quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
A Cela.
Quando ele virou, meu punho já estava perto demais da sua mandíbula para desviar. Aproveitei a confusão para agir. Foram sete alvoradas até eu não aguentar mais. Não sou um cara violento, mas também tenho minhas fraquezas, meus gatilhos. Sem minhas armas, fui obrigado a recorrer às técnicas do meu avô, que tinha ganhado um porco em uma feira por causa do seu soco potente.
Minha última missão não terminou bem. Fui reconhecido e pego de surpresa por um bando de mercenários. Agora estou nessa cela limpando o sangue da minha mão na roupa do sujeito que derrubei. Lá fora ninguém percebeu a movimentação, mas logo ele vai acordar e começar a chamar os guardas.
Estou há uma semana sem falar uma palavra, esperando o juiz chegar em sua diligência com ar pomposo e provavelmente minha condenação. Com meu rosto retratado em cartazes por toda a vila, eventualmente alguém seria mais esperto que eu. Estou aqui, não estou?
Meu companheiro de cela, agora um corpo desacordado ocupando o pouco espaço que dividimos, não teve tanta sorte. Preso por se engraçar com uma das filhas do xerife, não parava de falar um minuto. Contava vantagem sobre as mulheres que conheceu, os duelos que ganhou, mil trambicagens e malandragens que o fez sobreviver até chegar nessa cela com cheiro de mofo. Puxava conversa com outros presos, com os guardas, com os visitantes.
Tenho um receio de gente expansiva. Acabam falando demais para ganhar confiança dos outros. Contam vantagem achando que assim as pessoas vão gostar mais delas, mas eu não caio nessa. Conheço o tipo. Finge que é seu amigo para depois pedir favor. Gente que eu não quero perto nem nessa nem na próxima vida.
E assim eu ouvi ele me provocar nos últimos dias. Os guardas, se divertindo com meu mau humor, contavam histórias e lendas sobre mim. Ele perguntava sobre meus pais, minha família, meu cavalo, criava histórias para justificar meu silêncio. Aprendi a manter minha cabeça longe das coisas que me faziam mal. Enquanto eles conversavam, fechava os olhos e me via cavalgando por grandes planícies, a poeira levantando atrás de mim, nenhuma índole ruim em milhas e milhas de distância.
Foi quando ouvi o nome dela. Aparentemente fiquei repetindo um nome enquanto dormia, um dos guardas ouviu e contou para ele. Era minha filha? Minha esposa? Uma cabritinha que eu abusava na fazenda onde cresci? Continuei calado, impassível, esperando meu momento. Ele continuava me provocando, queria conhecer meus limites. É fácil ficar quieto quando se passa o tempo todo sozinho.
Não demorou até o Sol se pôr para alguma confusão chamar a atenção dos guardas. De repente estávamos apenas eu e ele na cela. Sozinhos. Finalmente. Ele distraído, já que eu pouco me movia desde que cheguei ali, se espremia contra a grade para saber o que estava acontecendo. Quando ele virou, meu punho já estava perto demais da sua mandíbula para desviar. O corpo caiu seco como um toco e eu voltei para meu canto da cela, esperando a confusão lá fora acalmar e os guardas voltarem.
O barulho acabou de repente, foi quando comecei a pensar o que poderia ter causado esse alvoroço. Um assalto ao saloon da cidade, algum duelo na rua principal. Nada justificava a demora dos guardas. A porta se abriu, e eu vi alguém se aproximando. Uma silhueta que eu reconheceria mesmo contra a luz de vela mais fraca.
"Achei seu cavalo vagando sozinho e imaginei que você estava precisando de ajuda, ele me trouxe até aqui. Parece que você não fez muitos amigos nessa cidade."
"Maldito Faísca," eu pensei enquanto pegava as armas dos guardas caídos no chão, "tanta gente no mundo e me traz a última pessoa que eu gostaria de ver".
Passei a mão na crina do meu cavalo, que parecia feliz em me ver. Enquanto arrumava minhas encomendas em suas costas, tentei quebrar o gelo: "Se eu disser que eu estava falando sobre você agora a pouco você não acreditaria, Annabelle", ela nem sorriu.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
O Cavalo.
