segunda-feira, 14 de março de 2022

Perdido.

Tem esse lugar que vivo voltando
Onde minha mente deixa de reconhecer meu corpo
Flutuo num espaço sem reconhecer o todo
Escuto o silêncio ecoando

Qual peça falta para terminar
Qual impulso que eu não consigo
Qual desejo a se realizar
Qual caminho não foi percorrido

Há uns meses eu me perdi aqui
E tive que forçar minha saída
Usando toda a energia que eu reuni
E toda a força que acumulei na vida

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Peito.

Deixa eu ler teu peito em braile
Conversar na língua secreta
Que sua língua me ensinou
Segura minha mão, meu peito, meu pescoço
Ouça o silêncio que precede
Água que não mata a sede
Mas molha a cama e meu rosto
O gosto que espalho em sua coxa
Deixo roxa a marca dos dentes
Sente o peito batendo forte
No bater dos corpos pousa minha sorte
Feito e cansado no mesmo lado
Deitamos com o coração colado

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Três da manhã.

Que horas são?
Já passou das três
Ainda tem gente na rua
Volta pra cama, tá frio aí
Só queria ver onde a Lua estava
Nem sempre ela vai estar te esperando
Eu me sinto mais seguro quando a vejo

(silêncio)

Trouxe a coberta pra você
Não precisava, volta a dormir que eu já vou
Não vou conseguir dormir sozinha
Bobagem, você sempre dorme
Mas agora que acordei vou me juntar a você

(silêncio)

Você está dormindo em pé
Vou pra cama, vamos?
Vou sim.
Você acha que amanhã ela vem?
Quem?
A Lua.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

A gente se fala.

Você olhou no relógio mais uma vez
Eu olhei pra você preocupado
Será se tava chato?
Ou tinha outro lugar
Que você gostaria de estar

Você me abraçou distante
Se despediu sem graça
"A gente se fala" no tom
De quem nunca mais vai se falar

Queria mandar parabéns
Vi que é seu aniversário
Mas tem tanto tempo
Que eu nem sei por onde começar

Será se você vai querer de volta
A blusa que ficou pra trás
Você ficava tão bonita com ela
Eu devia te entregar um dia

Te vi num café outro dia
Você parecia feliz em me ver
Disse que tinha mudado de cidade
Mas que a gente devia se topar por aí

Lembra quando a gente existia?
Completando frases e combinando roupas
É como se sempre faltasse algo
E toda ideia se perdesse no ar

sábado, 4 de dezembro de 2021

Precipício.

"A gente morre sozinho"
Eu escuto de longe
E a queda é mesmo solitária
O vento corta frio

E mais que o impacto
É o espaço que mata
A distância da minha mão
Eu sobrevivo mais uma vez
De nove dias eu caio dez
E nunca é bom

A gente aprende
A gente acostuma
O tempo cura
Cura a mente

A palavra pesa
Mas dizem que o demônio
Só sucumbe pelo nome
E eu abraço a dor
Ainda sem entender a fonte

Encarando o precipício
Como quem não quer cair
Mas há uma certa fascinação
Que te prende no vazio

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

O livro.

Lhes dei um livro de despedida
Onde eu contava parte da minha vida
Mais especificamente a sua parte
A arte se mostra de formas estranhas

Minhas entranhas em poema métrico
Registro fosco de um olhar de encanto
Pai, filho, espírito santo
Olhando por cima em um salão simétrico

A ótica na forma de um passado recente
A mente viaja pra salões vazios
O riso e o choro com marcas recentes
A coberta quente em um canto frio

Eu busco memórias positivas
Sentado em frustrado presente
Encontra a história e reviva
Depois volte a olhar pra frente

Hoje eu olho distante pro livro
Como ponto final e partida
Não ressinto mais essa vida
Começo de novo o que vivo

Em poema
Ganhei a liberdade
De amar quem vocês
São de verdade

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Crisálida.

Foram duas ou três horas que eu não existi. Estava no meu quarto escuro absorvido por amenidades na internet e simplesmente não existi.
Não existi pro outro e pouco existi pra mim.
Me senti a lagarta dentro da crisálida
Onde sua forma se remonta.
Mesmo consciente eu não estava ali.
Meu corpo não era físico, minha presença não existia.
A árvore que cai sozinha na floresta
E não faz barulho.
Mas quem está lá pra notar?
Não era um bom lugar, esses momentos me assustam.
E chegam com frequência nos momentos mais banais.
Não nos momentos de solidão, mas no vácuo da presença.
Naquelas horas onde eu não devia estar mas estava.
Podia estender um braço, uma mensagem, uma ligação.
Mas me faltava forma física para realizar.
Até que desisti.
E ao ir dormir, meu maior receio era
Será se ainda vou existir quando alguém me alcançar amanhã?