quarta-feira, 21 de julho de 2010

Detetive Carlos

Carlos era detetive. Detetive Carlos. Cansado de ser reprovado na prova da OAB, ele decidiu que queria um emprego maneiro. Depois de perceber que pra ser astronauta e piloto de fórmula dependia de muito mais coisas além dele, ele resolveu ser detetive. Convenceu seus pais a alugarem uma salinha em um prédio no centro da cidade, comprou uma escrivaninha, uma luminária, uma lupa e um adesivo escrito "Carlos Almeida - Detetive Particular" para colocar na porta. Anunciou em um jornal de pequena circulação na cidade e colou papéis em alguns postes. Passou as duas primeiras semanas investigando com sua lupa as infiltrações na sala que tinha alugado até chegar a conclusão de que precisava de uma linha telefônica. Telefone instalado, Carlos colocou um novo anúncio no mesmo jornal. No dia que o anúncio saiu, Carlos não saiu do lado do telefone. Ele não tocou. Carlos resolveu comprar uma poltrona para que ao menos pudesse dormir confortavelmente enquanto esperava seu primeiro cliente. Com a poltrona, o telefone e o adesivo na porta, com certeza surgiria algum cliente. E toda terça-feira Carlos colocava seu anúncio no mesmo jornal e passava o resto da semana esperando. Sua salinha já tinha tapete, quadros na parede, algumas esculturas e umas estante cheia de livros de direito penal e de sua coleção do Arthur Conan Doyle, já que seu dinheiro tinha acabado para comprar outros livros que os detetives usam (e ele também não tinha muita certeza de quais livros os detetives liam). Na falta do que fazer, começou a ler seus livros de detetive. Depois passou a ler seus livros de direito penal. Terminando todos, pegou todos seus livros de direito e releu. Refez a prova da OAB, passou e acabou sua carreira de detetive. Seus pais não importaram de sustentar seu escritório durante aqueles seis meses, o Carlinhos sempre foi daquele jeito: dava mil voltas, mas no fim chegava no seu lugar.