sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Invencível.

Eu era invencível até que perdi. Desci de nível, caí. Chorei, gritei e implorei perdão. Mesmo sabendo que sua resposta seria não, me humilhei. Você erra e acha que deixou o erro pra trás, mas ele te assombra toda noite, não te deixa em paz. Você revive a situação dez mil vezes sabendo exatamente onde errar, mas sabendo que todas as vezes que você faria, você erraria no mesmo lugar. E ainda assim o erro te machuca, como dez mil facas indo e voltando do seu cóccix a sua nuca. E você percebe que seu corpo vai e volta das facas deliberadamente, não é ninguém te esfaqueando; A dor está na sua mente. Mas não são todas as dores fruto de sua imaginação? O tapa é na cara mas a dor é no coração.

Você erra uma vez e ele te assombra até a morte. Quem dera se todo erro fosse questão de sorte. Se a vida fosse um jogo de dados andando de casa em casa e fazendo o que é mandado, tiraria a responsabilidade de cada um e jogando toda a culpa a consciência de nenhum. Mas pelo meu erro me responsabilizo e me martirizo. Reclamo porque faz parte da minha personalidade, mas carrego o fardo da culpa com responsabilidade. E se, como agora, ele a cada dia ficar mais pesado, estou pronto a envelhecer curvado quando tudo tiver acabado.

Mas, o que é o final, se não a fuga de todas as responsabilidades?

Eu era invencível, e tirando minha derrota, ainda sou assim. Uma nota vermelha que mancha todo meu boletim.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Nossa música.

Lembra quando a gente ouviu nossa música pela primeira vez? A gente tava bêbado no canto duma festa e ela começou a tocar. Eu te olhei e a gente tava cantando ela juntos. Foi quando a gente ficou pela primeira vez. Dois meses depois, em outra festa, a música começou a tocar e eu te puxei pra dançar. Ali eu soube que era você que eu queria pra sempre. E desde então, todo aniversário, festa de família, reunião da firma, eu dava um jeito de colocar a música pra tocar. Era meu jeito de reafirmar o que eu sentia. Daquela vez que você viajou pra casa da sua vó e ficou quase um mês lá, eu colocava a música pra tocar todo dia antes de dormir. E quando você voltava, era ela a trilha sonora mental enquanto eu te via correndo pra me abraçar. A música tocava e você estava do meu lado, estando ou não de verdade. Era aquela introduçãozinho no piano que já me fazia sorrir. Era nossa música, contava sobre nosso amor, nossa vida. Era o ritmo dos nossos passos, do nosso corpo. Cada jura de amor no refrão era uma jura de amor nossa repetida como num looping infinito.
Aí aconteceu tudo. A gente se perdeu, brigou, eu errei, você errou e era isso. Nossa história acabou em meio a tantos acertos. E de repente a música era insuportável para mim. Os versos, que tanto descreviam nosso momento, simplesmente mudaram de forma. Eles não estavam falando do amor, era uma metáfora para a solidão, aquilo era muito claro. Eu chorava e gritava no meu travesseiro, os mesmos versos que me fizeram sorrir, eram só memória de que eu tinha te perdido. As notas do piano pesavam meu coração. Na letra, o amor só existe pra quem merece e por muito tempo eu me julguei merecedor, agora não. Eu não estava mais ali, eu não era mais o personagem principal daquela canção. Virei o eu-lírico que observava de longe, com inveja, o amor alheio.
Nosso amor, em verso, virou história, e era justamente sobre isso que ele falava. Ele vai ficar pra sempre ali marcando cada momento que existiu. Mas os momentos passam. O eterno é a memória, não o sentimento. Se você olhar pra trás, você ainda vai ver. Lembrar que aquele amor ali é eterno. Ele sempre vai existir, mas ele existe lá e lá apenas. Poesias são mutáveis, bobo fui eu em acreditar que ela seria feliz pra sempre.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Mosaico.