Às vezes, a estrada é muito solitária, mas a gente se distrái como pode. Deitei ao lado de um trilho com Faísca, meu alazão, e fiquei formando imagens com as estrelas. Minha vó sempre dizia que os deuses antigos moravam lá, mas eu achava complicado. Devia ser frio e solitário demais para alguém morar ali.
Não que minha vida fosse muito diferente. Passo dias andando por terras sem mato nem rio, montando fogueiras à noite para afastar os chacais, em companhia só do meu cavalo. O último irmão que me sobrou. Um por um os outros foram assassinados por ladrões, xerifes, índios e cafetinas. Nós éramos dezessete quando comecei, hoje somos dois. Eu e o Faísca.
Ele não é de falar muito, então a maior parte do tempo eu divago sozinho, mas é um ótimo ouvinte. Seu olhar de repreensão quando conto minhas aventuras é mais duro do que a cinta de couro do meu velho pai.
Consigo listar vários motivos pelos quais cavalos são melhores que homens, mas o principal é eles não precisarem de dinheiro. Sem ganância não tem traição nem sangue. Seu propósito de vida é estar ao meu lado e meu propósito é estar ao lado dele.
Andamos mais de duas mil milhas juntos, fomos do sul ao norte do país em áreas que os peregrinos não chegaram a invadir. Carregando corpos e encomendas de um lado e sacos de dinheiro e mantimentos do outro.
Um companheiro que nunca me delataria, independente do valor da minha recompensa. Até ouvi uma vez em um bar que a cabeça do velho Faísca valia tanto quanto a minha. Junto viramos lendas. As pessoas já conhecem cada cicatriz da minha face e cada mancha de seu pêlo. O barulho do seu trote já é o suficiente para amedrontar os mais corajosos dos coiotes.
Faísca já pulou na frente de bala por mim, me salvou do enforcamento. Hoje, apontando para as estrelas, tento mostrar que aquele grupo ali no canto formam uma cabeça de cavalo, provavelmente de algum ancestral dele, um rei antigo das terras além-mar. Minha vó contava sobre homens com cabeças de cavalo com poderes maravilhosos, mil mulheres, mil tesouros. Gostava de acreditar que era nosso ancestral comum.
Ele parecia sonolento, eu com a cabeça em sua barriga e o chapéu cobrindo meus olhos. O poncho de lã esquentava meu peito e a fogueira esquentava meu pé. Andar por essas bandas era perigoso essa época do ano, mas ao lado do meu cavalo, não tinha medo de nada.
Ainda não tinha amanhecido quando o chão começou a tremer. Nos levantamos rápido, apaguei a fogueira com areia, peguei minhas bolsas no chão e nos preparamos. Mais alguns minutos e conseguimos ver a fumaça da locomotiva aparecendo no horizonte. Atrasada, como sempre.
Eu e meu cavalo começamos a correr para poder alcançar o trem em movimento. Quanto mais ele se aproximava, mais o chão tremia e mais rápido nós corríamos. Apertei a colt na cintura, e fui aos pouco me preparando para o pulo. Até que a locomotiva nos alcançou e nos passou a toda velocidade.
Eu tinha alguns segundos para acertar exatamente meu salto. Os vagões passavam enquanto eu calculava mentalmente a hora certa de pular. Não é como se fosse meu primeiro assalto em um trem, mas cada um que faço eu rezo para ser o último. Odiava toda essa tensão. Só mais um segundo e… Um pouso quase perfeito no último vagão. Pelas lamparinas que foram se acendendo nos momentos que se seguiram, devo ter feito bastante barulho quando caí.
Olhei para trás e vi meu companheiro diminuindo a medida que nos afastávamos. Ele sabia onde me encontrar: seguir o trilho até a próxima estação e esperar até o sol se pôr novamente, mas ainda assim partia meu coração abandoná-lo novamente. Um nobre senhor abriu a portinhola de acesso para ver o que estava acontecendo, bom que não precisei nem liberar uma das mãos para rendê-lo. Meu Faísca não estava mais a vista, era hora de fazer meu trabalho.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
O Cowboy.
