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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Ghostin' Town.

Na minha cidade fantasma
Só a asma ataca
A poeira acumulada
Por anos de deixar pra trás
Esquecida, abandonada
Forjada em memória morta
Suas portas tortas não encaixam mais
As ruas frias seguem vazias e escuras
E, em vez da cura, o que se acha é dor
Do parapeito da janela, 
dói no peito a lembrança dela
Encostada esperando 
uma volta que não está nos planos
Pois no primeiro passo para fora,
No mero pensamento de ir embora,
A cidade já se esquecia do agora
E sumia junto com a aurora.

Na visita, invade a sala, 
Uma poltrona acabada
Como um livro em uma estante

Que não estava ali antes.

domingo, 9 de março de 2014

O Menino.



Lembro da primeira vez que eu segurei uma pistola. Minha mão infante e trêmule mirando um conjunto de garrafas a uns 40 metros. Meu pai via as lágrimas escorrendo do meu rosto e não expressava a mínima compaixão. A vida era assim e eu já estava passando da idade de aprender a empunhar uma arma.
Eu não era do tipo que dava orgulho para o pai. Não era muito habilidoso no campo nem muito inteligente. Falhava em tarefas básicas e o doutor falou que eu não passaria dos dez anos. Na época eu me sentia muito mal com isso tudo. A cara de decepção do meu pai me doía, e os abraços de consolo da minha mãe me doíam mais ainda. Ele me dizia que o mundo lá fora era perigoso, que ele tinha passado coisas horríveis no Álamo e que ia me transformar no homem que o pai dele o transformara. Então desde o meu oitavo aniversário ele me fazia treinar com a pistola diariamente, mirando em latas velhas de conserva.
Lembro também de me esconder embaixo das tabuletas enquanto um grupo rival invadia minha casa. Minha mãe chorava em desespero e meu pai oferecia o próprio peito para que nos poupassem. Eu chorava silenciosamente, obedecendo as ordens do meu pai de não denunciar minha posição, enquanto ouvia os tiros e em seguida o cavalgar se afastando. Saí do meu esconderijo para encontrar meus pais dormindo em uma poça de sangue. Acho que era isto que meu pai tentava me preparar.
Por dois dias seguidos eu chorei enquanto observava o corpo deles sem vida. No terceiro dia, eu os enterrei junto com seus pertences como me fora ensinado. No pasto, um potro manco e magro me observava, como se esperasse que eu o alimentasse. Isso me lembrou que há dias eu não comia também. Peguei um pedaço da carne salgada ao sol e dividi entre mim e ele.
Fiquei na casa enquanto ela me aceitou. Os recursos foram se esgotando enquanto eu treinava ao lado do meu novo amigo. Eu iria ser tudo que meu pai esperava de mim. Por dois invernos eu encarei o túmulo dos meus pais enquanto me tornava o melhor atirador que eu pudesse.
No começo da terceira primavera, meu corpo já crescido um pouco e meu cavalo já rápido como bala, juntei algumas roupas e fui até a cidade mais próxima procurar munição e um trabalho.
Desensinado do mundo, mas muito disposto a aprender, limpava o chão de um bordel da região. Ganhava algumas moedas, mas a maior parte do pagamento vinha em serviços do local. Lá eu aprendi a ler, escrever e a amar com as prostitutas mais disputadas da cidade. Fui adotado por grandes figurões da cidade, como o prefeito e o xerife que se divertiam com meu silêncio e minha falta de passado. Acumulava minhas moedas no fundo de um baú na despensa que me servia de quarto.
Um certo dia, um senhor chegou a cidade ordenando as melhores putas da região. Entrou no bordel e foi tratado como um rei, todos já o conhecia,. Parecia alguém importante, dessas pessoas que transpiram respeito. Enquanto se entupia de rum, mandou me chamar. Eu, com muito mais porte agora do que quando cheguei, fui humildemente.
“Seu rosto me lembra muito alguém muito importante pra mim. Por acaso você conhece alguém que lutou no Álamo?”
“M-meu pai, senhor”.
“Seu pai, meu jovem, pode ser o homem que salvou minha vida. Por onde ele anda?”
“Morto, senhor. Assassinado.”
“Sinto muito em ouvir isso.”
Eu mal conseguia encará-lo nos olhos, não pensava em meu pai desde que deixei tudo para trás.
“Se for do seu interesse, você pode se juntar a mim e conhecer várias cidades e pessoas. Quem sabe em algum desses lugares você conforte seu coração e eu pague minha dívida com ele. Ajeite suas coisas que pela manhã compraremos um cavalo para você e saíremos da cidade.”
“S-senhor, eu já tenho montaria.”
“Esse menino é um achado!”
Durante toda a noite, ele se divertiu ao lado das moças do bordel. Pela manhã, elas me prepararam um café da manhã de despedida e me deram um chapéu. Olhei para cada uma delas, ajeitei minhas coisas no Faísca e percebi que agora eu estava pronto para me tornar um homem. Meu pai deu seu jeito.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

