terça-feira, 7 de maio de 2013
Sobre o vazio.
Tem muito vazio no mundo. Outro dia eu tava olhando pro céu e me toquei que não tinha muita coisa praquela direção. Quer dizer, até tem muita coisa mas entre essas muitas coisas tem muito nada separando elas. E tudo é muito longe uma coisa da outra e a gente é tão ridiculamente pequeno numa imensidão de... nada. Sim, tem milhares de outras coisas ridiculamente pequenas mas no todo mesmo é um monte de nada com uma poeira espalhada de um lugar pro outro, mas não estou aqui para falar na pequenez relativa do ser humano. Qual a diferença entre os vazios? Uma mente vazia (como a que inspirou esse texto), um coração vazio (como o que inspirou vários outros textos desse blog), um copo vazio (que estava até meio cheio antes), uma casa vazia (de uma mãe que viu seus filhos crescerem e sair de casa). O vazio existencial e o vazio material andam muito juntos. Um sujeito que não é feliz no emprego, alguém que consome tudo que lhe oferecem. Igualmente vazios, mas de diferentes formas. Mas sendo o vazio a ausência, as ausências não deveriam ser todas iguais? O conceito de "não estar/ser/ter" não deveria ser um só, independente do que você não está, é ou tem? Por exemplo, não podemos dizer que um vazio é maior que o outro, os dois são igualmente vazios ou algum não o é por definição. O vazio é um conceito puramente baseado na não existência de algo e um objeto não pode "não existir" mais do que um outro. Uma cama vazia incomoda, mas um coração vazio incomoda mais. Uma sala vazia te assusta, um prédio vazio te assusta muito mais. Grande bobagem, a gente vive numa dimensão tão vazia de matéria, com idéias tão vazias de ideais, pessoas tão vazias de sentimento, tempo tão vazio de ocupação. Cercado de vazios por todos os lados, acho que já era gente ter se acostumado. Você não precisa estar sozinho para estar solitário.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Cartas e poemas.
Não escrevo poemas para ninguém porque não escrevo cartas. Cartas chegam no destinatário com selo e linguagem própria. Você avisa que vai voltar que tá com saudades e conta o que aconteceu. E no clips no canto do papel você coloca uma foto sua numa paisagem bonita. O poema não, o poema é para você mas é para qualquer um, a mensagem está lá mas lá também existem dez mil outras mensagens que variam de acordo com o humor de cada pessoa que o lê. E o lirismo, e as metáforas, nada é natural. Na carta o recado está lá exatamente como é. "E todo lugar que eu olho eu lembro de você" é uma afirmação direta e pontual. Ele vai na cozinha e lembra de você, vai no banco e lembra de você, vai no açougue e lembra de você. E ele precisa, além de tudo, deixar você saber disso. No poema não, no poema a intenção do autor se perde. Assim como seu professor de literatura dizia mil coisas sobre as obras de Machado de Assis, no poema sua vontade pouco importa. No poema, o eu-lírico é o leitor. Ele precisa se ver naquelas palavras, ele precisa compartilhar aquele sentimento. A leitura da carta é passiva, você recebe a informação, você sabe dos sentimentos. A carta é o jornal, a poesia é a publicidade. Se o poema é a indireta, e a melhor forma de você informar algo a alguém é jogando isso na cara da outra pessoa, a carta resolve esse problema. Não escrevo poemas porque não quero ser mal interpretado. Não escrevo cartas porque não confio em carteiros.
sábado, 16 de março de 2013
"Recados de Amor Matinal".