Meu rosto está no cartaz de "Procurado" lá fora e a recompensa não é baixa. Se fosse outra pessoa eu mesmo estaria me caçando. As pessoas que matei, as cargas que roubei, as vilas que transformei em cidades-fantasmas. Meu nome se espalhou mais rápido que barril de pólvora explodindo. E eu gostava disso. Gostava de chegar em uma cidade desconhecida e todos me conhecerem.
O barman tremia mais que trem descarrilado, quando perguntei pra ele se nessa cidade tinha um boticário. Seu dedo apontou para um velho senhor sentado no fim do balcão, com uma pastinha velha e um monóculo. Típico. Peguei mais uma dose e sentei ao seu lado.
"Você sabe quem eu sou?", o senhor confirmou com a cabeça, tentando mostrar firmeza e coragem. "Então você sabe porque eu estou aqui", novamente ele confirmou com a cabeça. Virei meu copo mais uma vez e pedi para me acompanhar. Gostava quando colaboravam, ter que sacar a arma por qualquer bobagem tirava minha credibilidade. Preferia apontar para alguém só quando estivesse disposto a disparar e aquele pobre cientista não precisava disso.
O senhor me guiou até a pensão onde estava hospedado, entrou em seu quarto e voltou com uma maleta de couro, provavelmente costurada por uma das tribos que viviam por essas terras antes da invasão. Abri com cuidado e conferi os pequenos frascos cheios de líquidos coloridos.
"Você sabe que pagam uma grana preta por isso aqui lá no Norte, né?", tentei puxar assunto. "Não quero saber, você já tem o que você quer", velhinho insolente. Devia apagar ele agora mesmo. Deixaria um agrado para as meretrizes que estavam no saguão de entrada e elas nunca teriam me visto aqui.
Fechei a maleta e me preparei para ir embora, quando reparei o velho nervoso demais. Em uma fração de segundo, levantei, dei um chute para desmontá-o e encostei minha colt em sua testa. O velho chorava descontroladamente ao lado da pequena Remington que tentara inutilmente sacar. "Velho idiota! Você acha que ia me derrubar com uma ou duas balas? Eu mataria essa cidade inteira antes de você conseguir me apontar uma arma!". Com um chute forte na barriga, eu me despedi do velho e da cidade. Peguei meu cavalo na porta do saloon e rumei para fora da cidade.
Olhei para trás e o pôr-do-sol pintava toda a cidade de vermelho. Meu coração era duro, mas eu sabia apreciar uma boa vista. Parei por alguns segundos. Odiava quando as coisas caminhavam para a violência. Afrouxei meu coltre e me preparei para a longa caminhada que eu tinha pela frente. Pessoas para conhecer, produtos para entregar. Não tem sido fácil essa vida de cowboy.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
O Último Conto de Natal
Parte 1
A sociedade já tinha se destruído. Entre guerras e conflitos, acabaram-se as religiões, o capitalismo e a pouca noção de civilidade que ainda tínhamos. Os poucos que sobraram viviam baseados numa ciência do passado, já que poucos estudavam e pouco ainda era divulgado. A comunicação com outras regiões era raríssima, desde que um acordo antiespionagem tinha derrubados todos os satélites. Internet, televisão, telefones, eram tidos como conversas dos mais velhos, saudosos e nostálgicos. As pessoas se conformavam com os poucos que conheciam e pouco tentavam tirar do relacionamento de cada um.
Flávio fazia parte do pouco mais de trezentas mil pessoas que habitavam o mundo. Criado em uma família muito católica, aprendeu cedo a questionar seus dogmas e preconceitos, mas com o fim das mídias a Igreja Católica havia perdido totalmente seu poder e relevância. Flávio vivia uma vida modesta, comia pouco e fazia exercícios. Usava o resto de seu tempo para ler. Trocava os enlatados que sobraram da antiga rede de supermercados de seu pai por livros de todos os tipos. Já havia lido de psicologia a romance baratos, de auto-ajuda a anatomia vegetal. Poucos se importavam com leitura, conhecimento é luxo em uma sociedade onde você só tem o agora.