O Bando.



Eu deixava ela cavalgar na minha frente. Até meu cavalo sabia que era melhor tomar distância dela, e ela poderia guiar, já que não importava muito para onde estávamos indo.
Conheci ela moça, calada e arisca depois de uma tentativa mal sucedida de sequestro. Por um erro de cálculo, acabamos matando os únicos que teriam interesse de resgatá-lá e quando nos demos conta tínhamos uma garota a milhas de distância de qualquer vila que pudéssemos abandoná-lá.
O bando estava divido entre matá-lá e enterrarmos o corpo ou matá-lá e deixarmos o corpo para os abutres, mas o chefe tinha se afeiçoado a ela. Ninguém tocava na moça até ele decidir o que fazer com ela. Eu observava distante, sem opinar. Fui contra o sequestro desde o começo e acho que não era eu que tinha que lidar com essas decisões, me contentava em fazer meu trabalho.
Seu nome era Annabelle, tinha deixado o sobrenome para trás e aprendeu rápido demais a empunhar uma arma. Sabia enrolar as pessoas como ninguém e em pouco tempo já era um dos membros mais importantes do bando. Os olhos do chefe brilhavam ao vê-lá em ação, mas ela resistia a qualquer tipo de investida dele. Os outros nem se atreviam.
Ele descontava na gente, deixava o trabalho braçal com a gente e os planos inteligentes e bem bolados com ela. Gordo como seu cavalo, se contentava em montar acampamento nos arredores da cidade e esperar nós voltarmos com as recompensas, os prêmios ou as vítimas.
Meu entrosamento com Annabelle ficava cada vez mais forte, mas segurava o ar profissional para nao gerar problemas pra mim. Nosso chefe era rico e bem conectado. Não havia um chefe de distrito que não devia favores a ele. Nosso cabresto era mantido por dividas e medo.
Mas ela tinha ele na mão. Fazia o que queria, quando queria. Ficava com a maior parte das recompensas, invadiam os cabarés para roubar os melhores tecidos para ela. Quando ela começou a dar ordens, o resto do bando se reuniu e me cobraram uma atitude. 
Eu, na época um cowboy despreparado e inexperiente, ainda assim a mais tempo e com mais atitude e empenho que aquele grupo de ladrões e artistas de circo que me cercavam. Entrei na tenda do chefe, ele roncava alto. Vi que os olhos de Annabelle me acompanhavam de longe, se perguntando minhas intenções.
”Bóris, precisamos conversar. Sobre..."
"Eu já sei. Você precisa me ajudar, eu fiz tudo por ela. Treinei, amei, dei do bom e do melhor e ela tá cada vez mais rebelde, mandona, reclamona"
"Chefe, ela está tomando conta. Fazendo planos, dando ordens, repreendendo. Ninguém sabe como reagir."
"Você é meu melhor cowboy, acabe com isso, foi um erro. Tome a atitude que precisar."
Assenti com a cabeça e saí. Mil pensamentos degladiavam em mim, uma companheira tão talentosa seria eliminada assim tão friamente por mim. Não queria resistência, ia ser rápido e indolor. Uma lamparina fraca iluminava o interior de sua barraca. Entrei com a colt em punho e encarei... O nada. Sua barraca era preenchida de luz pela lamparina no centro. Saí com um grito: "Pra onde ela foi?", todos me olhavam atônitos. Um tiro no rumo do celeiro e vimos ela fugindo no melhor cavalo, o meu. Os outros cavalos corriam assustados rumo ao nada. Impotentes, observávamos ela sumindo no horizonte. 
Um segundo tiro, agora de dentro da cabana do nosso chefe. Um corpo gordo, agora sem face, caído mole no chão, sua pistola ainda quente. De que adianta a influência e poder se sua amada sugou tudo que pode e foi embora? Assim acabou o bando, os roubos, sequestros e recompensas. 
Encontrei meu cavalo na primeira cidade que parei. Diziam que pertencia a uma bela dama emancipada e talentosa que chegou na cidade. Ela não era vista a dias, e parece que tinha fugido com as jóias da falecida esposa do prefeito.
"Deixei seu cavalo lá por pena de você. O que seria de você sem esse alazão velho?". Cinco anos se passaram e ela continuava insolente. "Eu ia te matar aquele dia, você sabia? Isso me assombra todas as noites desde então".
"Eu não vim falar de passado, eu vim falar de negócios. Me contaram que você mexe com medicinais agora, precisarei de um favor, acho que é o mínimo que você me deve".

