Você foi muito corajoso, sabe? De agir como agiu. Sua firmeza diante de perder tudo foi invejável, e eu sei que você perdeu tudo. Mas quando empurram a gente, de pouco adianta olhar para trás, melhor aproveitar o impulso. E do tropeço você fez caminhada, e da caminhada você se salvou. Pensar em você foi novo mas fez total diferença. A gente demora a entender nossos limites e você, sem saber direito os seus, aceitou o desafio de tatear até a saída. Mesmo quando o impacto pareceu forte demais, sua cabeça guiou você para a porta que o levou em lugares que você nem imaginava. Labirintos e corredores que se revelam quanto mais você avança e que, mesmo quando não chegam onde você espera, ainda passam a segurança de estar seguindo em frente. E você seguiu. Passos lentos e incertos, mas usando a gravidade ao seu favor. Aprender a estar sozinho foi uma vitória, assim como reaprender a estar com o outro. E, como em tudo sua história, você continuou fazendo o que fez sentido e o que era capaz. Não houveram portas erradas, mesmo que às vezes elas nos levassem a outros lugares. Aceitar outros de você, que não condizem com a imagem que você mesmo montou, também não vai ser fácil. O personagem não atende mais a demanda, chegou a hora de checar a máscara e descobrir o quanto dela tem seu rosto. Os tropeços serão outros, e você vai sobreviver sem traumas. Então, confie em mim, segue em frente. Você tem muito a aprender no caminho. O peito aberto, de ferida, também deixa entrar muita coisa. Ela cicatriza e as marcas nem são feias. Entegue-se quando se sentir seguro e deixe as coisas irem quando não sentir. O barco flutua mas a praia está próxima. Então aproveite o balançar do mar e o teto de estrelas para fechar os olhos e limpar a cabeça. Eu não sei o que vem a partir daqui, mas sei que chegamos, então relaxe. O segredo é seguir em frente, um passo de cada vez.
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
quarta-feira, 21 de novembro de 2018
Beijos são tão engraçados.
Beijos são tão engraçados. Como um mínimo toque entre pessoas transmite energias tão grandes. Elétricas e sentimentais. Beijos são tão engraçados. Você massageia a pessoa ali de uma forma diferente e parece que tudo faz sentido. Beijos são tão engraçados. Trazem conforto, carinho, amor, tesão, e na verdade são só lábios encostando um pouquinho. Beijos são tão engraçados. É como ligar algo na tomada e deixar lá esquentando. Beijos são tão engraçados porque podem significar tanto e tão pouco ao mesmo tempo. Beijos são tão engraçados, que às vezes quando não encaixa a gente se frustra, mas tem vez que rimos mesmo. Beijos são tão engraçados que quando você beija várias vezes a mesma pessoa, o beijo de vocês vira uma mistura entre o seu beijo anterior e o beijo dela. Beijos são tão engraçados. Às vezes vem de manhã antes mesmo do bom dia. Beijos são tão engraçados. Como aquele momento mágico pré-beijo, onde o coração bate forte e você sente o cheiro do rosto da outra pessoa e você se aproxima só o suficiente pra que ela possa ser a responsável por beijar realmente. Beijos são muito engraçados. Trocam-se bactérias, salivas, gostos, jeitos, sorrisos de lado, impulsos elétricos, mãos que deslizam em um abraço e pressiona um corpo contra o outro. Beijos são tão engraçados. Na velocidade certa, na errada, quando o rosto não encaixa, os óculos batem e os aparelhos se encostam. Beijos ruins também são engraçados. Porque o rosto bonito e a conversa boa não é garantia de química. Beijos são tão engraçados, porque se eu quero e você quer, não tem nada errado em tentar um beijo nem que seja pra gente rir disso tudo depois, afinal, beijos são tão engraçados.
quarta-feira, 14 de novembro de 2018
As vezes que eu morri.
Morri bem novo na praia e um anjo me salvou, me jogando contra a correnteza para os braços do meu avô. Morri também na piscina, numa quina traiçoeira, que marcou meu rosto e minha memória. Morri aos dezesseis, com um beijo e um coração partido, um ano depois, na mesma boca renasci fortalecido. Morri com uma chave que me trancou fora de casa e me obrigou a ir na janela desenvolver minhas próprias asas. Morri anos depois, quando fui pai dos meus próprios pais, e o choro abafado que seguiu eu não esqueço nunca mais. Morri quando traí uma amizade que amava, em busca de um amor que também me completava. Morri com os corações que parti sem intender, mas boas intenções também não os impediram de morrer. Morri ao achar que tudo estava conversado, e morri de novo ao entender que nem sempre o que é entendido é o que se é falado. Morri ao entender que bom trabalho não garante, e que mesmo sem impulso a solução é ir adiante. Morri na insegurança do outro que me matou diversas vezes, e mesmo tendo sobrevivido a dor ainda doerá por meses. Morri ao olhar em volta e não reconhecer onde estou, e buscar outros lugares é entender quem eu sou. Morri ao olhar pra trás e não saber de onde vim, mas isso é passaporte para onde eu quiser ir. Morri muito mais vezes do que eu precisava ter morrido, e sei que vou morrer muito mais vezes no caminho.