Entregava jornais como a última causa nobre que um ser humano pode fazer, ele garantia a ligação entre cada indivíduo e o resto do mundo. Abriu mão da graduação em direito, do emprego na firma do pai, das vantagens em ser associado ao clube da família, para poder ir para a forma mais simples de seu sonho: levar informação as pessoas. Acordava antes de todos e ia com sua bicicleta para a central de distribuição onde pegava os jornais da região pela qual era responsável. Não conversava muito, não interagia com os colegas de empresa, pegava seus jornais e ia pra sua rota. Seu salário mal dava pra pagar as contas do apartamentozinho que morava com uma geladeira, um colchão e uma máquina de escrever. Não tinha namorada nem amigos. O que tomava seu tempo livre, era redigir palavras de incentivo em forma de verso, que anexava com cada jornal que entregava. Poemas sobre o sol, sobre a chuva. Dizia que tudo ia acabar bem, mesmo que não parecesse agora. Incentivava as pessoas a sorrirem mais, conhecerem novos lugares e pessoas, enquanto ele mesmo não fazia. Ele sacrificava a própria liberdade em virtude de sua clareza, ele sabia o que devia ser feito, estudou todas as formas de se atingir o próprio bem estar, porém, como mártir de seu conhecimento, ele escolheu se dedicar a levar seu conhecimento para os outros, da forma mais trivial possível, pequenas notinhas anexadas ao jornal de domingo. Com o tempo a notícia se espalhou no bairro, as assinaturas do jornal aumentaram consideravelmente. Os patrões desconfiaram, foram investigar e no primeiro telefonema para um assinante, já descobriram os chamados "Recados de Amor Matinal" que vinham junto ao jornal. Chamaram ele para conversar, admirando ou não sua atitude, aquele comportamento não poderia continuar. A lista de assinantes era coisa séria e não deveria ser usada de outra forma que não a entrega dos jornais, e só dos jornais. Foi mandado embora. Sem dinheiro, sem recados de incentivo e sem levar o bem para as pessoas. Em seu quarto, seus textos ficavam cada vez mais sombrios, agora sem destinatários. Sua família já não se preocupava com o jeito de vida excêntrico do garoto para notar a mudança de humor e comportamento. Passou dois anos redigindo textos sobre solidão e suicídio. Quando tanto papel não mais cabia no apartamentozinho que morava, ele teve a grande ideia: reuniu toda a papelada em caixas e doou para um centro de reciclagem mais próxima. Começou a recolher papéis e papelões na rua e quando ia entregar, misturava em meio ao material poemas e frases de incentivo. Se ele não podia chegar até as pessoas com suas palavras, que cada ideia sua estivesse intrinsicamente presa a todo novo papel produzido.
Caleidoscópio.
Entre os espelhos que formam esse quarto
Só vejo indefinições e formas sem moldura
Como um futuro que não tem muro pra pular
Portas sobrepostas onde cada abre mais sete
Como gilete, corta a cada escolha errada
E tropeço em escada em espiral dando náusea
Natural, caindo ao chão, vendo o mundo em movimento
E soprando, como vento em furacão de folhas
Quando olha pra cima, mais uma vez, caleidoscopia
Em folha, vidro, suor sangue e lágrima.
Só vejo indefinições e formas sem moldura
Como um futuro que não tem muro pra pular
Portas sobrepostas onde cada abre mais sete
Como gilete, corta a cada escolha errada
E tropeço em escada em espiral dando náusea
Natural, caindo ao chão, vendo o mundo em movimento
E soprando, como vento em furacão de folhas
Quando olha pra cima, mais uma vez, caleidoscopia
Em folha, vidro, suor sangue e lágrima.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Pequenos monstros.
Conheceu ele na casa de um amigo em comum, entre taças de vinho, ele tentava inutilmente explicar um jogo de cartas para o grupo. Ninguém estava realmente interessado, mas ele continuava sua explicação com tanta paixão e dedicação que ganhou a atenção dela. Não o jogo, que era realmente chato, mas o jeito dele. Ele era simples, dessas pessoas que parecem menos do que realmente é. Mas ela o via além. Ela via nele um homem que não descansaria antes de vê-la feliz. Ela via alguém que talvez trouxesse café da manhã na cama, e com certeza lavava sua própria vasilha. Alguém que saberia o valor de ver um filme a dois e aconchegá-la em seus braços quando ela dormisse no meio do filme. Alguém que daria presentes de aniversário planejados com meses de antecedência, talvez até personalizados a mão. Alguém que ensinaria seus filhos a andar de bicicleta, jogar futebol de botão, respeitar os mais velhos e não brigar na rua. E aceitaria ela do jeito que ela é, com todos os pequenos monstros que habitam sua mente, suas manias, trejeitos e preconceitos e nunca, nunca, reclamaria dela cantando as músicas do Agnaldo Rayol do cd que ela ouvia quando criança. Recolheria as toalhas que ela deixa jogada e ensinaria ela a tocar violão. Caminharia três vezes por semana no parque, não para emagrecer, mas pra não morrer de ataque cardíaco aos 40 anos. Não admitiria que ela tivesse engordado, mesmo a calça claramente não entrando mais. Deixaria ela comprar o requeijão light e aquela geleia de abóbora que ela tanto gosta. E não seria um problema também se fugissem da confusão da cidade grande para morar na cidadezinha que ela cresceu, lugar ideal para criar os filhos e... E ele continuava falando sobre o tal jogo de cartas quando ela saiu pra pegar outra taça de vinho e se distrair com outra coisa.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Punchline.
