sexta-feira, 28 de abril de 2023

outro dia.

O problema do silêncio
É que às vezes eu esqueço que existo
E como um terceiro, assisto o fim
Do que eu achei que era início
Busco a textura do agora
A âncora que me traz de volta
E espero minha hora de ir
Acho em meus próprios dedos
O segredo de estar aqui
Abraço meus medos como se eu mesmo
Não visse o rochedo que está por vir

Me acho de novo, na sala vazia
Mais um dia que sobrevivi

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Data estelar.

Diário de Bordo, data estelar eu já perdi a conta. Derivo sem sol ou Lua nem sei mais a quanto tempo. Escrevo pra não esquecer das palavras ou do som do meu lamento. Romper a barreira da luz tem o seu preço, ser o primeiro também significa chegar sozinho. Sobrevivo. No universo tudo é noite mas o sono não vem. Penso nos planetas distantes, nas luzes cada vez mais fracas do que um dia me esquentou. Continuo em frente rumo a não sei o quê. Cada dia mais longe e cada dia mais perto. Certo seria eu voltar pra trás mas a essa velocidade não sobreviveria até lá. Catálogo novos sistemas, planetas e formações. Escrevo com cuidado cada detalhe que consigo capturar, pois assim como surgem eles logo vão embora. Mas eu sigo, e sigo sendo minha única companhia. Meu último "boa noite" e meu primeiro "bom dia". Sempre mais perto, sempre mais longe. Esperando chegar ainda não sei onde.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Coisa à toa.

Que bobagem
Uma coisa tão à toa
Tão pequena e reduzida
Irrisória e risível
Diria até que desprezível

Tempestade em copo d'água
Uma agulha no palheiro
O caroço do angu
Engrossado o dia inteiro
Um cisco no seu olho

Você viu os ipês?

Você viu os ipês?
Viu as cores do céu
Me lembraram de você
E sua paleta pastel

O canto dos passarinhos
De manhã na minha janela
A marca nas taças de vinho
O post it na minha tela

O jeito de abrir a lata
O nó errado da gravata
Hoje eu lembrei demais
De tudo que eu não lembrava

E até a minha rua
Você deu o seu jeito
De fazer dela sua
Mas que falta de respeito

Suas roupas, o seu cheiro
O seu corte de cabelo
Hoje eu lembrei demais
E não vou nunca esquecê-lo

E doeu né, sempre dói
Quem vai embora
Não tem dó do que destrói
Mas foi bom, né, sei que foi
O presente não
Depende do depois

segunda-feira, 14 de março de 2022

Perdido.

Tem esse lugar que vivo voltando
Onde minha mente deixa de reconhecer meu corpo
Flutuo num espaço sem reconhecer o todo
Escuto o silêncio ecoando

Qual peça falta para terminar
Qual impulso que eu não consigo
Qual desejo a se realizar
Qual caminho não foi percorrido

Há uns meses eu me perdi aqui
E tive que forçar minha saída
Usando toda a energia que eu reuni
E toda a força que acumulei na vida

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Peito.

Deixa eu ler teu peito em braile
Conversar na língua secreta
Que sua língua me ensinou
Segura minha mão, meu peito, meu pescoço
Ouça o silêncio que precede
Água que não mata a sede
Mas molha a cama e meu rosto
O gosto que espalho em sua coxa
Deixo roxa a marca dos dentes
Sente o peito batendo forte
No bater dos corpos pousa minha sorte
Feito e cansado no mesmo lado
Deitamos com o coração colado

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Três da manhã.

Que horas são?
Já passou das três
Ainda tem gente na rua
Volta pra cama, tá frio aí
Só queria ver onde a Lua estava
Nem sempre ela vai estar te esperando
Eu me sinto mais seguro quando a vejo

(silêncio)

Trouxe a coberta pra você
Não precisava, volta a dormir que eu já vou
Não vou conseguir dormir sozinha
Bobagem, você sempre dorme
Mas agora que acordei vou me juntar a você

(silêncio)

Você está dormindo em pé
Vou pra cama, vamos?
Vou sim.
Você acha que amanhã ela vem?
Quem?
A Lua.