quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Nada Por R$ 1,99

Subindo as escadas com sua sacola de compras
Pensava em como sua vida mudou
Não que agora vivesse a água fresca e sombra
Mas qualquer coisa é melhor que ser camelô.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Aviso

Um sábio me ensinou algo na vida
Que é válido que se diga e repita
Cuidado com stalkers e bebidas
Mas mais cuidado com stalkers, minha amiga.

A palavra Era a Lei.

"Meu reino por batatas", disse o Rei
Em uma época em que tudo que se dizia era lei.
Imediatamente antes da chegada dos camponeses,
Com mil sacos de batatas, cobrando o que era deles.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Miro, o Macaco.

Ele era um macaco, sempre fora um macaco. Mas nem sempre viveu atrás daquelas grades. Quando era menor, no circo onde nasceu, tinha total liberdade de transitar entre todas os trailers com os artistas. Os que ele mais gostava era o do Mágico e do Palhaço. Ria e batia no chão para demonstrar o quanto se divertia. Mas as crianças não iam mais ao circo, preferiam o videogueime e a internete, e o dono do circo teve que se desfazer de alguns bens. Foram vendidos o canhão do homem-bala, o minicarro dos palhaços, alguns trailers e a maioria dos animais. "Como íamos para o mesmo zoológico nem me preocupei, pois não teria o mágico ou o palhaço, mas teria o Elefante, que conta belos casos, e a Girafa, que é sempre uma boa companhia". Apesar de alguns dos animais já terem ouvido falar desse tal de zoológico, parentes que viviam por lá, eles não tinham uma idéia exata de como seria. Um primo do Leão descrevia uma grande floresta onde ele reinava soberano e humanos o obedeciam e admiravam diariamente. Já Rousseau, a Poodle, que antes de trabalhar no circo empurrando carrinhos de bebê morou com uma família comum e já havia visitado o zoológico, falava de jaulas pequenas para animais grandes que aparentavam estar bem abatidos. Mas a maioria dos animais não conseguia entender esses conceitos, vistos que nasceram e foram criados no circo. E ele não sabia o que esperar mesmo. "Aquela sensação estranha podia ser só por eu estar diante de uma situação nova, algo que não sou acostumado, não precisava ser necessariamente uma experiência ruim". Logo que chegou, o levaram a uma veterinária para alguns exames, dormiu em um pequeno caixote (uma daquelas pequenas caixas com grade) por uns dias, imaginando que estavam preparando sua cama em um novo trailer. Quem sabe até moraria com essa veterinária, que talvez não fosse tão carinhosa quanto sua amestradora, mas deveria servir. Doce ilusão, o jogaram em uma jaula com outros macacos parecidos com ele, e uma pequena vegetação falsa. Miro não conseguiu enturmar. "Eles eram bem agressivos. Não comigo, é verdade, acho até que me ignoravam, mas eles atacavam uns aos outros e quando um humano se aproximava, eles pulavam na grade em direção ao humano. As vezes até arremesavam suas fezes!" Quando o tratador vinha até a jaula lhes levar comida, o tratador quase era transformado em jantar. Com a competitividade em seus colegas de quarto, ele raramente conseguia comer, sempre ficava para trás para evitar conflitos. Ele não podia ir até as outras áreas do Zoológico para conversar com seus antigos amigos e os novos "amigos" não eram muito de conversar. Ele não comia mais, não ria mais nem dormia mais, com medo de ser atacado por um de seus companheiros. E aí ele se lembrou de que ele era um macaco, sempre fora um macaco. E mesmo vivendo em uma realidade totalmente diferente da que cresceu, ele agora tinha que se assumir como um macaco que era. "Eu me impus. Fui até o meio da jaula e comecei a gritar palavras de ordem. Para os que tentaram me coibir, mostrei meus dentes, ameaçando-os atacar. Bobagem, todos sabemos que eu não mataria nem uma pulga trapezista. O importante é que eles obedeceram". Ele foi eleito o líder dos macacos, não precisava lutar por comida e quando um de seus companheiros de jaula exagerava, ele o repreendia. Até que um dia, em uma das idas a veterinária, ele descobriu que sua amiga Girafa estava muito doente e morreria em breve. Depois da ilusão de poder, ele sentiu a impotência de nada ter o que fazer. Ele podia controlar seus macacos, mas não podia curar sua amiga. E ele se lembrou mais uma vez do que era: um macaco, sempre fora um. E nesse momento ele desistiu. Se acomodou em sua cela, não mandava mais em nada nem lutava por comida. Os outros macacos, sem o seu comando, rapidamente voltaram a seus comportamentos antigos. Ele foi emagrecendo e definhando. Ele escolheu morrer, por não ver mais solução. Não queria tentar fugir ou voltar ao circo. Pegou as cordas do balanço que estava instalado em sua jaula, preparou-as em uma das árvores e se enforcou. "Nessa hora eu era bem mais que um macaco. Eu me tornei um de vocês, colegas em dedos opositores, o que, acho, eu sempre fui."