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A Cela.



Quando ele virou, meu punho já estava perto demais da sua mandíbula para desviar. Aproveitei a confusão para agir. Foram sete alvoradas até eu não aguentar mais. Não sou um cara violento, mas também tenho minhas fraquezas, meus gatilhos. Sem minhas armas, fui obrigado a recorrer às técnicas do meu avô, que tinha ganhado um porco em uma feira por causa do seu soco potente.
Minha última missão não terminou bem. Fui reconhecido e pego de surpresa por um bando de mercenários. Agora estou nessa cela limpando o sangue da minha mão na roupa do sujeito que derrubei. Lá fora ninguém percebeu a movimentação, mas logo ele vai acordar e começar a chamar os guardas.
Estou há uma semana sem falar uma palavra, esperando o juiz chegar em sua diligência com ar pomposo e provavelmente minha condenação. Com meu rosto retratado em cartazes por toda a vila, eventualmente alguém seria mais esperto que eu. Estou aqui, não estou?
Meu companheiro de cela, agora um corpo desacordado ocupando o pouco espaço que dividimos, não teve tanta sorte. Preso por se engraçar com uma das filhas do xerife, não parava de falar um minuto. Contava vantagem sobre as mulheres que conheceu, os duelos que ganhou, mil trambicagens e malandragens que o fez sobreviver até chegar nessa cela com cheiro de mofo. Puxava conversa com outros presos, com os guardas, com os visitantes.
Tenho um receio de gente expansiva. Acabam falando demais para ganhar confiança dos outros. Contam vantagem achando que assim as pessoas vão gostar mais delas, mas eu não caio nessa. Conheço o tipo. Finge que é seu amigo para depois pedir favor. Gente que eu não quero perto nem nessa nem na próxima vida.
E assim eu ouvi ele me provocar nos últimos dias. Os guardas, se divertindo com meu mau humor, contavam histórias e lendas sobre mim. Ele perguntava sobre meus pais, minha família, meu cavalo, criava histórias para justificar meu silêncio. Aprendi a manter minha cabeça longe das coisas que me faziam mal. Enquanto eles conversavam, fechava os olhos e me via cavalgando por grandes planícies, a poeira levantando atrás de mim, nenhuma índole ruim em milhas e milhas de distância.
Foi quando ouvi o nome dela. Aparentemente fiquei repetindo um nome enquanto dormia, um dos guardas ouviu e contou para ele. Era minha filha? Minha esposa? Uma cabritinha que eu abusava na fazenda onde cresci? Continuei calado, impassível, esperando meu momento. Ele continuava me provocando, queria conhecer meus limites. É fácil ficar quieto quando se passa o tempo todo sozinho.
Não demorou até o Sol se pôr para alguma confusão chamar a atenção dos guardas. De repente estávamos apenas eu e ele na cela. Sozinhos. Finalmente. Ele distraído, já que eu pouco me movia desde que cheguei ali, se espremia contra a grade para saber o que estava acontecendo. Quando ele virou, meu punho já estava perto demais da sua mandíbula para desviar. O corpo caiu seco como um toco e eu voltei para meu canto da cela, esperando a confusão lá fora acalmar e os guardas voltarem.
O barulho acabou de repente, foi quando comecei a pensar o que poderia ter causado esse alvoroço. Um assalto ao saloon da cidade, algum duelo na rua principal. Nada justificava a demora dos guardas. A porta se abriu, e eu vi alguém se aproximando. Uma silhueta que eu reconheceria mesmo contra a luz de vela mais fraca.
"Achei seu cavalo vagando sozinho e imaginei que você estava precisando de ajuda, ele me trouxe até aqui. Parece que você não fez muitos amigos nessa cidade."
"Maldito Faísca," eu pensei enquanto pegava as armas dos guardas caídos no chão, "tanta gente no mundo e me traz a última pessoa que eu gostaria de ver".
Passei a mão na crina do meu cavalo, que parecia feliz em me ver. Enquanto arrumava minhas encomendas em suas costas, tentei quebrar o gelo: "Se eu disser que eu estava falando sobre você agora a pouco você não acreditaria, Annabelle", ela nem sorriu.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O Cavalo.


