas entendo que estender a mão muitas vezes é fácil e muito significativo para quem está para baixo. Ou continuo fazendo na esperança de que um dia façam comigo, não sei. Só sei que minha dor diminui um pouco quando o outro não dói mais.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Meu melhor amigo Werther.

Terminei de reler Os Sofrimentos do Jovem Werther, um dos livros que mais li na minha adolescência e que tanto fez sentido em momentos de desilusão amorosa. Ler hoje, mais maduros e principalmente com ideias mais claras sobre relações abusivas, me traz um receio muito grande no tipo de reforço que esse livro pode trazer pra adolescentes. Diz a história que o número de suicídios entre jovens na Europa aumentou consideravelmente depois da publicação desse livro, um fenômeno interessante de um momento séculos antes da internet, das redes sociais, do Tumblr e dos desafios da baleia azul.
Mas é difícil demais não se identificar com a história do jovem que vai para o campo em busca de inspiração para uma vida vazia e lá conhece uma pessoa que atende todas suas demandas e sonhos, para depois descobrir que ela está noiva de outro. Vemos o sentimento de Werther crescer a medida que a convivência dos dois aumenta, até chegar no caso extremo dele precisar se afastar por não conseguir estar perto dela sem ter ela como amante. E Charlotte, ou Carlota dependendo da versão do livro que você lê, sempre gostou muito de Werther. Ele era uma pessoa erudita, de conversa fácil, muito carinhoso com ela e com os seus vários irmãos que ela cuidava desde que a mãe morreu. Mas o amor, ou o desejo de se relacionar, não é um campeonato onde se acumula pontos e ganha o direito de vivê-lo, e Albert, seu noivo, também era uma pessoa boa que fazia muito bem para ela e sua família.
Durante o livro, vemos Werther entrando em um labirinto próprio que dificilmente conseguiria sair, principalmente em um momento onde terapia e psicologia mal existia nos livros. Não conseguimos saber quão reais são as características de Charlotte, já que estamos sempre vendo o ponto de vista de Werther em suas cartas para o amigo Wilheim (Guilherme em algumas traduções!!!). Mas mesmo do ponto de vista dele, vemos que Charlotte sempre foi muito respeitosa com seu relacionamento e que Werther se prendia nos pequenos gestos para alimentar seu sentimento. Por diversas vezes, ele se passava horas admirando objetos que ela havia tocado.
Quando adolescente, consegui me ver em muitas das atitudes dele. O que mais me chama a atenção nessa relação é a ideia de injustiça ao não ter sentimentos tão intensos correspondidos. Como que alguém que está tão disposto a fazer tudo que a outra pessoa quer e precisa pode ser descartado com tanta facilidade? Como alguém que é querido, não odiado, não menosprezado, pode ser descartado como interesse romântico? Mesmo em seus últimos momentos, Werther ainda não entendia isso. Ainda buscava em cada momento de afeição, cada demonstração de carinho, como um sinal de posse e entrega de Charlotte para si. O respeito e admiração que nutria por Albert alternavam-se com um ressentimento gigante por ele ter sido o escolhido para estar ao lado dela.
Mesmo com os olhos atuais, onde existe uma certa responsabilidade em alimentar um sentimento alheio não correspondido, Charlotte seria aprovada com louvor. Suas ações eram verdadeiras e bem intencionadas, inclusive em buscar se afastar de Werther quando entendeu necessário. Já Werther usava da sua personalidade e educação para buscar meios de estar na presença dela, criar situações que os aproximavam e, por fim, criar nela a culpa pelo seu fim trágico. Não uma culpa de chantagem, mas um entendimento de que eles só poderiam estar juntos em outro plano e por isso ele estaria lá esperando por ela.
O comportamento de Werther hoje me traz vários alertas e vejo como inconscientemente me tornei meu chará Wilheim. A busca por apoiar, achar soluções, propor saídas e incentivar as artes daqueles que amo e que buscam ajuda felizmente me aproximou mais do receptor das cartas do que seu autor. Entendo a dor do meu amigo Werther, mas não alimento-a e, acima de tudo, não apoio os meios que ele usa para lidar com ela. Mas tudo que posso oferecer são sugestões, conselhos baseados nas minhas experiências e na minha observação do mundo.
Sofro pelos jovens do século XIX e do século XXI que não tiveram pessoas ao seu lado para ajudá-los com seus dilemas e agradeço quem esteve ao meu lado e quem contou comigo. Chorei por diversas vezes lendo o livro e pensando por quantas vezes outras pessoas passaram por aquilo e não conseguiram enxergar os próprios erros e caminhos de volta. A internet traz acesso a redes de apoio mas também ensina e incentiva o mal, assumo aqui, bem mais consciente, meu papel de Wilheim. Que eu possa fazer o que ele não conseguiu.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

A Vista.