Ele acordou como em uma manhã qualquer, fria pelo inverno, foi até sua cozinha e fez café. Encostado na base da pia, observava os primeiros flocos de neve caindo em sua janela. Mal se lembrava do auge do capitalismo, com suas cores e luzes de Natal. Onde a felicidade era ganhar o celular mais tecnológico, a roupa mais cara. Com a baixa do catolicismo, nem o mais irônico dos publicitários ousou falar de "Espírito de Natal". Ele nem sentia falta. Felicidade era um conceito complicado atualmente. Sem objetivos futuros, as pessoas não se decepcionam mais, não sentem mais saudades, não se gostam mais. Não tem mais apego, um dos motivos da população não se renovar mais. O sexo, pra reprodução ou não, era cada vez mais raro. Ninguém mais queria ter que conviver com o outro. O café já esquentava seu corpo e coração frio.
Ouviu um barulho em sua porta. Primeiramente imaginou ser algum animal perdido ou algo assim, mas a famigerada batida na porta (um costume que se perdera quando as pessoas pararam de se visitar) não deixava dúvidas: era alguém. Com o susto, sua primeira reação foi ficar imóvel. Não estava pronto para receber alguém, sua casa não estava organizada, não tinha preparado nenhum assunto para entreter um convidado, servir café significava que faltaria café depois. Foi só quando ouviu novamente uma segunda batida que deu por si que tinha que fazer alguma coisa. Colocou sua xícara em cima da pia e foi em direção a janela, mas a janela embaçada pelo calor de dentro e o frio de fora, só permitia ver um vulto.
"Qu... quem é?", não lembrava quando foi a última vez que tinha falado tão alto. A terceira batida na porta, agora com impaciência, fez com que Flávio abrisse mesmo sem ter resposta.
Parte 2
Uma moça, toda coberta com blusas e uma mochila grande, entrou correndo dentro da casa: "Nossa, Flávio, quer me matar de frio? Tem quase dez minutos que eu to esperando lá fora". Flávio olhava assustado para a figura em sua sala de estar. Não a conhecia e muito menos sabia como que ela sabia seu nome. Enquanto ela tirava as camadas de jaquetas e casacos, uma mulher muito bonita se revelava. "Que cara é essa, Flávio? Parece que não me conhece", e abraçou fortemente ele. Imóvel, Flávio ainda tentou se lembrar de alguma situação que poderia ter conhecido uma pessoa tão espaçosa e expansiva, mas nada passou em sua cabeça. "Vem aqui, te trouxe presentes", ela disse enquanto o entregava um álbum de fotografia e tirava carnes e vinhos de sua mochila.
"Espera. Ei, para com isso". Ela parou assustada enquanto procurava um saca-rolhas na mochila. "Quem diabos é você, o que você está fazendo na minha casa e porque você está me dando essas coisas?".
"Eu, Flavinho, sou sua prima Márcia. A gente brincava juntos no quintal do Tio Marcos quando éramos pequenos". Flávio continuava sem entender, ele tivera realmente um tio Marcos, mas não lembrava de brincar com ninguém, muito menos de convidar algum familiar para fazer uma visita.
"Calma, você vai entender". Ela lhe trouxe uma taça de vinho, e o acomodou no sofá. Sentada ao seu lado, ela abriu entre suas pernas o álbum que tinha trago. "Lembra do tanto que a gente gostava do Natal? Era o melhor momento do ano! A gente reunia todos os primos e ficava brincando de tentar adivinhar cada presente na árvore", Flávio olhava para o álbum e via fotos suas com outras crianças que não lembrava mais quem era, entre brinquedos, árvores de Natal, comida. Parecia estar muito divertido.
"Esse ano aqui, eu te levei para o quintal e a gente fez um boneco de neve todo feito de terra, nessa foto aqui você estava chorando porque não tinha ganhado o carrinho que você queria". Flávio não entendia, como ele poderia não se lembrar desses momentos? Sua memória, que costumava ser uma lembrança triste e sozinha dos anos finais do supermercado do pai, aos poucos se enchia de cor e calor com as fotos que observava. Não entedia como bloqueara tempos tão felizes de sua vida.