Já que eu não podia te ter, eu peguei um pedaço de cada pessoa que eu conheço e montei um mosaico de você. Projetei tudo que minha memória guardava, minha visão idealizada, e busquei um sorriso aqui, uma piada ali, um abraço de um e o sexo de outro. Mas nunca era suficiente, tudo ainda era muito pouco. Enquanto o você despedaçado funcionava em situações específicas, me faltava o você inteiro. Pedaços reunidos nunca formam um todo. E quando alguém se afastava, era parte de você que me faltava. Não era você sem seu cabelo, sem o jeito de brigar sorrindo, sem você por inteiro, sem você comigo. E ainda assim, eu tentava. Saia a noite em busca de cada pedaço seu que me faltava. Aquele detalhe que ninguém reparava, mas que era o que diferenciava você do monte de retalho montado na janela do meu quarto. Me entregava a vaga lembrança de você para cada sorriso bobo que inocentemente se achava o foco da minha atenção, mas não, nunca foi nada além de você o que me levava a eles. E assim eu juntei o meu mosaico, com pedaços que de longe vagamente lembrava você, mas de perto eu sabia que não passava de vidro colado numa conjunto disforme da minha obsessão, já que eu não podia te ter.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Carteado.

Sento na mesa com minhas fichas já contadas, aposto baixo, sempre aposto pouco. Não tenho medo de perder, não tenho medo de nada. Só preciso garantir meu direito de sair quando eu achar que devo. Compro poucas fichas porque quero poder deixá-las na mesa quando eu achar que a próxima aposta não vale a pena. E ao deixar meu dinheiro e ir embora, vão me chamar de imprudente e louco, mas eu prefiro assim. Aposto baixo, aposto pouco. O dinheiro que me pagam todo mês é o suficiente, não preciso dobrar isso numa mesa para me sentir eficiente. Jogo por que gosto do blefe, da dinâmica, do olhar. Se jogasse por dinheiro, só teria graça quando ganhar.
Mas foi só quando perdi demais, quando abri mão de tudo eu tinha feito, que eu aprendi a jogar direito. Aprendi que não se pode envolver, que não se confia nas cartas. Aprendi que quanto mais sua vida depende disso, mais cedo o jogo te mata. E aprendi a apostar pouco, a apostar nada. A sair da mesa quando eu apostava mais alto que todos e ficar calado quando minha aposta era menor. E assim fui ganhando pequenas quantias, que no todo foram bem significativas. E quando perdia, bem, sempre fui de apostar baixo, então não me fez falta, eu acho. Quem me conhece sabe que não sou louco, sempre aposto baixo, sempre aposto pouco.

domingo, 14 de outubro de 2012

O ABC do Amor.

Cada sorriso trocado
Cada riso, cada abraço
Cada emoticon que piscava
Indicando a malícia das palavras
Cada vez que eu chamei pra sair
E você foi sem hesitar
Cada sinal que eu recebi
E eu custei pra interpretar
Só me deram a certeza
De que eu não sei te ler
Na escolinha do amor
Sou analfabeto de você

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Promessas

"Nunca faça promessas", disse o velho sentado num banquinho de madeira enquanto enrolava seu palheiro. "Passei os últimos sessenta anos sem fazer promessas, nunca ousaram me cobrar nada. A penúltima promessa que eu fiz foi meu casamento, na frente do padre e de Nosso Senhor. E quando eu percebi que não ia cumprir, eu rezei dez Pai Nosso e dez Ave Maria, pedi perdão e fiz minha última promessa: de nunca mais prometer nada. E essa eu tenho cumprido desde então. E também não me responsabilizei pelas promessas que fizeram por mim. Gente que esperava de mim o que eu não podia dar, conversa fiada dos outros que falavam no meu lugar. Não assinei embaixo de nenhuma dessas e vi, com pesar, cada um dos contratos serem quebrados. Hoje sou um velho sem expectativa de vida, de fome e sem perspectiva de futuro. Já vivi o suficiente. Não digo nem 'até amanhã' porque não sei se vou estar vivo quando você acordar. Então escuta, meu filho, esse meu conselho que pode ser o último: não faça promessas".

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Killing Spree.

Who's gonna be the last one to flee
When they finally start their killing spree?
Who's gonna speak loud and proud in the end
When you look around and see no friend?

When they break all the walls
That protect you from them all
And you find out that you're alone

Don't get surprise
cause your loneliness is right
And it has always been

You don't have iron chest, iron fists or iron friends
No one to risk for you
So forget all your pride, balance who was right
Or wait for God to do.