Vou me permitir viver esse momento um pouco. Esse breve instante onde as coisas estão bem e prometem melhorar. Nesse tempo, uma felicidade contínua como poucas vezes vivi ou percebi com tanta clareza, deve ser enunciado para ser lembrado no futuro. Ele, potência mil de onde não se via nada, pega embalo em uma reta ascendente cada vez mais rápida. Não sei se meus planos se cumprirão, não sei se os sonhos que me deixaram sonhar vão se realizar. Pode tudo dar errado, inclusive, e no final eu estar muitos passos para trás. Mas agora, quero curtir e reconhecer onde estou. Quero agradecer todos que me trouxeram até aqui e aqueles que prestaram atenção o suficiente para se inspirarem. Inspirei-me em tantos outros, em seus próprios momentos de ascenção e clareza. Achei exemplo onde poucos viram e não diminuo nenhum empurrãozinho que me levou pra frente. Estou onde quero estar, com as pessoas que eu quero estar, fazendo o que eu gosto de fazer e olhando pros próximos passos e feliz demais com o que vem pela frente. Desvios são naturais e nos levam a lugares diferentes, mas vou me permitir parar agora, sentar na estrada, e observar a vista.

terça-feira, 7 de maio de 2019

Hoje.

Não sou quem eu queria ser porque eu mesmo não sabia quais eram minhas opções, mas sou uma versão melhor de mim. Principalmente em critérios diferentes dos que eu julgava antes. Se eu achava que estava em meu auge, olhando ao meu redor e vendo que me destacava, mal eu sabia o quanto ainda poderia crescer em outras direções e os traumas que aquele caminho tinham causado. Tive que fechar o olho e dar um salto de fé, em um rumo que eu, em toda minha segurança, tinha medo. Olhar pra dentro foi doloroso, já que com os anos aprendi a negligenciar minhas vontades com receio de me frustrar. Aquilo estava tão encrustado em mim que eu nem me percebia mais. Mas como tirar band-aids, nesse processo me obrigou a tomar uma decição e ação. Essa ação me levou pra fora em lugares que eu já tinha ido mas que ainda não tinha estado. Aprendi a andar de uma nova forma, com um olhar diferente e, finalmente, independente. A dependência que se manifestava de maneiras não-óbvias me prendia, como se não me julgasse merecedor apesar de me entender capaz. Mas sair de casa, pelos pequenos períodos, me fez entender que posso ir mais longe. A casa, que já não é casa a muito tempo e eu ainda me apoiava em azulejos quebrados, pode ser onde eu estiver, me entender como minha própria morada (como diz a música aqui descontextualizada) é estar confortável onde eu estiver. Minha história, como o próprio nome diz, existiu e me formou, mas é história e não há de se repetir, nem aqui nem em outro lugar, e esse último processo (um ano e meio? dois?) me fez estar mais confortável com a inquietude e frustração que estar aqui me causava, me mostrando a saída. Ter pessoas ao meu lado passando por processos parecidos, dispostas a me entender e se fazer entendidas, foi crucial também. Não me sentir o Don Quixote em sua jornada contra os gigantes, entender que os gigantes são reais e que a batalha é vencida em conjunto. O apoio veio de outros lados inimagináveis, não impossíveis. O empurrão e a cobrança de me mover, mesmo quando eu perco o momento (falando de física) vieram na medida certa para me manter ativo. Até os problemas e dias ruins, que antes eram protagonistas, começaram a ser meros coadjuvanets que pouco interferem na história, ou me trazer novas perspectivas. O filtro sou eu, e na verdade sempre fui. Agora, como um prisma do outro lado da lua, consigo refratar o que recebo em arte e aprendizado. O passo, o peso, muitas vezes difícil, já anda com naturalidade e leveza. Não sou meus problemas, não sou meu passado, eu sou o que eu escolhi ser e o que vem depois. O esforço na mudança, ainda ativo como tantos outros na minha vida, começa a fazer parte de mim naturalmente e me torno uma versão melhor de quem eu era, como a continuação de um filme que muda de gênero e consegue superar o sucesso do antecessor. Hoje sou um novo eu que não esperava e, diferente do meu eu de ontem, já entendo que o de amanhã vai sim ser melhor. Só me resta a curiosidade de saber como.