"Desculpa, Márcia. Não preparei nada pra você. Não tem presente, nem comida, nem espaço para te abrigar." Sua voz agora em um misto de vergonha e vontade de chorar. "Estou tão acostumado a estar sozinho, que nem sabia que ainda poderia existir algum familiar meu por aí". Tentando disfarçar as lágrimas, Flávio se levantou e foi direto para a cozinha. Márcia, feliz e energética, se levantou. "Não se preocupe, primo. Vim aqui só para deixar o álbum mesmo. Lá fora está difícil para todo mundo, só não queria deixar você esquecer que é Natal, momento de estar feliz".
"Não quis te mandar, embora! Desculpa. Estou desacostumado a conviver com pessoas. Por favor, fique!", mas Márcia já se enrolava novamente em seus cobertores. "Primo, ainda tenho muitos lugares para ir até o Natal. Agradeço a hospitalidade, mas minha parada aqui já acabou", ela disse enquanto sorria. Com um último abraço e um beijo no rosto, Márcia foi embora. Tentou chamá-la para levar parte da comida e dos vinhos que ela tinha deixado, mas quando deu por si ela já tinha sumido na rua vazia e agora coberta por neve.
Parte 3
Ainda lidando com aquela visita rápida e inesperada, Flávio estava em choque em sua sala. De onde veio tudo aquilo? Folheava o álbum de fotos e pensando como não se lembrava de momentos tão felizes quanto aqueles. Do que mais ele não se lembrava de antes de tudo cair? Sua inquietudo o fez se arrumar e andar pelas ruas da cidade. As lojas abandonadas e a desertidão o lembrava do porquê não saía mais de casa. Não havia muito o que se ver nem a quem visitar. Os poucos que ainda moravam por lá se isolavam em suas casas, onde já tinham todos os mantimentos que precisavam. Em um ou outro lugar, se viam luzes acesas. Ele andava calmamente pela rua, lutando contra o frio e o chão escorregadio.
Chegando no que costumava ser a avenida principal da cidade, lembrou de que em algum momento o prefeito montou uma árvore gigantesca, cheia de bolas coloridas e brinquedos. Fora a coisa mais bonita que já vira na vida. Mais uma vez ele se perguntou como não tinha lembranças vívidas de algo que o marcou tanto na época. Era triste ver as placas tomadas por ferrugens, as vitrines de lojas quebradas e sem produtos. Flávio se sentia numa cidade fantasma que morreu aos poucos sem que ninguém percebesse ou desse falta.
"Ei, tio!", Flávio se assustou novamente. Não esperava ver mais gente na rua. Uma criança, provavelmente sem nem uma década de vida, acenava do outro lado da rua, vestida com trapos do que parecia ser uma cortina velha. "Você pode ajudar a gente num negócio aqui?", Flávio olhou em volta para ver se era com ele, tendo que lidar com a verdade óbvia que não havia mais ninguém na rua além dele. Flávio atravessou em direção ao garoto que prontamente segurou sua mão e o guiou para um pequeno beco iluminado.
"Meu nome é Júlio, muito prazer, mas você pode me chamar de Máximo Nove Mil que é como meus amigos me chamam. A gente tá tentando fazer um teatrinho mas minha irmã simplesmente não para de chorar aí não tem como atuar com um Jesus chorão que nem aquele. Tá complicado, o Guto que tá sendo o anjo já tá ficando com fome e eu falei que a gente só ia fazer a ceia depois que os três reis magos chegassem, mas o Nando, o Pedro e a Tete tão atrasados e...", Flávio estava admirado. No fim do beco havia uma pequena manjedoura improvisada em papelão, um garoto vestido de anjo em cima de uma lixeira, uma garota segurando tentando controlar um bebê que não parava de chorar, vários cachorros quietos e sentados observando e de alguma forma aquilo tudo formava um dos presépios mais bonitos que já tinha visto na vida.
"Tá, calma... Máximo Nove Mil. Como eu posso te ajudar?". O garoto o olhou com uma cara de dúvida, e disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo: "Uai, você já viu algum teatro sem platéia? Aí num faz sentido. Eu sou o José, a Lu é a Maria, minha irmã é Jesus, o Guto é o anjo, aí o Rex, Totó, Foguete e o Pandeiro são os animaizinhos, aí tem a Tete, o Nando e o Pedro que são os reis magos mas eles devem estar perdidos e não sobrou ninguém pra assistir. Não tá claro que precisamos de público?".