Às vezes, a estrada é muito solitária, mas a gente se distrái como pode. Deitei ao lado de um trilho com Faísca, meu alazão, e fiquei formando imagens com as estrelas. Minha vó sempre dizia que os deuses antigos moravam lá, mas eu achava complicado. Devia ser frio e solitário demais para alguém morar ali.
Não que minha vida fosse muito diferente. Passo dias andando por terras sem mato nem rio, montando fogueiras à noite para afastar os chacais, em companhia só do meu cavalo. O último irmão que me sobrou. Um por um os outros foram assassinados por ladrões, xerifes, índios e cafetinas. Nós éramos dezessete quando comecei, hoje somos dois. Eu e o Faísca.
Ele não é de falar muito, então a maior parte do tempo eu divago sozinho, mas é um ótimo ouvinte. Seu olhar de repreensão quando conto minhas aventuras é mais duro do que a cinta de couro do meu velho pai.
Consigo listar vários motivos pelos quais cavalos são melhores que homens, mas o principal é eles não precisarem de dinheiro. Sem ganância não tem traição nem sangue. Seu propósito de vida é estar ao meu lado e meu propósito é estar ao lado dele.
Andamos mais de duas mil milhas juntos, fomos do sul ao norte do país em áreas que os peregrinos não chegaram a invadir. Carregando corpos e encomendas de um lado e sacos de dinheiro e mantimentos do outro.
Um companheiro que nunca me delataria, independente do valor da minha recompensa. Até ouvi uma vez em um bar que a cabeça do velho Faísca valia tanto quanto a minha. Junto viramos lendas. As pessoas já conhecem cada cicatriz da minha face e cada mancha de seu pêlo. O barulho do seu trote já é o suficiente para amedrontar os mais corajosos dos coiotes.
Faísca já pulou na frente de bala por mim, me salvou do enforcamento. Hoje, apontando para as estrelas, tento mostrar que aquele grupo ali no canto formam uma cabeça de cavalo, provavelmente de algum ancestral dele, um rei antigo das terras além-mar. Minha vó contava sobre homens com cabeças de cavalo com poderes maravilhosos, mil mulheres, mil tesouros. Gostava de acreditar que era nosso ancestral comum.
Ele parecia sonolento, eu com a cabeça em sua barriga e o chapéu cobrindo meus olhos. O poncho de lã esquentava meu peito e a fogueira esquentava meu pé. Andar por essas bandas era perigoso essa época do ano, mas ao lado do meu cavalo, não tinha medo de nada.
Ainda não tinha amanhecido quando o chão começou a tremer. Nos levantamos rápido, apaguei a fogueira com areia, peguei minhas bolsas no chão e nos preparamos. Mais alguns minutos e conseguimos ver a fumaça da locomotiva aparecendo no horizonte. Atrasada, como sempre.
Eu e meu cavalo começamos a correr para poder alcançar o trem em movimento. Quanto mais ele se aproximava, mais o chão tremia e mais rápido nós corríamos. Apertei a colt na cintura, e fui aos pouco me preparando para o pulo. Até que a locomotiva nos alcançou e nos passou a toda velocidade.
Eu tinha alguns segundos para acertar exatamente meu salto. Os vagões passavam enquanto eu calculava mentalmente a hora certa de pular. Não é como se fosse meu primeiro assalto em um trem, mas cada um que faço eu rezo para ser o último. Odiava toda essa tensão. Só mais um segundo e… Um pouso quase perfeito no último vagão. Pelas lamparinas que foram se acendendo nos momentos que se seguiram, devo ter feito bastante barulho quando caí.
Olhei para trás e vi meu companheiro diminuindo a medida que nos afastávamos. Ele sabia onde me encontrar: seguir o trilho até a próxima estação e esperar até o sol se pôr novamente, mas ainda assim partia meu coração abandoná-lo novamente. Um nobre senhor abriu a portinhola de acesso para ver o que estava acontecendo, bom que não precisei nem liberar uma das mãos para rendê-lo. Meu Faísca não estava mais a vista, era hora de fazer meu trabalho.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Cowboy.