Ele te pegou pela mão, te afastou do grupo, apontou para o céu e começou a recitar um poema. Meio que de brincadeira ele começou e então parou, não por receio, não por esquecimento, mas por ignorância de como era o fim do poema. Mal sabia ele que era exatamente tudo o que ele queria dizer. Que o tom de humor que ele começou o primeiro verso se dissiparia com o peso não planejado daquelas palavras. Ele não estava pronto para dizê-las, nunca saberemos se você estava pronto pra ouvi-las. E ali, como muitas vezes antes e muitas vezes depois, abriu-se um ponto paralelo. O que teria acontecido se... Um coração temeroso considera todas as condições negativas para uma ação, ele nunca teria começado a recitar se soubesse o final. Não era o lugar, não era a situação e não eram as testemunhas ideais para que acontecesse. Precisava ser só ele, você e a lua. Ninguém para julgar a tentativa e possível negativa. Ninguém para comentar caso fosse um sucesso. Mas ainda assim, não foi medo, foi ignorância. Ele não continuou até o final, ele não disse o que queria (e precisava) dizer naquela hora porque simplesmente não sabia que as palavras que ele tanto ensaiara estava ali, dois versos a frente. Dois versos que o separou de um futuro feliz ao lado da mulher que ele tanto ama. Você. E você sabia o final do poema, esperou que ele completasse e te tomasse nos braços, ou torceu que ele simplesmente parasse ali para que você pudesse voltar pro grupo. Não cabe a ele saber a verdade. Não cabe a mim contar pra ele como o poema acaba. Ele nunca vai se perdoar. Se deve-se aproveitar a chance quando a tem, essa é só mais uma entre todas as que ele perdeu.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Minha lista de "Não-Resoluções"
O mundo é muito competitivo. Todos querendo se dar bem, estar melhor que alguém, ganhar milhões de dólares, ter a maior casa, o melhor emprego, a melhor família. E quando acaba um ciclo, como o ano que está acabando, você começa a planejar todas as coisas que você quer fazer no plano seguinte, seus objetivos, ideais, lugares que quer visitar, pessoas que quer conhecer. Uma lista de promessas e/ou sonhos que você coloca na responsabilidade daquele período de tempo que você está entrando agora. O ser humano sobrevive a partir da esperança de um mundo melhor, afinal se o próximo ano for pior que esse, ele não precisa nem vir. Mas o ano está acabando e eu olho em volta e não tenho os troféus que eu achei que teria. E os que eu tenho, eu tenho que deixar pra trás. Abrindo espaço na prateleira para os troféus que eu planejo ganhar. E as perdas, não fazem falta. O que você não tem não ocupa espaço nem na estante nem na memória. Ninguém planeja tudo o que não vai conseguir no ano seguinte. Começo minha lista de "Não-Resoluções" de Ano Novo com os quilos que vou engordar, o cabelo que vai cair, as decepções que eu vou causar e as pessoas que vou ofender. Depois coloco os amigos que vão embora por minha causa, os que vão embora por causa própria e os que vão embora sem motivo. Como esquecer os olhares de desaprovação de meus pais a cada dia sem-emprego, a cada nova tatuagem ou namorada, eles terão um tópico especial. Todas as ilusões que eu causar aos outros e a mim mesmo, também estão na minha lista. As vezes que eu vou deixar me enganarem, mentirem na cara dura. Os livros que eu não vou escrever, os textos que vou apagar antes de terminar, os roteiros que ficarão só na ideia e os projetos que ficarão só na conversa de bar. A roupa velha que eu vou me recusar a jogar fora, o dinheiro que eu não vou dar pro mendigo. Meu sarcasmo, que eu vou cuspir pra todo mundo, até pro mais bem intencionado, ninguém sairá a salvo. E quando chegar o fim do ano e eu fizer meu prognóstico para o ano seguinte, vou deixar tudo isso de lado novamente, pensar nas coisas boas que eu fiz para mim e para todos. Como fui um cara benevolente que só age para o bem do próximo. Altruísmo não reconhecido pelos demais. E que coisas melhores ainda me aconteçam no ano que está por vir, porque eu, acima de qualquer um, mereço.
Mas o que importa mesmo no fim das coisas são sua família, seus amigos, amar a si mesmo mas não só a si mesmo, os caminhos bons, os difíceis e as garotas que você fez chorar durante isso tudo.
Mas o que importa mesmo no fim das coisas são sua família, seus amigos, amar a si mesmo mas não só a si mesmo, os caminhos bons, os difíceis e as garotas que você fez chorar durante isso tudo.
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