quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
Mancha.
Rasguei e manchei o papel
A marca ficou na memória
Como sangue em um chão de hotel
Que desconforta quem chega por lá
Ou se tampa com um carpete bonito
Apagando um trauma pesado
Como se não tivesse sido escrito
Mas a marca não mente
E expõe que esconde
Quando de repente
Surge não se sabe de onde
Mostrando a história que não foi contada
Obrigando a lidar com o que aconteceu
Voltando sempre pra página virada
Trazendo de volta o que já morreu
quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
Mas nada disso...
Me chamou atenção nesse fim de ano a música "Solamento" da banda Tuyo. Mesmo não tendo percebido de primeira o porque daquela música me tocar tanto, foi parando um pouco pra refletir na letra que entendi completamente o que ressoava tanto em mim. A música fala justamente da insuficiência, no caso em um relacionamento amoroso. Como o eu-lírico pode se adaptar da maneira que for, ou mesmo ser o que for, e isso não será o suficiente para trazer a pessoa amada de volta, e como aprender isso é um processo cruel. Penso um pouco na minha experiência com a banda, onde gravei um vídeo deles em um show e, por um problema com o áudio da gravação, a entrega do vídeo atrasou alguns meses. Com o problema resolvido e tendo uma das coisas mais bonitas que eu já registrei pronto para ser lançado, entramos em contato com a banda para avisarmos do lançamento e fomos ignorados completamente. Não por serem escrotos, muito pelo contrário, são um dos artistas mais doces e simpáticos que eu já convivi, mas por ignorância nossa eles estarem lançando um outro clipe, muito maior, na mesma data. Em meio a tantas preocupações, não nos cabia cobrar deles um mínimo de atenção a algo secundário na vida deles, por mais importante que fosse na nossa vida. Não são vilões, são pessoas com suas demandas que, naquele momento, não se encaixavam com a nossa. De uma maneira bem literal, nosso melhor não foi o suficiente para se encaixar na demanda daquelas pessoas que não tinham a menor intenção de nos fazer mal. Deixo aqui o vídeo que produzimos da canção "Boi".
quarta-feira, 16 de janeiro de 2019
Estômago.
A sensação na boca do estômago
o gosto de vômito na boca
A queimação que esquenta e derruba
na primeira gota de pimenta
O café de bom dia que acaba com seu dia
A coca que traz dor não traz prazer
Até onde seu estômago aguenta?
O homem que pede dinheiro no sinal
A mãe que não consegue alimentar seus filhos
O trem que mata cem ao sair dos trilhos
O jovem armado na escola numa terça normal
A criança que não tem o que comer em casa
O político que rouba sem consequência
A cicatriz feita a brasa
Por um marido com pouca paciência
Até onde seu estômago aguenta?
Estender a mão quando não se está de pé
Tirar da boca pra alimentar alguém
Pular do penhasco num salto de fé
De que depois do chão tem algo além
Do soco no estômago que te desnorteia
Rindo de quem ri de barriga cheia
Se você é menor que a barra que você enfrenta
Me diz, até onde seu estômago aguenta?
segunda-feira, 7 de janeiro de 2019
Sono.
Entre suas pernas e seus braços
Na sua nuca sentir seu cheiro
No seu calor estar guardado
Queria ser seu cobertor
Trazendo calor e proteção
Roçar suave entre seus pés
Entrelaçar em suas mãos
Queria ser sua janela
Entreaberta com a luz da lua
Deixa o vento passar por ela
E ilumina a noite sua
Queria ser o sol que te desperta
Trazendo calor para seu rosto
Com a permissão da cortina aberta
Liberta você de maus sonhos
sábado, 29 de dezembro de 2018
Família.
Um dos principais desafios para esse ano foi entender qual era enfim meu conceito de família e como eu me encaixava nisso tudo. A referência das propagandas de margarina estavam longes demais da minha experiência pessoal, mas longe de mim ser enganado pela mentira da publicidade, logo eu maior defensor da verdade parcial que paga minha contas, mas mesmo o que eu observava em minha volta ainda estava longe do que eu tinha vivido. A distância era a palavra-chave, distância majoritariamente geográfica e distância emocional quando analisada mais de perto. Como se tivesse nascido em um lugar que não estava preparado para me receber (e sendo hoje mais ou menos da idade que meus pais me tiveram entendo que nós adultos sabemos muito menos sobre o mundo do que minha própria versão infantil imaginava). A ausência de certos comportamentos e exemplos que eu julgava necessários me fez procurar em outros lugares valores e modelos que se adequavam melhor ao que eu entendia como caminho. E a própria contraposição ao que me era apresentado surgiu como um guia moral e ético muito forte durante minha formação. Disso tudo me encontrei como família na relação com meus amigos, o mais próximo de confiança e inspiração que eu achei. Mas adentrando os labirintos de minha cabeça (um que eu tateei em busca de uma saída em algum texto do começo do ano) encontrei que não estava muito certo se esse caminho era o que eu precisava. E agora, com a cabeça pronta para encontrar padrões e as respostas que procuro, vim mais uma vez passar as festividades de fim de ano perto deles que são minha família de sangue e batismo cristão, mais até do que a outra família de sangue e batismo cristão da qual a distância é ainda mais marcada. E, com o olhar mais atento pude perceber os padrões familiares (com perdão do trocadilho) em toda e qualquer família. Os primeiros dias foram surpreendentemente tranquilos, sem grandes embates ou emoções, mas estando aqui um pouco mais que o habitual, consegui presenciar a personalidade de cada um escapar em pequenos momentos dentro da grande celebração das boas festas que vivemos. Momentos bons e ruins, embates e carinhosos que mostram os humanos que existem em nós, e, dessa vez, mostram também as relações de pais, filhos, irmãos, cunhados e tudo o que o Manual da Propaganda de Margarina diz para mostrar ou esconder. E pude então reconhecer uma família, minha família, mesmo que eu mesmo como expectador consciente do processo tenha escolhido não entrar em embates políticos ou pequenos dilemas. Uma família da qual faço parte e sou muito bem vindo, principalmente quando em pequenas doses como mediador ou incentivador. Uma curva na rotina de uma família que, como todas as outras, se ama mas está cansada de si. Um catalisador de momentos diferentes, um apaziguador de ânimos e um alívio de tensão. Meu papel é estar distante o suficiente para não se desgastarem de mim e comigo, mas próximo o suficiente para manter-me presente. A distância geográfica cai como uma luva em uma mão desgastada, mas hoje entendo o que tenho. Uma família, só mais uma. Com seus desvios de caráter e pequenos prazeres, com sua cobrança e retorno desproporcional. Cada um fazendo sua parte para buscar um pouco de significado em uma vida sem guia, apoiando-se no grupo que o acaso nos ligou. E eu, hoje, me entendo melhor parte disso, pois entendo melhor o que é "isso" do que faço parte. E, honestamente, é bom me sentir parte de algo.