A porta do saloon ainda se fechava atrás de mim e o bar inteiro já me olhava. Meu rosto e meu nome eram conhecidos por essas bandas. Caminhei devagar até o balcão e pedi o whisky mais velho da casa. Virei o copo e a cadeira. O lugar inteiro ainda me olhava. "Perderam alguma coisa?", eu gritei. Todos voltaram a fazer o que quer que estivessem fazendo, o nervosismo denunciado pelo suor em suas testas. Mas como culpá-los? Está quente como nunca se viu e eu, eu realmente sou uma ameaça.
Meu rosto está no cartaz de "Procurado" lá fora e a recompensa não é baixa. Se fosse outra pessoa eu mesmo estaria me caçando. As pessoas que matei, as cargas que roubei, as vilas que transformei em cidades-fantasmas. Meu nome se espalhou mais rápido que barril de pólvora explodindo. E eu gostava disso. Gostava de chegar em uma cidade desconhecida e todos me conhecerem.
O barman tremia mais que trem descarrilado, quando perguntei pra ele se nessa cidade tinha um boticário. Seu dedo apontou para um velho senhor sentado no fim do balcão, com uma pastinha velha e um monóculo. Típico. Peguei mais uma dose e sentei ao seu lado.
"Você sabe quem eu sou?", o senhor confirmou com a cabeça, tentando mostrar firmeza e coragem. "Então você sabe porque eu estou aqui", novamente ele confirmou com a cabeça. Virei meu copo mais uma vez e pedi para me acompanhar. Gostava quando colaboravam, ter que sacar a arma por qualquer bobagem tirava minha credibilidade. Preferia apontar para alguém só quando estivesse disposto a disparar e aquele pobre cientista não precisava disso.
O senhor me guiou até a pensão onde estava hospedado, entrou em seu quarto e voltou com uma maleta de couro, provavelmente costurada por uma das tribos que viviam por essas terras antes da invasão. Abri com cuidado e conferi os pequenos frascos cheios de líquidos coloridos.
"Você sabe que pagam uma grana preta por isso aqui lá no Norte, né?", tentei puxar assunto. "Não quero saber, você já tem o que você quer", velhinho insolente. Devia apagar ele agora mesmo. Deixaria um agrado para as meretrizes que estavam no saguão de entrada e elas nunca teriam me visto aqui.
Fechei a maleta e me preparei para ir embora, quando reparei o velho nervoso demais. Em uma fração de segundo, levantei, dei um chute para desmontá-o e encostei minha colt em sua testa. O velho chorava descontroladamente ao lado da pequena Remington que tentara inutilmente sacar. "Velho idiota! Você acha que ia me derrubar com uma ou duas balas? Eu mataria essa cidade inteira antes de você conseguir me apontar uma arma!". Com um chute forte na barriga, eu me despedi do velho e da cidade. Peguei meu cavalo na porta do saloon e rumei para fora da cidade.
Olhei para trás e o pôr-do-sol pintava toda a cidade de vermelho. Meu coração era duro, mas eu sabia apreciar uma boa vista. Parei por alguns segundos. Odiava quando as coisas caminhavam para a violência. Afrouxei meu coltre e me preparei para a longa caminhada que eu tinha pela frente. Pessoas para conhecer, produtos para entregar. Não tem sido fácil essa vida de cowboy.