segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Nossa música.

Lembra quando a gente ouviu nossa música pela primeira vez? A gente tava bêbado no canto duma festa e ela começou a tocar. Eu te olhei e a gente tava cantando ela juntos. Foi quando a gente ficou pela primeira vez. Dois meses depois, em outra festa, a música começou a tocar e eu te puxei pra dançar. Ali eu soube que era você que eu queria pra sempre. E desde então, todo aniversário, festa de família, reunião da firma, eu dava um jeito de colocar a música pra tocar. Era meu jeito de reafirmar o que eu sentia. Daquela vez que você viajou pra casa da sua vó e ficou quase um mês lá, eu colocava a música pra tocar todo dia antes de dormir. E quando você voltava, era ela a trilha sonora mental enquanto eu te via correndo pra me abraçar. A música tocava e você estava do meu lado, estando ou não de verdade. Era aquela introduçãozinho no piano que já me fazia sorrir. Era nossa música, contava sobre nosso amor, nossa vida. Era o ritmo dos nossos passos, do nosso corpo. Cada jura de amor no refrão era uma jura de amor nossa repetida como num looping infinito.
Aí aconteceu tudo. A gente se perdeu, brigou, eu errei, você errou e era isso. Nossa história acabou em meio a tantos acertos. E de repente a música era insuportável para mim. Os versos, que tanto descreviam nosso momento, simplesmente mudaram de forma. Eles não estavam falando do amor, era uma metáfora para a solidão, aquilo era muito claro. Eu chorava e gritava no meu travesseiro, os mesmos versos que me fizeram sorrir, eram só memória de que eu tinha te perdido. As notas do piano pesavam meu coração. Na letra, o amor só existe pra quem merece e por muito tempo eu me julguei merecedor, agora não. Eu não estava mais ali, eu não era mais o personagem principal daquela canção. Virei o eu-lírico que observava de longe, com inveja, o amor alheio.
Nosso amor, em verso, virou história, e era justamente sobre isso que ele falava. Ele vai ficar pra sempre ali marcando cada momento que existiu. Mas os momentos passam. O eterno é a memória, não o sentimento. Se você olhar pra trás, você ainda vai ver. Lembrar que aquele amor ali é eterno. Ele sempre vai existir, mas ele existe lá e lá apenas. Poesias são mutáveis, bobo fui eu em acreditar que ela seria feliz pra sempre.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Mosaico.

Já que eu não podia te ter, eu peguei um pedaço de cada pessoa que eu conheço e montei um mosaico de você. Projetei tudo que minha memória guardava, minha visão idealizada, e busquei um sorriso aqui, uma piada ali, um abraço de um e o sexo de outro. Mas nunca era suficiente, tudo ainda era muito pouco. Enquanto o você despedaçado funcionava em situações específicas, me faltava o você inteiro. Pedaços reunidos nunca formam um todo. E quando alguém se afastava, era parte de você que me faltava. Não era você sem seu cabelo, sem o jeito de brigar sorrindo, sem você por inteiro, sem você comigo. E ainda assim, eu tentava. Saia a noite em busca de cada pedaço seu que me faltava. Aquele detalhe que ninguém reparava, mas que era o que diferenciava você do monte de retalho montado na janela do meu quarto. Me entregava a vaga lembrança de você para cada sorriso bobo que inocentemente se achava o foco da minha atenção, mas não, nunca foi nada além de você o que me levava a eles. E assim eu juntei o meu mosaico, com pedaços que de longe vagamente lembrava você, mas de perto eu sabia que não passava de vidro colado numa conjunto disforme da minha obsessão, já que eu não podia te ter.