Ícaro voou perto demais do Sol
Mas quem pode julgar que ele caiu?
Antes de descobrir o anzol
O peixe não sabia o que o atraiu
Me sinto ali, perto demais do meu futuro
Mas quanto mais rápido eu corro
Mais perto eu fico do muro
Descer a ladeira é o risco de subir o morro
Mas quem não quer ver a vista do alto
Se todo mundo tivesse medo da queda
Ninguém mais tentaria o salto
E quando túnel parece não ter fim
A entrada já está longe demais
Desistir não é opção pra mim
Tarde demais para voltar atrás
terça-feira, 25 de maio de 2021
terça-feira, 30 de março de 2021
O que foi você?
O que foi essa parte de mim
Que de um dia pro outro
Se fez um ser por si
E me fez me sentir um pouco mais eu?
O que foi você que corria sem me ouvir
Sem medo de cair ou de se machucar
E cada choro sofrido
Rasgava meu peito devagar?
O que foi você me olhando nervosa
Esperando sua hora de subir no palco
Tentando lembrar cada passo que a gente ensaiou em casa?
O que foi você de coração partido
Procurando no meu colo apoio silencioso
Sua comida preferida e um filme bobo
Até chegar a hora de dormir de novo?
E o que foi quando você foi embora?
Quando chegou a hora de me despedir
Porque seu lugar era lá fora e não dentro de mim
O que sobrou de mim se tudo que eu era
Existia por você, pra você, de você?
Quem eu sou agora se foi você que me fez
Do mesmo jeito que eu fiz você
E agora só sobrou eu?
Presa.
Preso em casa eu percebo
A marca da presa na minha pele
A pressa da cura de quem fere
Vestígio visível do meu medo
Escondo embaixo da cama
Amanhã me traz novos tentos
Me esquenta e protege do vento
Emula o carinho de quem ama
Detrás do muro eu mantenho
E tenho tudo que eu preciso
O básico pra me manter vivo
Motivo pra guardar o que tenho
E se eu declarar meu amor
Por favor não responda o chamado
Pois consigo colocar de lado
Mas não com a certeza de não se amado
quarta-feira, 17 de março de 2021
Molde.
As botas apertam como deveriam
Elas precisam de tempo para se moldar
Eu ignoro o incômodo e persevero
Talvez não seja minha vez de se adaptar
Um passo de cada vez, um metro mais perto
Qual é o jeito certo de se mudar?
Longe de mim dizer que estou correto
Mas se estiver errado sou eu mesmo que vou pagar
"Reto é o caminho do sucesso
Não tem erro, é só seguir, pode confiar"
Me perco em atalhos desertos
Na esperança de que me levem pro mesmo lugar
O não-caminho é uma escolha em si
Passar por onde ninguém quis passar
Mas a falta de um guia aperta
Quando não tem sinal algum pra continuar
Mas a cada passo a bota se molda
Dessa vez não sou eu que vou mudar
Que o mundo se mude em minha volta
Meu destino é onde quer que eu vá chegar
sábado, 21 de novembro de 2020
Explosão.
A explosão instaura o silêncio
Lá fora, nem um pio se ouve
"O que houve?" todos pensam
Tonto levanto do canto escuro
No susto nem vi a queda chegar
Duro encaro os caídos muros
Espera a ajuda mas não vem
Pega tudo que puder salvar
Deixa pra trás o que não faz bem
Lembra quando éramos felizes
Narizes juntos na noite fria
Apoio mútuo em tempos de crise
Hoje vago sozinho pela cidade
Ou o que restou depois da explosão
Um segundo acaba com uma comunidade
Carrego comigo minhas lembranças
E a esperança de dias melhores
Se não por mim, pelas nossas crianças
Poesia.
Nosso amor era prosa poética
Com métrica e rima escondida em cada canto
Ainda por cima, nossa conversa era canto
Difícil explicar a dialética
Pra alguém que nunca amou tanto
A gente sincronizava nos detalhes
No entalhe da madeira da estante
E no instante de silêncio
que se tornava um vale imenso
Por isso que senti tanto quando foi embora
Fora a falta, quanto eu queria estar ali sem você
E meu verso ficou sem rima
Complexo e sem graça ainda por cima
Uma poesia fria, sem ritmo
Palavras vazias que um algoritmo organizou
Hoje meu texto falta
Sobra espaço, desejo vital
Não recebo alta nem ponto final
quinta-feira, 19 de novembro de 2020
Abrigo.
Não precisa bater
A porta está aberta
Não tem hora certa
Pra você chegar
Não repara a bagunça
É que eu tô mudando
Até o final do ano
Não sei onde eu vou estar
Mas fique a vontade
Pode tirar o sapato
Você já conhece meu gato
E onde eu gosto de sentar
Aceita um café?
Eu tô sem açúcar
Fumando bituca
Pra economizar
Mas cabe mais um
Não tem muito luxo
Mas só mais um bucho
Não vai estorvar
A porta está aberta
Não tem hora certa
Pra você chegar
Não repara a bagunça
É que eu tô mudando
Até o final do ano
Não sei onde eu vou estar
Mas fique a vontade
Pode tirar o sapato
Você já conhece meu gato
E onde eu gosto de sentar
Aceita um café?
Eu tô sem açúcar
Fumando bituca
Pra economizar
Mas cabe mais um
Não tem muito luxo
Mas só mais um bucho
Não vai estorvar
Vou deitar um pouco
Minha cabeça doída
Minha vida falida
Quero descansar
Mas não vai embora
Vem deitar comigo
Me faz de abrigo
Até acordar
Minha cabeça doída
Minha vida falida
Quero descansar
Mas não vai embora
Vem deitar comigo
Me faz de abrigo
Até acordar
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