Aqui.
Fecho os olhos e dou o próximo passo
Porque quando o destino não importa
Muito menos importa o espaço
O trajeto a gente tateia,
Piso firme na areia
Em uma pista torta e desgastada
Que leva onde não se espera nada
Tenho em mim um mundo que não me cabe
Saber o que eu sou e onde está
Mas quando aqui não me completa
É porque posso estar em qualquer lugar
Porque quando o destino não importa
Muito menos importa o espaço
O trajeto a gente tateia,
Piso firme na areia
Em uma pista torta e desgastada
Que leva onde não se espera nada
Tenho em mim um mundo que não me cabe
Saber o que eu sou e onde está
Mas quando aqui não me completa
É porque posso estar em qualquer lugar
quarta-feira, 7 de novembro de 2018
Túnel.
Sigo perdido em direção a uma luz distante
Tento tatear a parede fora do meu alcance
Cada passo incerto me leva pra mais perto
Mas tropeço e caio em mais um bueiro aberto
Levantar gasta a energia que não tenho mais
Em um esforço gigante de não voltar atrás
Novas barreiras cobram que eu me reinvente
Mas a única certeza é que ainda tenho muito pela frente.
Tento tatear a parede fora do meu alcance
Cada passo incerto me leva pra mais perto
Mas tropeço e caio em mais um bueiro aberto
Levantar gasta a energia que não tenho mais
Em um esforço gigante de não voltar atrás
Novas barreiras cobram que eu me reinvente
Mas a única certeza é que ainda tenho muito pela frente.
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Caos.
Ele andava na rua cabisbaixo, os últimos dias haviam sido pesados. O frio que sentia era amenizado pelas fachadas em chamas das lojas do centro. Seu passo lento destoava do clima de animosidade em sua volta. Pessoas corriam na direção contrária, carregando parte de seus pertences em uma mão e seus filhos em outra. Lenços cobriam o rosto um pouco para proteger da fumaça e um pouco para esconder suas identidades. Nem os eventuais esbarrões em meio ao caos o tirava de sua imersão. Ele não escolheu estar ali, muito menos escolheu a situação. Ele sabia onde tinha que ir mas não sabia direito o que fazer quando chegasse lá. Carros de polícia cortam ao seu lado a toda velocidade, a sirene abafada pelos gritos há alguns quarteirões. Alheio a tudo ele continuava andando a passos lentos. Uma moça, alguns anos mais nova que ele o para e pergunta se ele precisa de ajuda, ele demora alguns segundos para entender a situação mas diz que não, que estava bem. Ela tenta convencê-lo a acompanhá-la, apontando que aquela direção era perigosa, mas ele sorri sem graça e agradece. Ela se afasta buscando outras pessoas que estariam mais dispostas a serem ajudadas. Ele vira na esquina escura que tantas memórias viveu nos últimos anos, mas agora ela estava coberta de lixo e vidros quebrados. Ele para em frente a um dos prédios mais antigos e toca o interfone. Ele insiste um pouco até que uma voz rouca atende:
- Quem é?
- Sou eu, Lu. Acho que precisamos conversar.
- Pelo amor de Deus, Roberto. Vai pra casa, vai pra um lugar seguro.
- É que eu eu queria... Me deixa subir.
O barulho da porta se abrindo é um alívio no coração dele. Ele sobe as escadas que ele achou que nunca voltaria e chega em frente ao 4B a tempo de ouvir as trancas serem abertas e ela olhar pra ele com a mesma incredulidade de quando se viram pela primeira vez.
- Você está maluco? O que você está fazendo aqui?
- Eu não consegui mais ficar em casa.
- E você vem pra cá? Já não basta...
- Me perdoa.
- Cansei da suas desculpas! Olha a situação que você me coloca.
- Eu vou embora, eu não devia ter vindo.
- Não devia mesmo. Você teve sorte de chegar aqui vivo. Agora espera aí que vou preparar um café.
Ele senta no sofá surrado e sente-se em tranquilo pela primeira vez em meses.
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
Pedra.
O esforço de mover uma pedra
em nada se compara ao de mover montanhas
Mas tamanha força emprega
Que há de se reconhecer a façanha
Pois se o todo pouco move
Pra quem da pedra conta
Muito ganha e se comove
Com o movimento da ponta
E se o caminho libera
Ou se vira matéria-prima
Já ajuda quem espera
Um dia chegar lá em cima
em nada se compara ao de mover montanhas
Mas tamanha força emprega
Que há de se reconhecer a façanha
Pois se o todo pouco move
Pra quem da pedra conta
Muito ganha e se comove
Com o movimento da ponta
E se o caminho libera
Ou se vira matéria-prima
Já ajuda quem espera
Um dia chegar lá em cima
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