Admirando a espontaneidade do garoto, Flávio se ajeitou entre uma caixa de papelão e esperou calmamente que o teatro começasse. Faltando pessoas ainda, começaram contando a história de um casal que estava para ter seu filho mas não tinha dinheiro para pagar maternidade. Júlio, ou Máximo Nove Mil, arrasava nos diálogos afiadíssimos e cheio de humor. A história, um pouco deturpada da original, envolvia um anjo obstetra, uma mãe solteira, e a chegada (atrasada mas pontualíssima) de três homens sábios que traziam presentes. Flávio se divertiu, se emocionou e bateu palmas ao final quando todos se juntaram para cantar uma antiga canção de Natal em um coral desafinadíssimo.
Honrados com a presença da plateia, cada um dos pequenos atores foi abraçar Flávio após o show, enquanto comentavam entre si como tudo tinha saído perfeito e que mal esperavam para repetir tudo no ano seguinte. As crianças se abraçaram e se despediram, indo cada um para um canto da cidade vazia. Flávio voltava para casa na cidade que escurecia, inspirado numa nova geração que, mais do que acreditava no Natal, acreditava no relacionamento das pessoas.
Parte 4
Chegou para casa com o coração cheio. Aquele dia atípico trouxe sensações que não sentia a muito tempo. Abriu os armários velhos onde guardava os objetos deixados por seu pai. Paletós empoeirados, caixas com notas fiscais que hoje não valiam nem o papel as quais foram impressas, uma velha caixa de sapato. Tentou a todo custa encontrar a velha árvore de seu pai, feita de plástico e durável como todas as coisas que não duraram na época. Mas não encontrou. Ficou triste de só ter objetos burocráticos e sem vida como lembrança de seu pai. Era um pai que trabalhava muito mas que tentava fazer valer cada segundo que passava com sua família.
Triste e decepcionado por não achar nada que representasse a presença de seu pai, abriu um dos vinhos que Márcia havia deixado e foi folhear o álbum. Aos poucos já se lembrava do nome das pessoas nas fotos, seus primos, tios, até o cachorro que ganhara um ano e que no ano seguinte se mudou para uma fazenda. Mas uma coisa o encucava. Quando chegou no fim do álbum, reparou que havia um bilhete preso ao álbum. Confuso ainda, pegou o bilhete:
"Filho,
Muita coisa mudou desde que você nasceu. Principalmente na minha vida. Você me deu esperanças de que podíamos ser uma família melhor, um mundo melhor. A inocência e pureza de seus olhos e atos, toda sua vida, era o que me inspirava a seguir em frente independente da dificuldade. Eu sabia que precisava preparar um terreno melhor para seu futuro.
Mas como tudo na vida, às vezes perdemos o controle das coisas, e nos damos mal. Lidar com todas a mudanças do mundo para alguém velho e fraco como eu, não está sendo fácil. Sua mãe nos deixou tão de repente e só agora eu tenho a real dimensão da falta que ela tem feito na minha e na sua vida. Você se tornou uma pessoa fria, sem fé e sem esperanças. E estar assim num mundo como o nosso é complicado demais.
Desculpa não ter sido capaz de manter em você a alegria de um mundo melhor, de não ter dado a você os melhores presentes e as melhores festas que alguém bom e puro como você merecia. Você se corrompeu a frieza de um mundo que não estávamos preparados. Ninguém soube lidar direito com tudo isso e eu falhei em descontar em você minhas frustrações na minha fé e no meu trabalho. Hoje eu sei que a vida é muito mais do que dinheiro, e a gente aprendeu essa lição da maneira mais cruel. Sendo privados de tudo que tínhamos como quem se tira um curativo.
Não sei quando vou ter coragem de lhe enviar essa carta, mas sei que não tenho mais muito tempo de vida. Quando eu for embora, você vai estar sozinho. Não se renda a crueldade do destino, vá atrás de pessoas para amar e para viver. Faça amigos, faça o bem para quem você não conhece. A vida é muito mais do que internet, tecnologia e dinheiro. A vida é viver ao lado de alguém que te faça bem, e eu felizmente consegui viver até o fim ao seu lado.
Espero que quando você ler essa carta, não seja tarde demais.
Feliz Natal,
Te amo.
Papai."
Com o rosto inchado, Flávio pegou uma roupa quente e uma sacola grande e encheu com tudo aquilo que tinha em sua casa. Tudo que guardou com tanto medo de que lhe fosse fazer falta. Foi atrás das crianças que conheceram mais cedo, atrás de uma família para busca mas não encontrou nem sinal do presépio que vira mais cedo. Enquanto perambulava pela cidade, deixando garrafas de vinhos e brinquedos velhos na porta das casas que havia luz, um detalhe lhe incomodava. Não lembrava de ver fotos de sua prima Márcia no álbum de família. Bem, não era algo para se preocupar no momento. Quando já tinha distribuido tudo o que tinha pelas casas que encontrou no caminho, estava disposto e feliz consigo mesmo. Pronto para voltar pra casa, ouviu ao longe um grito: "Ei, tio!". O pequeno Júlio, ou melhor Máximo Nove Mil, acenava ao longe novamente. Flávio o viu correndo em sua direção e pegar novamente em sua mão. "Isso é hora de perambular pela rua sozinho? Vem aqui que lá em casa tá tendo ceia e cabe o senhor lá. Meus pais vão ficar super felizes de receber e eu ainda vou falar pra eles que você é uma ótima platéia, você vai adorar eles, você vai ver, e você ainda vai poder conhecer melhor o Totó, o Rex, o Foguete e o Pandero que eu até coloquei um chapeuzinho de Papai Noel em cada um deles e eles ficaram super engraçados..."
E depois de muito tempo, o Natal voltou a fazer sentido em um mundo frio e complicado.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Carta Aberta do Sindicato dos Poetas.
Revogaram minha carteira do Sindicato dos Poetas, e explicaram o motivo em uma carta aberta:
"Só é poesia se for papel, caderno ou guardanapo,
recitado em bordel, coreto e embriagado.
Não é poema se não for publicado,
se ninguém ler ou se deixado de lado.
A arte só se torna por contemplação,
e por isso te tiramos da Associação.
Qualquer dúvida, contacte nosso advogado.
Atenciosamente,
O Sindicato."
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Gigantes.
Cavalgo enquanto penso, distante:
"E se os moinhos forem mesmo gigantes?"
Continuo meu caminho, com o tintilar das panelas:
"Se ela não pensa mais em mim, por que ainda penso nela?
A estrada é longa e solitária, e a secura as vezes dói:
"Se superei meu passado, por que ele me corrói?"
Pobre Quixote, atormentado pela razão
De tanto sol na cabeça, de certo perdeu a noção
Sabia tanto de tudo agora mal sabe quem é
Ficou doido da cabeça e doente do pé
domingo, 1 de setembro de 2013
Mofo.
Meu coração tem cheiro de guardado
Daqueles que passam anos no fundo do armário
Tem cheiro de mofo e de tom manchado
De quem guardou pra proteger e nunca voltou pra pegar.
Em pastas com documentos que já não importam
Naftalina escondida numa veia cava
Do lado dele eu guardo o seu retrato
Desbotado como o que nosso amor significava
E quando eu me mudar, e tiver que guardar tudo em caixas
Vou achar esse velho coração que um dia eu usei mas já não cabe
Vou doar para os pobres ou pra um bazar
E ver se ainda serve pra alguém usar.
Daqueles que passam anos no fundo do armário
Tem cheiro de mofo e de tom manchado
De quem guardou pra proteger e nunca voltou pra pegar.
Em pastas com documentos que já não importam
Naftalina escondida numa veia cava
Do lado dele eu guardo o seu retrato
Desbotado como o que nosso amor significava
E quando eu me mudar, e tiver que guardar tudo em caixas
Vou achar esse velho coração que um dia eu usei mas já não cabe
Vou doar para os pobres ou pra um bazar
E ver se ainda serve pra alguém usar.
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